Traços de Estilo

“A poesia confunde-se com a prosa da mesma maneira que o poeta confunde-se com o homem da rua e já não pode nem deseja reivindicar para si a condição de eleito dos deuses.” (o poeta Gullar) “É preciso levar em conta as palavras que você escolhe, cuidar de cada sentença. É preciso ser sensível ao sentimento das pessoas.” (o jornalista Talese)

22.10.09

Fordosofando - As raízes de uma mentalidade

No que ele estaria pensando hoje?

No que ele estaria pensando hoje?

“Pensar é o trabalho mais pesado que há, e talvez seja essa a razão para tão poucos se dedicarem a isso.” (Henry Ford)

“Gosto bastante de trabalhar aqui”, diz o empregado a seus companheiros. “Tenho que rever o sistema, ele é pago para produzir, não para gostar”, imaginem quantos patrões ainda pensam assim por trás do vidro.

Por Ana Helena Tavares (publicado também na minha coluna na revista “Médio Paraíba”)

Henri Ford é um exemplo de como um ser pensante usou de sua aparente benesse de aumentar salários com o único objetivo de tornar seus empregados cada vez mais dependentes do emprego de “sua” fábrica e vendendo seu trabalho a “seu” dono, como ele mesmo dependia de empregá-los e usar seu trabalho para sua própria riqueza e poder.

Em sua época, serviu de exemplo para outros donos de fábrica que buscavam unir capital a trabalho fortificado pela mutualidade de sua dependência. Trancados em uma fábrica que era ao mesmo tempo um campo de batalha e um lar natural para esperanças e sonhos.

A dependência de capital e trabalho fazia com que cada parte fizesse de tudo para manter a ordem que estava instalada. Uns compravam e vendiam, e os trabalhadores tinham que se manter saudáveis, fortes e capacitados. Cada lado tinha “interesses investidos” em manter o outro lado em forma.

Deste modo, a “remercantilização” do capital e do trabalho torna-se a principal função e ocupação da política e da suprema agência política, o Estado, que estava “além da esquerda e da direita”, esteio sem o qual nem capital nem trabalho poderiam manter-se vivos e saudáveis, quanto mais crescer (estado de bem-estar).

Os trabalhadores se aprisionavam na idéia de trabalho por toda a vida – “estabilidade”. Já os capitalistas se concentravam no intuito de preservar “fortuna familiar”, que duraria para todos, não só os atuais como também os descendentes da família. Esta era a mentalidade de “longo prazo” e de “interesse de todos”.

Após a Segunda Guerra, com o surgimento de sindicatos fortes, garantidores do estado de bem-estar, e corporações de larga escala, produz-se uma era de “estabilidade relativa”, em que continua a idéia de dependência mútua, mas agora através do confronto e teste de força entre as partes. Nenhuma delas podia continuar sozinha e ambos os lados sabiam que sua sobrevivência dependia de encontrar soluções que todos considerassem aceitáveis.

Essa situação mudou a mentalidade de “longo prazo” para a nova mentalidade de “curto prazo”. “Flexibilidade” tornou-se um imperativo, trabalhadores agora sabem que nada é certo e devem estar capacitados para novos desafios.

Muitos patrões, porém, parecem manter ainda uma mentalidade pré-Segunda Guerra. No comando de grandes empresas e fábricas, ainda há muitos seguidores daquilo que poderíamos chamar de “fordosofia”: quando o empregado é enxergado como um produto que produz com prazo de validade pra isso.

“Gosto bastante de trabalhar aqui”, diz o empregado a seus companheiros. “Tenho que rever o sistema, ele é pago para produzir, não para gostar”, imaginem quantos patrões ainda pensam assim por trás do vidro.

Daí a importância de os trabalhadores reconhecerem cada vez mais sua impotência individual, sabendo da necessidade de juntos poder barganhar melhores benefícios para todos, transformando regulamentos em direitos, reformulando-os como limitações impostas à liberdade de manobra dos empregadores.

Hoje em dia os trabalhadores não podem mais se sentir presos àquilo que “seu Ford mandar”.

22 de Outubro de 2009,

Ana Helena Tavares

criado por Ana Helena Tavares    20:39:04 — Arquivado em: Ensaios, Ensaios monográficos — Tags:, ,

6.6.09

Escrevi e salvei minha alma

Dizem que a preocupação é o mais inútil dos sentimentos. Justificam-se pela raiz da palavra: uma ocupação que vem antes. E o pior de tudo: vem antes de uma hipótese.

Em outras palavras, o sujeito fica ali se remoendo em pensamentos sobre algo que pode vir a ser um problema. Ainda por cima, uma ameaça que pode nunca se concretizar. Isso é a preocupação.

