Traços de Estilo

“A poesia confunde-se com a prosa da mesma maneira que o poeta confunde-se com o homem da rua e já não pode nem deseja reivindicar para si a condição de eleito dos deuses.” (o poeta Gullar) “É preciso levar em conta as palavras que você escolhe, cuidar de cada sentença. É preciso ser sensível ao sentimento das pessoas.” (o jornalista Talese)

13.11.09

Será que todas as bruxas gostam de praia?

Por que será que a mídia tem tanta dificuldade em dar voz aos otimistas?

Por Ana Helena Tavares (publicado também na minha coluna na Revista Médio Paraíba)

Dizem que não há “fumaça sem fogo”. De fato não há. A violência no Rio existe e é grande. O problema é que o fumo que é feito é bem maior do que a fogueira que de fato existe.

O Rio de Janeiro é uma cidade mundialmente visada, por isso a imprensa mundial vira demais os olhos pra cá. Às vezes, penso que é inveja de certos jornalistas estrangeiros e até de brasileiros de outros estados, sinceramente. Afinal, nós somos mundialmente conhecidos não só pela beleza, daí a cidade maravilhosa, mas agora também recentemente a revista americana Forbes nos colocou como “a cidade que tem o povo mais feliz do mundo” e, para aumentar o frisson, o canal internacional de TV MTV tratou de nos colocar como “o melhor destino gay do mundo” (olha que os gays são exigentes). Além de tudo, ainda ganhamos as Olimpíadas.

A conseqüência disso é clara: o mundo volta os olhos para nós e, muitas vezes, esquece-se de olhar o próprio umbigo. Há muita violência também em outras grandes cidades brasileiras e no mundo que quase não se fala ou, quando se fala, se fala pouco. Quando é aqui, já chamam de guerra.

Muitos dos que moram em locais considerados perigosíssimos não parecem, porém, ver a situação com esses olhos. Já andei entrevistando jovens do Morro dos Macacos e eles dizem que acham um absurdo a cobertura da imprensa, a qual é chamada de “exagerada” por todas as cinco pessoas que ouvi. Curioso observar que a própria imprensa carioca também contribui para isto.

Por que será que a opinião de jovens como estes raramente é mostrada? Por que será que a mídia tem tanta dificuldade em dar voz aos otimistas? Ou talvez a pergunta seja: por que será que a sociedade prefere ouvir os pessimistas, já que continuam alimentando todo tipo de manchete/tragédia? Será inerente ao ser humano, como apontam certos estudiosos, e será a mídia tão somente um reflexo disso?

As bruxas existem, e até são feias (ainda mais numa sexta-feira 13, diriam alguns), mas não são tão monstruosas como se pinta nos jornais. E nem todas elas gostam de praia.

13 de Novembro de 2009,
Ana Helena Tavares

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6.11.09

No sol de quase Dezembro - Uma crônica para Caê

“O Globo”, além de ignorar mais um prêmio recebido por Lula, tratou de ir mais longe, dando chamada de capa e página interior inteira a Caetano Veloso que, em entrevista ao “Estadão”, “no sol de quase Dezembro”, resolveu destilar preconceito ao chamar Lula de “analfabeto”. Haja lenço para tanta amargura!

Por Ana Helena Tavares (publicado também no Observatório da Imprensa e na minha coluna na Revista Médio Paraíba)

Por dever do ofício que escolhi, recebo todos os dias de manhã alguns jornais integrantes da chamada “grande imprensa”. Mas como pode ser chamada de grande uma imprensa que, mais uma vez, ignora uma premiação internacional recebida pelo Presidente da República?

O prêmio “Chatham House” de estadista do ano, recebido ontem por Lula em Londres por sua atuação como “um motor-chave da estabilidade e da integração na América Latina”, é um prêmio jovem, porém a instituição que o concede anualmente desde 2005 goza de prestígio mundial. Não é, portanto, um premiozinho qualquer que mereça ser ignorado ao ponto de não ganhar nem mesmo uma notinha de pé-de-página.

Sim, em pelo menos dois deles, não há sequer uma notinha, por menor que seja, em nenhuma editoria. Por contrários que muitos profissionais de imprensa sejam ao governo Lula e/ou à figura dele, abster-se de dar, ao menos, uma nota de rodapé sobre vitórias internacionais que não são de Lula, como ele mesmo fez questão de frisar, mas sim do povo brasileiro, me parece, no mínimo, a negação do direito à informação e, conseqüentemente, a negação do jornalismo.

Em 1994, nos meses em que se deu a implantação do plano real, o Brasil “contou” com o jurista e diplomata Rubens Ricupero, como ministro da Fazenda. Flagrado em uma conversa secreta com o jornalista Carlos Monforte, atualmente na Globonews, Ricupero declarou: “Eu não tenho escrúpulos: o que é bom a gente fatura, o que é ruim a gente esconde.” 15 anos depois, a atuação da grande imprensa brasileira inverte a máxima: com o ruim se fatura, o bom precisa ser escondido. Bizarro gosto pela tragédia.

Lula, em discurso realizado dia 29 de Outubro, em São Paulo, feito de improviso para uma platéia repleta de catadores de lixo que, como ele bem lembrou, são tão cidadãos como qualquer outra pessoa, aconselhou aos jornalistas presentes que “esquecessem a pauta dos donos de jornal e se misturassem àquela gente que lá estava”. Sábias palavras. O problema é que a matéria produzida sofreria muito para ganhar uma única notinha de pé-de-página.

Recentemente, Lula disse que “o papel da imprensa é informar, não é investigar”. Discordo: não há informação confiável sem investigação. No entanto, para publicar ao menos uma frase sobre a premiação que ele recebeu ontem, a “nobre e grande” imprensa não precisaria sequer praticar este cansativo trabalho chamado investigação. No ambiente democrático da internet, a notícia se espalhou como pólvora, com direito a fotos de Lula segurando o diploma referente ao prêmio. Mais um para a vasta série: “todos os diplomas do presidente”.

À revelia disso, “O Globo” de hoje, além de ignorar o prêmio, tratou de ir mais longe, dando chamada de capa e página interior inteira a Caetano Veloso que, em entrevista ao “Estadão”, “no sol de quase Dezembro”, resolveu destilar preconceito ao chamar Lula de “analfabeto”. Haja lenço para tanta amargura!

Ontem em Londres, Lula, contrariando sua praxe de improvisos (nos quais ele demonstra sempre uma oratória arrasadora, diga-se), terminou um de seus discursos, o qual leu (a propósito, analfabeto lê?), citando Drummond: “temos apenas duas mãos, mas o sentimento do mundo”. Drummond é de um tempo em que “da sala de linotipos vinha a doce música mecânica”, como ele deixou registrado em seu “Poema do Jornal”. Hoje, as linotipos já quase não existem e a “música” que vem das grandes redações brasileiras é de uma dureza que faria inveja ao mais pesado Heavy Metal.

A distorção que existe entre a cobertura do governo Lula dedicada pela mídia internacional e a dedicada pela mídia nativa é algo que torna flagrante a partidarização de uma imprensa de mão única, que está entregue a um punhado de clãs retrógrados. Vem aí a I Conferência Nacional de Comunicação. Antes que “o som que vem das redações” torne-se de tal maneira ensurdecedor que jogue de vez por terra a credibilidade de uma profissão que já foi doce, se fazem urgentes medidas que possam reverter este quadro.

Já ouvi dizerem: “Ah, os jornalistas do exterior nem sabem onde fica o Brasil”. Engano: acabou este tempo. O Brasil tem causado tanto interesse no mundo que, cada vez mais, correspondentes internacionais vêm fazer a vida aqui. Quem lê a maior parte das matérias que estes correspondentes enviam para seus países e quem lê os dados de uma pesquisa feita este mês pela empresa “Imagem Corporativa”, é levado a crer que, para jornais que vão do “The Washington Post” ao “Clarín”, do “Le Monde” ao “China Daily”, nós vivemos num país que reflete com fidelidade as palavras de Lula em um de seus discursos de ontem: “o Brasil cansou de ser o país do futuro”. Um país que nossas capas de jornal não conhecem e pelas páginas internas ele passa correndo.

