Traços de Estilo

“A poesia confunde-se com a prosa da mesma maneira que o poeta confunde-se com o homem da rua e já não pode nem deseja reivindicar para si a condição de eleito dos deuses.” (o poeta Gullar) “É preciso levar em conta as palavras que você escolhe, cuidar de cada sentença. É preciso ser sensível ao sentimento das pessoas.” (o jornalista Talese)

22.10.09

Fordosofando - As raízes de uma mentalidade

No que ele estaria pensando hoje?

No que ele estaria pensando hoje?

“Pensar é o trabalho mais pesado que há, e talvez seja essa a razão para tão poucos se dedicarem a isso.” (Henry Ford)

“Gosto bastante de trabalhar aqui”, diz o empregado a seus companheiros. “Tenho que rever o sistema, ele é pago para produzir, não para gostar”, imaginem quantos patrões ainda pensam assim por trás do vidro.

Por Ana Helena Tavares (publicado também na minha coluna na revista “Médio Paraíba”)

Henri Ford é um exemplo de como um ser pensante usou de sua aparente benesse de aumentar salários com o único objetivo de tornar seus empregados cada vez mais dependentes do emprego de “sua” fábrica e vendendo seu trabalho a “seu” dono, como ele mesmo dependia de empregá-los e usar seu trabalho para sua própria riqueza e poder.

Em sua época, serviu de exemplo para outros donos de fábrica que buscavam unir capital a trabalho fortificado pela mutualidade de sua dependência. Trancados em uma fábrica que era ao mesmo tempo um campo de batalha e um lar natural para esperanças e sonhos.

A dependência de capital e trabalho fazia com que cada parte fizesse de tudo para manter a ordem que estava instalada. Uns compravam e vendiam, e os trabalhadores tinham que se manter saudáveis, fortes e capacitados. Cada lado tinha “interesses investidos” em manter o outro lado em forma.

Deste modo, a “remercantilização” do capital e do trabalho torna-se a principal função e ocupação da política e da suprema agência política, o Estado, que estava “além da esquerda e da direita”, esteio sem o qual nem capital nem trabalho poderiam manter-se vivos e saudáveis, quanto mais crescer (estado de bem-estar).

Os trabalhadores se aprisionavam na idéia de trabalho por toda a vida – “estabilidade”. Já os capitalistas se concentravam no intuito de preservar “fortuna familiar”, que duraria para todos, não só os atuais como também os descendentes da família. Esta era a mentalidade de “longo prazo” e de “interesse de todos”.

Após a Segunda Guerra, com o surgimento de sindicatos fortes, garantidores do estado de bem-estar, e corporações de larga escala, produz-se uma era de “estabilidade relativa”, em que continua a idéia de dependência mútua, mas agora através do confronto e teste de força entre as partes. Nenhuma delas podia continuar sozinha e ambos os lados sabiam que sua sobrevivência dependia de encontrar soluções que todos considerassem aceitáveis.

Essa situação mudou a mentalidade de “longo prazo” para a nova mentalidade de “curto prazo”. “Flexibilidade” tornou-se um imperativo, trabalhadores agora sabem que nada é certo e devem estar capacitados para novos desafios.

Muitos patrões, porém, parecem manter ainda uma mentalidade pré-Segunda Guerra. No comando de grandes empresas e fábricas, ainda há muitos seguidores daquilo que poderíamos chamar de “fordosofia”: quando o empregado é enxergado como um produto que produz com prazo de validade pra isso.

“Gosto bastante de trabalhar aqui”, diz o empregado a seus companheiros. “Tenho que rever o sistema, ele é pago para produzir, não para gostar”, imaginem quantos patrões ainda pensam assim por trás do vidro.

Daí a importância de os trabalhadores reconhecerem cada vez mais sua impotência individual, sabendo da necessidade de juntos poder barganhar melhores benefícios para todos, transformando regulamentos em direitos, reformulando-os como limitações impostas à liberdade de manobra dos empregadores.

Hoje em dia os trabalhadores não podem mais se sentir presos àquilo que “seu Ford mandar”.

22 de Outubro de 2009,

Ana Helena Tavares

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3.9.09

Quando um gato vira leão - um tributo a Ted Kennedy

Voz tranqüila, porém firme, dedos apontados para os sonhos.

