Traços de Estilo

“A poesia confunde-se com a prosa da mesma maneira que o poeta confunde-se com o homem da rua e já não pode nem deseja reivindicar para si a condição de eleito dos deuses.” (o poeta Gullar) “É preciso levar em conta as palavras que você escolhe, cuidar de cada sentença. É preciso ser sensível ao sentimento das pessoas.” (o jornalista Talese)

6.11.09

No sol de quase Dezembro - Uma crônica para Caê

“O Globo”, além de ignorar mais um prêmio recebido por Lula, tratou de ir mais longe, dando chamada de capa e página interior inteira a Caetano Veloso que, em entrevista ao “Estadão”, “no sol de quase Dezembro”, resolveu destilar preconceito ao chamar Lula de “analfabeto”. Haja lenço para tanta amargura!

Por Ana Helena Tavares (publicado também no Observatório da Imprensa e na minha coluna na Revista Médio Paraíba)

Por dever do ofício que escolhi, recebo todos os dias de manhã alguns jornais integrantes da chamada “grande imprensa”. Mas como pode ser chamada de grande uma imprensa que, mais uma vez, ignora uma premiação internacional recebida pelo Presidente da República?

O prêmio “Chatham House” de estadista do ano, recebido ontem por Lula em Londres por sua atuação como “um motor-chave da estabilidade e da integração na América Latina”, é um prêmio jovem, porém a instituição que o concede anualmente desde 2005 goza de prestígio mundial. Não é, portanto, um premiozinho qualquer que mereça ser ignorado ao ponto de não ganhar nem mesmo uma notinha de pé-de-página.

Sim, em pelo menos dois deles, não há sequer uma notinha, por menor que seja, em nenhuma editoria. Por contrários que muitos profissionais de imprensa sejam ao governo Lula e/ou à figura dele, abster-se de dar, ao menos, uma nota de rodapé sobre vitórias internacionais que não são de Lula, como ele mesmo fez questão de frisar, mas sim do povo brasileiro, me parece, no mínimo, a negação do direito à informação e, conseqüentemente, a negação do jornalismo.

Em 1994, nos meses em que se deu a implantação do plano real, o Brasil “contou” com o jurista e diplomata Rubens Ricupero, como ministro da Fazenda. Flagrado em uma conversa secreta com o jornalista Carlos Monforte, atualmente na Globonews, Ricupero declarou: “Eu não tenho escrúpulos: o que é bom a gente fatura, o que é ruim a gente esconde.” 15 anos depois, a atuação da grande imprensa brasileira inverte a máxima: com o ruim se fatura, o bom precisa ser escondido. Bizarro gosto pela tragédia.

Lula, em discurso realizado dia 29 de Outubro, em São Paulo, feito de improviso para uma platéia repleta de catadores de lixo que, como ele bem lembrou, são tão cidadãos como qualquer outra pessoa, aconselhou aos jornalistas presentes que “esquecessem a pauta dos donos de jornal e se misturassem àquela gente que lá estava”. Sábias palavras. O problema é que a matéria produzida sofreria muito para ganhar uma única notinha de pé-de-página.

Recentemente, Lula disse que “o papel da imprensa é informar, não é investigar”. Discordo: não há informação confiável sem investigação. No entanto, para publicar ao menos uma frase sobre a premiação que ele recebeu ontem, a “nobre e grande” imprensa não precisaria sequer praticar este cansativo trabalho chamado investigação. No ambiente democrático da internet, a notícia se espalhou como pólvora, com direito a fotos de Lula segurando o diploma referente ao prêmio. Mais um para a vasta série: “todos os diplomas do presidente”.

À revelia disso, “O Globo” de hoje, além de ignorar o prêmio, tratou de ir mais longe, dando chamada de capa e página interior inteira a Caetano Veloso que, em entrevista ao “Estadão”, “no sol de quase Dezembro”, resolveu destilar preconceito ao chamar Lula de “analfabeto”. Haja lenço para tanta amargura!

Ontem em Londres, Lula, contrariando sua praxe de improvisos (nos quais ele demonstra sempre uma oratória arrasadora, diga-se), terminou um de seus discursos, o qual leu (a propósito, analfabeto lê?), citando Drummond: “temos apenas duas mãos, mas o sentimento do mundo”. Drummond é de um tempo em que “da sala de linotipos vinha a doce música mecânica”, como ele deixou registrado em seu “Poema do Jornal”. Hoje, as linotipos já quase não existem e a “música” que vem das grandes redações brasileiras é de uma dureza que faria inveja ao mais pesado Heavy Metal.

A distorção que existe entre a cobertura do governo Lula dedicada pela mídia internacional e a dedicada pela mídia nativa é algo que torna flagrante a partidarização de uma imprensa de mão única, que está entregue a um punhado de clãs retrógrados. Vem aí a I Conferência Nacional de Comunicação. Antes que “o som que vem das redações” torne-se de tal maneira ensurdecedor que jogue de vez por terra a credibilidade de uma profissão que já foi doce, se fazem urgentes medidas que possam reverter este quadro.

Já ouvi dizerem: “Ah, os jornalistas do exterior nem sabem onde fica o Brasil”. Engano: acabou este tempo. O Brasil tem causado tanto interesse no mundo que, cada vez mais, correspondentes internacionais vêm fazer a vida aqui. Quem lê a maior parte das matérias que estes correspondentes enviam para seus países e quem lê os dados de uma pesquisa feita este mês pela empresa “Imagem Corporativa”, é levado a crer que, para jornais que vão do “The Washington Post” ao “Clarín”, do “Le Monde” ao “China Daily”, nós vivemos num país que reflete com fidelidade as palavras de Lula em um de seus discursos de ontem: “o Brasil cansou de ser o país do futuro”. Um país que nossas capas de jornal não conhecem e pelas páginas internas ele passa correndo.

Voltando às declarações de Caetano ao “Estadão”, repercutidas euforicamente pelo jornal “O Globo” de hoje, ele declarou ainda acreditar que “Marina é Lula mais Obama”. Marina, por sua vez, aproveitou a contestável matemática do baiano, e disse: “Isso (o que Caetano falou) mais do que agrega, congrega. Vai criando uma força de pensamento e de debate político que vai além de quaisquer candidaturas ou de acordos da política tradicional e coloca em cena a sensibilidade das pessoas.” Será que, depois de toda a sua história política, ela realmente acha que alguém que chama publicamente Lula de analfabeto tem a intenção de fazer algo parecido com “congregar” e de “colocar em cena a sensibilidade das pessoas”? Não posso crer.

E Marina ainda fez questão de frisar que se sentia muito honrada, pois Lula e Obama são dois grandes estadistas. Apesar de a eleição de Obama ter representado um avanço inegável, o frisson que se tem feito em torno dele é bem maior do que o que de fato lhe cabe. E Marina também não está com esta bola toda, mas, ao que parece, é o que ela acha. Respeito muito a trajetória dela, mas é lamentável que ela esteja tão nitidamente fazendo o jogo da imprensa golpista e que, com o claro intuito de se promover, tenha se pronunciado tão oportunistamente.

Mas quem disse que a fatídica “Folha de S. Paulo” não noticiou o tal prêmio? Noticiou ontem mesmo, no próprio dia, um verdadeiro furo de reportagem. Tão falso quanto a ficha da Dilma e o câncer do Fidel. “Estatais patrocinam prêmio concedido a Lula em Londres”, era o título. E a matéria dizia: “A lista de empresas que patrocinaram ou apoiaram o prêmio que o presidente Luiz Inácio Lula da Silva recebe hoje em Londres inclui três estatais (Petrobras, BB e BNDES), três empresas privadas brasileiras (Bradesco, Itaú e TAM) e várias companhias estrangeiras com interesses comerciais no país.” Mentira deslavada de um jornal invejoso com o claro intuito de desmoralizar o prêmio e diminuir sua importância. A Petrobras ainda se deu ao trabalho de apresentar em seu blog “Fatos e Dados” provas de que não patrocina o prêmio. Não sei se as outras empresas se pronunciaram de alguma forma, mas nem seria preciso: basta fazer uma pesquisa na extensa lista de membros e parceiros da “Chatham House”, disponível no site da instituição, para se constatar o tipo de prática da Folha.

Eu pergunto: isto é Jornalismo? Ou “jornaleirismo”?

A Serra S.A. (patrocinada por Globo, Folha, Estadão e Veja, entre outros) não engole, de jeito nenhum, que um presidente com a origem humilde de Lula ostente 81% de avaliação positiva, tenha conseguido trazer as olimpíadas de 2016 para o Rio de Janeiro e, agora, ainda ganhe mais um entre tantos prêmios. Quando Lula ganhou, em Julho, o Prêmio da Paz da UNESCO, a notícia até foi dada, com muito esforço, em páginas internas da grande imprensa. Isso porque era da UNESCO. Sabe como é, são muitos prêmios num mesmo ano, isso incomoda. É grande a dor-de-cotovelo de determinados setores que não se conformam com o fim da ditadura. Imaginem o tamanho do baque que levarão se, confirmando-se a expectativa de muitos, a grande imprensa for obrigada a noticiar que Lula ganhou o Nobel da Paz?

