Traços de Estilo

“A poesia confunde-se com a prosa da mesma maneira que o poeta confunde-se com o homem da rua e já não pode nem deseja reivindicar para si a condição de eleito dos deuses.” (o poeta Gullar) “É preciso levar em conta as palavras que você escolhe, cuidar de cada sentença. É preciso ser sensível ao sentimento das pessoas.” (o jornalista Talese)

8.10.09

Por que o menino é o pai do homem?

Gravando o depoimento de Zuenir Ventura.

Gravando o depoimento de Zuenir Ventura.

Esta reportagem é um presente para o meu eterno mestre, meu amigo e incentivador, Gilson Caroni Filho. Ele dá aula para jovens e diz que tem “a idade dos alunos”, mas eu ainda acho que ele é mais novo. Por isso, parabéns por mais uma primavera, mas parabéns, principalmente, por ser um menino.

Por Ana Helena Tavares (publicado também na minha coluna na “Revista Médio Paraíba”)

William Wordsworth, um poeta romântico e naturalista inglês, certa vez escreveu um pequeno poema, chamado “My heart leaps up when I behold”, em que deixou registrado que “o menino é o pai do homem”. Wordsworth fazia, com isso, uma afirmação e tanto: Todo o homem traz em si um pouco do menino(a) que foi. O poema era pequeno em tamanho, porém grande, imenso, em significado. Tanto é que daquelas palavras fizeram uso inúmeros escritores que viriam bem depois dele.

Foi o caso, por exemplo, de Machado de Assis, que viria a apoiá-lo de forma veemente intitulando de “O menino é o pai do homem” um capítulo inteiro de seu “Memórias Póstumas de Brás Cubas”. Inversamente ao tamanho do poema de Wordsworth, este é um dos capítulos mais extensos do livro “Memórias Póstumas”, um livro marcado por capítulos curtíssimos. Não só pela diferença de tamanho com os outros, mas, principalmente, pelo conteúdo visceral de memórias específicas da infância, é engraçado, inclusive, notar como aquele capítulo parece solto no livro, verdadeiramente livre e desimpedido dentro do romance, ao contrário da maioria dos demais, que parecem uma costura. Talvez por conta desta aparente independência, há inúmeros sites que, equivocadamente, reproduzem aquele texto como “uma crônica machadiana”, sem procurarem saber ou sem se interessarem em citar que é capítulo integrante de “Memórias Póstumas” (mais precisamente o 11º). Já vi até gente dizendo, em comentário num site: “não encontrei este texto na coletânea de crônicas do Machado”. Nem vai encontrar.

Machado parece ter querido aproveitar que escrevia suas memórias póstumas, codinome Brás Cubas, para jogar ali toda a sua argumentação do porquê de o menino(a) que fomos ser o nosso “pai/mãe”, ou seja, do porquê de todos nós sermos fruto da criança que fomos e, enfim, do porquê de o homem ser fruto do meio.

Este assunto vem me chamando atenção já há algum tempo, então quero deixar aqui minha humilde contribuição. Estive recentemente no Centro Cultural Banco do Brasil para um evento sobre Jornalismo Literário e aproveitei para fazer uma pequena reportagem sobre “a influência da infância na fase adulta”, gravando cinco depoimentos em exclusivo sobre o assunto. Todas essas cinco pessoas, dentre elas o jornalista e escritor Zuenir Ventura, têm mais de 50 anos e a pergunta que fiz foi: Você considera que traz um menino(a) dentro de si? Por quê? Seguem abaixo as respostas:

Georgina, professora primária:

“Graças a Deus eu trago. Porque trazendo essa menina dentro de mim eu tenho esperança, eu tenho alegria. Se eu não trouxesse essa menina dentro de mim, eu já estaria morta. Até por tudo o que a gente vive hoje em dia, de violência, desrespeito, eu tenho que trazer essa menina dentro de mim pra poder acreditar que ainda existe esperança e alegria. Ainda mais trabalhando com criança pequena, eu tenho sempre que ter essa menina presente”

Curtis, engenheiro:

“Eu acho que você tem que considerar dois fatores. Primeiro se a pessoa teve uma infância muito boa, se ela foi muito feliz. Eu acho que isso no futuro, quando a pessoa for adulta, sempre vai remeter a uma fase boa. E também isso tem uma função muito boa na formação do caráter e de como a pessoa vai ser no futuro.”

Júlio Amaral, historiador:

“Eu acho que todo ser humano, quando adulto, é conseqüência das vivências dele, inclusive, de momentos da infância também. Então, nós somos hoje o resultado disso tudo, essa mistura que se reflete em muitas atitudes nossas. Não, logicamente, de forma infantilizada, mas muitos pensamentos daquele período nós usaremos em atitudes. De uma forma mais adulta, mas sem dúvida vai ser utilizado sim.”

Marlúcia, atriz:

“Eu acredito sim que todos temos uma parte do que fomos na infância, ou seja, a menina que eu fui eu ainda trago um pedaço dela em mim, percebendo a questão da humildade, da pureza, da simplicidade que essa criança tinha. Também as dificuldades, os defeitos, as virtudes, enquanto criança. Então, eu me vejo assim, principalmente em termos de sentimento. Em relação ao meu sentimento, às minhas atitudes comigo mesma. Em relação à sociedade não, mas em relação a mim mesma eu sinto que existe sim, porque todo mundo mantém um pouco do que é criança. Até mesmo porque a infância faz parte da formação da nossa personalidade de adulto. É impossível você deixar, contribui muito, como, infelizmente, também os traumas e as coisas desagradáveis. Por tudo isso, eu acho que todo mundo traz sim. E, inclusive, quando a gente conversa com crianças, a gente aprende muito com elas. São pequenas professorinhas.”

Zuenir Ventura, jornalista e escritor:

“Eu não só tenho um menino dentro de mim, como não quero perdê-lo. Às vezes ele aflora tanto, ele tá tão presente, que as pessoas dizem: ‘Pô, você parece criança!”. E eu recebo isso como um elogio. Porque eu acho que essa é uma das permanências que a gente tem que cultivar. Não há nada mais saudável para alguém do que essa presença desse estágio da vida. Porque a criança é tudo o que simboliza de inocência, de olhar pra realidade com os olhos lavados, novos. Então, não só concordo, como faço disso, de uma certa maneira, um objetivo de vida.”