Por Ana Helena Tavares

Quando Collor se candidatou à Presidência da República, o exército de Roberto Marinho sabia que tinha uma arma na missão de elegê-lo: ele era um gato. Parece piada, mas é fato. Já vi muita mulher (instruída!) assumir que votou nele porque era “o mais bonito”. Agora em 2009, anos depois de o povo ter descoberto, com um paradoxal – e oportuno – empurrãozinho daquele mesmo exército, que gatos não põem mesa, vem ele querendo rugir no Senado. Só o que ele talvez não saiba é que para ser leão não basta rugir, é preciso que se consiga levar outros a rugirem junto ou a respeitarem o seu rugido.

Mas vocês talvez estejam pensando: “Que mau gosto fazer um tributo a Ted Kennedy e começar o texto falando do Collor!” Pois é, nem eu sei de onde me saiu essa idéia, mas é, sim, possível fazer uma relação de antagonismo entre as duas figuras.

Fernando Collor de Mello, assim como seu irmão já falecido, que era igualmente gato, teve desde sempre uma vida pessoal obscura. Poucos sabem, por exemplo, que seu pai, Arnon Afonso Farias de Mello, foi assassino de um senador. Os irmãos Kennedy, dois deles mortos precocemente, todos igualmente gatos, tiveram um pai mais exemplar. Todos os três, porém, tiveram uma juventude e, no caso de Ted, uma longa vida pessoal a que se pode tranqüilamente chamar de desvairada, incluindo conhecidos episódios de envolvimento com bebida.

Já na vida pessoal reside o antagonismo da relação que busco fazer aqui. Enquanto a de Collor se mostra um vale de sombras, a de Ted era um livro promíscuo, porém aberto.

No entanto, ao povo de nada importa a vida pessoal de um homem público. Importa sua combatividade, importa as causas pelas quais luta e as batalhas que consegue vencer nessa selva chamada política. E aí mora o grande antagonismo deste texto. Collor é um perdedor não por ter sido expelido da presidência pela mesma mão que o colocou, como num sórdido jogo de marionetes, mais do que isso, é um perdedor não por ter perdido alguma causa de interesse público – é um perdedor porque nunca às teve. Ted Kennedy, sem nunca ter chegado à presidência dos EUA, era um homem de causas públicas, um agregador nato, combativo até o fim naquilo em que realmente acreditava, o que lhe justificava o título de “o leão do Senado”.

Em tempos de omissão e, em alguns casos, até de contribuição direta de seu país, Ted Kennedy rugiu alto contra a ditadura no Chile, o Apartheid na África do Sul e a guerra do Vietnã. Embora certamente não tenha conseguido ver no mundo todas as mudanças com as quais sonhava, Ted levou muitos a rugirem junto. Ainda assim, como não poderia deixar de ser, foi, muitas vezes, voto vencido, mas nunca desistia e, com toda razão, gostava de vangloriar-se de ter lutado. Gostava, por exemplo, de anunciar que seu voto mais bem acertado no Senado foi aquele em que disse um sonoro não à invasão do Iraque. E ele estava mais do que certo por ter orgulho disso. Também eu teria – e muito. Sua atuação nesse e em outros casos de interesse mundial foi, claro, digna de toda admiração. Mas, em termos de política interna, sua grande causa talvez tenha sido a reforma na Saúde. Lutou sem trégua por um sistema público, no estilo europeu, ferozmente condenado pela direita, pelas seguradoras, pelos médicos, pelos hospitais – o leão foi bombardeado de todos os lados e jamais fraquejou.

Há poucas ligações de Ted Kennedy com a política brasileira. Não consta, por exemplo, que ele tenha tido o desprazer de conhecer pessoalmente Fernando Collor. Mas pelo menos um político brasileiro ele conheceu de perto, sobre o qual digam o que quiserem, pra mim foi um dos maiores – um leão de botina e bombacha, tchê – Leonel Brizola. Pois muito bem, o próprio. Quando Brizola foi expulso do Uruguai, em 1976, por ordem de Geisel, Ted Kennedy o recebeu como amigo nos EUA. Há quem diga que da amizade entre os dois nasceu a luta de Ted Kennedy contra a ditadura no Brasil.