Sinceramente, nem quero imaginar o que farão (ou deixarão de fazer). Mas uma coisa eu sei, por dever do ofício que escolhi, talvez chegue o dia em que, estando numa redação de jornal, já irritada com o calor de Dezembro, eu ainda tenha que ouvir: “Pessoal, o FHC foi eleito síndico do Empire State! Vamos dar primeira página”.

06 de Novembro de 2009,
Ana Helena Tavares

Outros locais onde este texto está:

No sol de quase Dezembro - Uma crônica para Caê no “youPode”

No sol de quase Dezembro - Uma crônica para Caê no “Quem tem medo do Lula?”

No sol de quase Dezembro - Uma crônica para Caê no “Recanto das Letras”

No sol de quase Dezembro - Uma crônica para Caê no blog “Você passa por aqui”

No sol de quase Dezembro - Uma crônica para Caê no blog da Adriana Tasca

criado por Ana Helena Tavares    22:11:15 — Arquivado em: Artigos, Crônicas, O dia-a-dia, Os dias lindos* — Tags:, , , , ,

30.9.09

Sobre jornalistas e designações

O Jornalista Carlos Alberto Sardenberg, da rádio CBN, teve, no último dia 28 de Setembro, a brilhante idéia de entrevistar Marco Aurélio Garcia, assessor da presidência para assuntos internacionais, a respeito da situação em Honduras. Sardenberg disse o que foi adestrado a dizer, teve que ouvir o que não quis.

Teve que ouvir, por exemplo, que agora o mundo resolveu colocar a culpa de tudo no Hugo Chávez, teve que ouvir que a imprensa está transformando o mocinho em vilão, ao condenar Zelaya, teve que ouvir que ele próprio, Sardenberg, não tem credibilidade para falar de Honduras e por aí¬ vai. Um papelão daqueles para um Jornalista tarimbado. Simplesmente tragicômico.

Encurralado, Sardenberg titubeou em vários momentos e, quando Marco Aurélio Garcia reclamou dos jornalistas que estão usando o termo “interino” para Micheletti, aí Sardenberg conseguiu o feito de produzir uma das falas mais hipócritas que eu já ouvi de um Jornalista. Disse que “não é uma questão de nome, de designação, a questão é que eles estão lá, estão governando”. Ora, ora, será que tantos anos de Jornalismo não ensinaram a Sardenberg o poder manipulador da palavra? Como pode chegar a cara-de-pau de dizer que nomes e designações não são importantes?

Se for assim, da próxima vez que me assaltarem, vou ligar pra CBN e dizer: podem noticiar que meu dinheiro está com um proprietário interino. Se a pessoa me perguntar o porquê, nem titubeio, digo logo: pergunte ao Sardenberg, provavelmente ele vai dizer que a expressão é válida, afinal as designações não fazem diferença alguma e a questão toda é quem está gerenciando as minhas finanças naquele momento, não é?

30 de Setembro de 2009,
Ana Helena Tavares

Obs: Para ouvir a tal entrevista, clique aqui.

criado por Ana Helena Tavares    20:48:59 — Arquivado em: Artigos, O dia-a-dia — Tags:

10.9.09

Lula: Um dicionário rico e coerente

Wilson Dias  Ag. Brasil 7 de Setembro 2009Sociólogo desde criancinha e anti-racista da gema, o jornalista Ali Kamel lançou recentemente um livro, muito divulgado pelo PIG, chamado “Dicionário Lula”. É claro que, sempre que encontra jeito, ele não perde a oportunidade de alfinetar o presidente, mas Kamel apresenta nesse livro duas conclusões surpreendentes para quem conhece sua histórica cruzada anti-lulista. Uma é: “Lula emprega mais de dez mil palavras (em seus pronunciamentos de improviso), o que equivale ao léxico de pessoas cultas (seu léxico é bem variado, e inclui palavras cultas e mesmo raras).” Outra é que, segundo Kamel, Lula é bastante coerente, visto que dificilmente seus discursos apresentam mudança de posição.
Quem diria…

10 de Setembro de 2009,

Ana Helena Tavares

Obs: Texto escrito originalmente para o blog “Quem tem medo do Lula?“.


criado por Ana Helena Tavares    17:36:45 — Arquivado em: Artigos, O dia-a-dia — Tags:, ,

17.8.09

De Simon para baixo

Foto: Gustavo Miranda

Simon é tão coronel quanto os que por agora “enfrenta”.
Mas, se depender de nossa grande imprensa, ficaremos até 2010 nivelando o Congresso de Simon para baixo.
Por Ana Helena Tavares
Quer dizer que Pedro Simon (PMDB-RS) acaba de se transformar no último dos moicanos? Paladino da moral e dos bons costumes, sobrevivente de um Congresso que não sabe mais o que é ética. Vejam o que faz uma imprensa vendida ao cacifismo.
Não, não é só o nordeste brasileiro que conhece coronéis. O sul também os conhece. O governo Lula é corrupto, diz Simon, e no estado natal do senador vai tudo bem? Yeda Crusius (PSDB-RS) navega em mar de denúncias sobre corrupção e seu padrinho Simon não tem nada a declarar. Entendi.
Em entrevista concedida, por telefone, em 04 de Agosto, ao programa “Acorda pra vida”, apresentado por Raimundo Varela, na TUDO FM 102,5, o senador Pedro Simon disse que o presidente Lula quer manter o Senado “por baixo, porque assim ele se sente mais à vontade para conduzir o seu pensamento”. Pena que Pedro Simon não se sinta “à vontade” para combater a corrupção no RS.
Mas sente-se “à vontade”, livre, leve e solto, para declarar hoje, 17 de Agosto, em plenário do Senado, que Lula deveria “calar a boca” ao invés de ficar fazendo comentários sobre a denúncia feita pela ex-secretária da Receita Federal, Lina Vieira, de que a ministra-chefe da Casa Civil, Dilma Rousseff, a teria mandado apressar uma investigação que vinha sendo feita nas empresas da família do presidente do Senado, José Sarney (PMDB-AP). Se Lula se dá ao trabalho de abrir a boca para defender Dilma com veemência, obviamente é porque acredita nela. Mesmo porque não há prova absolutamente nenhuma quanto a essa denúncia, já quanto à corrupção no governo de Yeda Crusius… Ah, tá, mas aí, quem prefere calar a boca é Simon. Sabe-se lá em quem ele acredita.
Sabe-se lá em quem a imprensa brasileira acredita. Cabe perguntar: será que acredita nela mesma? Os mártires da vez são Collor e Sarney. Ora, ora, que grande descoberta fez a nossa grande imprensa! Descobriu agora que eles são execráveis, desprezíveis, baixos. E eles são mesmo isso tudo? São políticos da pior espécie? São. Basta estudar rapidamente suas biografias. Mas sempre flanaram junto com o vento, ou melhor, junto com as cifras, ou melhor ainda, junto com os editoriais. Quando eles interessavam aos barões midiáticos, Collor e Sarney foram reis. Agora, que não mais interessam, viram bandidos chave-de-cadeia. Bem, mas isso até chegarem perto das grades, porque, nessa hora, sempre flanará uma folha amiga, um globo salvador, que lhes pague a fiança. Ao contrário disso, peço que me digam em que momento nossa grande imprensa tomou as dores do ex-retirante que hoje ocupa o Planalto com mais de 80% de aprovação popular.
Mas a patética mídia nativa tem novo rei. O destemido Pedro Simon, que resolveu enfrentar os coronéis no Congresso. Triste de um país que, na busca desesperada por heróis, é enganado por sua grande imprensa, e endeusa corajosos de ocasião. Quando a figura ápice da honestidade em um Congresso é aceita por muitos cidadãos como sendo um senador que acoberta a corrupção em seu próprio estado, há algo muito errado.
Fico me perguntando: há bravura seletiva? Pavlov ia adorar responder a isso, mas nem é preciso. Há seleções e seleções, claro, mas, quando há interesses políticos envolvidos, tudo é seletivo.
Simon é tão coronel quanto os que por agora “enfrenta”, mas, se depender de nossa grande imprensa, ficaremos até 2010 nivelando o Congresso de Simon para baixo.
17 de Agosto de 2009,
Ana Helena Tavares
criado por Ana Helena Tavares    16:48:03 — Arquivado em: Artigos — Tags:,

5.8.09

Honduras e os “pacotinhos vazios”

Sempre que a democracia procura fortalecer-se por meio de consulta popular, a elite conservadora sente-se ameaçada e, tendo chance, tira o pó dos canhões. A ambição desenfreada dos que nasceram para o coronelismo não aceita que o povo, que pra eles só presta manipulado, enxergue com seus próprios olhos.