Depois de tantas opiniões tão gabaritadas, me deu até vontade de pesquisar mais a fundo o assunto, quem sabe. Por agora, a quem quiser entender melhor este imbróglio, aconselho fortemente que comecem buscando o poema inglês e, depois, busquem o tal capítulo machadiano.

De minha parte, o que posso dizer é que minha mãe sempre se disse uma eterna criança e ela tem de fato uma admirável alma de menina. Além dela, ao longo de meus quase 25 anos, a vida já me presenteou com alguns adultos/meninos. E nisso é que a vida me foi generosa. É por causa deles que gosto tanto da menina que vive em mim e quero mantê-la viva sempre. Acima de tudo, é por causa deles que continuo acreditando no mundo.

08 de Outubro de 2009,

Ana Helena Tavares

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22.9.09

Sobre a sabatina da Folha de S. Paulo com seu Ombudsman

Carlos Eduardo Lins da SilvaEntre importantes erros assumidos, uma grande ausência e uma comparação que só pode ser piada

Por Ana Helena Tavares

A Folha de S. Paulo, para marcar os 20 anos da criação de seu cargo de Ombudsman, aquele cargo que serve para o jornal tentar passar a idéia de que há lá dentro uma democracia que não há, promoveu ontem, 21 de Setembro de 2009, uma sabatina com seu atual Ombudsman, Carlos Eduardo Lins da Silva, que resiste bravamente há 18 meses no cargo. Não, ele não é dos piores, muito longe disso. Quem conhece toda a dificuldade e a pressão do seu cargo, sabe que faz um trabalho digno de respeito.

Um dos importantes erros da Folha que ele corajosamente assumiu desde o início, refere-se ao lastimável episódio da ficha falsa de Dilma, a que ontem ele se referiu exatamente com essas palavras:

No caso do dossiê da Ministra Dilma Roussef, fiz sugestões muito concretas. Foi um caso polêmico, muito controvertido e nenhuma delas foi atendida. Foi a situação da reprodução de uma suposta ficha da ministra Dilma do período em que ela era militante de um movimento revolucionário no regime militar. Essa foto foi publicada em primeira página da Folha como se fosse verdadeira. Depois a Folha disse que não tinha como provar que era verdadeira, mas também não tinha como provar que era falsa. Na minha opinião, é um dos dois erros mais graves que a Folha cometeu ao longo destes 18 meses”.

O outro erro a que ele se refere certamente também foi grave, mas este não foi só dos Frias, foi dos Mesquita, dos Marinhos e de outros. Sedentos por plantar o terror na velha ânsia de vender mais e mais. Pois é, infelizmente o terror vende. E o erro em questão foi a fatídica gripe suína. Ontem, assim Carlos Eduardo Lins da Silva se referiu à cobertura da Folha sobre o assunto:

Há exatamente dois meses a Folha, em chamada de 1ª página, disse: Em dois meses, trinta e tanto milhões de brasileiros devem estar infectados e 4,4 milhões devem estar internados. Isso baseado em um modelo matemático que não era alimentado por dados a respeito desta gripe, mas sim de outras gripes do passado. Esse acho que foi o erro mais grave que a Folha cometeu nesse meu período como Ombusdman”.

Parabéns ao Ombusdman pelos importantes erros apontados, mas e a “Ditabranda”? Pergunto eu… Por que ela ficou de fora de tão nobre evento? A sabatina foi enorme, as perguntas foram inúmeras e por que os nobres entrevistadores (Marcelo Coelho, Eleonora Gosman, Verônica Goyzueta e Eugênio Bucci) não colocaram a “Ditabranda” em pauta ou por que o entrevistado não tratou de lembrá-los? Esquecimento, concordância ou submissão?

Bem, mas como é véspera de ano eleitoral, nada mais oportuno do que comparar a cobertura dada pela Folha ao governo FHC com a dada ao governo Lula. E aí… Lins da Silva produziu uma pérola:

Muitos leitores acham que a Folha foi mais condescendente com o governo FHC do que com o governo Lula. Essa é uma resposta que só pode ser dada por meio de um trabalho acadêmico, científico, metodologicamente e comprovadamente constatado. Fica-se muito no terreno das impressões… Na minha impressão, a Folha era muito dura com o presidente Fernando Henrique também.”

Prefiro acreditar que essa foi pra descontrair o ambiente, só pode…

Ana Helena Tavares

Obs: Matéria escrita originalmente para o blog “Quem tem medo do Lula?

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28.3.09

Onde ficam os direitos humanos?

Texto e fotos: Ana Helena Tavares

Michael, fotógrafo nascido e criado no Complexo do Alemão, chamou a atenção de todos ao dizer: “São realizados incontáveis eventos culturais maravilhosos lá no Complexo, coisas ligadas à literatura, pintura, música, dança, todo tipo de arte, e a mídia não cobre. Só entram lá para registrar violência. Só cobrem tiroteio!” Conseguiu emudecer por alguns segundos um auditório lotado de jornalistas e estudantes de comunicação.

O fotógrafo foi um dos destaques da sexta-feira, 27 de Março de 2009, marcada na Escola de Comunicação da UFRJ, localizada no campus da Praia Vermelha, pelo último dia do seminário internacional “Mídia e Violência”.

Logo após a fala de Michael, ocorrida num dos debates realizados à tarde, a jornalista Oona Castro, do site Overmundo, resolveu intervir, narrando a fala de um jornalista de “O Globo”, que não quis identificar e, que, há alguns anos, teria lhe contado a seguinte história: “Uma vez publicamos uma matéria falando sobre a trajetória de vida de uma pessoa do morro. Nunca recebemos tanta carta com leitores revoltados, dizendo coisas do tipo: ‘Como vocês tratam como ser humano um bandido?!’”

Com base nisso, falou do quanto, infelizmente, o trágico vende:

– Nossa sociedade também é muito reacionária e a mídia espelha o que a sociedade quer, disse a jornalista.

Completou dizendo que um dos grandes empecilhos para se fazer um jornalismo de qualidade no Brasil é que os brasileiros consideram natural tratar comunicação como algo com fins lucrativos.

Algumas horas antes disso, na palestra da manhã, falou Tião Santos, ligado ao movimento Viva Rio e atualmente coordenador do site da rádio comunitária Viva Favela. O radialista começou sua fala bem no tom do que Oona iria dizer à tarde, afirmando acreditar que, já que a sociedade, muitas vezes, só vê o outro como o pior, o feio, seria preciso uma inversão disso para haver um reflexo também na mídia.