Voltando às declarações de Caetano ao “Estadão”, repercutidas euforicamente pelo jornal “O Globo” de hoje, ele declarou ainda acreditar que “Marina é Lula mais Obama”. Marina, por sua vez, aproveitou a contestável matemática do baiano, e disse: “Isso (o que Caetano falou) mais do que agrega, congrega. Vai criando uma força de pensamento e de debate político que vai além de quaisquer candidaturas ou de acordos da política tradicional e coloca em cena a sensibilidade das pessoas.” Será que, depois de toda a sua história política, ela realmente acha que alguém que chama publicamente Lula de analfabeto tem a intenção de fazer algo parecido com “congregar” e de “colocar em cena a sensibilidade das pessoas”? Não posso crer.

E Marina ainda fez questão de frisar que se sentia muito honrada, pois Lula e Obama são dois grandes estadistas. Apesar de a eleição de Obama ter representado um avanço inegável, o frisson que se tem feito em torno dele é bem maior do que o que de fato lhe cabe. E Marina também não está com esta bola toda, mas, ao que parece, é o que ela acha. Respeito muito a trajetória dela, mas é lamentável que ela esteja tão nitidamente fazendo o jogo da imprensa golpista e que, com o claro intuito de se promover, tenha se pronunciado tão oportunistamente.

Mas quem disse que a fatídica “Folha de S. Paulo” não noticiou o tal prêmio? Noticiou ontem mesmo, no próprio dia, um verdadeiro furo de reportagem. Tão falso quanto a ficha da Dilma e o câncer do Fidel. “Estatais patrocinam prêmio concedido a Lula em Londres”, era o título. E a matéria dizia: “A lista de empresas que patrocinaram ou apoiaram o prêmio que o presidente Luiz Inácio Lula da Silva recebe hoje em Londres inclui três estatais (Petrobras, BB e BNDES), três empresas privadas brasileiras (Bradesco, Itaú e TAM) e várias companhias estrangeiras com interesses comerciais no país.” Mentira deslavada de um jornal invejoso com o claro intuito de desmoralizar o prêmio e diminuir sua importância. A Petrobras ainda se deu ao trabalho de apresentar em seu blog “Fatos e Dados” provas de que não patrocina o prêmio. Não sei se as outras empresas se pronunciaram de alguma forma, mas nem seria preciso: basta fazer uma pesquisa na extensa lista de membros e parceiros da “Chatham House”, disponível no site da instituição, para se constatar o tipo de prática da Folha.

Eu pergunto: isto é Jornalismo? Ou “jornaleirismo”?

A Serra S.A. (patrocinada por Globo, Folha, Estadão e Veja, entre outros) não engole, de jeito nenhum, que um presidente com a origem humilde de Lula ostente 81% de avaliação positiva, tenha conseguido trazer as olimpíadas de 2016 para o Rio de Janeiro e, agora, ainda ganhe mais um entre tantos prêmios. Quando Lula ganhou, em Julho, o Prêmio da Paz da UNESCO, a notícia até foi dada, com muito esforço, em páginas internas da grande imprensa. Isso porque era da UNESCO. Sabe como é, são muitos prêmios num mesmo ano, isso incomoda. É grande a dor-de-cotovelo de determinados setores que não se conformam com o fim da ditadura. Imaginem o tamanho do baque que levarão se, confirmando-se a expectativa de muitos, a grande imprensa for obrigada a noticiar que Lula ganhou o Nobel da Paz?

Sinceramente, nem quero imaginar o que farão (ou deixarão de fazer). Mas uma coisa eu sei, por dever do ofício que escolhi, talvez chegue o dia em que, estando numa redação de jornal, já irritada com o calor de Dezembro, eu ainda tenha que ouvir: “Pessoal, o FHC foi eleito síndico do Empire State! Vamos dar primeira página”.

06 de Novembro de 2009,
Ana Helena Tavares

Outros locais onde este texto está:

No sol de quase Dezembro - Uma crônica para Caê no “youPode”

No sol de quase Dezembro - Uma crônica para Caê no “Quem tem medo do Lula?”

No sol de quase Dezembro - Uma crônica para Caê no “Recanto das Letras”

No sol de quase Dezembro - Uma crônica para Caê no blog “Você passa por aqui”

No sol de quase Dezembro - Uma crônica para Caê no blog da Adriana Tasca

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25.10.09

Os “traficantes”, os “cobradores” e a banalização da amizade

“Amizade não se anuncia, amizade se sente. Quem vive anunciando amizade, não é amigo, é traficante.” (Machado de Assis)

Além dos “traficantes” e dos “cobradores”, a pós-modernidade trouxe a banalização da amizade. Pelas ruas não é difícil se constatar que o termo anda sendo usado no automático. Pessoas que nem se conhecem se cumprimentam com um “oi, amigo”, e conhecidos há 2 minutos viram “amigos de infância”. Eu não teria nada contra se não soubesse que 90% destas “amizades” são fugazes, não se solidificam. E sabem porquê? Porque algo me diz que o ser humano vive uma crise de convivência em sociedade. No universo virtual, então, a ilusão de se ter “um milhão de amigos” tira o brilho da letra de Roberto Carlos. Conectar-se é a fuga perfeita para se fugir da convivência.

Por Ana Helena Tavares (publicado também na minha coluna na revista “Médio Paraíba” e no “Recanto das Letras”)

Valorizo demais a palavra amizade e não consigo concordar com certos clichês que a sociedade insiste em usar para definir um termo tão nobre.

É certo que esse é um significado que anda perdido no mundo de hoje. Em muitos casos, é a velha busca pelo “levar vantagem em tudo”: quantos não gostam de curtir o status de dizer que são “amigos do rei”? Do rei da bola, do rei da música e até do rei do tráfico. Claro, há gosto pra tudo, mas isso ocorre desde que o mundo é mundo.

Machado, por exemplo, fazia uma analogia interessante que, a princípio, choca, justamente por ser tão real: “Amizade não se anuncia, amizade se sente. Quem vive anunciando amizade, não é amigo, é traficante.” É o “Bruxo do Cosme Velho” resumindo o tráfico de influência.

É engraçado que aquele que entrou para a história como “o amigo do rei” quase não versou sobre a amizade, ao contrário de muitos poetas de sua geração. No entanto, Bandeira, em seu poema mais famoso, parece usar de ironia para dizer exatamente o mesmo que Machado. Afinal, em Pasárgada, por ser “amigo do rei”, ele gozaria de inúmeros privilégios. Não me perguntem se foi intencional. Textos são feitos para que o próprio autor se entenda e para que seus leitores o interpretem, ao bel prazer. Ora, vejamos…

Peguemos o caso da família como exemplo: todos os familiares que moram com você são verdadeiramente seus amigos? Se forem, “que maravilha viver”. Mas não é regra. Amizade verdadeira é laço mais forte que o sangüíneo. Parente é uma coisa, amigo é outra, a sorte é quando se misturam. Há um clichê muito comum que afirma: “ser amigo é estar sempre ao lado”. Por esse prisma, como é possível ser “amigo do rei”? Se você for de fato amigo de um “rei”, de uma pessoa extremamente importante, repleta de afazeres, como vocês estarão sempre ao lado? Aí poderão dizer: “Ora, você está pegando a expressão ao pé da letra”. Negativo. Nem que seu amigo seja um mendigo e que você vá morar debaixo da ponte ao lado dele você estará sempre ao lado. Nem sequer morar na mesma casa é estar sempre ao lado e ser amigo também não é estar sempre ao lado nem em pensamento, tampouco, travar todas as batalhas lado a lado. Talvez isso soe quase como uma heresia, mas é fato.

Amigos de verdade se respeitam nas divergências e podem até passar décadas sem se ver, lembrando-se do outro de vez enquanto e, portanto, estando obviamente distantes fisicamente e na maior parte do tempo também em pensamento, mas isso não significa que deixaram de ser amigos e que um ainda não poderá dar o colo pro outro ou alegrar-se com suas conquistas. Cobrar afeto não é papel de um amigo, o único nome disso é carência. Amigos sabem do afeto do outro e aí está o grande pulo do gato para se compreender que é absolutamente impossível se viver sempre rodeado por todos os amigos. Afinal, ainda que você more com alguns amigos, eles têm suas vidas individuais.