Assim foi no recente golpe militar em Honduras e não duvido que na caserna ainda repouse o sonho dourado da extrema direita brasileira. Os que ontem apoiaram o chumbo e que hoje continuam no poder, espalhados pelo Congresso, até podem fingir apoiar a paz, mas essa máscara não lhes segura no rosto.

Contar com a ignorância do povo sempre foi ferramenta fundamental de opressão política. Júlio César já sabia disso. Aqui e em Honduras, a elite conservadora mantém isso em comum: a voz deles é a voz de Deus, portanto povo não tem voz.

Pergunte a um dos vários coronéis que hoje em dia andam batendo boca no Congresso brasileiro se quando ele olha para uma criança desnutrida no nordeste brasileiro ele enxerga alguma coisa além do voto que os pais dela poderão dar a ele nas próximas eleições; pergunte aos militares que tomaram o poder em Honduras se há alguma relação entre povo e democracia. Você nunca irá ouvir esses nãos, mas nem é preciso.

Contudo, eu ainda quero crer que o progresso na democracia das Américas seja sólido. Falo do Brasil, claro, que, apesar de ainda ter que conviver com uma corja de congressistas que parece saída dos porões da ditadura, conseguiu elevar à cadeira mais alta do planalto central um homem que luta pela paz. Falo da América do Sul – Bolívia, Colômbia, Equador, Paraguai, Venezuela – e ouso incluir os Estados Unidos, porque, se ainda não chegaram ao ideal, ao menos Barack Obama é infinitamente melhor que o neurótico militarista, George Bush. Quero acreditar, ainda, que estes avanços que têm sido vistos sejam, cada um, um grão de areia e que, juntos, possam significar um processo mundial lento, porém paulatino, que possa trazer a tendência de que as verdadeiras ditaduras caiam uma por uma, como já estão caindo para ameaça dos que duvidam do direito civil.

Reclamar seus direitos, cobrar deveres daqueles em quem bem mais que um voto, se depositou confiança. Quantos no mundo podem fazer isso e não fazem? Quantos não podem e nem sabem o porquê?

Naquele domingo em que a democracia foi apunhalada pelas costas em Honduras, com um presidente sendo deposto de pijama por homens encapuzados que lhe apontavam rifles, o que de fato o mundo fez? A OEA e outros órgãos internacionais até ensaiaram uma reação que, infelizmente, já não parece estar com o mesmo fogo depois de toda a palha queimada nos primeiros dias.

E como reage nessas horas a população mundial? A imprensa brinca com os fatos a seu bel prazer, principalmente em coberturas como essa, e boa parte do mundo assiste a tudo isso como se estivesse eternamente sentado num sofá com pipocas e uma aventura de Rambo na tela. Só que isso é vida real. Vidas têm sido perdidas e a omissão não está listada entre os famosos sete, mas talvez seja o pior dos pecados. Das muitas besteiras que eu já disse até hoje, não me arrependo por tê-las dito; arrependo-me muito mais pelas que deixei de dizer e, assim, deixei de descobrir se eram ou não besteiras.

Os homens nascem com total liberdade de pensamento. Podem e devem valer-se dela ao longo da vida. É natural que quem tem um pensamento conservador chie com a possibilidade do progresso; é natural e vital que os progressistas da esquerda chiem junto para defender as idéias em que acreditam; o que não é natural, ou não deveria ser, é o comodismo, a apatia, a inércia.

Só plantando paz é possível colhê-la. É humanizar e ser livre, ou autodestruir-se.

Mas, ainda que não seja regra geral, a tendência mundial são eleições livres e só elas podem fortalecer a democracia. Se mudanças são a única certeza que temos diante do futuro, não se pode deixar de acreditar que isso possa se tornar regra. Ainda que o apoio internacional a Zelaya seja tímido, eu não acredito que, num mundo globalizado como o nosso, em que, em maior ou menor escala, todos os países precisam de todos, Honduras vá conseguir sobreviver muito tempo como ditadura. Uma hora, a diplomacia vai ter que dar certo; uma hora, algum acordo vai ter que funcionar.

Tantos homens de gabinete jogando promessas ao vento à espera que o vento se reforme por si… Tanta diplomacia de factóide, tantos acordos de mãos vazias… Pra que servem mesmo, hein? Onde está a paz?

“Sei lá. O melhor é não procurar muito. Tragam pacotinhos vazios. A paz deve estar lá dentro.” Carlos Drummond de Andrade talvez respondesse isso. Talvez para nos lembrar que as mudanças da vida sempre seguem seu rumo e, às vezes, a paz é algo que chega quando a gente menos espera.

05 de Agosto de 2009,
Ana Helena Tavares
criado por Ana Helena Tavares    16:44:06 — Arquivado em: Artigos — Tags:, , ,

11.7.09

Juntando os pedaços

-> Dedico este artigo a todos os ex-presos políticos deste país.

Anos de chumbo, anos pautados pela dureza. Uma pauta encapuzada, protegida pelos setores conservadores que crêem na mão pesada como saída.

Nosso país, porém, saiu da ditadura a qual se viam os capuzes para mergulhar em anos de uma hipocrisia perigosa. Uma hipocrisia compactuada pela parcela podre da mídia, saudosa dos anos de repressão em que se acreditavam mais felizes. Saber-se sob controle exerce estranho fascínio, mesmo em mentes das mais instruídas, vai entender. Isso sem falar naqueles fascinados por exercê-lo.

Um fascínio que se mantém na velha política dos coronéis. Capangas ciceroneiam o principal juiz de nossa mais alta Corte. Seguranças engravatados do presidente do Senado recebem equipes de reportagem com truculência. Talvez na esperança de que, assim, pareça que eles precisam lutar com a imprensa. Como se já não tivessem um exército de repórteres vendidos a eles. Só que os corredores de nosso Congresso estão corroídos por inúmeras mazelas, as quais estão longe de se resumirem a um único ladrilho defeituoso, como tentam sugerir os “filiados” ao Partido da Imprensa Golpista.

Por mais que o presidente do Senado seja legítimo representante do pior que a política pode oferecer, não consigo deixar de me revoltar quando vejo ele ser chamado de “o último coronel da política brasileira”. Basta visitar o nordeste e ter um dedinho de prosa com o povo simples da região que eles dão conta direitinho de quantos coronéis nossa política ainda abriga. Jader Barbalho e Renan Calheiros devem estar enciumados. Já os imagino se perguntando: “Então será que não somos mais coronéis do nordeste?” Deve haver até ex-presidente com ciúmes dessa história – aquele que teve que aturar os caras-pintada nas ruas gritando para derrubá-lo – e o derrubaram – que hoje é um dos maiores latifundiários deste país, dono de canaviais, arrozais e cultivo de soja, em vastas áreas a perder de vista, infestadas de jagunços armados. Pela grande-imprensa eu nunca vi passarem esses latifúndios, só se passaram correndo por notas de pé de página. É explicável: para os donos da mídia o MST é terrorismo, mas os capangas e jagunços rurais que matam trabalhadores a sangue frio podem ficar impunes.

Capangas, seguranças armados, jagunços… Estão longe de um charme de um 007, mas os desafie de verdade e tenho certeza que, assim como o agente secreto da rainha inglesa, eles também “têm licença para matar”. Assim como quem os paga se julga com “licença” para ludibriar constantemente o povo.

É, portanto, um constante jogo de aparências que já não permite que a sociedade enxergue com precisão onde estão seus algozes. Mas lá estão eles. Os de hoje, que usam outros métodos, e os de ontem, escondidos do grande público, caminhando impunes pelas ruas desse Brasil, depois de pagarem com a morte o idealismo de tantos brasileiros.

Alguém viu por aí o Tenente Coronel José Ney Fernandes Antunes? De 68 a 71 ostentava o cargo de “conselheiro” dentro da Polícia do Exército. Hoje é provável que esteja tranqüilamente dando conselhos aos seus netos.

Viram por aí o Tenente (torturador) Armando Avólio Filho? Ah, sim, consta que está reformado como general.
E o Tenente (torturador) Luiz Mário Correia Lima? Ah, minha gente, vejam vocês, esse foi até condecorado! Foi promovido a major e hoje deve desfilar impunemente naqueles melancólicos encontros de oficiais da caserna com honrarias no peito conferidas a ele por seu empenho na captura de “terroristas”. Só o que as medalhas não trazem escrito é o que significam terroristas para ele.