Para ele, o ser humano, cada vez mais, disputa o poder por medo. E aí incluiu desde o medo que as pessoas têm de perder a própria identidade, o medo de perder um espaço que se julga conquistado, ao medo de perder um financiamento para aquele projeto dos sonhos. Nesse contexto, fez questão de frisar:

– Governo é uma coisa. Poder é outra.

Contou que nunca desanimou, mesmo nos momentos mais difíceis e que, certa vez, perguntado sobre o porquê de criar um site falando sobre favela, quando sabia que num meio como a internet só a classe média o iria ler, respondeu:

– Eu não sei quem vai acessar ou vai ouvir o que estou falando, mas eu estou falando.

Foi quando teve lugar a fala do jornalista Jorge Antonio Barros, do jornal “O Globo”, contando que, quando começou na grande imprensa, no início da década de 80, o espaço que imediatamente reservaram para ele, por ser negro e formado pela UNISUAM (Universidade localizada na Baixada Fluminense), foi o da reportagem de violência. Mas que, ainda assim, persistiu e hoje em dia pode dizer que gosta de trabalhar na grande imprensa.

– Ainda que isso para mim envolva inúmeras contradições, completou.

Das recordações que ele traz de seu início como jornalista nos anos 80, ele afirmou que, vez por outra, se pega lembrando o quanto, naquela época, as pessoas comuns – leitores dos mais diversos – tinham livre acesso às redações dos grandes jornais e usavam desse acesso. Iam mesmo. Cobravam pautas dos jornalistas, olho no olho, e muitas vezes conseguiam o que queriam. Havia uma proximidade imensamente maior do leitor com o jornalista.

– Hoje as pessoas já quase nem telefonam para as redações, acrescentou.

O mundo mudou e ele, que hoje mantém o blog “Repórter de crime”, contou ainda o quanto foi difícil conseguir um espaço para o blog dele dentro do domínio “globo.com”. E defendeu ferrenhamente o potencial dos blogs. Um potencial que para ele é altíssimo e ainda totalmente mal explorado.

– No blog é possível fazer uma crítica ao poder de uma maneira que não se vê na mídia tradicional, disse enfático.

Sobre sua experiência com blogs, comentou o quanto é difícil educar aqueles a quem ele apelidou de “A turma do mata e esfola” – pessoas que, sem dar a mínima chance ao diálogo, entram no blog dele usando de anonimato, ou nomes falsos, só para defender a violência policial como solução.

– Já consegui salvar algumas almas, brincou. Mas isso é muito complicado.

Depois de mais de vinte anos fazendo reportagens em áreas de risco, disse que não poderia sair dali sem frisar o abandono público em que se encontram as comunidades pobres nas grandes metrópoles brasileiras, como o Rio. Com essa deixa, aproveitou para falar da série “Ilegal e daí?”, do jornal “O Globo”, que, segundo ele, conseguiu dar alguma contribuição para a sociedade. Admitiu, porém, que a expressão “direitos humanos” é algo fora de pauta na grande imprensa.

Depois tentou descontrair:

– Preciso do emprego e acho que já tô falando mais do que devia.

28 de Março de 2009,

Ana Helena Tavares

Link para esta matéria no blog República Vermelha

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5.10.08

D. Pedro e água gelada

Foto: Ana Helena Tavares

A história do Colégio João Alfredo, um dos mais antigos do Brasil

O Instituto João Alfredo teve origem com reforma do ensino primário regulamentada pelo Imperador D. Pedro II, em 1854. A partir dessa data, o ensino primário passou a ter conotação profissionalizante, especialmente para crianças carentes.

Em 1873, o Conselheiro João Alfredo Corrêa de Oliveira, ministro do império, em nome do Estado, adquiriu as propriedades de números 1 e 3 situadas à Rua do Macaco (atual Boulevard 28 de Setembro). No local foi inaugurado o Asilo dos Meninos Desvalidos (que hoje dá lugar ao Colégio Estadual João Alfredo). Quando de sua fundação, foi elaborado para o Asilo um regulamento próprio, considerado pioneiro para a época. O asilo receberia meninos do sexo masculino, entre seis e doze anos, e a eles seria ministrada instrução de 1º e 2º graus e profissionalizante.

A inauguração oficial ocorreu em 14 de Março de 1875, com a presença do Imperador D. Pedro II, que, de acordo com os costumes da época, convidou os presentes a beberam, com toda a pompa e circunstância, um copo d’água gelada. Na ocasião, Emílio Simonse ofereceu grande sortimento de roupas para o estabelecimento.

A construção do Asilo pode ser considerada, mesmo em nossos dias, de extremo bom gosto, não só no estilo, como na sua funcionalidade. Os dormitórios, as salas, as oficinas de treinamento, as lavanderias e demais dependências, muito amplas e iluminadas, eram dotadas de sistema de arejamento até então inédito, pois possibilitavam baixar a temperatura nos dias quentes e elevá-la nos dias frios.

A instituição, durante muito tempo, recebeu apoio das autoridades e os meninos dispunham de assistência médica gratuita, prestada pelo Dr. João Joaquim Pizarro.

Em decorrência dos graves problemas sociais, o número de vagas aumentou rapidamente para 200 e a idade limite foi elevada para 21 anos. Em 1892, o Asilo foi acrescido da Casa São José, sendo o ensino profissionalizante transferido para o Palácio da Quinta da Boa Vista. O ensino de 1º e 2º graus, no entanto, permanecia sob a responsabilidade daquela casa. Pode-se dizer que os trabalhos desenvolvidos no Asilo foram extraordinários, tendo alguns chegado a conquistar prêmios no exterior. Muitos de seus alunos se destacaram em vários eventos internacionais, conquistando as medalhas de ouro de 1900 e 1904, além do Grande Prêmio da Exposição do Centenário da Independência do Brasil, em 1922.

A história do local, no entanto, remonta a tempos anteriores ao Asilo. Entre os séculos XVIII e XIX, havia ali uma senzala. Um local que funcionava, portanto, como instrumento opressor dentro de uma sociedade escravocrata e que viria a se colocar, mais tarde, a serviço da educação pública.

O primeiro diretor do Asilo foi o Dr. Rufino Augusto de Almeida, que exerceu sua função durante dois períodos. O nome de Instituto Profissional João Alfredo foi dado pelo prefeito do Rio de Janeiro, então Distrito Federal, Dr. Inocêncio Serzedo Correia, em 26 de Agosto de 1910.