Além dos “traficantes” e dos “cobradores”, a pós-modernidade trouxe a banalização da amizade. Pelas ruas não é difícil se constatar que o termo anda sendo usado no automático. Pessoas que nem se conhecem se cumprimentam com um “oi, amigo”, e conhecidos há 2 minutos viram “amigos de infância”. Eu não teria nada contra se não soubesse que 90% destas “amizades” são fugazes, não se solidificam. E sabem porquê? Porque algo me diz que o ser humano vive uma crise de convivência em sociedade. No universo virtual, então, a ilusão de se ter “um milhão de amigos” tira o brilho da letra de Roberto Carlos. Conectar-se é a fuga perfeita para se fugir da convivência.

Aí dirão: “Pronto, ela não crê em amizade virtual”. Engano. Ela é rara, mas existe, tal como antigamente havia as amizades por meio de cartas. Amizade é algo construído: amizade à primeira vista pode ser várias coisas e pode ou não se transformar em amizade, tal como amor à primeira vista é paixão que pode ou não virar amor.

Amizade é, acima de tudo, um sentimento, construído não pela troca de vantagens, como temia Machado, nem mesmo pela troca diária de afeto, como muita gente parece pensar e como Bandeira jamais teria com seu “rei”. Eu diria que é um sentimento construído pela troca de respeito, pela admiração mútua e, enfim, pela valorização do outro do jeito como ele é e da forma como ele sabe oferecer afeto.

Essa troca pode ou não ser presencial e, ainda que não seja possível que ocorra sempre, amigo zela e tem sim ciúmes, ainda que muitos não assumam. Afinal, amizade é uma forma de amor, creio que a mais singela e singular. Esses ciúmes são naturais, não podem se converter em cobrança e precisam ser saudáveis. Mesmo porque é bom lembrar que, tal como você, eles também têm o direito de ter outros amigos. Mas que há ciúmes, isso há.

Vinícius de Moraes dizia que “a amizade é um sentimento mais nobre do que o amor, porque o amor traz intrínseco o ciúme”. Eu duvido que ele não tivesse ciúmes dos amigos e amigas dele.

25 de Outubro de 2009,
Ana Helena Tavares

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3.9.09

Quando um gato vira leão - um tributo a Ted Kennedy

Voz tranqüila, porém firme, dedos apontados para os sonhos.

Por Ana Helena Tavares

Quando Collor se candidatou à Presidência da República, o exército de Roberto Marinho sabia que tinha uma arma na missão de elegê-lo: ele era um gato. Parece piada, mas é fato. Já vi muita mulher (instruída!) assumir que votou nele porque era “o mais bonito”. Agora em 2009, anos depois de o povo ter descoberto, com um paradoxal – e oportuno – empurrãozinho daquele mesmo exército, que gatos não põem mesa, vem ele querendo rugir no Senado. Só o que ele talvez não saiba é que para ser leão não basta rugir, é preciso que se consiga levar outros a rugirem junto ou a respeitarem o seu rugido.

Mas vocês talvez estejam pensando: “Que mau gosto fazer um tributo a Ted Kennedy e começar o texto falando do Collor!” Pois é, nem eu sei de onde me saiu essa idéia, mas é, sim, possível fazer uma relação de antagonismo entre as duas figuras.

Fernando Collor de Mello, assim como seu irmão já falecido, que era igualmente gato, teve desde sempre uma vida pessoal obscura. Poucos sabem, por exemplo, que seu pai, Arnon Afonso Farias de Mello, foi assassino de um senador. Os irmãos Kennedy, dois deles mortos precocemente, todos igualmente gatos, tiveram um pai mais exemplar. Todos os três, porém, tiveram uma juventude e, no caso de Ted, uma longa vida pessoal a que se pode tranqüilamente chamar de desvairada, incluindo conhecidos episódios de envolvimento com bebida.

Já na vida pessoal reside o antagonismo da relação que busco fazer aqui. Enquanto a de Collor se mostra um vale de sombras, a de Ted era um livro promíscuo, porém aberto.

No entanto, ao povo de nada importa a vida pessoal de um homem público. Importa sua combatividade, importa as causas pelas quais luta e as batalhas que consegue vencer nessa selva chamada política. E aí mora o grande antagonismo deste texto. Collor é um perdedor não por ter sido expelido da presidência pela mesma mão que o colocou, como num sórdido jogo de marionetes, mais do que isso, é um perdedor não por ter perdido alguma causa de interesse público – é um perdedor porque nunca às teve. Ted Kennedy, sem nunca ter chegado à presidência dos EUA, era um homem de causas públicas, um agregador nato, combativo até o fim naquilo em que realmente acreditava, o que lhe justificava o título de “o leão do Senado”.

Em tempos de omissão e, em alguns casos, até de contribuição direta de seu país, Ted Kennedy rugiu alto contra a ditadura no Chile, o Apartheid na África do Sul e a guerra do Vietnã. Embora certamente não tenha conseguido ver no mundo todas as mudanças com as quais sonhava, Ted levou muitos a rugirem junto. Ainda assim, como não poderia deixar de ser, foi, muitas vezes, voto vencido, mas nunca desistia e, com toda razão, gostava de vangloriar-se de ter lutado. Gostava, por exemplo, de anunciar que seu voto mais bem acertado no Senado foi aquele em que disse um sonoro não à invasão do Iraque. E ele estava mais do que certo por ter orgulho disso. Também eu teria – e muito. Sua atuação nesse e em outros casos de interesse mundial foi, claro, digna de toda admiração. Mas, em termos de política interna, sua grande causa talvez tenha sido a reforma na Saúde. Lutou sem trégua por um sistema público, no estilo europeu, ferozmente condenado pela direita, pelas seguradoras, pelos médicos, pelos hospitais – o leão foi bombardeado de todos os lados e jamais fraquejou.

Há poucas ligações de Ted Kennedy com a política brasileira. Não consta, por exemplo, que ele tenha tido o desprazer de conhecer pessoalmente Fernando Collor. Mas pelo menos um político brasileiro ele conheceu de perto, sobre o qual digam o que quiserem, pra mim foi um dos maiores – um leão de botina e bombacha, tchê – Leonel Brizola. Pois muito bem, o próprio. Quando Brizola foi expulso do Uruguai, em 1976, por ordem de Geisel, Ted Kennedy o recebeu como amigo nos EUA. Há quem diga que da amizade entre os dois nasceu a luta de Ted Kennedy contra a ditadura no Brasil.

Como é do conhecimento de muitos, Brizola não era homem de bajulações. Nesse sentido, é digno de nota o apreço especial que ele nutria pelo amigo Ted. Algo de fato incomum para Brizola, que definia Ted Kennedy como “um inconformado, um verdadeiro democrata na luta contra toda falta de liberdade.”

O fato é que com seu sorriso fácil, sua voz tranqüila, porém firme, dedos apontados para os sonhos, era mesmo muito difícil resistir aos discursos de Ted. Não eram vazios, menos ainda demagogos, como os de tantos. Aproximar-se dele era sinônimo de respeito, mesmo para quem estava em trincheiras opostas – lá estava Bush em seu enterro, por essa nem ele esperava. Era sinônimo de querer ouvir, mesmo para quem tanto gostava de falar, como era o caso de Brizola.

Leão é líder, e o olhar do líder não amedronta – agrega.

03 de Setembro de 2009,

Ana Helena Tavares

Quando um gato vira leão na Revista Médio Paraíba

Quando um gato vira leão no site youPode

Quando um gato vira leão no Recanto da Letras

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21.6.09

Monteiro Lobato precisava estar aqui

acervo UNICAMP)

Monteiro Lobato na redação da "Revista do Brasil" (Foto: acervo UNICAMP)

Sou estudante de jornalismo. Sim, estudante. É o fato de eu estar na faculdade que me garante esta condição? Não! Todo ser humano tem a capacidade de ser um autodidata, de estudar por sua própria conta – e risco. É claro que há louváveis exceções à regra, sempre há, mas queimar etapas tem seus perigos.