É possível que esteja também solto por aí aquele que era conhecido como o “Tenente Mata Rindo”. Dá para imaginar isso? O sujeito era tão sem piedade que tinha declarado prazer em matar, não escondia o riso. Isso para mim já é doença. E o pior é a sensação de que uma pessoa dessas possivelmente continua rindo por aí, sabe-se lá fazendo o que, sabe-se lá rindo de que. Mas solta – livre, leve e solta!

Dessa maneira, fica até fácil entender o medo que alguns ex-presos políticos mantém ao sair às ruas. Só eles sabem de fato o que passaram e o trauma que ficou. O Brasil precisa lhes dar alguma tranqüilidade, precisa dar uma indenização que vai muito além do vil metal. Eu não tenho dúvidas de que a punição a esses monstros que assombraram nosso país seria para os tantos que sofreram nas mãos deles a maior condecoração que poderiam receber. E eles, sim, merecem.

Cresci ouvindo a triste história do meu tio, Carlos Aberto, ex-preso político que sofreu o pão que o diabo amassou, mas, felizmente, sobreviveu. E, não fosse isso, tenho amigos ex-presos políticos. Com um desses amigos, que prefere ser identificado como Freitas, eu conversei recentemente sobre aquela época. Foi essa conversa que me inspirou a escrever este artigo, tendo sido, inclusive, o Freitas que me passou os nomes dos militares que participaram das torturas naquela época e que ainda estão vivos – e impunes. Além dos já citados, ele me contou também sobre o 2º Sargento (torturador) Eli, do qual ele diz que não se esquece porque era a cara do jogador de futebol Ademir da Guia. O 2º Sargento Eli teria lhe dito num bar na Rua Maia de Lacerda no Rio Cumprido, já depois de ele ter sido solto: “Suma do Rio ou vamos lhe matar da próxima vez!” E, assim, lá se foi o Freitas para São Paulo. Também esse Eli deve estar gozando da vida livre.

Assim como o Cabo Gil, que era também enfermeiro. Segundo Freitas, quando ele estava preso, este era o que aplicava injeções para que ele revivesse as sessões de tortura. Sempre a mando do médico responsável, o Tenente Drº. Ricardo Agnase Fayad, e, ainda, de outros militares médicos que andavam com uma prancheta dando os óbitos.

Freitas fez questão de que eu citasse alguns dos companheiros que foram torturados com ele, então vamos lá: Djalma (Touro), Elias (padeiro e mineiro) e Loira, morta no choque no dia 10/11/70.

Na entrada das sessões de tortura, havia o corredor polonês, feito por vários militares. Essa também era uma prática da polícia civil, Dops e Polinter quando prendiam grupos de “terroristas”, conforme eram tratados todos os capturados, e o corredor polonês eram as “boas-vindas”.

Eu não vivi aquela época. Nasci bem no finalzinho do exato ano em que Tancredo Neves, Ulysses Guimarães, Leonel Brizola, Luís Inácio Lula da Silva e, até mesmo, um FHC bem diferente do que ocupou o Planalto, subiam juntos a palanques para gritar que as eleições tinham que ser diretas e tinham que ser já! Ou seja, cheguei a esse mundo doido e a esse Brasil de tantas contradições, ganhando de presente de boas-vindas a democracia. Pena que hoje eu veja essa democracia, conseguida a tão duras penas, ameaçada por todos os lados pela pior das ameaças que existem – aquela que vem sob o disfarce de benefício.

Falsos paladinos da liberdade e da moralidade têm se proliferado mais que cupim. Nosso sistema judiciário está entregue a pessoas que se julgam os donos do mundo. Como posso me alegrar, encher o peito e dizer – “Nasci e até hoje vivo num país democrático” – quando vejo jornalistas serem censurados por fazer jornalismo? Recentemente houve um vergonhoso caso de censura no jornal “O século diário”, do ES, mas outros podem ser citados. O juiz que anda com capangas e anuncia ao país que “jornalista não precisa de diploma porque isso é uma afronta à liberdade de expressão” é doutor honoris causa em baixar ordens para censurar a imprensa. E, ainda assim, ele consegue fazer com que boa parte da sociedade acredite que ele tem alguma vocação para timoneiro da democracia.

Ainda bem que Ulysses morreu no mar, então não dá nem para dizer que ele está se revirando no túmulo…

11 de Julho de 2009,
Ana Helena Tavares

criado por Ana Helena Tavares    16:26:45 — Arquivado em: Artigos — Tags:,

3.7.09

Sobre abusos e leviandades



Impressiona-me a facilidade com que FHC atribui a Lula adjetivos como “leviano”, “imprudente”, “irresponsável”.Um ex-governante que nega seus oito anos de neoliberalismo, um partido que não sabe onde está a democracia, muito menos a social e que, se dependesse deles, tinham vendido a Petrobras, convenhamos, não podem falar de irresponsabilidade ou imprudência. A um ex-presidente que fala sem pensar ao ponto de soltar uma das declarações mais levianas que já ouvi – “Ai, que saudade do governo militar, onde eu podia falar”? - o que resta?

Por Ana Helena Tavares

“O presidente Lula, às vezes, abusa das palavras. Sabe que, se o presidente do Senado eventualmente renunciasse, haveria uma nova eleição. Eu lamento que o presidente diga coisas tão levianas”. Essa foi uma das últimas declarações públicas de nosso falastrão ex-presidente FHC na última quinta-feira, 02 de Julho. Nem pra comédia pastelão serve.
FHC é de tão triste figura que nem sequer percebe que há muito já perdeu a graça. Até para “abusar das palavras” é preciso coerência, é preciso classe. Uma classe que muitos desfilam pelos quadros da Sorbonne, mas raros são os que saem de lá para aplicá-la nas ruas. Deve ter sido lindo para os alunos de “Monsieur FHCÊ, o príncipe dos sociólogos”, aprenderem nas cadeiras da sacrossanta universidade parisiense os ensinamentos de Marx e, anos mais tarde, em 2002, ao final do governo neoliberal de FHC aqui no Brasil, ouvirem dele: “Nunca houve nenhuma chance de neoliberalismo aqui. Este é um país muito pobre e o Estado sempre terá um papel importante na atenuação de diferenças sociais.” (declaração dada ao “Financial Times”). Acho que ele queria que a gente risse, mas nem por isso.
Aí vem FHC criticar Lula pela defesa de Sarney. Curioso. Durante bom tempo do governo FHC, Sarney servia para ser aliado. Unha e carne. Tenho certeza que, quanto a Sarney, se já não prestava naquela época, pouco mudou de lá pra cá. É absolutamente o mesmo. Ah, só que o jogo político se inverteu. Sarney já não serve mais para FHC e para seus abusos. E, caso a saída dele sirva para desestabilizar o atual governo, ótimo. A que papel FHC tem se prestado nos últimos anos senão a tentativas vãs de criar um descrédito sobre a figura de Lula para ver se alcança uma nesga de esperança de voltar a ter alguma importância na cena política brasileira? Isso é o que eu chamo de pensar no país.
No jogo pesado da política reforçado pela numerosa parcela medíocre da imprensa que se vende a ele, não há altares de pureza, há palanques até embaixo de tapetes. É um jogo de causar inveja ao mais maquiavélico jogador de pôquer. Roberto Marinho entendia dos dois jogos. FHC lecionou sobre Maquiavel. Conhece bem os tortuosos túneis da política (ou seriam “passagens secretas”?), aqueles da “arte” do bem encobrir, dos “alguéns” a proteger. Por tudo isso, desconfio sempre muito de “demonizações” exacerbadas, qualquer que sejam elas, ainda que, como é o caso de Sarney, a pessoa não seja flor que se cheire. Isso porque, aqueles que hoje levantam a voz contra ele fazem parte do mesmo jardim.
Ah, como eu queria que o problema se resumisse à queda do presidente do Senado! Seria muito mais fácil, só que, para a coisa ser justa, muitos precisariam cair com ele.
Senão vejamos… Por que será que ninguém ainda parou para assumir de onde se origina a alçada das irregularidades encontradas em contratos, atos administrativos e passagens aéreas no Senado? Tudo isso está (ou deveria estar) sob os olhares atentos da primeira-secretaria que, historicamente, é comandada pelo DEM. A atual gestão está aí para não me deixar mentir. O primeiro-secretário da Mesa Diretora do Senado é Heráclito Fortes (DEM-PI). Ou seja, parece claro que, se há contas a prestar, o DEM também tem que prestá-las. Mas isso não é falado pela imprensa, não é? Pra que?
Leviandades por leviandades… Impressiona-me a facilidade com que FHC atribui a Lula adjetivos como “leviano”, “imprudente”, “irresponsável”. Ora, a declaração de FHC sobre Lula, dada ontem e que aparece no início deste texto, refere-se à fala de Lula de que “o PSDB tenta ganhar no tapetão ao pedir o afastamento de Sarney”. Há alguma mentira aí, “Monsieur FHCÊ”? Aliás, de tapetão o senhor entende, não é? Conte aqui só para a gente… Como foi mesmo que o senhor conseguiu o apoio da maioria dos deputados para a aprovação da sua reeleição em 98, sem uma consultazinha popular sequer? Ah, já sei, é que o senhor sempre distribuía balas no Congresso no dia de São Cosme e Damião, não é?
Um ex-governante que nega seus oito anos de neoliberalismo, um partido que não sabe onde está a democracia, muito menos a social e que, se dependesse deles, tinham vendido a Petrobras, convenhamos, não podem falar de irresponsabilidade ou imprudência. A um ex-presidente que fala sem pensar ao ponto de soltar uma das declarações mais levianas que já ouvi – “Ai, que saudade do governo militar, onde eu podia falar”? - o que resta?
Só merecia mesmo retornar à Sorbonne e perceber que, hoje em dia, os alunos de lá preferem ouvir o Lula.