A parte destinada aos antigos dormitórios hoje abriga o Instituto de Geriatria e Gerontologia e no restante do prédio, localizado ao lado do Hospital Pedro Ernesto, no coração de Vila Isabel, atualmente funciona o Colégio Estadual João Alfredo, onde é ministrado o Ensino Médio.

Na terra da boemia, com água gelada também se brinda.

Ana Helena Ribeiro Tavares

Matéria publicada na edição de outubro 2008 do jornal “Correio Carioca”.

Fotolog do Instituto João Alfredo

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5.9.08

Lisboa - o Porto de Ulisses

Foto: Ana Helena Tavares
Lisboa - Monumento aos Descobrimentos

Lisboa - Monumento aos Descobrimentos

- Para meu amigo Antônio Baptista, lisboeta duro na queda.

Um pequeno roteiro para se aproveitar a capital portuguesa

Diz a lenda popular e romântica que Lisboa foi fundada pelo herói grego Ulisses e que, tal como Roma, o seu povoado original era rodeado por sete colinas. O nome da cidade deriva de “Olissipo”, termo que tem origem nas palavras fenícias “Allis Ubbo’, que significam “porto encantador”.

Lisboa é uma capital histórica com um caráter e um encanto fora do comum, onde 800 anos de influências culturais diversificadas se misturam com as mais modernas tendências e estilos de vida, criando contrastes verdadeiramente espetaculares.

Situados na sua maioria no centro, os bairros históricos são destino imprescindível para quem se desloque à capital portuguesa. Pela cultura, pela história, pelas pessoas ou simplesmente para passear descontraidamente, é imperativo descobri-los. Fazendo parte estrutural da identidade lisboeta, estes bairros proporcionam traçar um verdadeiro mapa pessoal da cidade. As possibilidades são imensas.

O Bairro Alto é um dos mais emblemáticos e atraentes para viver a cidade. Bons restaurantes lado a lado com livrarias intimistas, que sempre guardam boas surpresas, convivem com casas de chá acopladas a lojas de roupas desenhadas por alguns dos mais conceituados artistas portugueses. É um bairro apaixonante, cheio de atrações, combinando ousadia e sofisticação com tradição e antiguidade. Passear no Bairro Alto é um ato irrepetível em qualquer outro ponto da cidade.

A zona do Carmo tem alguns pontos históricos fascinantes, como o Convento e a Igreja do Carmo, que mantém elegância e imponência. Aí poderá visitar as ruínas, mas também o Museu Arqueológico do Carmo, que inclui um numeroso legado de peças pré-históricas, romanas, medievais, manuelinas, renascentistas e barrocas. O Largo do Carmo é também um local emblemático da história nacional recente, tendo sido palco privilegiado da Revolução dos Cravos, em 25 de Abril de 1974. A ligação entre o Carmo e a Baixa é feita através de outro monumento fundamental da cidade, o irresistível Elevador de Santa Justa.

No topo deparamo-nos com uma belíssima vista sobre a Baixa Pombalina. Não perca a oportunidade de utilizar este elevador vertical centenário, único deste tipo no mundo a prestar um serviço público e que, tendo sido concebido por um discípulo de Gustave Eiffel, mantém um estilo bem peculiar.

Vale visitar ainda a Sé de Lisboa, datada de 1150 e mandada construir por D. Afonso Henriques. Próximo à Sé, a subida para o encantador Castelo de São Jorge proporciona aos visitantes uma bela vista da cidade. A colina onde se localiza o Castelo é uma das que envolve o tradicionalíssimo bairro de Alfama que, com seus mundialmente conhecidos bares e restaurantes onde se toca o mais puro fado, é parada obrigatória para quem queira respirar por alguns momentos a alma portuguesa.

Já na zona de Belém não se pode deixar de conhecer o lindíssimo Mosteiro dos Jerônimos, onde se acredita que foram sepultados Vasco da Gama e Luís de Camões. É também nessa zona da cidade que se encontra o Padrão dos Descobrimentos. O monumento, de 1960, celebra o quinto centenário da morte do Infante D. Henrique, homenageando este impulsionador dos Descobrimentos, mas também os principais desbravadores portugueses.

De lá os navegadores partiram para descobrir o mundo. Lisboa hoje convida o mundo a descobri-la.

Ana Helena Ribeiro Tavares

Matéria publicada na edição de setembro/2008 do jornal “Correio Carioca”.

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5.8.08

O som que vem das calçadas

Vila Isabel: um bairro em que se caminha sobre música

Numa sociedade de passo cada vez mais apressado, todos os dias milhares de pedestres passam distraídos pela Boulevard 28 de Setembro, centro financeiro de Vila Isabel e tradicionalíssimo reduto da boemia carioca. Muitos deles podem ainda não ter percebido, mas sob seus pés está contada, com todas as notas, uma parte fundamental da história da Música Popular Brasileira.

O projeto das famosas “Calçadas Musicais” é de 1964 e consistia em fazer o calçamento da Avenida 28 de Setembro em pedras Portuguesas brancas e pretas, e decorar com notas musicais do melhor do nosso cancioneiro das primeiras décadas do século XX, além do nome de seus autores e instrumentos musicais. A brilhante idéia foi tão aplaudida que não demorou a sair do papel.

O maestro “Carioca” simplificou as partituras e o arquiteto Hugo Ribeiro adaptou a decoração. O músico Almirante foi procurado para escolher os compositores e impôs: “Não pode ter interferência política”. Mauro de Magalhães, que era deputado em 64, disse a ele: “Tem condição política sim: “Feitiço da Vila” ficará na porta da Quadra da Vila Isabel.” Ele concordou, mas depois só queria músicos cariocas. Isso causou polêmica e Almirante mudou de idéia.

Ao todo vinte músicas, de repertório variado, foram reproduzidas, sendo elas: “Cidade Maravilhosa” (André Filho), no largo do Maracanã; “Abre Alas” (Chiquinha Gonzaga), literalmente abrindo a Boulevard 28 de Setembro; e, ao longo da Boulevard, foram gravados nas calçadas violões e cavaquinhos e, pela ordem, as músicas “Pelo Telefone” (Donga e Mano de Almeida); “Mal-me-quer” (Cristóvão Alencar, Armando Reis e Newton Ferreira); “Feitiço da Vila” (Noel Rosa e Vadico); “Ave Maria” (Erotildes Campos e Jonas Neves); “Aquarela do Brasil” (Ary Barroso); “Jura” (Sinhô); “Carinhoso” (Pixinguinha e João de Barro); “Linda Flor” (Henrique Vogeler e Luís Peixoto); “A conquista do ar” (Eduardo das Neves); “Luar do Sertão” (Catulo da Paixão Cearense e João Pernambuco); “Chão de estrelas” (Orestes Barbosa e Sílvio Caldas); “Linda Morena” (Lamartine Babo); “A voz do violão” (Francisco Alves e Horácio Campos); “Na Pavuna” (Homero Dornelas e Almirante); “Primavera do Rio” (João de Barro); “Apanhei-te cavaquinho”, (Ernesto Nazareth); e “Florisbela”, (Nássara e Frazão).