Como é do conhecimento de muitos, Brizola não era homem de bajulações. Nesse sentido, é digno de nota o apreço especial que ele nutria pelo amigo Ted. Algo de fato incomum para Brizola, que definia Ted Kennedy como “um inconformado, um verdadeiro democrata na luta contra toda falta de liberdade.”

O fato é que com seu sorriso fácil, sua voz tranqüila, porém firme, dedos apontados para os sonhos, era mesmo muito difícil resistir aos discursos de Ted. Não eram vazios, menos ainda demagogos, como os de tantos. Aproximar-se dele era sinônimo de respeito, mesmo para quem estava em trincheiras opostas – lá estava Bush em seu enterro, por essa nem ele esperava. Era sinônimo de querer ouvir, mesmo para quem tanto gostava de falar, como era o caso de Brizola.

Leão é líder, e o olhar do líder não amedronta – agrega.

03 de Setembro de 2009,

Ana Helena Tavares

Quando um gato vira leão na Revista Médio Paraíba

Quando um gato vira leão no site youPode

Quando um gato vira leão no Recanto da Letras

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27.8.09

Cabelo fixo a Gardel - Com vocês, JK

Seresteiro, namorador, bom de papo, de mesa e copo, o presidente é bossa-nova sem receios e se aproxima do perfil do latino sedutor com ares civilizados de estadista. Pé-de-valsa, roupa recortada, cabelo fixo a Gardel com pasta Gumex, JK é popular sem perder o porte. Passa do banquete ao rega-bofe sem cerimônia. Seu gosto pessoal tem a marca do ecletismo. Do arroz carreteiro ao cerimonial sem sobressaltos. Era novo no país um político natural, sem a menor afetação ao falar, que desfilava informalidade sem forçar a barra. Era porque era.

Por Ana Helena Tavares

O HOMEM JK

De Diamantina para o mundo

Nascido em Diamantina, Minas Gerais, no dia 12 de Setembro de 1902, Juscelino Kubitschek de Oliveira foi um dos mais importantes políticos brasileiros. Formado em medicina pela Universidade de Minas Gerais, antes da presidência, JK foi prefeito de Belo Horizonte, governador de Minas Gerais e deputado federal.

O estilo JK

O estilo conciliador despertava inveja. Até os adversários admitiam: bastava conhecer sua simpatia para baixar a guarda.
JK em si, com seu jeitão, sinaliza uma postura de comportamento e cultura: concentra imagem da cordialidade e “boa gente” nacional. Seresteiro, namorador, bom de papo, de mesa e copo, o presidente é bossa-nova sem receios e se aproxima do perfil do latino sedutor com ares civilizados de estadista. Pé-de-valsa, roupa recortada, cabelo fixo a Gardel com pasta Gumex, JK é popular sem perder o porte. Passa do banquete ao rega-bofe sem cerimônia. Seu gosto pessoal tem a marca do ecletismo. Do arroz carreteiro ao cerimonial sem sobressaltos. Era novo no país um político natural, sem a menor afetação ao falar, que desfilava informalidade sem forçar a barra. Era porque era.
Seu próprio repertório é direto, logo moderno. O Conjunto da Pampulha, criada entre 42 e 44, quando JK era prefeito de Belo Horizonte, marca o seu encontro com Niemeyer e funda os antecedentes de Brasília.

Exílio e morte

Depois do Golpe de 64, JK tem seus direitos políticos cassados, sendo obrigado a exilar-se em 66. Clandestino na cidade que criou, recusado pela ABL, submetido a interrogatórios ridículos, sua morte em 22 de agosto de 1976, esmagado num Opala 70, no Km 165 da Presidente Dutra, revela a dramaticidade de uma infeliz coincidência: morre em acidente automobilístico – a indústria que mais impulsionou.