03 de Julho de 2009,
Ana Helena Tavares

criado por Ana Helena Tavares    17:02:10 — Arquivado em: Artigos — Tags:, ,

21.6.09

Monteiro Lobato precisava estar aqui

acervo UNICAMP)

Monteiro Lobato na redação da "Revista do Brasil" (Foto: acervo UNICAMP)

Sou estudante de jornalismo. Sim, estudante. É o fato de eu estar na faculdade que me garante esta condição? Não! Todo ser humano tem a capacidade de ser um autodidata, de estudar por sua própria conta – e risco. É claro que há louváveis exceções à regra, sempre há, mas queimar etapas tem seus perigos.

O risco que corre, principalmente no mundo de hoje, alguém que queira entrar para o jornalismo sem a formação adequada e sem o amparo de um diploma é o mesmo que corre alguém que pretenda ser mestre-cuca e já comece longo tentando fazer uma omelete sem nunca ter fritado um ovo. É o risco de amargar bocas.

Matérias de jornal podem causar uma revolução na sociedade. Watergate não me deixa mentir. Textos mal-intencionados têm o poder de amargar multidões. Aí poderão dizer: “Só que não é a faculdade que garante ética a um profissional”. E não é mesmo! Mas, se dentro do ambiente acadêmico a pessoa tiver oportunidade de ir fritando alguns ovos antes de fazer aquela omelete especial, tendo acesso a atividades como, por exemplo, jornais laboratório, certamente chegará ao mercado de trabalho já conhecendo, na prática, o significado, para o bem e para o mal, dessa bela palavra de cinco letras. Aí a escolha é de cada um. Aliás, como sempre.

Da minha parte, digo que já fritei alguns ovos e, mesmo assim, ainda não me sinto preparada para fazer uma omelete. Vocês poderão supor, então, que eu estou querendo dizer que será o diploma que me fará preparada para servir um banquete. Não, porque, no meu caso, morrerei achando que em todos os bolos que eu fiz sempre ficou faltando uma cereja. A perfeição é inalcançável, tenha você ou não um diploma. Mas, se o tiver, você, pelo menos, terá algumas chances a mais de já não cometer, diante de um público de milhares, aquele mesmo erro que cometeu dentro das quatro paredes de uma sala de aula ou de um laboratório de pesquisa universitária. Como bem dizem os verdadeiros mestres, ali é o lugar de errar – e de pensar. Talvez por isso o desespero de Mendes. Um ser pensante é tudo o que menos ele quer ver pela frente.

É totalmente paradoxal ver a decisão de um juiz que crê numa imprensa sob censura, como já deu mostras disso, ser defendida por pessoas que, para tanto, se baseiam na infundada alegação de que a lei que instituiu a obrigatoriedade do diploma teria sido um artifício da ditadura militar para cercear a liberdade de expressão. Visto que, segundo dizem, isso afasta da imprensa os profissionais de outras áreas. Parece-me que há aí dois grandes equívocos.

Primeiro ponto: com relação à obrigatoriedade do diploma entendida como armadilha da ditadura, é um argumento tão sem fundamento que as pessoas nem sequer se lembram que o sistema deles não dependia de uma fórmula assim tão complexa: simplesmente censuravam ou, como ocorreu tantas vezes, prendiam e, se preciso, iam mais longe. Herzog não tinha diploma de jornalista e não foi através da obrigatoriedade do diploma que a ditadura o silenciou. Segundo ponto: advogados e médicos, só para citar duas grandes áreas, nunca foram impedidos de escrever em jornal ou, tampouco, de expressar suas opiniões em qualquer veículo de comunicação, mesmo não tendo o diploma de jornalista nem, muito menos, o registro profissional. Aliás, muito ao contrário, até pela inexistência do curso de jornalismo antigamente, sempre foi farta a quantidade de pessoas sem formação específica ou profissionais formados em outras áreas exercendo normalmente a função de jornalista. Ou seja, cadê a tão falada ameaça à liberdade de expressão relacionada à obrigatoriedade do diploma?

Só que a grande maioria dessas pessoas que hoje exercem o jornalismo sem diploma e que, segundo afirma a própria ANJ, não são maioria no mercado, vem de outros tempos. Vem de tempos em que redação era celeiro. A redação acolhia e ensinava. Para se ter uma noção, o jovem idealista Monteiro Lobato, saído do interior de São Paulo e formado advogado por imposição do pai, chegou a fundar um pequeno jornal com seus colegas na Faculdade de Direito e foi, por muitos anos, colaborador do “Estado de São Paulo” e da “Revista do Brasil”, publicações do mesmo grupo editorial. Segundo os biógrafos de Lobato, a redação do “Estadão” e também a da “Revista do Brasil” teriam sido os locais onde ele aprendeu a lapidar seu estilo. Hoje em dia, alguém consegue imaginar as redações dos grandes jornais exercendo tal papel? Quando vejo afirmações do tipo - “Há lugar para todos nas redações” - como tenho visto por aí, fico imaginando o jovem Lobato chegando hoje, 2009, à redação do “Estadão”, vindo lá do interior, sem ser conhecido ainda, trazendo na bagagem tão somente muito idealismo e um diploma de advogado. Sem, porém, nenhum preparo para trabalhar com imprensa, apenas a nobre disposição de aprender. Alguém tem dúvidas da recepção “calorosa”?

Vejam, então, como são hipócritas os barões midiáticos que hoje falam em “ganho de diversidade” ao se dizerem satisfeitos com o fim da obrigatoriedade do diploma. A diversidade sempre existiu, o diploma jamais a tolheu, e, dentre tantos outros interesses por trás dessa euforia, está o de que poderão reduzir salários drasticamente. Só que a hipocrisia chega a tal ponto que eu tenho certeza de que esses mesmos barões, que andam soltando seus fogos em editoriais, continuarão dando mais valor a estagiários vindos dos bancos das faculdades de jornalismo e a profissionais diplomados por elas. E, nisso, salvos alguns raros mais espertos, os Lobatos de hoje são engolidos.

Por isso, é claro que as academias sofrerão um forte baque, principalmente aquelas que não se adequarem às novas tendências do Brasil e do mundo, mas, ainda assim, essa decisão, que ainda acredito que possa ser revogada, está longe de significar o fim dos cursos de jornalismo e a derrocada de sua importância. Ao contrário disso, até acho que o que Mendes conseguiu foi o efeito contrário do que desejava.

Setores importantes da sociedade estão discutindo essa questão e, se o congresso resolver entrar nessa briga, ainda há, sim, esperança de que o jornalismo que, pelo menos pra mim é uma missão, consiga voltar a ser entendido como uma profissão, que de fato assegure um amparo a quem a exerce.

Por isso tudo, sou estudante de jornalismo e vou continuar sendo.

21 de Junho de 2009,
Ana Helena Tavares

Monteiro Lobato precisava estar aqui no Observatório da Imprensa

Monteiro Lobato precisava estar aqui no Recanto das Letras

Monteiro Lobato precisava estar aqui no YouPode

Monteiro Lobato precisava estar aqui na Revista Púlpito

Monteiro Lobato precisava estar aqui no blog do Prof. PC

Monteiro Lobato precisava estar aqui no blog do radialista mineiro Carlos Ferreira

Monteiro Lobato precisava estar aqui na rede social Jornalista, só com diploma!

criado por Ana Helena Tavares    20:32:02 — Arquivado em: Artigos, Crônicas — Tags:

12.6.09

O dom de irradiar esperança - JK, Lula e a imprensa

- Não posso deixar de dedicar este artigo, com esta temática política tão especial, ao meu mestre e amigo Gilson Caroni Filho. Assim, faço jus a quem irradiou em mim o gosto por analisar a mídia e o encantamento pelas ciências políticas.