Ela sozinha é de fato inútil. Mas vive nesse sentimento, tão criticado pela sociedade, o poder de se transformar em ação, a partir do momento em que se o põe pra fora. Aí, o inútil pode virar útil.

Senão vejamos… Quando uma pessoa passa pela frente de um prédio, preocupa-se por observar rachaduras na marquise, avisa ao porteiro e, por conta disso, são feitas obras, terá sido inútil aquela preocupação? Bem, talvez aquela marquise pudesse nunca cair, mas são pequenas preocupações como essas, sócias fiéis da prudência, que podem salvar uma ou centenas de vidas. Há uma forte suspeita de que neste último grande acidente de avião que tivemos, os sensores, peças-chave de qualquer avião, estavam com defeito há muito tempo e a companhia aérea sabia. É claro que inúmeros outros fatores podem ter derrubado o avião e esse tal defeito pode não ter sido decisivo pra isso. Mas, como na preocupação trabalhamos com hipóteses, o oposto também tem total condições de ser verdadeiro. E aí, pergunto: será que, antes daquela fatídica decolagem, não havia um ser humano preocupado por lá? Ou será que, em certos casos, o vil metal parece mais útil aos olhos humanos do que preocupações?

Continuando a defesa da preocupação, aquela bem dosada e verbalizada, quando um governo se preocupa com seu povo, porque sente que problemas graves poderão ocorrer e, por conta disso, convoca seus ministros a tomar providências para a melhoria da qualidade de vida do país, terá sido inútil essa preocupação? Óbvio que não. E a preocupação, quando não por interesses próprios, é em última análise uma manifestação de amor ao próximo, seja conhecido ou não, o que, geralmente, provoca reciprocidade. Parece uma conseqüência lógica que um governo que tem carinho por seu povo, preocupando-se com o futuro do país, ganhe, com isso, o carinho da imensa maioria da população.

E, pra terminar a defesa desse injustiçado sentimento, quero tocar no ponto mais delicado de todos. A preocupação em família e entre amigos. Ora, por que delicado? Porque, por incrível que pareça, é aí onde ela encontra mais relutâncias e desconfianças. Quantas vezes os filhos rejeitam solenemente as muitas preocupações de seus pais? Ou, até mesmo, vice-versa. Ou, ainda, quantas vezes um amigo seu já deu de ombros pra sua preocupação com ele? “Ah, essa dorzinha passa logo, não é nada, deixa de besteira.” Aí daqui a pouco você é chamado num hospital. “Não bebe muito, que você não agüenta bebida, filho/pai”. Aí daqui a pouco chega um bêbado na sua casa. E por aí vai…

Você já passou por alguma situação semelhante a essas? Deus queira que não tenha dito o deplorável “eu avisei”. Acredite, isso magoa. Eles sabem que você avisou. Além do mais, o importante de se ressaltar aqui é quantas vezes o contrário acontece na nossa vida. Pense você mesmo em quantas vezes aquela preocupação que você expressou por um ente querido, do seu sangue ou não, surtiu efeito.

Bem, por esses prismas que envolvem nosso plano afetivo, não resta dúvida de que a preocupação está, de forma mais visível do que nos outros casos, condicionada à idéia de conselho. E, diz o ditado: “Se fosse bom…” Pode haver ditado mais capitalista que esse?! A preocupação por quem se gosta, quando materializada num conselho, tanto pode ser a salvação da lavoura como pode não dar em nada, mas você terá sempre a dignidade de ter tentado.

Em resumo, para todos os casos citados neste texto e para todo o sem número de casos possíveis, a preocupação só é inútil se você preocupar-se calado. Isso até me fez lembrar algumas palavras deixadas escritas em latim pelo gênio da crítica ao capital, Karl Marx: “Disse e salvei minha alma”.

A quem se preocupa (inutilmente) com a raiz da palavra, deixo aqui uma pergunta: o que seria do mundo se grandes homens não tivessem se ocupado antes com as hipóteses do depois?

Ana Helena Tavares,
06 de Junho de 2009

Escrevi e salvei minha alma no Recanto das Letras

criado por Ana Helena Tavares    21:59:57 — Arquivado em: Crônicas, Ensaios, Ensaios monográficos — Tags:, , , , ,

5.6.09

Dialogando com a água

1) Um pouco de história… – A evolução do potencial hídrico no mundo e o desenvolvimento dos muitos mitos que envolvem a água

“A água é a seiva do nosso planeta. Ela é a condição essencial de vida de todo ser vegetal, animal ou humano. Sem ela não poderíamos conceber como são a atmosfera, o clima, a vegetação, a cultura ou a agricultura. O direito à água é um dos direitos fundamentais do ser humano: o direito à vida, tal qual é estipulado do Art. 3 º da Declaração dos Direitos do Homem.” (Art. 2º da “Declaração dos Direitos da Água”, homologada pela ONU, em Paris, em 1992).