Patrimônio que virou samba… “Hoje a calçada é a glória”, diz a letra. Mas se nossa história fosse tratada com respeito, a glória seria maior. Essa riqueza cultural chega aos 44 anos com péssima conservação. Talvez fosse o caso de mudar o subtítulo… Há quem garanta viver num bairro em que se tropeça sobre música. Se fosse vivo, quem sabe agora Almirante quisesse interferência política.

Quando passarem pelo bairro de Noel, pedindo licença a Orestes Barbosa e Sílvio Caldas, não deixem de contemplar, mas também de preservar esse verdadeiro chão de estrelas.

Ana Helena Ribeiro Tavares

Matéria publicada na edição de agosto/2008 do jornal “Correio Carioca”.

Para ver a edição completa do jornal, clique aqui

Obs: Algumas das músicas gravadas nas calçadas de Vila Isabel estão disponíveis em clipes no youtube. Para ver e ouvir basta clicar em alguns dos títulos que  marquei como links, que vocês serão então direcionados para algumas das interpretações que selecionei.

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Porto - modernidade que canta o fado

Foto: Ana Helena Tavares
Bairro da Ribeira e detalhe da Ponte D. Lu�s I

Bairro da Ribeira e detalhe da Ponte D. Luís I

Aliar o antigo e o novo com maestria é o segredo da cidade para encantar olhares.

O Porto tem origem num povoado pré-romano, o qual era denominado Portus Cale, vindo daí o nome Portugal. Devido a feitos valorosos de seus filhos, dentre eles o Infante D. Henrique, navegador destemido, a cidade ficou conhecida como “a invicta” (título que ostenta em seu brasão).

Como local turístico, é um dos mais tradicionais da Europa. A riqueza do seu patrimônio artístico, os locais para degustação do mundialmente aclamado Vinho do Porto e os vastos espaços dedicados ao lazer e à vida cultural são apenas alguns dos motivos que convidam a visitar a Cidade do Porto.

Localizando-se na margem direita do rio Douro e junto à sua foz, é a segunda maior cidade de Portugal. Nela se entrelaçam diversas estradas e ferrovias, o que contribuiu de forma decisiva para tornar a cidade o coração econômico de toda a região norte do país. Como se vê, é extremamente fácil chegar à cidade, seja de automóvel, trem, ônibus, metrô, barco ou avião. No caso dos turistas estrangeiros que lá chegarem de avião encontrarão no aeroporto Francisco Sá Carneiro uma moderna estrutura que se encontra preparada para responder à grande demanda de tráfego aéreo.

Quanto à hospedagem, a cidade dispõe de incontáveis hotéis e, se preferir, o visitante poderá ainda passar sua temporada numa pensão, num apartamento alugado, num alojamento para jovens (albergue) ou, então, num parque de campismo, caso queira o contato direto com a natureza.

Local privilegiado para se fazer compras, o Porto reúne tanto lojas de artesanato português e todo tipo de lojas típicas, distribuídas em seus tradicionais mercados e feiras, como também shoppings moderníssimos. Conta ainda com uma variada gastronomia de fazer sorrir o estômago.

Passeios de barco, salas de espetáculo, cinemas, teatro, muita música, uma animada vida noturna, e até locais com acesso gratuito à internet são algumas das opções de lazer. E para quem pretenda desbravar a cidade, em seus recantos, diversos percursos estão disponíveis (o do Azulejo, o Barroco, o Neoclássico). Se a preferência for pelo ar livre poderá surpreender-se com o percurso Garretiano. E o turista não pode deixar de conhecer a área da Sé, que tem destaques como a igreja renascentista de Santa Clara e o superlotado bairro do Barredo, que parece não ter mudado desde tempos medievais. O bairro da Ribeira é igualmente fascinante com suas ruas estreitíssimas e casas típicas.

Para quem é apaixonado por esportes, ir ao Porto e não conhecer o ultramoderno complexo esportivo do Estádio dos Dragões, pertencente ao seu famoso time de futebol, é o mesmo que ir a Roma e não ver o Papa. E, se não bastasse tudo isso, para quem busca sossego a cidade oferece ainda um sem número de parques e jardins, que tem conservação ímpar e são de encantar qualquer olhar.

A Cidade do Porto pode, enfim, orgulhar-se de seu impressionante ecletismo e da riqueza que construiu: rede de transportes públicos considerada das mais modernas da Europa, sistema eficiente de saúde, cultura em cada esquina e gestão de turismo competente, entre outros fatores fundamentais para a prosperidade de qualquer cidade que se autodenomine metrópole no mundo contemporâneo.

E que o turista não se espante caso esteja num cyber-café e, ao olhar pela janela, ache que as calçadas parecem cantar o fado. Quantas histórias já passaram por elas? Trata-se de uma cidade que se modernizou respeitando suas origens. Não deixe de conhecer, é uma visita inesquecível.

Ana Helena Ribeiro Tavares

Matéria publicada na edição de agosto/2008 do jornal “Correio Carioca”.

Para ver a edição completa do jornal, clique aqui

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5.7.08

O apito que moldou vidas - 3ª e última parte (”trilogia da fábrica”)

Foto: Ana Helena Tavares
Fachada da Casa de Vila Isabel e detalhe da torre da antiga fábrica com a inscrição CCI (Companhia Confiança Industrial) 1894.

Fachada da Casa de Vila Isabel e detalhe da torre da antiga fábrica com a inscrição CCI (Companhia Confiança Industrial) 1894.

Casa de Vila Isabel: herança promissora deixada pela Fábrica Confiança

Quem observa a estrutura arquitetônica externa já percebe a antigüidade. Assim como ocorre no prédio da antiga fábrica, a fachada da Casa de Vila Isabel, que fica ao lado, também teve mantida toda sua arquitetura original.