Inúmeras já foram as vezes que Lula se comparou a JK. “Não acredito em quem não tem objetivos, não tem projetos, não sonha alto. Eu acredito em gente como Juscelino”, declarou Lula a Claudio Bojunga para o livro “JK - O Artista do Impossível”.

Incontáveis são as vezes que Lula é atacado por conta desta comparação. “Quando vejo o Lula se comparar com Deus, todo poderoso, não me importo. Quando o vejo se comparar a Getúlio Vargas, também não dou muita importância. Mas eu realmente saio do sério quando vejo o apedeuta (ignorante, pessoa sem instrução) querer se comparar ao JK.”, já chegaram a dizer em um dos milhões de blogs espalhados pela rede. Ora, por que esta comparação tira tanta gente do sério? Será então porque JK era médico e Lula largou cedo os estudos regulares? Francamente! Como são apedeutas os que pensam assim! Principalmente aqueles que gostam de se colocar na posição de “deuses”, acima dos “meros mortais”, usando palavras como “apedeuta” e achando que é isso que vai mostrar alguma coisa nessa vida. Senão vejamos… Os EUA que o digam… George Bush ostenta diploma de historiador (vejam isso…) e Abraham Lincoln (considerado um dos maiores presidentes dos EUA) jamais cursou escolas regulares. Será que restam dúvidas de que não é isso que influencia?

Que a ascensão à presidência de uma pessoa como Lula incomoda a muitos, nós sabemos. Só o fato de aquele retirante estar lá no Planalto já enfurece muita gente, é de se entender que fiquem mais enfurecidos ainda quando aquele ousado retirante se compara ao “Dr. JK”. Só que JK ganhou a simpatia da história não porque se achava um “Dr.”, mas pelas vezes que sentou-se numa roda de violão cantando que o “peixe vivo não pode viver fora da água fria”. Explico-me: talvez ele não tenha sido uma figura de grande carisma em sua época, haja visto que foi certamente um dos presidentes mais surrados pela imprensa e é óbvio que isso levava uma fatia da opinião pública a atacá-lo também. Mas a história o acolheu, não só por todas as realizações de seu governo, mas acredito até que principalmente pela fantástica figura humana que ele era. Títulos como o de “Presidente Bossa Nova” não me deixam mentir. Fenômeno semelhante ocorre com Lula. Possivelmente, entre as classes mais baixas, Lula tenha um apelo carismático bem maior que o de JK, mas, de um modo geral, ele representa uma “bossa (coisa) nova”. Novidade boa pra quem pensa no futuro do país. Ameaça pras elites conservadoras e antiquadas. Assim era JK. Assim é Lula. Figuras humanas com o dom de irradiar esperança por onde passam. E isso dói nos olhos mais amargos.

Em 2008, durante comemoração pelos 106 anos de JK (caso estivesse vivo), Lula afirmou: “A história, como Deus escreve certo por linhas tortas, precisou de algumas décadas para fazer Justiça ao que representou Kubitschek para o nosso país”. Como aconteceu com JK, restará à história o papel de relatar com fidelidade todos os avanços do governo Lula. E não tenho dúvida de que ela o fará. Isso porque a imprensa que, como me disse em entrevista o jornalista Alberto Dines, deveria ser sinônimo de “história instantânea”, infelizmente, tem jogado no lixo essa nobre função. Curioso e interessante contar que, pouco depois do encerramento de seu mandato como presidente da República, na noite de 21 de janeiro de 1961, JK foi recebido com toda pompa e circunstância na sede da ABI por aquela mesma imprensa que havia passado cinco anos bombardeando seu governo e seu caráter e que, naquela ocasião, oferecia em sua homenagem um farto banquete. Na “Revista Brasileira de História” há um vasto estudo sobre o assunto, realizado pela cientista política Flávia Biroli, intitulado “Liberdade de Imprensa: margens e definições para a democracia durante o governo de JK”. No estudo, verificamos que era uma relação problemática, porém, pacífica. Ou seja, se a imprensa criticava de forma tão dura é porque tinha liberdade pra isso. O título de uma das matérias que, na época, cobriu o evento ao qual JK foi à ABI dizia: “O adeus com mágoa de JK”. Ao mesmo tempo, porém, naquele final de governo, os jornalistas pareciam profundamente agradecidos por aqueles anos de liberdade. Sentimento resumido nas palavras de Herbert Moses, então presidente da ABI, que fez mea-culpa, assumindo excessos, exageros e injustiças da imprensa: “O governo Kubitschek não foi apenas um período de trabalho intenso, de dinamismo administrativo, de desenvolvimento apaixonado: foi também o governo em que a imprensa pôde usar mais livremente os seus direitos. A imprensa opinou livremente, informou livremente, criticou livremente. Muitas críticas teriam sido exageradas, muitas excessivas, muitas injustas, com certeza. Mas exageradas ou excessivas ou injustas, puderam ser formuladas, tiveram livre curso, não tiveram sanções.” Fico imaginando um banquete desses, ao final do governo Lula, e acho que, de ambos os lados, os sentimentos não se fariam diferentes. Lula tem uma centena de motivos totalmente palpáveis pra se dizer magoado com a imprensa. A imprensa, por sua vez, não tem um motivo sequer pra reclamar de Lula quanto a qualquer tipo de censura. Seria no mínimo interessante um banquete desses reunindo Civitas, Frias e Marinhos… Haja mea-culpa!

O grande mérito de quem é ofendido está em não perder a cabeça. Temos aí mais um ponto em comum entre os dois presidentes. Certa vez, Lula disse: “Poucos políticos foram tão achincalhados, tão agredidos verbalmente, tão ofendidos como Juscelino Kubitschek. Entretanto, esse homem nunca levantou a voz nem perdeu a responsabilidade com o país.” Quem não enxerga a responsabilidade de Lula com o Brasil, que o julga um aventureiro, oportunista, ou coisas do tipo, só pode ser cego. “Devemos seguir o exemplo de Juscelino Kubitschek, que soube transformar seus sonhos em conquistas e benefícios para o Brasil.”, disse Lula em almoço oferecido ao primeiro-ministro da República Tcheca, em Março de 2006. Essas não são palavras ao vento. O espírito empreendedor de JK está sim presente no presidente Lula. Transformar sonhos em realidade faz parte de sua história de vida. É claro que com o seu governo não iria ser diferente.

Eu poderia listar aqui todo o sem número de avanços do governo Lula e comentar cada um deles, mas não é essa a proposta. Em meados do ano passado, ao comentar um deles, Lula, mais uma vez, lembrou-se de JK: “Juscelino Kubitschek, lá de cima, estará rindo pelo que está acontecendo com a indústria naval brasileira.” Arrisco-me a dizer que ele está rindo à toa desde janeiro de 2003.

Não vivemos no país dos sonhos? É claro que não! Mas a enorme confiança que Lula gerou no povo, apesar de a imprensa não cumprir satisfatoriamente seu papel de bem informar, além de tornar visíveis as inúmeras realizações de seu governo, mostra que nenhum outro presidente representou tão bem quanto ele um dos lemas que JK repetia com mais fervor: “Política para mim é esperança”.

Por isso, se eu pudesse falar com Lula, diria: Eu também “não acredito em quem não tem objetivos, não tem projetos, não sonha alto.” Eu acredito em gente como você!

11 de Junho de 2009,
Ana Helena Tavares

P.S. Herbert Moses dizia-se agradecido por aqueles anos em que o governo não havia censurado nenhuma das tantas críticas tão negativas feitas pela imprensa. Muitas injustas, como ele próprio assumiu, tecendo suas desculpas públicas a JK. O problema é quando, na hora de elogiar, a grande imprensa, vendida a interesses mesquinhos, censura-se a si mesma. Periga ter que pedir desculpas à liberdade sem a qual ela não vive e a qual ela própria tolhe. Aí é crise de identidade. Talvez já acontecesse também naquela época…

O dom de irradiar esperança no Recanto das Letras

O dom de irradiar esperança no YouPode

O dom de irradiar esperança no blog “Quem tem medo do Lula?”

criado por Ana Helena Tavares    09:34:07 — Arquivado em: Artigos, Crônicas — Tags:, , , , ,

27.5.09

Falta cair a tinta do rosto dos caciques

Ninguém vive sem política, afinal, bem dizia Aristóteles que “o homem é um animal político”. Dito isso, o problema está em como você a conduz. O saudoso Ulysses Guimarães, timoneiro da democracia, trazia escrito em seu leme: “Política não se faz com ódio, pois não é função hepática.”