O risco que corre, principalmente no mundo de hoje, alguém que queira entrar para o jornalismo sem a formação adequada e sem o amparo de um diploma é o mesmo que corre alguém que pretenda ser mestre-cuca e já comece longo tentando fazer uma omelete sem nunca ter fritado um ovo. É o risco de amargar bocas.

Matérias de jornal podem causar uma revolução na sociedade. Watergate não me deixa mentir. Textos mal-intencionados têm o poder de amargar multidões. Aí poderão dizer: “Só que não é a faculdade que garante ética a um profissional”. E não é mesmo! Mas, se dentro do ambiente acadêmico a pessoa tiver oportunidade de ir fritando alguns ovos antes de fazer aquela omelete especial, tendo acesso a atividades como, por exemplo, jornais laboratório, certamente chegará ao mercado de trabalho já conhecendo, na prática, o significado, para o bem e para o mal, dessa bela palavra de cinco letras. Aí a escolha é de cada um. Aliás, como sempre.

Da minha parte, digo que já fritei alguns ovos e, mesmo assim, ainda não me sinto preparada para fazer uma omelete. Vocês poderão supor, então, que eu estou querendo dizer que será o diploma que me fará preparada para servir um banquete. Não, porque, no meu caso, morrerei achando que em todos os bolos que eu fiz sempre ficou faltando uma cereja. A perfeição é inalcançável, tenha você ou não um diploma. Mas, se o tiver, você, pelo menos, terá algumas chances a mais de já não cometer, diante de um público de milhares, aquele mesmo erro que cometeu dentro das quatro paredes de uma sala de aula ou de um laboratório de pesquisa universitária. Como bem dizem os verdadeiros mestres, ali é o lugar de errar – e de pensar. Talvez por isso o desespero de Mendes. Um ser pensante é tudo o que menos ele quer ver pela frente.

É totalmente paradoxal ver a decisão de um juiz que crê numa imprensa sob censura, como já deu mostras disso, ser defendida por pessoas que, para tanto, se baseiam na infundada alegação de que a lei que instituiu a obrigatoriedade do diploma teria sido um artifício da ditadura militar para cercear a liberdade de expressão. Visto que, segundo dizem, isso afasta da imprensa os profissionais de outras áreas. Parece-me que há aí dois grandes equívocos.

Primeiro ponto: com relação à obrigatoriedade do diploma entendida como armadilha da ditadura, é um argumento tão sem fundamento que as pessoas nem sequer se lembram que o sistema deles não dependia de uma fórmula assim tão complexa: simplesmente censuravam ou, como ocorreu tantas vezes, prendiam e, se preciso, iam mais longe. Herzog não tinha diploma de jornalista e não foi através da obrigatoriedade do diploma que a ditadura o silenciou. Segundo ponto: advogados e médicos, só para citar duas grandes áreas, nunca foram impedidos de escrever em jornal ou, tampouco, de expressar suas opiniões em qualquer veículo de comunicação, mesmo não tendo o diploma de jornalista nem, muito menos, o registro profissional. Aliás, muito ao contrário, até pela inexistência do curso de jornalismo antigamente, sempre foi farta a quantidade de pessoas sem formação específica ou profissionais formados em outras áreas exercendo normalmente a função de jornalista. Ou seja, cadê a tão falada ameaça à liberdade de expressão relacionada à obrigatoriedade do diploma?

Só que a grande maioria dessas pessoas que hoje exercem o jornalismo sem diploma e que, segundo afirma a própria ANJ, não são maioria no mercado, vem de outros tempos. Vem de tempos em que redação era celeiro. A redação acolhia e ensinava. Para se ter uma noção, o jovem idealista Monteiro Lobato, saído do interior de São Paulo e formado advogado por imposição do pai, chegou a fundar um pequeno jornal com seus colegas na Faculdade de Direito e foi, por muitos anos, colaborador do “Estado de São Paulo” e da “Revista do Brasil”, publicações do mesmo grupo editorial. Segundo os biógrafos de Lobato, a redação do “Estadão” e também a da “Revista do Brasil” teriam sido os locais onde ele aprendeu a lapidar seu estilo. Hoje em dia, alguém consegue imaginar as redações dos grandes jornais exercendo tal papel? Quando vejo afirmações do tipo - “Há lugar para todos nas redações” - como tenho visto por aí, fico imaginando o jovem Lobato chegando hoje, 2009, à redação do “Estadão”, vindo lá do interior, sem ser conhecido ainda, trazendo na bagagem tão somente muito idealismo e um diploma de advogado. Sem, porém, nenhum preparo para trabalhar com imprensa, apenas a nobre disposição de aprender. Alguém tem dúvidas da recepção “calorosa”?

Vejam, então, como são hipócritas os barões midiáticos que hoje falam em “ganho de diversidade” ao se dizerem satisfeitos com o fim da obrigatoriedade do diploma. A diversidade sempre existiu, o diploma jamais a tolheu, e, dentre tantos outros interesses por trás dessa euforia, está o de que poderão reduzir salários drasticamente. Só que a hipocrisia chega a tal ponto que eu tenho certeza de que esses mesmos barões, que andam soltando seus fogos em editoriais, continuarão dando mais valor a estagiários vindos dos bancos das faculdades de jornalismo e a profissionais diplomados por elas. E, nisso, salvos alguns raros mais espertos, os Lobatos de hoje são engolidos.

Por isso, é claro que as academias sofrerão um forte baque, principalmente aquelas que não se adequarem às novas tendências do Brasil e do mundo, mas, ainda assim, essa decisão, que ainda acredito que possa ser revogada, está longe de significar o fim dos cursos de jornalismo e a derrocada de sua importância. Ao contrário disso, até acho que o que Mendes conseguiu foi o efeito contrário do que desejava.

Setores importantes da sociedade estão discutindo essa questão e, se o congresso resolver entrar nessa briga, ainda há, sim, esperança de que o jornalismo que, pelo menos pra mim é uma missão, consiga voltar a ser entendido como uma profissão, que de fato assegure um amparo a quem a exerce.

Por isso tudo, sou estudante de jornalismo e vou continuar sendo.

21 de Junho de 2009,
Ana Helena Tavares

Monteiro Lobato precisava estar aqui no Observatório da Imprensa

Monteiro Lobato precisava estar aqui no Recanto das Letras

Monteiro Lobato precisava estar aqui no YouPode

Monteiro Lobato precisava estar aqui na Revista Púlpito

Monteiro Lobato precisava estar aqui no blog do Prof. PC

Monteiro Lobato precisava estar aqui no blog do radialista mineiro Carlos Ferreira

Monteiro Lobato precisava estar aqui na rede social Jornalista, só com diploma!

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12.6.09

O dom de irradiar esperança - JK, Lula e a imprensa

- Não posso deixar de dedicar este artigo, com esta temática política tão especial, ao meu mestre e amigo Gilson Caroni Filho. Assim, faço jus a quem irradiou em mim o gosto por analisar a mídia e o encantamento pelas ciências políticas.

Inúmeras já foram as vezes que Lula se comparou a JK. “Não acredito em quem não tem objetivos, não tem projetos, não sonha alto. Eu acredito em gente como Juscelino”, declarou Lula a Claudio Bojunga para o livro “JK - O Artista do Impossível”.

Incontáveis são as vezes que Lula é atacado por conta desta comparação. “Quando vejo o Lula se comparar com Deus, todo poderoso, não me importo. Quando o vejo se comparar a Getúlio Vargas, também não dou muita importância. Mas eu realmente saio do sério quando vejo o apedeuta (ignorante, pessoa sem instrução) querer se comparar ao JK.”, já chegaram a dizer em um dos milhões de blogs espalhados pela rede. Ora, por que esta comparação tira tanta gente do sério? Será então porque JK era médico e Lula largou cedo os estudos regulares? Francamente! Como são apedeutas os que pensam assim! Principalmente aqueles que gostam de se colocar na posição de “deuses”, acima dos “meros mortais”, usando palavras como “apedeuta” e achando que é isso que vai mostrar alguma coisa nessa vida. Senão vejamos… Os EUA que o digam… George Bush ostenta diploma de historiador (vejam isso…) e Abraham Lincoln (considerado um dos maiores presidentes dos EUA) jamais cursou escolas regulares. Será que restam dúvidas de que não é isso que influencia?