A construção que hoje abriga a chamada Casa de Vila Isabel é conhecida pela maioria dos moradores da região como Casa do Barão, devido a uma lenda de que o Barão de Drummond teria morado ali na época em que fundou o bairro de Vila Isabel, anos antes da construção da fábrica. No período em que a fábrica funcionou, o prédio era conhecido como Palacete da Fábrica, servindo como moradia para o chefe da tecelagem e seus familiares. Desde que a fábrica fechou, em 1945, o antigo Palacete estava sendo mantido sem otimização do espaço, com instalações precárias e sem nenhum investimento. No entanto, em 2001, o Instituto Pão de Açúcar visitou o espaço e, considerando o bairro estratégico, resolveu restaurá-lo.

Hoje em dia o local é um centro cultural fervilhante. “Sempre desenvolvemos projetos próprios na Casa: Acordes da Vila , Culturarte, Futuro@eu, Nossa Língua Digital, Um passo a mais , Escola de Varejo e Esporte. E o desafio para 2008 foi transformar a casa num ativo da comunidade e dar continuidade aos projetos de música.”, é o que diz Rosana Vilarinho, da área de responsabilidade sócio-ambiental do Instituto. Dentre as iniciativas da Casa de Vila Isabel que mais beneficiam a comunidade local está a de promover parcerias para que ONGs utilizem as sala de aula e áreas de convivência com projetos sociais. “Também fazemos parcerias para a concessão do espaço para seminários, fóruns e formação de profissionais. Atualmente temos a parceria efetiva de duas ONGs (Instituto Primeiros Traços e Ong Abraçar) e Secretaria Municipal de Educação para formação de professores. Também realizamos toda última sexta de cada mês, o evento “Orquestra GPA convida…” no qual recebemos músicos para apresentações conjuntas e entendemos que este espaço oferecido à população em geral de forma gratuita seja um legado cultural que também vale a pena citar.”, palavras de Renata Gomide, gerente de desenvolvimento comunitário do Instituto.

Falando em legado, é importante dar ênfase ao fato de o apito ter voltado a soar há cerca de um mês, sendo também uma belíssima herança da fábrica. Enquanto Noel dizia que ele vinha lhe “ferir os ouvidos”, para os operários ele servia como guia. E hoje ainda se faz capaz de guiar, só que todos os moradores de uma região que sua centenária chaminé cor de barro viu crescer.

Quando a chaminé foi erguida, o jovem Thiago Rocha, integrante da orquestra da Casa de Vila Isabel, nem sonhava em nascer. Hoje ele afirma: “a música educa”. E diz mais: “Participar dos projetos da Casa deu uma guinada em minha vida, tanto familiar, como pessoal e profissional. O contato que temos aqui com a música é importantíssimo e hoje tenho uma educação que não tive oportunidade antes. Ter vindo para cá foi algo divino e no futuro isso será lembrado com carinho.”

Lenda ou não, Barão de Drummond ficaria orgulhoso e Noel talvez redimisse o apito.

Ana Helena Ribeiro Tavares

Matéria publicada na edição de Julho/08 do jornal de bairro “Correio Carioca”.

Esta matéria foi também reproduzida pelo site “Sou da Vila“.

Para ver a edição completa do jornal, clique aqui

E para ver um clipe com a música “Três apitos”, de Noel Rosa, interpretada pelo grupo “Sonora Madeira”, clique aqui

PORQUE O APITO AINDA APITA…

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O apito que moldou vidas - 2ª parte (”trilogia da fábrica”)

Foto: Ana Helena Tavares
2008 - a antiga Fábrica Confiança ainda com sua imponente chaminé "de barro", o desenvolvimento de seu entorno e o arco-iris que Deus deu à foto.

2008 - o prédio da antiga Fábrica Confiança ainda com sua imponente chaminé "de barro", as transformações de seu entorno e o arco-íris que Deus deu à foto.

As transformações sócio-geográficas motivadas pela Fábrica Confiança

Quando de sua fundação, no final do séc. XIX, a Fábrica Confiança, que já nasceu dotada de 400 teares, utilizava caldeiras abastecidas pelas águas do Rio Joana represadas num açude onde hoje é a rua Artidoro da Costa, em Vila Isabel. Dez anos mais tarde, a fábrica já computaria 1600 teares, ocupando uma área total de 93.000m².

Em 1872, poucos anos antes da fundação da fábrica, nascia o bairro de Vila Isabel. Em 1873 foi construída uma linha de ferro-carril, ligando o bairro à cidade, o que possibilitou que o bairro prosperasse, tendo sido urbanizado segundo os modernos moldes franceses da época e tendo como destaque sua rua principal: o Boulevard 28 de Setembro (data da Lei do Ventre Livre). Antes disso os bairros de Vila Isabel, do Andaraí e do Grajaú ocupavam uma área conhecida como Fazenda do Macaco, a qual pertencia aos jesuítas, até que em 1858 foi incorporada à Coroa. Com a ida da família real para Portugal, o local ficou abandonado. A parte que hoje abrange Vila Isabel foi comprada então em 1872 por Viana Drummond, que a batizou assim em homenagem à princesa.

A partir de 1919, o “Palacete da Fábrica”, que hoje respira cultura abrigando a Casa de Vila Isabel, foi habitado por Jerônimo Braga, que por ter assumido a direção da tecelagem mudou-se para lá. No andar de baixo ficava o escritório da fábrica e o consultório médico que atendia aos operários. A família ocupava os dois andares superiores. Filho primogênito do Sr. Jerônimo, Carlos Alberto Ferreira Braga, o Braguinha ou João de Barro, mudou-se para o “Palacete” aos 12 anos de idade. Lá floresceu seu dom de compor e tocar. Seus amigos freqüentavam a casa em visitas e saraus. Eram, com ele, integrantes do Grupo Flor do Tempo e mais tarde do Bando dos Tangarás: Noel Rosa, Henrique Brito Alvinho e Almirante. Foi também na escadaria do “Palacete” que Braguinha iniciou o namoro com Astréa Rabelo Cantolinho. A família ficou na casa até 1927. Desde então acredita-se que tenha servido apenas como escritório. Hoje, funcionando lá a Casa de Vila Isabel traz-se de volta as alegrias e parte da “alma” do bairro.

A partir de 1980, tem início no bairro o resgate de sua história e da qualidade de vida região. A Associação de Moradores e Amigos da Vila Operária Confiança começou a ser extremamente atuante na preservação do patrimônio da fábrica e arredores.