Nosso planeta bem poderia se chamar planeta Água, afinal, mais da metade dele (2/3) é coberto pelo precioso líquido. No entanto, ao contrário do que se pensa é muito reduzida a porção utilizável pelo homem.

Nesse contexto, nunca é demais lembrar que nos últimos anos a evolução do consumo de água tem levado muitos reservatórios ao limite de sua capacidade. Considerando-se que, historicamente, a disponibilidade de água sempre exerceu grande influência sobre a evolução de um país e de seu povo, a situação mostra-se, então, alarmante.

Há de se considerar que, ao redor do globo, a água doce superficial é distribuída de forma desigual. Enquanto ela é abundante em algumas regiões, como no sul e no norte do Brasil, onde durante todo o ano as bacias dos rios Amazonas e Paraná proporcionam energia, alimento e vida, em outras, sua ausência é sinônimo de pobreza e morte. Afinal, variando-se a quantidade de água de um lugar para outro, variam também, em especial, as características da agricultura e da pecuária, variando, enfim, as possibilidades de desenvolvimento humano. Em lugares onde o clima é predominantemente árido e o abastecimento de água depende de rios e de raras estações de chuva, isso é ainda mais visível, tornando a luta pelo acesso à água e, portanto, à vida, um problema cada vez mais crônico.

Vejam o paradoxo… A água teve papel primordial na origem da vida, sem ela não haveria sequer seres vivos quanto mais seres humanos, e essa mesma humanidade que ela inventou é agora a responsável por sua agonia e pode ser, no futuro, o motivo de seu fim. Não cuidar da água é uma atitude de autodestruição, é fechar os olhos para nós mesmos e para nossa história, é esquecer o cerne da vida e ofuscar o seu encanto.

De elemento purificador em muitas religiões a comprovado potencial terapêutico, a água sempre exerceu grande influência no ser humano. Desde os tempos mais remotos, a imponência da água e seus muitos segredos sempre aguçaram a imaginação dos povos. Na tentativa de explicar o que se mostrava inexplicável e maravilhados com sua magia, os antigos endeusaram a água e cercaram-lhe de mitos que sobrevivem até hoje, dando um toque todo especial à relação do homem com a natureza.

2) Fonte de vida – A água e a origem do mundo

“Conseguir alimento não deve ter sido problema para os primeiros seres vivos, pois a água do mar os envolvia.” (Fernando Gewandsznajder – biólogo - em seu livro “Biologia”)

Segundo estudos científicos, a origem da água na Terra se deu em duas fases distintas: 1) pela ocorrência de vapor de água na atmosfera primitiva que se dispersou num primeiro momento por causa da elevada temperatura existente, provocando uma notável diminuição da temperatura ambiente; 2) pela representativa chegada de quantidade vinda do interior do planeta, ocupando os vales da crosta, numa profundidade média de 3 a 4 quilômetros. Esse volume de água não foi disperso para o espaço sideral em forma de vapor, como foi o caso da maioria dos planetas, que eram extremamente quentes, em virtude de a água ter se deparado com uma crosta terrestre menos aquecida. Aliás, a Terra é o único planeta que tem água em estado líquido.

No início, a água era pobre em minerais. Entretanto, seu enriquecimento – especialmente em sais – foi gradual, tendo sido feito através de sua movimentação sobre os leitos dos oceanos, em movimentos sísmicos, a altos graus de temperatura e através de uma contínua acumulação proveniente dos continentes e com eventuais precipitações pluviais.

Essa gênese hídrica foi o berço da vida. Sabe-se que proteínas aquecidas e misturadas à água fria podem agrupar-se formando pequenas gotas chamadas microsferas. Outro tipo de aglomerado de moléculas orgânicas pode ser também obtido, misturando-se ácido a uma solução de proteínas em água: as proteínas se aproximam e formam aglomerados visíveis ao microscópio óptico: são os coacervados. O coacervado ou a microsfera, presente nos mares primitivos, que tivesse aprisionado em seu interior proteínas enzimáticas e uma molécula de ácido nucléico (originada das sínteses de moléculas orgânicas da atmosfera primitiva), seria considerado o primeiro ser vivo. Isso porque ele teria a capacidade de realizar metabolismo, de reproduzir-se, de apresentar hereditariedade e de evoluir.