Que a ascensão à presidência de uma pessoa como Lula incomoda a muitos, nós sabemos. Só o fato de aquele retirante estar lá no Planalto já enfurece muita gente, é de se entender que fiquem mais enfurecidos ainda quando aquele ousado retirante se compara ao “Dr. JK”. Só que JK ganhou a simpatia da história não porque se achava um “Dr.”, mas pelas vezes que sentou-se numa roda de violão cantando que o “peixe vivo não pode viver fora da água fria”. Explico-me: talvez ele não tenha sido uma figura de grande carisma em sua época, haja visto que foi certamente um dos presidentes mais surrados pela imprensa e é óbvio que isso levava uma fatia da opinião pública a atacá-lo também. Mas a história o acolheu, não só por todas as realizações de seu governo, mas acredito até que principalmente pela fantástica figura humana que ele era. Títulos como o de “Presidente Bossa Nova” não me deixam mentir. Fenômeno semelhante ocorre com Lula. Possivelmente, entre as classes mais baixas, Lula tenha um apelo carismático bem maior que o de JK, mas, de um modo geral, ele representa uma “bossa (coisa) nova”. Novidade boa pra quem pensa no futuro do país. Ameaça pras elites conservadoras e antiquadas. Assim era JK. Assim é Lula. Figuras humanas com o dom de irradiar esperança por onde passam. E isso dói nos olhos mais amargos.

Em 2008, durante comemoração pelos 106 anos de JK (caso estivesse vivo), Lula afirmou: “A história, como Deus escreve certo por linhas tortas, precisou de algumas décadas para fazer Justiça ao que representou Kubitschek para o nosso país”. Como aconteceu com JK, restará à história o papel de relatar com fidelidade todos os avanços do governo Lula. E não tenho dúvida de que ela o fará. Isso porque a imprensa que, como me disse em entrevista o jornalista Alberto Dines, deveria ser sinônimo de “história instantânea”, infelizmente, tem jogado no lixo essa nobre função. Curioso e interessante contar que, pouco depois do encerramento de seu mandato como presidente da República, na noite de 21 de janeiro de 1961, JK foi recebido com toda pompa e circunstância na sede da ABI por aquela mesma imprensa que havia passado cinco anos bombardeando seu governo e seu caráter e que, naquela ocasião, oferecia em sua homenagem um farto banquete. Na “Revista Brasileira de História” há um vasto estudo sobre o assunto, realizado pela cientista política Flávia Biroli, intitulado “Liberdade de Imprensa: margens e definições para a democracia durante o governo de JK”. No estudo, verificamos que era uma relação problemática, porém, pacífica. Ou seja, se a imprensa criticava de forma tão dura é porque tinha liberdade pra isso. O título de uma das matérias que, na época, cobriu o evento ao qual JK foi à ABI dizia: “O adeus com mágoa de JK”. Ao mesmo tempo, porém, naquele final de governo, os jornalistas pareciam profundamente agradecidos por aqueles anos de liberdade. Sentimento resumido nas palavras de Herbert Moses, então presidente da ABI, que fez mea-culpa, assumindo excessos, exageros e injustiças da imprensa: “O governo Kubitschek não foi apenas um período de trabalho intenso, de dinamismo administrativo, de desenvolvimento apaixonado: foi também o governo em que a imprensa pôde usar mais livremente os seus direitos. A imprensa opinou livremente, informou livremente, criticou livremente. Muitas críticas teriam sido exageradas, muitas excessivas, muitas injustas, com certeza. Mas exageradas ou excessivas ou injustas, puderam ser formuladas, tiveram livre curso, não tiveram sanções.” Fico imaginando um banquete desses, ao final do governo Lula, e acho que, de ambos os lados, os sentimentos não se fariam diferentes. Lula tem uma centena de motivos totalmente palpáveis pra se dizer magoado com a imprensa. A imprensa, por sua vez, não tem um motivo sequer pra reclamar de Lula quanto a qualquer tipo de censura. Seria no mínimo interessante um banquete desses reunindo Civitas, Frias e Marinhos… Haja mea-culpa!

O grande mérito de quem é ofendido está em não perder a cabeça. Temos aí mais um ponto em comum entre os dois presidentes. Certa vez, Lula disse: “Poucos políticos foram tão achincalhados, tão agredidos verbalmente, tão ofendidos como Juscelino Kubitschek. Entretanto, esse homem nunca levantou a voz nem perdeu a responsabilidade com o país.” Quem não enxerga a responsabilidade de Lula com o Brasil, que o julga um aventureiro, oportunista, ou coisas do tipo, só pode ser cego. “Devemos seguir o exemplo de Juscelino Kubitschek, que soube transformar seus sonhos em conquistas e benefícios para o Brasil.”, disse Lula em almoço oferecido ao primeiro-ministro da República Tcheca, em Março de 2006. Essas não são palavras ao vento. O espírito empreendedor de JK está sim presente no presidente Lula. Transformar sonhos em realidade faz parte de sua história de vida. É claro que com o seu governo não iria ser diferente.

Eu poderia listar aqui todo o sem número de avanços do governo Lula e comentar cada um deles, mas não é essa a proposta. Em meados do ano passado, ao comentar um deles, Lula, mais uma vez, lembrou-se de JK: “Juscelino Kubitschek, lá de cima, estará rindo pelo que está acontecendo com a indústria naval brasileira.” Arrisco-me a dizer que ele está rindo à toa desde janeiro de 2003.

Não vivemos no país dos sonhos? É claro que não! Mas a enorme confiança que Lula gerou no povo, apesar de a imprensa não cumprir satisfatoriamente seu papel de bem informar, além de tornar visíveis as inúmeras realizações de seu governo, mostra que nenhum outro presidente representou tão bem quanto ele um dos lemas que JK repetia com mais fervor: “Política para mim é esperança”.

Por isso, se eu pudesse falar com Lula, diria: Eu também “não acredito em quem não tem objetivos, não tem projetos, não sonha alto.” Eu acredito em gente como você!

11 de Junho de 2009,
Ana Helena Tavares

P.S. Herbert Moses dizia-se agradecido por aqueles anos em que o governo não havia censurado nenhuma das tantas críticas tão negativas feitas pela imprensa. Muitas injustas, como ele próprio assumiu, tecendo suas desculpas públicas a JK. O problema é quando, na hora de elogiar, a grande imprensa, vendida a interesses mesquinhos, censura-se a si mesma. Periga ter que pedir desculpas à liberdade sem a qual ela não vive e a qual ela própria tolhe. Aí é crise de identidade. Talvez já acontecesse também naquela época…

O dom de irradiar esperança no Recanto das Letras

O dom de irradiar esperança no YouPode

O dom de irradiar esperança no blog “Quem tem medo do Lula?”

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6.6.09

Escrevi e salvei minha alma

Dizem que a preocupação é o mais inútil dos sentimentos. Justificam-se pela raiz da palavra: uma ocupação que vem antes. E o pior de tudo: vem antes de uma hipótese.

Em outras palavras, o sujeito fica ali se remoendo em pensamentos sobre algo que pode vir a ser um problema. Ainda por cima, uma ameaça que pode nunca se concretizar. Isso é a preocupação.

Ela sozinha é de fato inútil. Mas vive nesse sentimento, tão criticado pela sociedade, o poder de se transformar em ação, a partir do momento em que se o põe pra fora. Aí, o inútil pode virar útil.

Senão vejamos… Quando uma pessoa passa pela frente de um prédio, preocupa-se por observar rachaduras na marquise, avisa ao porteiro e, por conta disso, são feitas obras, terá sido inútil aquela preocupação? Bem, talvez aquela marquise pudesse nunca cair, mas são pequenas preocupações como essas, sócias fiéis da prudência, que podem salvar uma ou centenas de vidas. Há uma forte suspeita de que neste último grande acidente de avião que tivemos, os sensores, peças-chave de qualquer avião, estavam com defeito há muito tempo e a companhia aérea sabia. É claro que inúmeros outros fatores podem ter derrubado o avião e esse tal defeito pode não ter sido decisivo pra isso. Mas, como na preocupação trabalhamos com hipóteses, o oposto também tem total condições de ser verdadeiro. E aí, pergunto: será que, antes daquela fatídica decolagem, não havia um ser humano preocupado por lá? Ou será que, em certos casos, o vil metal parece mais útil aos olhos humanos do que preocupações?