Além de todo o movimento cultural presente na Casa de Vila Isabel e da mobilização social impulsionada pela Associação de Moradores da Vila Operária, há ainda as transformações geográficas causadas pela fábrica. Dois bons exemplos disso são: o numeroso complexo de casas que até hoje forma a Vila Operária, o qual é bastante fragmentado e estende-se por uma vasta área; e ainda o local onde atualmente fica a quadra da Escola de Samba Acadêmicos do Salgueiro, pois, pouca gente sabe, mas ali era o campo de futebol onde jogava o time de funcionários da fábrica.

Como se vê, Vila Isabel cresceu, juntamente com os bairros vizinhos, mas a intensa transformação não inibiu o lazer e a cultura. Afinal, falamos de um lugar em que apito de fábrica vira música…

Ana Helena Ribeiro Tavares

Matéria publicada na edição de Junho/08 do jornal de bairro “Correio Carioca”.

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O apito que moldou vidas - 1ª parte (”trilogia da fábrica”)

Foto: Ana Helena Tavares
Seu Mathias Costa
Seu Mathias Costa

- Dedico toda a “trilogia da fábrica” ao meu ilustre vizinho, Seu Mathias Costa, que aos 100 anos esbanja saúde e simpatia… E até os 97 andava de bicicleta pelas ruas do Andaraí.

A história de quem chega aos 100 anos, 15 dedicados à Fábrica Confiança

Companhia Confiança Industrial, esse era o nome da fábrica para a qual, em janeiro de 1930, Seu Mathias João da Costa, foi contratado para trabalhar de pedreiro. No prédio tombado da Av. Maxwell 300/344, onde hoje funciona um hipermercado, conhecido por muitos pelo nome de Boulevard, ainda é possível observar em letras brancas no alto de sua imponente torre a inscrição C. C. I. que representa as iniciais do nome da fábrica. Logo abaixo dessas três letras pode-se confirmar a antigüidade da construção através da data em que foi erguida: 1894.

Era dessa torre que saiam os famosos três apitos que, tocando sempre às 8hs, meio-dia e 17hs, nos tempos da fábrica marcavam o início do expediente, a hora de almoço e o final do dia de trabalho dos operários. Tais apitos se consagraram no imaginário dos moradores da região, pois mesmo depois do fechamento da fábrica permaneceram sendo tocados por muitos e muitos anos, fazendo com que muita gente marcasse as horas através deles. Além disso, o grande poeta da Vila Noel Rosa contribuiu para imortalizá-los de vez ao escrever a música “Três apitos”, em que há os seguintes trechos: “Quando o apito da fábrica de tecidos/ vem ferir os meus ouvidos/ (…)/ Você que atende ao apito/ de uma chaminé de barro/ por que não atende ao grito tão aflito/ da buzina do meu carro?”.

Mas voltemos ao Seu Mathias. Ele contou que os principais setores da fábrica eram: fiação, tecelagem, engomação, oficina mecânica e carpintaria. Lá dentro havia ainda uma grande loja, um espaço dedicado à venda dos tecidos produzidos, ou seja, era uma área industrial que funcionava também como comércio. É possível imaginar que trabalhasse muita gente num local assim, pelas contas de Seu Mathias, algo em torno de cinco mil pessoas. No início ele foi contratado como pedreiro, mas logo foi transferido para o cargo de soldador elétrico, no qual permaneceu até o final. Sobre o que achava do salário ele não fez rodeios: “Era pouco, mas era certo!”, disse com ar saudosista. Segundo ele, todos os operários tinham sempre a carteira assinada e os donos faziam questão de garantir sempre todos os direitos trabalhistas, tais como férias, transporte e moradia.

É interessante frisar a questão da moradia, pois a casa em que ele mora até hoje e onde concedeu essa entrevista é a mesma em que morava no seu tempo de operário. Ela faz parte da chamada vila operária, a qual está tombada e existe até hoje nos arredores da antiga fábrica e naquela época servia para abrigar os operários e suas famílias. De acordo com Seu Mathias, quando a fábrica fechou, em 1945, foram dadas aos trabalhadores duas opções: “Quem quiser ficar com a casa, pode, mas só vai ter direito a uma indenização de 10 milhões de cruzeiros. Quem abrir mão da casa ganhará 20 milhões.” Disse que viu muita gente pegar os 20 milhões e anos depois ficar sem casa nem dinheiro. Ele foi um dos que preferiram ficar com a casa e afirma ter sido o melhor negócio de sua vida.

Fábrica Confiança - nome como ficou conhecido um local tão importante na vida de tanta gente. E, claro, na de Seu Mathias, que conta sorrindo que lá conseguiu até casamento. Sem ter que buzinar…

Ana Helena Ribeiro Tavares

Matéria publicada na edição de Maio/08 do jornal de bairro “Correio Carioca”.

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5.6.08

A liberdade em duas rodas

Sol forte, centenas de quilômetros a percorrer, o vento batendo em seus cabelos e sua bicicleta está no ponto. Pronto, você está preparado para mais um dia de ciclismo.

Independentemente de campeonatos, é comum amigos se reunirem para fazer longos passeios de bicicleta, quer no monte ou em estrada, dos locais mais inóspitos e selvagens a paisagens urbanas. E quando se torna uma atividade coletiva é geralmente regada a muita amizade e solidariedade.

Em termos de saúde, o ciclismo é uma atividade rítmica e cíclica, ideal para desenvolvimento dos sistemas aeróbico e anaeróbico, dependendo do tipo de treinamento aplicado. Desenvolve o sistema cardiovascular dos praticantes, sendo ainda indicado por médicos especialistas como ótimo exercício para queima de gordura corporal e desenvolvimento de resistência de força muscular de pernas.

O mundo moderno inventou também o ciclismo estático, ou seja, a prática do ciclismo em bicicletas ergométricas e em locais fechados, casa, academia, clube, etc, um exercício aeróbico alternativo e seguro, ideal para indivíduos que desejam maior segurança, sustentação e facilidade de manejo.

No entanto, sendo o ciclismo sinônimo de aventura, adrenalina e saúde, não parece ter nascido pra ficar fechado em quatro paredes. Sua vocação é a liberdade…

Ana Helena Ribeiro Tavares

Matéria publicada na edição de Junho/2008 do jornal “Correio Carioca”.