CONTEXTO HISTÓRICO - A ÉPOCA JK

“Traduzo esse tempo como a fome de reinventar e fundar uma luminosa, fraterna e mestiça idéia de Brasil.”
(Darcy Ribeiro)

JK e os anos dourados

Os quatro anos de Juscelino Kubitschek na presidência foram anos excepcionais para a construção de uma nova identidade nacional. O carisma de JK contribuiu para a explosão cultural no início dos anos 60.
No período de seu governo, o Brasil viveu o surgimento da Bossa-Nova e do Cinema Novo, além da vitória do escrete canarinho na Copa de 58.
Nenhum período histórico explode por acidente. Uma série de movimentos, tendências, modismos, comportamentos e personalidades tomavam forma desde o início dos anos 50 e passaram pelo governo JK nutridos pelo excepcional momento de criação pelo qual passava o país. Seu governo adotou prioridades estruturais e a cultura não foi meta explícita, como política pública. No entanto, ocorreu uma extraordinária virada na auto-estima nacional.
Os sinais de mudanças e ritos de passagem para o mundo urbano e industrial criaram uma aura de celebração do progresso e entusiasmo em diversos níveis. Esse contexto viria a contagiar pessoas, grupos e experimentos estéticos que fossem tradutores desse “novo Brasil”.
Se JK não interrompia processos, nem tinha uma política específica e direta para linhas culturais, no mínimo alimentava o imaginário nacional com diversos signos. O clima geral de invenção contagiava o agito institucional e pessoal dos artistas, pensadores e organismos. Foi como um lapso emocional na carga pesada das seculares dependências e misérias brasileiras.
Tais processos culturais, ricos em contestação, invenção e ousadia, viriam a ser interrompidos pela repressão e diluídos pelo mercado na época da ditadura.

Um sonho chamado Brasília

Brasília foi classificada por JK como meta síntese. E nela residiu seu momento mais inspirado. Criava sob Brasília alguns fundamentos de que havia um sertão a ser digerido ou devorado. Realizava-se, com a nova capital, a expressão mais estética e científica no avanço do urbanismo e da arquitetura.
Um povo se fazia reconhecer enquanto construía algo um pouco abstrato nos monumentos e conceitos, mas concreto no sentido de que significava uma vida melhor, revolucionária da miséria em que viviam. Ao menos naquele momento, Brasília determinou a essência de um entendimento do Brasil reposicionado no mundo.

CONTEXTO POLÍTICO - O GOVERNO JK - “50 ANOS EM 5″

“Deste Planalto Central, desta solidão que em breve se transformará em cérebro das mais altas decisões nacionais, lanço os olhos mais uma vez sobre o amanhã de meu país e antevejo esta alvorada, com fé inquebrantável e uma confiança sem limites em seu grande destino”
(Juscelino Kubitschek, 2 de outubro de 56)

Conjuntura nacional

A eleição do mineiro Juscelino Kubitschek de Oliveira e de seu vice, o gaúcho João Goulart, representantes da coligação PSD – PTB, marcou um período de graves incidentes institucionais que revelavam a fragilidade institucional de um regime político que, nos momentos de crise, se via obrigado a apelar e acatar o supremo arbítrio dos militares.
JK e Jango derrotaram nas urnas os candidatos Juarez Távora (UDN), Ademar de Barros (PSP) e o ex-dirigente fascista Plínio Salgado.
A oposição udenista encabeçada por Carlos Lacerda não aceitou o resultado e tentou impedir a posse, através de um golpe de força.
Tentou primeiro no congresso impugnar a eleição sob o argumento de que tinham vencido sem maioria absoluta. A constituição da época, no entanto, não pregava esse critério como definidor do pleito.
A situação institucional agravou-se quando o vice empossado após o suicídio de Getúlio Vargas, Café Filho, teve que renunciar por motivos de doença. Assumiu o posto o presidente da Câmara, Carlos Luz, defensor das idéias de Lacerda e contrário à posse de JK.
A ação foi impedida pelo Marechal Lott, ex-ministro de guerra, que defendia o processo eleitoral e a via constitucional. Em Novembro, Luz foi deposto. O Congresso entregou o poder a Nereu Ramos, vice-presidente do Senado.
Com o apoio de Lott, Ramos governou até janeiro de 1956, quando entregou o cargo a JK. Estava agora no poder o principal idealizador do modelo nacional-desenvolvimentista.