Desde o surgimento dos primitivos seres vivos, todas as formas de vida têm uma necessidade imperativa de água – e esta provém dos oceanos, até mesmo aquela que é utilizada na terra pelas plantas e animais. Vida alguma poderia existir, porém, por um momento sequer sobre a Terra, se a água não tivesse a capacidade de dissolver mais substâncias do que qualquer outro líquido conhecido, o que, por exemplo, possibilitou ao primeiro ser vivo nutrir-se simplesmente absorvendo e utilizando as inúmeras moléculas orgânicas simples presentes na água. Por vários motivos, essa e muitas outras propriedades da água – no estado líquido –, como a sua extraordinária capacidade de armazenar calor, parecem quase ter sido inventadas para tornar o mundo hospitaleiro à vida. Na verdade, em última análise, nós mesmos, os seres humanos, tivemos origem na água.

3) A água na mitologia

“Grande parte dos mitos origina-se do desejo do homem de explicar fenômenos naturais como a água” (Tancredo Pinto, professor de mitologia)

Quando se trata de mitologia, há uma pergunta que não quer calar: afinal, o que significa o termo mito?!

Pode-se dizer que, no nosso contexto, mito quer dizer história ou conjunto de histórias que fazem parte da cultura de um povo e tentam explicar fenômenos incompreendidos.

Mitologia greco-romana

A água é um elemento de fundamental importância na cosmogonia, a origem do mundo para a mitologia grega. A água, Hidros, aparece para salvar a Terra, Gaia, que
estava sendo queimada por Piros, o fogo.

Essa entidade Hidros/água, passa a fazer parte do mundo olímpico de Zeus e dos deuses do Olimpo. O deus Poseidon, Netuno para os romanos, era o senhor das águas, o deus dos mares e também dos rios. Seu palácio era no fundo do mar Egeu e sua arma era o tridente, com que provocava maremotos, tremores de terra e fazia brotar água do solo.

Entretanto, Poseidon, mesmo sendo o senhor das águas, não exerce sobre ela um poder absoluto, pois a água é um elemento primordial, que surgiu ainda antes de haver o deus.

A água se faz sempre muito presente, sendo símbolo de continuidade, fertilidade e proteção materna.

Ela sempre é habitada ou transformada. O rio Serifo, por exemplo, personaliza-se: ele toma forma de homem e deita-se com as ninfas. Mito muito semelhante à lenda do boto cor-de-rosa na mitologia amazônica, em que o peixe de um rio vira homem e deita-se com as mulheres à noite.

Mitologicamente, os rios são seres masculinos e cada rio é um homem.

Ao tomar banho de rio, as entidades femininas como as ninfas, podiam engravidar e ter muitos filhos. São inúmeros os filhos da água na mitologia, são cinqüenta, cem filhos num mesmo parto! Esse extremo exagero é justamente para fazer ver a fertilidade da água e sua grande importância na antigüidade.

A deusa do amor da mitologia, Afrodite (Vênus), não teria nascido do ventre de nenhuma mulher, deusa ou mortal, ela teria surgido da água do mar.

O mar era muito importante e vários personagens povoavam-no. Além de Poseidon (Netuno), sua esposa Anfitrite, seu filho Tritão (que era responsável pelo movimento das marés), e o velho do mar, Nereu, com suas 50 filhas, são outras divindades marítimas. Dentre as divindades aquáticas estão também os deuses rios, ninfas aquáticas e o deus Glauco, que supõe-se ter sido um pescador que, enlouquecido por uma erva mágica, atirou-se no mar e se tornou o profeta das águas. Havia ainda a deusa Tétis, as sereias, as pléiades, que eram filhas de Poseidon (Netuno), e as nereides, que são outras divindades aquáticas, no caso, todas mulheres.

Depois de guerras, lutas e mortes injustas, a água servia para a purificação. Como forma de se purificar de algum ato vil que cometessem, os gregos se banhavam num rio. Eles desenhavam o mar em formato de serpente que, muitas vezes, representa a mutação das águas. Para a cultura do mundo antigo, a água sempre foi de vital importância, um elemento extraordinariamente forte, sempre venerado e respeitado.

Mitologia asteca

Para os astecas, Tlaloc é o ser que se ocupa da tutela da água, é o Deus que pode fazer com que a vida possa continuar eternamente. Considerado também o Deus da chuva e da tempestade, era um dos deuses mais cultuados no antigo México.

Lendas africanas

Afrodite (Vênus), das lendas greco-romanas, é a mesma Iemanjá (sereia) dos cultos afros. Julga-se ser uma só sob nomes diferentes.

Na mitologia afro, Iemanjá é a divindade das águas verdes e salgadas. Ela leva um leque e bracelete de metal prateado e dança interpretando o movimento das águas agitadas. No Brasil, é considerada pelos umbandistas a rainha do mar e protetora da família, cultuada aos sábados e fins de ano nas praias.

No entanto, dentro do sincretismo católico-umbandista, ela é Nossa Senhora da Glória, festejada a 15 de Agosto no Rio de Janeiro e a 2 de Fevereiro na Bahia, como Nossa Senhora das Candeias, ou dos Navegantes.