Continuando a defesa da preocupação, aquela bem dosada e verbalizada, quando um governo se preocupa com seu povo, porque sente que problemas graves poderão ocorrer e, por conta disso, convoca seus ministros a tomar providências para a melhoria da qualidade de vida do país, terá sido inútil essa preocupação? Óbvio que não. E a preocupação, quando não por interesses próprios, é em última análise uma manifestação de amor ao próximo, seja conhecido ou não, o que, geralmente, provoca reciprocidade. Parece uma conseqüência lógica que um governo que tem carinho por seu povo, preocupando-se com o futuro do país, ganhe, com isso, o carinho da imensa maioria da população.

E, pra terminar a defesa desse injustiçado sentimento, quero tocar no ponto mais delicado de todos. A preocupação em família e entre amigos. Ora, por que delicado? Porque, por incrível que pareça, é aí onde ela encontra mais relutâncias e desconfianças. Quantas vezes os filhos rejeitam solenemente as muitas preocupações de seus pais? Ou, até mesmo, vice-versa. Ou, ainda, quantas vezes um amigo seu já deu de ombros pra sua preocupação com ele? “Ah, essa dorzinha passa logo, não é nada, deixa de besteira.” Aí daqui a pouco você é chamado num hospital. “Não bebe muito, que você não agüenta bebida, filho/pai”. Aí daqui a pouco chega um bêbado na sua casa. E por aí vai…

Você já passou por alguma situação semelhante a essas? Deus queira que não tenha dito o deplorável “eu avisei”. Acredite, isso magoa. Eles sabem que você avisou. Além do mais, o importante de se ressaltar aqui é quantas vezes o contrário acontece na nossa vida. Pense você mesmo em quantas vezes aquela preocupação que você expressou por um ente querido, do seu sangue ou não, surtiu efeito.

Bem, por esses prismas que envolvem nosso plano afetivo, não resta dúvida de que a preocupação está, de forma mais visível do que nos outros casos, condicionada à idéia de conselho. E, diz o ditado: “Se fosse bom…” Pode haver ditado mais capitalista que esse?! A preocupação por quem se gosta, quando materializada num conselho, tanto pode ser a salvação da lavoura como pode não dar em nada, mas você terá sempre a dignidade de ter tentado.

Em resumo, para todos os casos citados neste texto e para todo o sem número de casos possíveis, a preocupação só é inútil se você preocupar-se calado. Isso até me fez lembrar algumas palavras deixadas escritas em latim pelo gênio da crítica ao capital, Karl Marx: “Disse e salvei minha alma”.

A quem se preocupa (inutilmente) com a raiz da palavra, deixo aqui uma pergunta: o que seria do mundo se grandes homens não tivessem se ocupado antes com as hipóteses do depois?

Ana Helena Tavares,
06 de Junho de 2009

Escrevi e salvei minha alma no Recanto das Letras

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18.5.09

Uma pergunta para Platão - crônica

Há muitas pessoas querendo abandonar a condição humana, achando possível serem confundidas com Deus.
Vejo isso, olho aos céus, e fico me perguntando se será um engano meu. Mas, quando olho à minha volta, vejo que realmente tem gente que não se importa em nada com as leis da natureza e parece querer ocupar definitivamente o lugar divino.
Esse tipo de pessoa deve pensar que ninguém vê seus erros, que é sempre possível escondê-los do mundo, querendo passar constantemente a imagem de que são melhores que as outras pessoas. Será que eles não vêem as câmeras atrás do muro?
Há até quem ache que ser imortal pode fazer alguém feliz. Não sou capaz de concordar com isso. Afinal, a morte faz parte da vida tanto quanto não há tristeza sem alegria. Tudo o que existe está interligado.
Difícil falar sobre o futuro de uma sociedade plural em que vejo gente sonhando em se coisificar. Em todo o mundo, o ser humano está, cada vez mais, querendo manipular sua própria condição. Não são muitos os que aplaudem o diferente. Muitos são os que se rebelam por acharem-se limitados e, então, querem limitar-se de vez ao tornarem-se perfeitos. Vai entender…
Será que preferem ser bijuteria em vez de pérola? A pérola é uma ferida que a ostra curou, trata-se de uma dor superada. O resumo da história é assim: se corpos estranhos – diferentes – não provocassem machucados nas ostras, jamais se formariam pérolas. Tropeçar na infância, quebrar a cara na juventude e colecionar erros na estrada produz pérolas. Elas têm brilho intenso, são absolutamente lindas e cada uma delas é única. Bijuterias são produzidas em massa, que nem as linhas de produção nas fábricas de Henry Ford.
Aliás, a linha de manipulação genética que visa criar uma geração de “super-bebês” guarda mesmo muita relação com a robótica linha de montagem de uma fábrica. Errar é o oitavo pecado capital. Todos os parafusos têm que estar em seus lugares numa velocidade jamais imaginada por Chaplin. Isso se é que são precisos parafusos.
E, nisso, será que não se permitem a grande magia do baile da vida: perder o passo, sacudir a poeira e retornar ao salão? Nunca conseguirão me convencer de que viver tem alguma graça sem isso.
Então, para que eu iria querer já nascer um robô com o meu código genético todo manuseado pelas mãos da ciência, sabe-se lá com que intenções – imaginem todos os interesses econômicos que esses projetos envolvem – correndo o risco de eu passar a vida sem conseguir dançar? Não, eu não ia querer isso para mim, não quero para meus descendentes e espero que a humanidade perceba a tempo o quanto pode estar indo longe demais em seus anseios insanos.
Nem, tampouco, vejo sentido algum em sair por aí me dizendo perfeita, me achando a tal, quando a graça toda está em ser de carne e osso, e errar. Será possível que a humanidade não enxerga que todos os maiores acertos da história foram erros antes?
Olhe um pouco para o passado. De vez em quando, é bom para tentar entender o presente, ou ao menos para enxergá-lo por outro prisma. Sua vida teria sido a mesma sem toda a dança de emoções, que deixou tantas seqüelas? Você realmente acha que deveria ter sido diferente? E todos os sonhos? É ou não especial suspirá-los na varanda? Como tê-los se o quebra-cabeça já viesse completo?
Ah, meu Deus, muito obrigada por me fazer errônea! Vou vivendo assim até quando o Senhor quiser. Sei que morrer é algo natural e da morte não escapo.
Meu Deus, Platão está aí por perto? Eu adoraria saber se hoje ele queria ser vivo.

17 de Maio de 2009,
Ana Helena Tavares

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5.5.09

O doce maior da vida

- Para minha mãe, Maria do Céu, o meu maior doce, e para todas as verdadeiras mães do mundo.

Dentro do instinto biológico ideal, toda mulher deveria nascer mãe. Afinal, todas deveriam nascer para reproduzir. Só que algumas conseguem, outras não. E, além disso, quem disse que reproduzir é ser mãe?

Sinceramente, não acredito que o famoso “instinto maternal” seja comum a todas as mulheres. Não creio que toda mulher nasça com o instinto social (se é que cabe este termo) de ser mãe. Se assim fosse, como seriam possíveis todos os casos de mães que renegam, maltratam e até matam seus filhos? Como chamar aqueles seres de mães? Como é possível dizer que aquelas pessoas nasceram mães? A sociedade pode ter corrompido algumas, mas há aquelas que parecem já ter nascido com raiva de bonecas…

Dizem que o ato de brincar de boneca é o maior ensaio para as futuras mães. Mas há meninas que só gostam de brincar de carrinho e nem por isso significa que vão torna-se péssimas mães. Para muitas mulheres o seu maior sonho é vir a ser mãe. Outras, porém, preferem ter como ambição uma carreira de sucesso ou um amante insaciável - sem jamais pensar em ter filhos. Nem todas as mulheres, fazem uma festa a uma criança ou brincam com elas. Como todos nós sabemos, não é difícil encontrar muitas que repudiam crianças, quase como se as mesmas fossem um estorvo a evitar a todo o custo.