Habilidade política

JK promoveu o desenvolvimento e a modernização do país, infundindo no povo brasileiro um otimismo contagiante.
Político de extrema habilidade, JK foi capaz, logo que tomou posse, de conciliar grupo divergentes que ameaçavam seu futuro. Adquiriu a fama do presidente sempre disposto a perdoar.
De imediato, lançou um Plano de Metas com 5 grandes objetivos: energia, transportes, alimentação, indústria de base e educação. Das 30 propostas do plano, apenas as relacionadas à educação e à agricultura não foram cumpridas. Para financiar seu plano, jogou todos os custos para o governo seguinte, podendo, assim, rejeitar o empréstimo do FMI (Fundo Monetário Internacional) e evitar uma reforma cambial.
As condições impostas pelo fundo para firmar o acordo de US$ 200 milhões desagradaram ao presidente, que seria obrigado a conter a inflação em 6%, reduzir salários, abolir o incentivo à agricultura e, o que era pior, retardar a construção de Brasília. Nada foi assinado.
No âmbito internacional, teve o mérito de criar a Operação Pan-americana, cuja principal finalidade era despertar as esperanças e energias dos povos americanos, principalmente da América Latina, com o objetivo comum de combate ao subdesenvolvimento.

Expansão industrial


Sua gestão foi marcada pela participação extensiva do capital estrangeiro na economia brasileira. É o período de forte expansão industrial (na foto, JK discursa durante a inauguração da Ford). Durante seu governo, a produção industrial cresceu 80% e a taxa real de crescimento atingiu 7% ao ano.

O fantasma da inflação

Paralelamente ao desenvolvimento industrial, JK recorreu várias vezes à emissão de dinheiro, jogando o país numa inflação crescente. Essa medida, que visava atender às reivindicações salariais e às solicitações de crédito, jogou o país em índices inflacionários nunca vistos.

Nos braços do povo

Com a visão do estadista que pensa nas gerações futuras e a paciência do político, JK chegou ao fim de seu mandato consagrado pelo povo, consagração que o acompanhou até sua morte e dura até hoje.

Obs: Este texto em que traço o perfil de JK, de sua época e de seu governo é fruto de uma vasta pesquisa que desenvolvi sobre o assunto. Publico hoje aqui ainda a tempo de lembrar os 33 anos de sua morte, completados no último dia 22.

27 de Agosto de 2009,

Ana Helena Tavares

Leia também de minha autoria: “O dom de irradiar esperança - JK, Lula e a imprensa

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6.6.09

Escrevi e salvei minha alma

Dizem que a preocupação é o mais inútil dos sentimentos. Justificam-se pela raiz da palavra: uma ocupação que vem antes. E o pior de tudo: vem antes de uma hipótese.

Em outras palavras, o sujeito fica ali se remoendo em pensamentos sobre algo que pode vir a ser um problema. Ainda por cima, uma ameaça que pode nunca se concretizar. Isso é a preocupação.

Ela sozinha é de fato inútil. Mas vive nesse sentimento, tão criticado pela sociedade, o poder de se transformar em ação, a partir do momento em que se o põe pra fora. Aí, o inútil pode virar útil.

Senão vejamos… Quando uma pessoa passa pela frente de um prédio, preocupa-se por observar rachaduras na marquise, avisa ao porteiro e, por conta disso, são feitas obras, terá sido inútil aquela preocupação? Bem, talvez aquela marquise pudesse nunca cair, mas são pequenas preocupações como essas, sócias fiéis da prudência, que podem salvar uma ou centenas de vidas. Há uma forte suspeita de que neste último grande acidente de avião que tivemos, os sensores, peças-chave de qualquer avião, estavam com defeito há muito tempo e a companhia aérea sabia. É claro que inúmeros outros fatores podem ter derrubado o avião e esse tal defeito pode não ter sido decisivo pra isso. Mas, como na preocupação trabalhamos com hipóteses, o oposto também tem total condições de ser verdadeiro. E aí, pergunto: será que, antes daquela fatídica decolagem, não havia um ser humano preocupado por lá? Ou será que, em certos casos, o vil metal parece mais útil aos olhos humanos do que preocupações?