Mitologia fenícia

O estado de umidade dependia do Deus Aleyin e, por isso, ele era considerado o espírito das fontes, mananciais, arroios e rios.

Mitologia indígena brasileira

Tamandaré, o correspondente indígena do Noé bíblico, salvou sua civilização, livrando-a da tempestade que alagou o local em que vivia. A mitificação da água, elemento recorrente na mitologia indígena, recorre justamente da suma importância que essa substância pura tem para as tribos do Brasil. Quando, há quase quinhentos anos, os lusitanos aportaram em terra de Pindorama, como os índios a chamavam, um dos aspectos que mais os impressionaram foi a limpeza característica de todos os índios: homens e mulheres tão limpos que não se intimidavam em mostrar suas “vergonhas”. Provavelmente, essa cena remeteu-lhes à própria realidade dos europeus, em que banhos diários eram simplesmente inimagináveis.

Mitologia celta

Entre os celtas Boann era a deusa da água e da fertilidade. Os heróis celtas, muito freqüentemente, consideram-se filhos do Rio Reno.

Mitologia egípcia

No panteão de deuses egípcios, havia três divindades relacionadas com a água: Sobeque e os irmãos Osíris e Seth. Sobeque, também conhecido como Deus-crocodilo, era considerado o senhor do universo e venerado em cidades que dependiam da água. Já Osíris era o Deus da vegetação, a personificação da fecundidade e a fonte total e criadora das águas. Simbolizava na sua morte a estiagem anual e no seu renascimento, a cheia periódica do rio Nilo e o desabrochar do trigo. Ensinava os seus súditos a cultivar a terra e aproveitar da melhor maneira os seus frutos, procurando orientá-los em tudo que precisassem. Seth, por sua vez, era o Deus do Alto Egito e estava associado às tempestades. Conta a lenda, que depois que matou seu irmão Osíris, passou a ser conhecido não só como o Deus das tempestades, mas também como o Deus da destruição e da guerra.

No Egito, para garantir a existência e continuidade da vida, a mesa de pedra talhada ou a mesa de libação era posicionada nas margens dos rios e sobre ela derramava-se vinho que – ao escorrer pelos sulcos sinuosos da terra – representava os meandros desses rios.

Certa vez, um grego, ao conhecer o Egito, deu ao país o título de O Dom do Nilo, em virtude de o Rio Nilo proporcionar a maior parte da riqueza do Egito.

Toda essa exposição da mitificação da água nas antigas civilizações citadas só vem mostrar o quanto esses povos sabem – ou, infelizmente, sabiam: o incalculável valor da água. E faz-nos pensar em quão maravilhoso seria se a nossa civilização dita moderna, se inspirasse nessas civilizações consideradas tão atrasadas e desse a merecida atenção a esse bem natural, tratando-o como parceiro para o desenvolvimento.

4) A água como purificação do corpo e do espírito
“Eu voz batizo com água, para o arrependimento”. (Mateus 3:11)

A palavra batismo vem do grego, “baptizein”, que quer dizer mergulho ou imersão na água.

Nas religiões cristãs em geral, o batismo é o rito escolhido por Deus, simbolizando o início da vida espiritual do indivíduo. O batismo nas águas ministrado por João Batista, no Rio Jordão, por exemplo, era um banho profundamente sagrado.

Para os seguidores da linhagem Luterana, representa a admissão solene da iniciação religiosa, através do ritual da ablução, ou seja, banho de todo o corpo, ou parte dele, com esponja embebida em água ou toalha molhada, ou seja, é essencialmente um ritual de purificação por meio da água.

Na Igreja Católica Romana, o batismo também é de fundamental importância, simbolizando o renascimento espiritual. Assim como nas demais religiões, a água é um elemento indispensável do ritual católico do batismo e quem recebe o sacramento pode simplesmente ter a testa molhada ou a cabeça respingada com água, representando a purificação de todas as culpas e pecados.

Fazendo um breve paralelo com o fato de o batismo em água ser em algumas religiões considerado a purificação dos pecados, lembro aqui de uma curiosidade sobre a simbologia da água. Dante Alighiere, em sua Divina Comédia, sugere a água como símbolo de purgação, quando em uma das passagens do texto diz que o ser do purgatório poderia ver a água, mas não poderia bebê-la, o que lhe seria uma forma de castigo. Visão semelhante ao mito grego de Sísifo.

Voltando à presença da água no ritual de batismo das diversas religiões, no caso dos judeus dos tempos apostólicos, ser “batizado” sugeria “batismo de prosélito”, ou seja, ato praticado quando um pagão se voltava contra o judaísmo. Este, ficava em pé com a água até o pescoço enquanto era lida a lei, depois submergia das águas, como sinal de que abandonara as práticas do paganismo para então prosseguir nos preceitos judaicos.