Mas quantos acreditam nisso? Quantos se lembram que a política está nas menores coisas do dia-dia e, mais do que isso, quantos acham importante envolver-se com ela? Quantos param para pensar que quando alunos escolhem representantes para sua turma estão fazendo política? E tantos outros exemplos poderiam ser dados. Você algum dia já foi à reunião de condomínio do seu prédio? Pronto, é política pura! E aquele voto que você deu para escolher o capitão do time em que você joga futebol aos domingos? Pois é, mas política não é só voto, ela passa pela influência do homem sobre o homem e não dá para fugir disso.

Então, como pode ir para frente um país em que a população não acredita na força da política? “Ah, são todos corruptos! Como acreditar?”, ouve-se pelas esquinas. É clara a crise de credibilidade, principalmente, do poder legislativo. Mas será que não são possíveis mudanças capazes de resgatar a crença do povo nas instituições políticas?

Nossos sistemas partidário, eleitoral e de representação precisam ser seriamente revistos. Por exemplo, a legislação que define como devem funcionar os partidos ainda é a mesma do período militar. Talvez a modificação disso pudesse colaborar nesse resgate. Mas antes é preciso que se coloque uma discussão importante como essa em pauta, em vez de ficarem inventando CPIs.

Outra coisa quase nunca questionada é a “invenção” chamada Senado. Basta fazer uma rápida pesquisa para se constatar que a esmagadora maioria dos países democráticos do mundo não tem Senado. Mas hoje em dia o congresso brasileiro é que nem coração de mãe, sempre cabe mais um.

Voltando no tempo, relembrando nossa última Constituinte, que reuniu numa mesma causa nomes como Ulysses Guimarães, Leonel Brizola e Luís Inácio Lula da Silva, creio que ela significou um grande passo à frente no que toca aos direitos, mas deixou lacunas em alguns pontos bem críticos, tais como o que se pode chamar de “profissionalização da representação”. Ou seja, acredito que seria importantíssimo haver leis que forçassem os políticos a uma rotatividade de cargos.

Assim, os candidatos a vereador, deputado estadual ou federal, e, claro, os candidatos ao famigerado Senado (já que ele existe e certamente os seus 81 senadores estão dispostos a “defendê-lo” com todas as forças) não poderiam se reeleger indefinidamente dentro do mesmo cargo, como ocorre hoje. E, dessa forma, representação não seria equiparável a um emprego, o que creio que é um câncer para o parlamento. Isso porque leva muitos políticos a mirar de tal forma no mandato e nos outros tantos que poderão se suceder, que contribui e muito para instalar-se na mente deles uma das idéias mais venais que um político pode ter: a de que é ele o dono do mandato e não o povo. Nesse caminhar, onde fica a cidadania? Como cobrar do povo integração com aqueles que não se integram a ele?

Claro que certos políticos fazem diferença, afinal todas as regras têm suas exceções. Mas no país do “jeitinho”, do “adapta aí para não termos que implodir tudo”, de vez em quando também é bom rever as regras. E, por que não, implodir tudo para, em vez de viver de remendos, ver se surge algo aprimorado para as próximas gerações.

Inúmeras questões apontam para a importância de uma reforma política profunda. Fala-se muito na controversa questão do financiamento de campanha, que tem, claro, sua importância, mas acredito que o debate maior deveria ser em torno de como é possível se respeitar mais a igualdade dos direitos democráticos conferidos pela Constituição de 1988. Um cidadão deveria equivaler a um voto. Uma matemática simples que não necessariamente é respeitada.

A manipulação que permite a compra de votos é uma facada para a democracia. E nisso entram tantos interesses que temos aí uma aberração que ninguém parece interessado em criar dispositivos para controlar e, obviamente, punir.

O peso do poder econômico sobre o poder político e anomalias como as causadas pelas oligarquias partidárias não parecem ser pauta atraente para os pretensos reformistas de 2009.

Por que nossa última Constituinte foi um movimento tão progressista? Porque é preciso reconhecer-se derrotado para que seja possível começar de novo. E quando nossos parlamentares reconhecerão que estão derrotados? Quando terão tamanho gesto de grandeza em meio à miudeza de pensamento que ronda nosso Congresso? Quando cairá a tinta do rosto dos caciques?

Com essa visão medíocre e provinciana de olhos voltados para o bolso, que nos apresentam todos os dias a maioria de nossos parlamentares, fica muito difícil sonhar com uma reforma justa.

Mas se, ao menos, eles reconhecessem que a sociedade não pode ficar de fora dessa discussão, certamente já seria um grande passo. Se os políticos ouvissem um pouco mais o silêncio das ruas, seria certamente um bom ponto de partida. Sim, o silêncio fala e esse aí é o pior de todos: o da indiferença.

Por isso mesmo, passo maior ainda seria se a sociedade reconhecesse que essa discussão é sua. Um Congresso só quando de fato pressionado pelo clamor social é que toma decisões realmente elevadas. Assim foi em 88. E, além do mais, por que eles têm que deliberar sozinhos a forma como vão nos representar? Não tem muita lógica isso.

Só uma sociedade decidida a promover mudanças é capaz de lavar o rosto daqueles que escolheu para representá-la. Em outras palavras, ou legitima-se uma nova Constituinte, não nos mesmos moldes da última, mas, dessa vez, originária, formada por cidadãos do povo eleitos de forma exclusiva para isso, ou não parece haver saída. Cumprida sua missão, a Constituinte se autodissolveria, permitindo ao presidente convocar novas eleições, já com as instituições do Estado mais revigoradas.

Nunca é demais lembrar que “quem não se interessa por política, não se interessa pela vida”, concluiria o saudoso timoneiro.

27 de Maio de 2009,
Ana Helena Tavares

criado por Ana Helena Tavares    16:24:52 — Arquivado em: Artigos — Tags:

12.5.09

Os políticos, o mar e a “cronometria jornalística”

O aperto de mão na política guarda inúmeros simbolismos e ao mesmo tempo nada vale. Pode significar acordos de paz firmados entre quatro paredes enquanto inocentes morrem nas ruas. Pode ser facilmente trocado entre dois risonhos inimigos que amanhã se insultarão. Pode ser “moeda de troca” pra interesses de todo tipo. Até de vitrine ele serve, com acabamento de óleo de peroba.

Observem que até na China os políticos conseguiram desmoralizar o aperto de mão. Recentemente, estive lendo uma matéria veiculada por um dos inúmeros blogs do serviço “WordPress” que falava sobre a visita do vice-presidente chinês, Xi Jinping, a Macau por causa de eleições para o cargo de chefe executivo da chamada RAEM (Região Administrativa Especial de Macau) e dizia: “a duração dos apertos de mão enquanto “medidor das bênçãos” não funcionou, especialmente em relação aos “quatro favoritos”. Xi trocou apertos de mãos pelo menos duas vezes com todos eles e, salienta o matutino, tiveram todos duração semelhante: entre dois a três segundos,de acordo com a cronometria jornalística.”

Vamos por partes… Vejam que curioso… A duração de um aperto de mão cria a expectativa de funcionar como “medidor das bençãos”, ou seja, a quem o vice-presidente chegasse lá e apertasse a mão por mais tempo é porque era o favorito dele para o cargo.

Taí uma das maiores asneiras que eu já li em toda imprensa, brasileira e internacional: “cronometria jornalística” para os apertos de mão! Era mesmo o que faltava. Só que Xi Jinping tratou de frustrar isso. Saiu apertando a mão de todos os candidatos. E o pior: apertou duas vezes a mão de todos e em apertos com duração semelhante! Apertos e cronômetros devidamente desmoralizados.

Entretanto, no aperto de mão, ainda pode-se dizer que há uma “troca”, pelo menos duas mãos se tocam, ainda que nem sempre se apertem mutuamente… Mas o que dizer do tapa nas costas? Tapinha, para os íntimos. Coitado desse. Tenho até pena. Tornou-se algo totalmente vicioso no meio político.

Há uma fala, cujo autor é desconhecido, mas que circula há muitos anos pela internet e que exemplifica bem isso: “Se você receber um tapinha nas costas de alguém na rua, provavelmente será um candidato. Agora, se ele começar a criticar o prefeito ou os vereadores, pode ter certeza.”

Um gesto que, entre duas pessoas que nutrem verdadeira amizade, significa carinho, afeição, e que se tornou símbolo-mor da hipocrisia na política e na sociedade de um modo geral. É aquele “tapinha” debochado que diz: “Tô aqui te cumprimentando, mas, óh, tô levando vantagem em tudo, viu?”.

É nessa gana do “levar vantagem em tudo” que político brasileiro troca de partido como quem troca de roupa. Fidelidade partidária deve ser considerada uma coisa muito atrasada. A ordem do dia é experimentar…

Experiências no melhor estilo “quem dá mais”. Quem dá mais dinheiro, quem dá mais cargos e até quem dá mais mídia. Ou vocês não sabiam? Político é um bicho carente.