Continuando a defesa da preocupação, aquela bem dosada e verbalizada, quando um governo se preocupa com seu povo, porque sente que problemas graves poderão ocorrer e, por conta disso, convoca seus ministros a tomar providências para a melhoria da qualidade de vida do país, terá sido inútil essa preocupação? Óbvio que não. E a preocupação, quando não por interesses próprios, é em última análise uma manifestação de amor ao próximo, seja conhecido ou não, o que, geralmente, provoca reciprocidade. Parece uma conseqüência lógica que um governo que tem carinho por seu povo, preocupando-se com o futuro do país, ganhe, com isso, o carinho da imensa maioria da população.

E, pra terminar a defesa desse injustiçado sentimento, quero tocar no ponto mais delicado de todos. A preocupação em família e entre amigos. Ora, por que delicado? Porque, por incrível que pareça, é aí onde ela encontra mais relutâncias e desconfianças. Quantas vezes os filhos rejeitam solenemente as muitas preocupações de seus pais? Ou, até mesmo, vice-versa. Ou, ainda, quantas vezes um amigo seu já deu de ombros pra sua preocupação com ele? “Ah, essa dorzinha passa logo, não é nada, deixa de besteira.” Aí daqui a pouco você é chamado num hospital. “Não bebe muito, que você não agüenta bebida, filho/pai”. Aí daqui a pouco chega um bêbado na sua casa. E por aí vai…

Você já passou por alguma situação semelhante a essas? Deus queira que não tenha dito o deplorável “eu avisei”. Acredite, isso magoa. Eles sabem que você avisou. Além do mais, o importante de se ressaltar aqui é quantas vezes o contrário acontece na nossa vida. Pense você mesmo em quantas vezes aquela preocupação que você expressou por um ente querido, do seu sangue ou não, surtiu efeito.

Bem, por esses prismas que envolvem nosso plano afetivo, não resta dúvida de que a preocupação está, de forma mais visível do que nos outros casos, condicionada à idéia de conselho. E, diz o ditado: “Se fosse bom…” Pode haver ditado mais capitalista que esse?! A preocupação por quem se gosta, quando materializada num conselho, tanto pode ser a salvação da lavoura como pode não dar em nada, mas você terá sempre a dignidade de ter tentado.

Em resumo, para todos os casos citados neste texto e para todo o sem número de casos possíveis, a preocupação só é inútil se você preocupar-se calado. Isso até me fez lembrar algumas palavras deixadas escritas em latim pelo gênio da crítica ao capital, Karl Marx: “Disse e salvei minha alma”.

A quem se preocupa (inutilmente) com a raiz da palavra, deixo aqui uma pergunta: o que seria do mundo se grandes homens não tivessem se ocupado antes com as hipóteses do depois?

Ana Helena Tavares,
06 de Junho de 2009

Escrevi e salvei minha alma no Recanto das Letras

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5.6.09

Dialogando com a água

1) Um pouco de história… – A evolução do potencial hídrico no mundo e o desenvolvimento dos muitos mitos que envolvem a água

“A água é a seiva do nosso planeta. Ela é a condição essencial de vida de todo ser vegetal, animal ou humano. Sem ela não poderíamos conceber como são a atmosfera, o clima, a vegetação, a cultura ou a agricultura. O direito à água é um dos direitos fundamentais do ser humano: o direito à vida, tal qual é estipulado do Art. 3 º da Declaração dos Direitos do Homem.” (Art. 2º da “Declaração dos Direitos da Água”, homologada pela ONU, em Paris, em 1992).

Nosso planeta bem poderia se chamar planeta Água, afinal, mais da metade dele (2/3) é coberto pelo precioso líquido. No entanto, ao contrário do que se pensa é muito reduzida a porção utilizável pelo homem.

Nesse contexto, nunca é demais lembrar que nos últimos anos a evolução do consumo de água tem levado muitos reservatórios ao limite de sua capacidade. Considerando-se que, historicamente, a disponibilidade de água sempre exerceu grande influência sobre a evolução de um país e de seu povo, a situação mostra-se, então, alarmante.