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5.5.08

Caminhando pela vida

Nas últimas décadas o ser humano passou a depender cada vez mais de carros e transportes públicos para se locomover, mesmo que entre pequenas distâncias. Ao que parece a vontade de caminhar diminuiu na mesma proporção. Recentemente, no entanto, muitas pessoas têm percebido o quanto os exercícios físicos podem ser benéficos para a saúde. Nos dias atuais já é possível ver muita gente falar sobre as maravilhas de uma simples caminhada.

O grande chamariz da caminhada é se tratar de uma forma aeróbica de se exercitar que pode ser encaixada na rotina diária. É ainda uma atividade de caráter social, aprazível para todas as idades e de riscos físicos quase nulos. Tantos prós têm encorajado uma quantidade crescente de pessoas a andar com freqüência regular, visando aperfeiçoar sua condição física e até mesmo relaxar a mente.

São incontáveis os benefícios trazidos para a nossa vida por esse tipo de exercício, o qual não nos pede nenhum custo excessivo. A caminhada regular é grande aliada do coração, ajudando a normalizar os batimentos cardíacos, além de aprimorar a resistência e a força física. Diminui ainda o risco de doenças, tais como a osteoporose, o câncer e todo tipo de doença cardíaca. Andar ajuda ainda a perder peso e, para quem valoriza a estética, é bom lembrar que também faz bem para a pele.

Ana Helena Ribeiro Tavares

Matéria publicada na edição de Maio/08 do jornal de bairro “Correio Carioca”.

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5.4.08

Minha 1ª reportagem - O charme dos carros antigos

- Para o meu avô Antônio Ribeiro, in memorian. Se vivo fosse quando este texto saiu, tenho certeza que esgotaria o jornal em todos os pontos de distribuição que encontrasse pela frente e sairia pelas casas portuguesas e luso-brasileiras gritando: “É da minha neta!”

Um hobby, um esporte, uma paixão e até mesmo uma lição de história. Colecionar automóveis pode ser fascinante.

Recordar um tempo que traz boas lembranças sempre nos traz à mente imagens daquela época. É muitas vezes assim que começa o interesse das pessoas por colecionar e se dedicar a peças antigas, afinal muitas coleções nascem da vontade que se tem de poder guardar consigo partes de uma época, pedaços de uma história – com os carros não é diferente. E quais os critérios que um colecionador usa para definir se um determinado carro é ou não importante para sua coleção? Todos são unânimes em dizer que o principal é a raridade. Mas o que define a raridade de um carro? Provavelmente uma junção de fatores. Seriam eles: a antigüidade; a originalidade (se existem ou não outros iguais); o nome da empresa que desenvolveu sua mecânica ou da pessoa responsável pelo seu designer; país de origem; ou até alguém famoso a quem tenha pertencido o carro. E aonde esses colecionadores descobrem esses carros? Há quem garanta que se a pessoa olhar com cuidado um grande achado pode ser feito no ferro-velho perto de casa… Mas quem gosta e tem condições viaja o mundo à procura daquele carro que lhe chame atenção, que lhe encha os olhos, pode ser em pequenas feiras, mega-exposições, ou, quem sabe, fazendas escondidas. Para quem entende de carros e valoriza raridades, só para citar um exemplo, imaginem o fascínio que é ter em mãos um automóvel de carroceria assinada por Malzoni e mecânica Alfa Romeo de modelo único no mundo. Agora imaginem um ambiente onde se reúnam várias raridades semelhantes a essa, um momento de encontro e confraternização para seus respectivos donos conversarem à vontade sobre esse hobby em comum a todos, trocando experiências e debatendo sobre tudo que possa ter relação com sua paixão. Esses são os clubes de colecionadores de carros antigos. Quem faz parte deles com dedicação separa boa parte de seu orçamento e tempo para essa atividade. Há quem diga que é um hobby, há quem chame de esporte e há muitos que afirmam que a história desses carros se confunde com a de sua própria vida, mas o fato é que seja qual for a maneira como for entendida essa é uma atividade das mais caras. É claro que é preciso dispor de muito capital para investir na compra dos carros e mais ainda para providenciar local adequado para tê-los guardados, mas o que encarece mesmo é a soma incalculável necessária para manter em bom estado mecânicas e carrocerias cujas peças em muitos casos precisam ser importadas ou até feitas sob encomenda. Para se ter uma idéia da dificuldade, um detalhe interessante é que as peças feitas sob encomenda são às vezes feitas à mão pela inexistência de máquinas adequadas. Há ainda outro problema que é a falta de mão-de-obra especializada. “É um trabalho caro e demorado numa área que na cidade do Rio falta gente qualificada. Em São Paulo e no Sul do país, por exemplo, as pessoas parecem se interessar mais por automóveis.” É o que afirma um dos donos de uma oficina mecânica na grande Tijuca, que na juventude queria ser médico e hoje trata seus carros com todo o cuidado e carinho que trataria os pacientes. Ele disse acreditar que se aprende muito lidando com carros antigos e automóveis de uma forma geral: “A indústria no Brasil se desenvolveu a partir da vinda do automóvel para cá. É de certa maneira uma lição de história da industrialização brasileira.” Além disso, ele faz questão de defender o produto nacional: “Dizem por aí que o que é feito aqui é uma porcaria… Não! Nosso produto é muito bom, nosso material é muito bom!” Ele aconselha ainda a quem pretenda entrar para esse seleto grupo dos colecionadores de automóveis a só entrar se tiver de fato certeza que é isso que quer e gosta, caso contrário é melhor nem dar o primeiro passo. Diz ainda que se a pessoa entrar com a esperança de ter lucro nessa atividade também vai se decepcionar logo no início. Segundo esse apaixonado por carros antigos, “uma das coisas que essa atividade pode te dar é a satisfação de ter um carro antigo e passear com ele. É muito mais fácil você ser admirado se chegar num lugar com um carro 1950 em perfeito estado do que com um carro 2008. O 2008 todo mundo está acostumado a ver, o 1950 não.” Ou seja, uma pessoa pode passear pela cidade com seu importado novinho praticamente sem despertar curiosidade, mas se estiver dirigindo uma raridade certamente atrairá olhares de admiração. Pelo que parece há setores em que ser moderno está longe de trazer status.

Ana Helena Ribeiro Tavares

Matéria publicada na edição de abril/08 do jornal de bairro “Correio Carioca”, onde fiz estágio.

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criado por Ana Helena Tavares    15:01:33 — Arquivado em: Jornalista é contador de Histórias!, Reportagens — Tags:, , , , ,

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