Há em toda época antiga, rios sagrados, no qual os povos banhavam-se para purificar-se física ou mentalmente, hajam vistos os povos da Índia milenar serem levados a banhar-se nas águas do rio sagrado, o Ganges, cumprindo assim parte de um ritual que, para eles, é indispensável e sagrado. Além disso, nos rituais da Umbanda os banhos também se fazem muito presentes. Desde os tempos mais remotos, eles sempre foram um potente integrante do sentimento religioso.

5) A influência da água como quarto elemento da natureza

“Energia concentrada, lenta e grande talento para estabelecer conexões.” (astrologia)

A água se adapta à forma que a abriga, seja um copo, um vaso ou um pedaço de terra, por exemplo. O elemento água é receptivo e moldável, assim como nossos sonhos, nossas fantasias, nossos desejos e nossas emoções.

Na astrologia, o elemento pode ser simbolizado pela alma ou pela emoção.
Os signos de água – Câncer, Escorpião e Peixes – vivem em seus sentimentos, é o estado emocional que determina seu comportamento. Os aspectos negativos são: temores irracionais, instabilidade, descontrole emocional e magoar-se com facilidade, o que deve ser contornado por meio da firmeza. As pessoas de água devem ser firmes consigo mesmas, não se deixando levar pelas emoções e sentimentos descontrolados.

Há, claro, muitos aspectos positivos trazidos pelas vibrações do elemento água. As pessoas dos signos de água, são extremamente intuitivas e tendem a descobrir a vida com mais sensibilidade do que racionalismo. Sempre em sintonia com as emoções, muitas vezes vêem nelas sutilezas que outras pessoas sequer percebem. A energia do elemento as leva sempre a procurar agir com o coração. Esta sensibilidade tem uma força incrível, quando canalizada para atividades ou situações que exijam o uso das emoções.

6) O potencial terapêutico da água – Como ela se faz presente na vida do ser humano

“Uma lágrima, uma gota de água: a sutil explosão corporal dos sentimentos” (Ana Helena no poema “A água é dona da água?”)

Há muitos séculos que a água vem sendo usada para terapias – romanos, chineses, japoneses, egípcios e hebreus já acreditavam no seu poder terapêutico e energético. Nos dias de hoje, está cada vez mais comprovada a sua eficácia no auxílio à cura de diversos males.

A água de fato pode ser uma grande aliada para terapias mentais e corporais. Com a hidroterapia, a pessoa pode executar movimentos que, muitas vezes, julgava-se incapaz. Esse tipo de tratamento permite resultados mais rápidos e eficazes, pois fora d’água as dores tendem a ser mais agudas. Além disso, em terra o corpo tem que lutar contra a gravidade, já o ambiente aquático neutraliza esse fator. Em vista disso, em muitos casos, os astronautas, são treinados na água.

Essencialmente, a terapia aquática é eficaz por conseguir aliar o bem-estar físico e mental. As aplicações hidroterápicas podem ser na forma de fricções, banhos, compressas, duchas, enfaixamentos e saunas. Dentro d’água, um paciente ferido pode, por exemplo, exercitar um músculo danificado expondo-se menos à dor e ao estresse.

Além de auxiliar em terapias, a água é também considerada a melhor bebida. Revigorante e desintoxicante, beber água com freqüência é de extrema importância para o bom funcionamento do corpo humano, o qual é 70% água.

Ainda dentro do contexto da influência que a água exerce sobre o ser humano, ela é muito vista também como sinônimo de lazer e esporte. Para quem procura diversão, por exemplo, parques aquáticos e aquários artificiais fazem grande sucesso.

No que diz respeito aos esportes aquáticos, inúmeras são as opções. Pólo aquático, hidroginástica, saltos ornamentais, mergulho, natação, canoagem, iatismo, pesca submarina, remo, vela, surfe… E poderia citar muitos outros, mas dentre esses vale ressaltar que a natação é considerada o esporte mais completo, por trabalhar magistralmente a maior parte dos músculos do corpo, aliando a isso a contribuição para uma melhor respiração e o estímulo à circulação sangüínea.

Como se pode ver, estando ou não doente, seja em terapias ou em atividades esportivas, qualquer pessoa pode e deve lançar mão dos benefícios da água para aliviar a musculatura, relaxar a mente e gozar a vida.

7) A água vista como símbolo de prosperidade, fartura e fertilidade

“Essa terra é de tal maneira graciosa que, querendo aproveitá-la, dar-se-á nela tudo por bem das águas que tem” (Pero Vaz de Caminha na “Carta do Descobrimento do Brasil” )

Feliz da terra que tem água! Águas que embelezam, transportam, alimentam, fertilizam…

Grande magia há numa paisagem rodeada de água. Sentar-se a observar o correr de um rio ou o bater das ondas do mar é um colírio para os olhos, um elixir para a mente.