Há de se considerar que, ao redor do globo, a água doce superficial é distribuída de forma desigual. Enquanto ela é abundante em algumas regiões, como no sul e no norte do Brasil, onde durante todo o ano as bacias dos rios Amazonas e Paraná proporcionam energia, alimento e vida, em outras, sua ausência é sinônimo de pobreza e morte. Afinal, variando-se a quantidade de água de um lugar para outro, variam também, em especial, as características da agricultura e da pecuária, variando, enfim, as possibilidades de desenvolvimento humano. Em lugares onde o clima é predominantemente árido e o abastecimento de água depende de rios e de raras estações de chuva, isso é ainda mais visível, tornando a luta pelo acesso à água e, portanto, à vida, um problema cada vez mais crônico.

Vejam o paradoxo… A água teve papel primordial na origem da vida, sem ela não haveria sequer seres vivos quanto mais seres humanos, e essa mesma humanidade que ela inventou é agora a responsável por sua agonia e pode ser, no futuro, o motivo de seu fim. Não cuidar da água é uma atitude de autodestruição, é fechar os olhos para nós mesmos e para nossa história, é esquecer o cerne da vida e ofuscar o seu encanto.

De elemento purificador em muitas religiões a comprovado potencial terapêutico, a água sempre exerceu grande influência no ser humano. Desde os tempos mais remotos, a imponência da água e seus muitos segredos sempre aguçaram a imaginação dos povos. Na tentativa de explicar o que se mostrava inexplicável e maravilhados com sua magia, os antigos endeusaram a água e cercaram-lhe de mitos que sobrevivem até hoje, dando um toque todo especial à relação do homem com a natureza.

2) Fonte de vida – A água e a origem do mundo

“Conseguir alimento não deve ter sido problema para os primeiros seres vivos, pois a água do mar os envolvia.” (Fernando Gewandsznajder – biólogo - em seu livro “Biologia”)

Segundo estudos científicos, a origem da água na Terra se deu em duas fases distintas: 1) pela ocorrência de vapor de água na atmosfera primitiva que se dispersou num primeiro momento por causa da elevada temperatura existente, provocando uma notável diminuição da temperatura ambiente; 2) pela representativa chegada de quantidade vinda do interior do planeta, ocupando os vales da crosta, numa profundidade média de 3 a 4 quilômetros. Esse volume de água não foi disperso para o espaço sideral em forma de vapor, como foi o caso da maioria dos planetas, que eram extremamente quentes, em virtude de a água ter se deparado com uma crosta terrestre menos aquecida. Aliás, a Terra é o único planeta que tem água em estado líquido.

No início, a água era pobre em minerais. Entretanto, seu enriquecimento – especialmente em sais – foi gradual, tendo sido feito através de sua movimentação sobre os leitos dos oceanos, em movimentos sísmicos, a altos graus de temperatura e através de uma contínua acumulação proveniente dos continentes e com eventuais precipitações pluviais.

Essa gênese hídrica foi o berço da vida. Sabe-se que proteínas aquecidas e misturadas à água fria podem agrupar-se formando pequenas gotas chamadas microsferas. Outro tipo de aglomerado de moléculas orgânicas pode ser também obtido, misturando-se ácido a uma solução de proteínas em água: as proteínas se aproximam e formam aglomerados visíveis ao microscópio óptico: são os coacervados. O coacervado ou a microsfera, presente nos mares primitivos, que tivesse aprisionado em seu interior proteínas enzimáticas e uma molécula de ácido nucléico (originada das sínteses de moléculas orgânicas da atmosfera primitiva), seria considerado o primeiro ser vivo. Isso porque ele teria a capacidade de realizar metabolismo, de reproduzir-se, de apresentar hereditariedade e de evoluir.

Desde o surgimento dos primitivos seres vivos, todas as formas de vida têm uma necessidade imperativa de água – e esta provém dos oceanos, até mesmo aquela que é utilizada na terra pelas plantas e animais. Vida alguma poderia existir, porém, por um momento sequer sobre a Terra, se a água não tivesse a capacidade de dissolver mais substâncias do que qualquer outro líquido conhecido, o que, por exemplo, possibilitou ao primeiro ser vivo nutrir-se simplesmente absorvendo e utilizando as inúmeras moléculas orgânicas simples presentes na água. Por vários motivos, essa e muitas outras propriedades da água – no estado líquido –, como a sua extraordinária capacidade de armazenar calor, parecem quase ter sido inventadas para tornar o mundo hospitaleiro à vida. Na verdade, em última análise, nós mesmos, os seres humanos, tivemos origem na água.