A sociedade mudou, é claro, mas isso não quer dizer que antes todas nasciam mães e agora não. Desde sempre houve desvios. O fato é que o termo mãe é grande demais para que se possa afirmar que toda mulher já nasce com ele. Não, não nasce. Mãe é uma das menores palavras da língua portuguesa e é a que talvez tenha um dos significados mais complexos. Não há mãe sem sonhos construídos em conjunto.

Sendo assim, não posso dizer que toda mulher já nasce podendo ser considerada mãe. Pois, quando olho pro mundo à minha volta, não posso crer que todo ser humano, homem ou mulher, já nasça amando. Na verdade, não nasce amando nem odiando. Sentimentos são edificados tal como castelos. E só o real amor pelos filhos torna uma mulher mãe.

Sendo biológica ou adotiva, quando a mãe é mãe, atribui todo o amor que tem dentro de si àquela criatura condicionada ao seu encanto – e a relação com seus filhos depende tanto do toque carinhoso na cria como da capacidade de uma “troca de olhares” a léguas de distância.

Não, eu não posso dizer que sou mãe. Sequer que sei o que significa ser. Posso no máximo fazer recortes da realidade que observo. Uma mãe, creio eu, está desde o simples gesto do pedaço de doce levado no quarto do filho até a crença inabalável que seus filhos são seu maior doce.

Tantas e tantas definições já foram dadas para as mães. Nenhuma delas alcança o que se passa no coração das verdadeiras mães ao perder um filho. Mário Lago, autor daquela conhecida música que tenta definir o que é uma “mulher de verdade”, disse certa vez num desconhecido poema: “É um fruto de sua vida / Um fruto que Deus lhe deu / Quem perde mãe já perdeu / o doce maior da vida”. Não resta dúvida que nossas mães são um doce inigualável. Mas arrisco-me a dizer que a dor da perda de uma mãe em nada supera a dor da perda de um filho. É uma questão de ordem natural das coisas. Como o próprio Mário Lago disse: o filho “é um fruto de sua vida”. É exatamente isso. E, nesse sentido, eu acrescentaria que as verdadeiras mães projetam em seus filhos um sentimento de imortalidade. O que gera uma sensação de perda de continuidade terrível a cada filho que morre.

Mãe é isso. É se doar de forma incondicional, vibrando mais com as vitórias dos filhos do que com as próprias, não se importando em até matar por eles, ou em deixar de respirar se for para o filho continuar perdendo o fôlego.

E isso não se vê em qualquer esquina.

05 de Maio de 2009,
Ana Helena Tavares

O doce maior da vida no Recanto das Letras

O doce maior da vida no blog do Patolino

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10.4.09

O Pasquim e a oposição à objetividade

“Como era a reunião de pauta no Pasquim?”, perguntaram certa vez ao jornalista Luiz Carlos Maciel. “Reunião de Pauta?!?! No Pasquim?!?!”, foi a resposta.

A revelação foi feita durante palestra sobre Jornalismo Cultural no Centro Cultural Banco do Brasil, Rio de Janeiro, na quarta-feira, 08/04/2009. “Cada um enviava suas matérias, o Tarso (de Castro, editor do Pasquim) juntava tudo e transformava aquilo num jornal. Pronto!”, completou Maciel.

Pronto? Como “pronto”? Não faltava algo àquele jornal? Uma falta que proporcionou o seu sucesso. Algo que sobra à grande imprensa de hoje… O que seria? Objetividade!

Não falo de objetividade na linguagem. Aquela que – de forma totalmente imparcial – se apega exclusivamente ao objeto de análise. Isso é mito do jornalismo. “Conversa fiada”, como definiu o próprio Maciel.

Não, caros leitores, o jornalista, por mais neutro que tente ser, nunca consegue se desprender por completo do sujeito que é. Portanto, todo o relato já é – por natureza – subjetivo. E como seria bom se milhões de leitores e telespectadores entendessem isso…

Então temos aí que a objetividade à qual o Pasquim se opunha com todas as suas forças e à qual vemos a grande imprensa de hoje totalmente rendida é uma objetividade de outro tipo. É uma objetividade que vem de escolhas, interesses e, como não poderia deixar de ser, objetivos.

Nada tem a ver com o objeto a ser apresentado, ou em outras palavras, sua excelência: o fato. Esse, aliás, muitas vezes fica mesmo é relegado a décimo plano. Quem sabe ele aparecerá numa notinha de pé de página. Se der sorte.

E essa objetividade tem dono, sua santidade: o mercado. A ele, sim, o jornalismo deveria fazer oposição sempre…

Mas, aquele pra quem os donos de jornais rezam todas as noites, é capaz de tolher qualquer idealista numa reunião de pauta.

10 de Abril de 2009,

Ana Helena Ribeiro Tavares

O Pasquim e a oposição à objetividade no Recanto das Letras

O Pasquim e a oposição à objetividade na Revista Púlpito

Link pra este texto no Observatório da Imprensa

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4.4.09

Sim, nós podemos!

Sim, nós podemos. E por que nós podemos? Podemos porque o mundo é um emaranhado de olhos que juntos não têm cor.

Cor, brilho, voz, palavra. Hoje ouvi uma senhora de 92 anos, D. Adozinda, esbanjando vitalidade, dizer que a palavra sempre foi sua maior arma. Foi com ela que sempre lutou e – mesmo nas derrotas – venceu.

Há 75 anos dando aulas de português, já passaram pelas mãos dela pessoas de todos os credos – de todas as cores. Contou rindo que já foi alfabetizada quatro vezes por quatro reformas ortográficas. Pelo entusiasmo demonstrado, certamente ainda passaria por mais quatro.

Seu brilho arrebatador no olhar acusa: ela nunca deixou de sonhar. Sim, ela tem um sonho. Faço idéia do sorriso que Luther King abriria ao saber qual. Ela sonha com um mundo em que as pessoas não nasçam para viver – mas para conviver.

Também hoje, eu soube que uma jornalista da revista inglesa “The Time” pediu a palavra em coletiva de imprensa para “desculpar-se” com Lula por ter olhos azuis. Não creio que colocar um presidente numa saia justa, fazendo esse tipo de ironia tendenciosa, seja papel de um repórter.

Tomando por base o ensinamento de D. Adozinda, o que dizer de Lula quanto à convivência? Olhos castanhos, azuis, verdes ou negros, para ele todos foram sempre dignos do mesmo respeito.

Foi assim que, depois de tantas lutas, ele se fez respeitar. Foi assim que chegou a 2009 vendo os olhos negros do chefe da Casa Branca apontarem para ele e dizerem: “Esse é o cara!”.

Sim, nós podemos. E quando nós podemos? Podemos quando percebemos que aos olhos do mundo só teremos cor se lutarmos.

03 de Abril de 2009,
Ana Helena Tavares

Sim, nós podemos! no Recanto das Letras

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29.3.09

Com licença, sociedade, que eu vou sair por aí com a minha caneta

Foto: Ana Helena Tavares
E a câmera balançava com o ônibus...

O ônibus balançava, era hora do rush, mas os passageiros não eram muitos. Ou seria a platéia?

Quem ali, ao passar por uma engarrafada Praça da Bandeira, ousaria imaginar que seria brindado com show exclusivo em pleno túnel Santa Bárbara? O artista? Um rapaz para quem a vida parece ter dado boas chances, mas que resolveu pedir licença à sociedade e sair por aí com seu violão.

A platéia era pequena e o barulho do túnel abafava a voz mansa do jovem rapaz, mas quem disse que isso era problema para ele? Trazendo nos pulmões mais coragem do que voz – motivo pelo qual eu o ouvi – o que ele queria mesmo era fazer uma pergunta àquele ônibus, ao mundo e, principalmente, a ele próprio: “Que país é este?”

Não ganhou muitos aplausos, muitos na pequena platéia dormiam (ou será que fingiam dormir achando que era assalto ou que o artista iria “passar o chapéu”?).

Chapéu? Ele não tinha e não passou. Não era dinheiro que queria. Queria “apenas mostrar seu trabalho”, como fez questão de dizer ao pisar naquele ônibus.

Assalto? Longe disso, ele só queria paz. Mas, por ironia do destino, naquele mesmo final de tarde de segunda-feira, 23 de Março de 2009, em que aquele rapaz entrava num ônibus em Botafogo para fazer lembrar Nietzsche – “Temos a arte para que a verdade não nos destrua” – Copacabana vivia momentos de violência e tiroteio.