Lugares com grande ocorrência de rios e mares são abençoados não só porque o transporte aquático constitui-se em importante estratégia comercial, mas também pela grande beleza que há em se ver atravessando um lago, um rio, um mar… Poder “andar” por sobre as águas
seja num luxuoso navio ou num simples barco, sempre foi algo que encantou o ser humano.

Sabe-se que as hidrelétricas são grandes aliadas para o abastecimento de eletricidade. No entanto, a água, muito antes de ser fornecedora de energia, é essencial geradora de alimentos. Desde os tempos mais remotos até os nossos dias, a pesca sempre foi uma das mais importantes atividades humanas. Com peixes e frutos do mar pode-se alimentar toda uma comunidade.

A água, porém, não só gera alimentos, como também possibilita a sua produção em terra. Sem água o solo por si só não daria conta e plantações não sobreviveriam. Terra com água é terra fértil e produtiva.

8 ) Conclusão e considerações finais – A prioridade de se olhar a questão com maior compromisso para que, preservando-se a água, seja preservada também a beleza de seus mitos

“Para algo ser um mito não é preciso que de fato exista, mas sem água nem vida existe… Num mundo desértico, quem sobraria para manter esse mito??” (Ana Helena no poema “A água é dona da água?”)

Há muitos anos que o descaso de grande parte da humanidade com a natureza e, em particular, com a preservação da água, vem fazendo com que se tornem cada vez mais escassas as fontes de água utilizável pelo ser humano.

Nosso planeta recebeu o privilégio de ser o único a ter água em estado líquido, possibilitando que nele surgisse a vida e, conseqüentemente, a humanidade. Resta a nós preservar essa dádiva que nos foi dada para que ainda possa haver muitas e muitas gerações sobre a Terra. Sendo conservada, assim, a vida e sua qualidade, e fazendo com que essas futuras gerações possam conhecer o fascínio da água e continuar a cercá-la de mitos.

Cuidar da água é manter viva a Terra. O início da vida dependeu da água e dela também depende o seu futuro.

Ana Helena Tavares

criado por Ana Helena Tavares    09:38:31 — Arquivado em: Diálogos, Ensaios, Ensaios monográficos, Proseando — Tags:, , , ,

20.2.09

Quando o poeta se lê

- Dedico este pequeno ensaio a Affonso Romano de Sant’Anna, porque “escrever é formular nossos sentimentos”.

Quando o poeta se lê descobre que não quer ser super homem, não quer ser limitado por nenhum tipo de perfeição. Cada defeito, em cada letra, é o que o constrói. É o que o faz querer continuar.

Poesia não nasceu pra ser perfeita. Tal qual uma pintura que o pintor veja e… “Óh, caramba, faltou ali um passarinho”. Belo motivo pra fazer um quadro só com ninhos.

É que quando o poeta se lê recobre a si mesmo com o que veio de si. Seja alegria, seja tristeza, está tudo ali diante daquelas retinas. Umas mais fatigadas que as outras.

Quem é o poeta? Ele pode escrever em prosa e ter a poesia na alma. Ele pode escrever em verso e passar a vida proseando. Poetar é verbo, é carne, é o poder que todos nós temos de alcançar as nuvens. E, ao mesmo tempo, nos faz engatinhar como crianças pra dentro de nosso próprio interior.

E quando o poeta se lê, ele também vê ao redor. Vê muito. Vê quantos poetas há por perto, ou longe. Mas a geografia não entra nessa. Corações de poeta se atraem. Vocês têm dúvida?

De uma palavra escrita pode surgir um sorriso. Um sorriso que já se viu, já se sentiu em outros. E não me digam que sorriso não é poesia. Risadas? Sonetos puros. Com direito a verso alexandrino.

O choro então? Dali pode vir um hino. Hinos são poesia. Se cantados com a mão no peito nem se fala. Verdadeiras odes gregas. Ou troianas.

Na poesia até a guerra pode apaziguar.

Mas e a rima, e a métrica? Não, não é isso que faz um poema. Alexandrinos, haicais, versos brancos, o que importa é o sentimento. O olhar descomplicado.

O poeta escreve porque precisa se ler. Precisa beber do vinho que seus próprios pés pisaram. E não há nada como uma leitura bem direta que o diga: Tá lendo, né? Olha aí, você é isso!