Um ser carente e incoerente. Pois é, são complexos mesmo. Claro que não são todos. Mas a maioria consegue oscilar de opinião mais do que uma mulher escolhendo o vestido de noiva.

O triste é saber que, em muitos dos casos, não foi a opinião deles que mudou. Foi o poder que chegou de mansinho e, sem nem apertar a mão, só lhes deu um tapinha nas costas.

Mas a sede de poder é tamanha que não duvido até de um dia ver apertarem as mãos os ministros da marinha de dois países sem praias. Afinal, protocolos são protocolos e, se aquele acerto der lucro, se trouxer vantagens, pra que mesmo é preciso o mar? Bem, talvez a “cronometria jornalística” tenha a resposta.

12 de Maio de 2009,
Ana Helena Tavares

criado por Ana Helena Tavares    16:21:48 — Arquivado em: Artigos — Tags:,

10.4.09

O Pasquim e a oposição à objetividade

“Como era a reunião de pauta no Pasquim?”, perguntaram certa vez ao jornalista Luiz Carlos Maciel. “Reunião de Pauta?!?! No Pasquim?!?!”, foi a resposta.

A revelação foi feita durante palestra sobre Jornalismo Cultural no Centro Cultural Banco do Brasil, Rio de Janeiro, na quarta-feira, 08/04/2009. “Cada um enviava suas matérias, o Tarso (de Castro, editor do Pasquim) juntava tudo e transformava aquilo num jornal. Pronto!”, completou Maciel.

Pronto? Como “pronto”? Não faltava algo àquele jornal? Uma falta que proporcionou o seu sucesso. Algo que sobra à grande imprensa de hoje… O que seria? Objetividade!

Não falo de objetividade na linguagem. Aquela que – de forma totalmente imparcial – se apega exclusivamente ao objeto de análise. Isso é mito do jornalismo. “Conversa fiada”, como definiu o próprio Maciel.

Não, caros leitores, o jornalista, por mais neutro que tente ser, nunca consegue se desprender por completo do sujeito que é. Portanto, todo o relato já é – por natureza – subjetivo. E como seria bom se milhões de leitores e telespectadores entendessem isso…

Então temos aí que a objetividade à qual o Pasquim se opunha com todas as suas forças e à qual vemos a grande imprensa de hoje totalmente rendida é uma objetividade de outro tipo. É uma objetividade que vem de escolhas, interesses e, como não poderia deixar de ser, objetivos.

Nada tem a ver com o objeto a ser apresentado, ou em outras palavras, sua excelência: o fato. Esse, aliás, muitas vezes fica mesmo é relegado a décimo plano. Quem sabe ele aparecerá numa notinha de pé de página. Se der sorte.

E essa objetividade tem dono, sua santidade: o mercado. A ele, sim, o jornalismo deveria fazer oposição sempre…

Mas, aquele pra quem os donos de jornais rezam todas as noites, é capaz de tolher qualquer idealista numa reunião de pauta.

10 de Abril de 2009,

Ana Helena Ribeiro Tavares

O Pasquim e a oposição à objetividade no Recanto das Letras

O Pasquim e a oposição à objetividade na Revista Púlpito

Link pra este texto no Observatório da Imprensa

criado por Ana Helena Tavares    15:02:49 — Arquivado em: Artigos, Crônicas — Tags:, , , , , , ,

4.4.09

Sim, nós podemos!

Sim, nós podemos. E por que nós podemos? Podemos porque o mundo é um emaranhado de olhos que juntos não têm cor.

Cor, brilho, voz, palavra. Hoje ouvi uma senhora de 92 anos, D. Adozinda, esbanjando vitalidade, dizer que a palavra sempre foi sua maior arma. Foi com ela que sempre lutou e – mesmo nas derrotas – venceu.

Há 75 anos dando aulas de português, já passaram pelas mãos dela pessoas de todos os credos – de todas as cores. Contou rindo que já foi alfabetizada quatro vezes por quatro reformas ortográficas. Pelo entusiasmo demonstrado, certamente ainda passaria por mais quatro.

Seu brilho arrebatador no olhar acusa: ela nunca deixou de sonhar. Sim, ela tem um sonho. Faço idéia do sorriso que Luther King abriria ao saber qual. Ela sonha com um mundo em que as pessoas não nasçam para viver – mas para conviver.

Também hoje, eu soube que uma jornalista da revista inglesa “The Time” pediu a palavra em coletiva de imprensa para “desculpar-se” com Lula por ter olhos azuis. Não creio que colocar um presidente numa saia justa, fazendo esse tipo de ironia tendenciosa, seja papel de um repórter.

Tomando por base o ensinamento de D. Adozinda, o que dizer de Lula quanto à convivência? Olhos castanhos, azuis, verdes ou negros, para ele todos foram sempre dignos do mesmo respeito.

Foi assim que, depois de tantas lutas, ele se fez respeitar. Foi assim que chegou a 2009 vendo os olhos negros do chefe da Casa Branca apontarem para ele e dizerem: “Esse é o cara!”.

Sim, nós podemos. E quando nós podemos? Podemos quando percebemos que aos olhos do mundo só teremos cor se lutarmos.

03 de Abril de 2009,
Ana Helena Tavares

Sim, nós podemos! no Recanto das Letras

criado por Ana Helena Tavares    21:11:52 — Arquivado em: Artigos, Crônicas — Tags:, ,

29.3.09

Com licença, sociedade, que eu vou sair por aí com a minha caneta

Foto: Ana Helena Tavares
E a câmera balançava com o ônibus...

O ônibus balançava, era hora do rush, mas os passageiros não eram muitos. Ou seria a platéia?

Quem ali, ao passar por uma engarrafada Praça da Bandeira, ousaria imaginar que seria brindado com show exclusivo em pleno túnel Santa Bárbara? O artista? Um rapaz para quem a vida parece ter dado boas chances, mas que resolveu pedir licença à sociedade e sair por aí com seu violão.

A platéia era pequena e o barulho do túnel abafava a voz mansa do jovem rapaz, mas quem disse que isso era problema para ele? Trazendo nos pulmões mais coragem do que voz – motivo pelo qual eu o ouvi – o que ele queria mesmo era fazer uma pergunta àquele ônibus, ao mundo e, principalmente, a ele próprio: “Que país é este?”

Não ganhou muitos aplausos, muitos na pequena platéia dormiam (ou será que fingiam dormir achando que era assalto ou que o artista iria “passar o chapéu”?).

Chapéu? Ele não tinha e não passou. Não era dinheiro que queria. Queria “apenas mostrar seu trabalho”, como fez questão de dizer ao pisar naquele ônibus.

Assalto? Longe disso, ele só queria paz. Mas, por ironia do destino, naquele mesmo final de tarde de segunda-feira, 23 de Março de 2009, em que aquele rapaz entrava num ônibus em Botafogo para fazer lembrar Nietzsche – “Temos a arte para que a verdade não nos destrua” – Copacabana vivia momentos de violência e tiroteio.

Num país que desde sempre foi marcado por tantos contrastes, é extremamente complicado responder com exatidão à pergunta-título da música. Mas, certamente, o Brasil e o mundo precisavam de muito mais gente disposta a apostar na arte como forma de sacudir a realidade, desconstruindo o dia-a-dia e criando, assim, novas possibilidades futuras. Por isso, sei que não fui a única naquele ônibus a aplaudir o rapaz. Renato Russo estava lá e o aplaudiu junto comigo.

Posso imaginar quantos naquela “seleta” platéia taxaram o rapaz de louco. O rapaz e a mim. Já imaginaram alguém no fundo do ônibus sacando uma máquina fotográfica (tentando tirar fotos com um ônibus que não parava de balançar) e ainda aplaudindo no final?

Pois bem, se atitudes como a do rapaz e reações como a minha são loucura neste mundo, eu, que sei que é da seiva de loucuras como estas que nasce o entusiasmo para se lançar o desafio proposto por Nietzsche, não quero ser normal.

Quero pedir licença à sociedade e fazer da caneta o meu violão.

29 de Março de 2009,
Ana Helena Tavares

Com licença, sociedade, que eu vou sair por aí com a minha caneta no Recanto das Letras

criado por Ana Helena Tavares    15:19:51 — Arquivado em: Artigos, Crônicas — Tags:, , , , , , ,

Posts mais antigos »
Report abuse Close
Am I a spambot? yes definately
http://ahrt84.blog.terra.com.br
 
 
 
Thank you Close

Sua denúncia foi enviada.

Em breve estaremos processando seu chamado para tomar as providências necessárias. Esperamos que continue aproveitando o servio e siga participando do Terra Blog.