Num país que desde sempre foi marcado por tantos contrastes, é extremamente complicado responder com exatidão à pergunta-título da música. Mas, certamente, o Brasil e o mundo precisavam de muito mais gente disposta a apostar na arte como forma de sacudir a realidade, desconstruindo o dia-a-dia e criando, assim, novas possibilidades futuras. Por isso, sei que não fui a única naquele ônibus a aplaudir o rapaz. Renato Russo estava lá e o aplaudiu junto comigo.

Posso imaginar quantos naquela “seleta” platéia taxaram o rapaz de louco. O rapaz e a mim. Já imaginaram alguém no fundo do ônibus sacando uma máquina fotográfica (tentando tirar fotos com um ônibus que não parava de balançar) e ainda aplaudindo no final?

Pois bem, se atitudes como a do rapaz e reações como a minha são loucura neste mundo, eu, que sei que é da seiva de loucuras como estas que nasce o entusiasmo para se lançar o desafio proposto por Nietzsche, não quero ser normal.

Quero pedir licença à sociedade e fazer da caneta o meu violão.

29 de Março de 2009,
Ana Helena Tavares

Com licença, sociedade, que eu vou sair por aí com a minha caneta no Recanto das Letras

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21.3.09

Você pula em cifras ou atira em causas?

Ou o que se pode tirar da ligação entre a euforia de um gol e as sapatadas no Bush.

Trinta minutos do segundo tempo, o time está perdendo e há muito o jogador não marca um gol. Surge oportunidade e o jogador – eufórico – arranca a camisa e pula no alambrado.

De repente, o jogador vê que pode ferir gente, e, como que por um segundo, parece querer tirar a bola de dentro do gol. Será que ela era para estar lá?

Cercado por um batalhão midiático, a bola vira coadjuvante. Não houve feridos, ele fez o gol de empate e o jogo – ou seria o show? – tem que continuar.

Mas pra isso a bola precisa sair do gol. É, bem que ela podia ficar sempre lá.

O que essa história, parcialmente real, tem em comum com a do jornalista iraquiano que atirou sapatos em Bush? O momento de impulso. A explosão emocional inconseqüente – tão humana. Atos irresponsáveis? Talvez.

Há que se levar em conta, porém, a possibilidade de o jornalista ter feito de caso pensado ou até a mando de alguém, mas, sinceramente, não creio em nenhuma das duas hipóteses.

E, nesse sentido, há um abismo abissal que separa os dois casos. Uma coisa é pular em cifras, outra é atirar em causas. Além disso, se houve alguma irresponsabilidade, nela o jogador sem saber botou em risco a vida de outros. Já o jornalista imediatamente percebeu que havia sido irresponsável contra sua própria vida.

No entanto, mesmo que, por compartilhar de suas convicções, boa parte do mundo tenha – assim como eu – aplaudido a atitude do jornalista Muntazer al-Zaidi, ainda assim não estou aqui para defender a postura dele. Jornalista tem sim que ter convicções, mas não pode por conta delas atirar sapatos em um presidente, por mais detestável que este seja.

O fato é que, seja qual for a profissão, é fundamental que se busque constantemente o domínio próprio.

Ainda que muita gente fosse achar no mínimo interessante caso, aos 31 do segundo tempo, em plena “volta olímpica”, o jogador levasse uma microfonada de um repórter.

P.S. Quando a emoção está à flor da pele nos vemos aptos a atitudes que no dia-a-dia não ousaríamos, é certo. A pergunta é: será que nesse momento seu instinto (porque é ele que vale nessa hora) vai te levar a piscar números ou a brandir ideais? Como diria Platão, em sua “República”: “O ouro e a virtude são dois pesos no trato de uma balança. De tal modo que um não pode subir sem que desça o outro”.

21 de Março de 2009,
Ana Helena Tavares

Você pula em cifras ou atira em causas? no Recanto das Letras

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5.2.09

Para derrubar o presidente que eu nunca quis ser

- Dedicado ao meu amigo Abílio Mendes, por ser um doido que acha que eu mereço fazer meus rascunhos “em bloquinhos à la Picasso”.

Acordo e abro os jornais ainda a meio olho. De repente, o céu se queda escuro sobre meu único olho aberto e me dá uma vontade incontrolável de voltar ao travesseiro em busca de uma época mais minha.

Quero ser Hélio Fernandes para me libertar pelas grades e não me prender a cifrões. Quero ser Ben Bradlee para proteger rascunhos num bloquinho e ajudar a derrubar o presidente que eu nunca quis ser. Quero ser Robert Fisk para guerrear pela paz tendo como arma o microfone. Quero ser Fausto Wolff, Barbosa Lima, tanta gente, mas, antes, preciso me construir…

Abro o outro olho, pego novamente o jornal e, como que de longe, pareço ouvir citarem Millôr: “Jornalismo é oposição, o resto é armazém de secos e molhados”. Adoram isso, como é cômodo… Logo depois cospem ao mundo previsões catastróficas achando que isso é oferecer algo de útil para a construção da sociedade. Por que não fazer antes uma oposição a si mesmo? Qual a bandeira de quem faz sempre oposição a tudo? Podem dizer: jornalista não tem que ter bandeira… É lindo isso, mas ele tem, ainda que não deva hasteá-la no terraço do seu prédio.

Com os olhos ainda relutantes, o que vejo? O cifrão é o guru que liberta. A expressão “atrás das grades” virou chacota. O prender e o soltar se tornam, de forma cada vez mais visível, lados do ioiô que serve ao sórdido jogo político.

Um jogo regado a muito champagne – fajuto – daqueles para fazer vista… E uma boa dose de microfones e bloquinhos comprados a 1,99 (porque senão quebra a empresa) e vendidos a preço de ouro.

O mesmo jogo para o qual não interessa um presidente como o nosso. Bem que muitos deles queriam ser ele – o admiram – mas, afinal, precisam garantir o sustento. Emprego fixo está difícil, ainda mais para jornalista.

Quem sabe na cobertura de guerra? Mas antes é preciso ver qual lado dá mais… Ou seria qual lado vai explodir primeiro? Que tipo de torcida midiática é essa que em busca de inflar os próprios egos não vê a hora de um verdadeiro apocalipse para dizer: “Nós avisamos!”?

É triste, mas a lei é da oferta e procura. Se o trágico é tão oferecido é porque vende. E muito. Em toda a história da humanidade uma casa em ruínas sempre parou mais olhares do que um campo de girassóis.

O problema todo está em como se oferece o trágico. Para uma cobertura jornalística bem-intencionada, pode ter havido, digamos, uma explosão no botijão de gás da casa e os proprietários, gente humilde, já estão se reestruturando na casa de parentes. Para outro jornalista, pode ter havido um curto circuito na rede elétrica e os proprietários, gente humilde, estão desabrigados sem a devida assistência do governo.

Não é difícil um suicídio se tornar assassinato nas mãos de um editor. Como é fácil jogar números soltos pelas colunas de economia e dizer que aquilo aponta o fim do mundo. Que fim? De que mundo?

São tantas as perguntas que me vêm à mente, mais do que perguntas, inquietações. Por que Ben Bradlee seria demitido da Folha? Podem-se imaginar várias razões, mas a maior delas seria, sem dúvida, a feia mania de seguir seus instintos… Para que jornalista vai ter vontades se o mercado já as tem?

E Robert Fisk, por que não conseguiria trabalhar para a Globo em coberturas de guerra? Talvez porque um belo dia ele fosse preferir não voltar para a redação…

E Hélio Fernandes, por que não seria preso caso escrevesse algum artigo subversivo? Ah, estamos num país democrático… Diz-se de tudo e ouve-se de tudo.

Só falta se lembrarem de fazer oposição a um velho ditado. Notícias também podem ser boas.

05 de Fevereiro de 2009,
Ana Helena Ribeiro Tavares

————————–

P.S. Inquietação final: Por que este texto dificilmente seria publicado na grande imprensa? Porque, além de ser um tanto desconfortável, não dá lucro fazer oposição a si mesmo…

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