16 de Fevereiro de 2009,

Ana Helena Tavares

Quando o poeta se lê no Recanto das Letras

criado por Ana Helena Tavares    22:10:40 — Arquivado em: Algum lugar entre a prosa e a poesia, Ensaios, Ensaios monográficos — Tags:, ,

21.12.02

Breve ensaio sobre o bom senso

O bom senso é a coisa mais “organizada” do mundo, pois como cada pessoa acha-se sempre no direito de impor sua maneira de pensar, mesmo os mais resistentes à acomodação do pensamento, parecem não preferir aumentar a “inteligência” que supõem ter. Até é bem possível que todos ou pelo menos a maioria, tenha razão ao acreditar que não é preciso acrescentar algo novo ao que pensam, talvez por medo de acabar por contestar suas “certezas” e isso não é de todo nocivo… Isso nos chama a atenção ao fato de que a arte de fazer “boas” conclusões é instintivamente comum a todos. Ser mais ou menos racional do que o outro nem sempre é fator decisivo para que divirjamos em nossas opiniões. Provavelmente, isso se deve ao fato de fazermos sempre nossa opção de pensamento. A questão é que ser “bonzinho” nem sempre é fundamental: o que vale é usufruir corretamente dos nossos conhecimentos. Grandes tentações podem causar problemas por mais que a pessoa tenha alma nobre. Em contrapartida, essas mesmas pessoas podem também ser cobertas de honras. Os mais cautelosos devem ter sempre a honradez como sua melhor aliada, visto que aqueles que se distanciam dela estão arriscados a perder o rumo…

Ana Helena Ribeiro Tavares
21/12/02

criado por Ana Helena Tavares    21:23:16 — Arquivado em: Ensaios, Ensaios monográficos — Tags:,

15.7.02

Considerações sobre a questão da verdade

- Para Vera Vidal, minha filósofa amiga, minha amiga filósofa, que nunca deixou de acreditar nessa sua avoada orientanda, nunca deixou de acreditar no seu “prodígio da síntese”…

Verdade… Eis aí um conceito dos mais polêmicos. Palavra de estranha magia, que vem estimulando a imaginação do ser humano desde os primórdios da humanidade.

Será possível encontrar verdades inquestionáveis? Ou, ao menos, escolher entre as possíveis verdades, aquela que nos for mais cômoda, por parecer-nos mais adequada? Será??? Certamente, a grande maioria das pessoas, não saberia como responder a essas perguntas. Essa questão que à primeira vista pode até parecer banal, é tão ou ainda mais relativa do que a relação tempo/espaço, consagrada pela famosa “teoria da relatividade” de Einstein… Teoria que bem poderia ser aplicada ao conceito de verdade…

Foi justamente por não conseguir conviver com essa dúvida, que René Descartes dedicou-se, entre outras atividades, a pesquisar, incansavelmente, esse conceito. E para ele a única verdade que não poderia ser posta à prova é o fato de pensarmos, pois para ele só existimos porque pensamos, é o “Penso, logo existo”, ou seja, existo enquanto ser pensante. Ele acreditava, também, que dentre as supostas verdades que nos são apresentadas devemos, sempre, escolher a mais simples. Isso lhe parecia mais lógico…

Baseada nessas convicções cartesianas, arrisco-me a fazer um paralelo com o conceito de loucura… Como destinguir se uma pessoa está mesmo louca ou se apenas foge às verdades preestabelecidas e aceitas pela maioria, no que se pode chamar de “acordo involuntário”? Penso que não conseguir mesmo controlar o que se diz e não ter plena consciência do que se pensa, é que realmente pode-se chamar de loucura, pois quando a pessoa se acha meio louca, muitas vezes, por se achar diferente da maioria , isso não deve ser considerado loucura… Apenas, essa pessoa segue uma linha de pensamento que nos parece estranha, justamente pelo fato de o seu conceito de verdade fugir ao senso comum. O próprio Descartes deve ter sofrido esse tipo de preconceito que, aliás, deve ser a sina de todo o grande gênio. Digo isso, porque o processo de formação de opinião sobre qualquer assunto, traz muitas dúvidas, podendo levar a caminhos estranhos, quase sempre, incompreendidos pela maioria. E talvez seja esse o preço da “escala do conhecimento”, um dos principais métodos de Descartes.

Não tenho a pretensão, portanto, de ter certeza de nenhuma verdade, mesmo porque não acredito em verdades absolutas! Entretanto, concordo com Descartes quando ele diz que devemos escolher as verdades que nos pareçam mais simples. Afinal, se já é instintivo tentarmos definir as melhores verdades para nós, por que desafiar nossa própria natureza?

Ana Helena Ribeiro Tavares
15/07/02

criado por Ana Helena Tavares    21:19:44 — Arquivado em: Ensaios, Ensaios monográficos — Tags:, ,

Report abuse Close
Am I a spambot? yes definately
http://ahrt84.blog.terra.com.br
 
 
 
Thank you Close

Sua denúncia foi enviada.

Em breve estaremos processando seu chamado para tomar as providências necessárias. Esperamos que continue aproveitando o servio e siga participando do Terra Blog.