3) A água na mitologia

“Grande parte dos mitos origina-se do desejo do homem de explicar fenômenos naturais como a água” (Tancredo Pinto, professor de mitologia)

Quando se trata de mitologia, há uma pergunta que não quer calar: afinal, o que significa o termo mito?!

Pode-se dizer que, no nosso contexto, mito quer dizer história ou conjunto de histórias que fazem parte da cultura de um povo e tentam explicar fenômenos incompreendidos.

Mitologia greco-romana

A água é um elemento de fundamental importância na cosmogonia, a origem do mundo para a mitologia grega. A água, Hidros, aparece para salvar a Terra, Gaia, que
estava sendo queimada por Piros, o fogo.

Essa entidade Hidros/água, passa a fazer parte do mundo olímpico de Zeus e dos deuses do Olimpo. O deus Poseidon, Netuno para os romanos, era o senhor das águas, o deus dos mares e também dos rios. Seu palácio era no fundo do mar Egeu e sua arma era o tridente, com que provocava maremotos, tremores de terra e fazia brotar água do solo.

Entretanto, Poseidon, mesmo sendo o senhor das águas, não exerce sobre ela um poder absoluto, pois a água é um elemento primordial, que surgiu ainda antes de haver o deus.

A água se faz sempre muito presente, sendo símbolo de continuidade, fertilidade e proteção materna.

Ela sempre é habitada ou transformada. O rio Serifo, por exemplo, personaliza-se: ele toma forma de homem e deita-se com as ninfas. Mito muito semelhante à lenda do boto cor-de-rosa na mitologia amazônica, em que o peixe de um rio vira homem e deita-se com as mulheres à noite.

Mitologicamente, os rios são seres masculinos e cada rio é um homem.

Ao tomar banho de rio, as entidades femininas como as ninfas, podiam engravidar e ter muitos filhos. São inúmeros os filhos da água na mitologia, são cinqüenta, cem filhos num mesmo parto! Esse extremo exagero é justamente para fazer ver a fertilidade da água e sua grande importância na antigüidade.

A deusa do amor da mitologia, Afrodite (Vênus), não teria nascido do ventre de nenhuma mulher, deusa ou mortal, ela teria surgido da água do mar.

O mar era muito importante e vários personagens povoavam-no. Além de Poseidon (Netuno), sua esposa Anfitrite, seu filho Tritão (que era responsável pelo movimento das marés), e o velho do mar, Nereu, com suas 50 filhas, são outras divindades marítimas. Dentre as divindades aquáticas estão também os deuses rios, ninfas aquáticas e o deus Glauco, que supõe-se ter sido um pescador que, enlouquecido por uma erva mágica, atirou-se no mar e se tornou o profeta das águas. Havia ainda a deusa Tétis, as sereias, as pléiades, que eram filhas de Poseidon (Netuno), e as nereides, que são outras divindades aquáticas, no caso, todas mulheres.

Depois de guerras, lutas e mortes injustas, a água servia para a purificação. Como forma de se purificar de algum ato vil que cometessem, os gregos se banhavam num rio. Eles desenhavam o mar em formato de serpente que, muitas vezes, representa a mutação das águas. Para a cultura do mundo antigo, a água sempre foi de vital importância, um elemento extraordinariamente forte, sempre venerado e respeitado.

Mitologia asteca

Para os astecas, Tlaloc é o ser que se ocupa da tutela da água, é o Deus que pode fazer com que a vida possa continuar eternamente. Considerado também o Deus da chuva e da tempestade, era um dos deuses mais cultuados no antigo México.

Lendas africanas

Afrodite (Vênus), das lendas greco-romanas, é a mesma Iemanjá (sereia) dos cultos afros. Julga-se ser uma só sob nomes diferentes.

Na mitologia afro, Iemanjá é a divindade das águas verdes e salgadas. Ela leva um leque e bracelete de metal prateado e dança interpretando o movimento das águas agitadas. No Brasil, é considerada pelos umbandistas a rainha do mar e protetora da família, cultuada aos sábados e fins de ano nas praias.

No entanto, dentro do sincretismo católico-umbandista, ela é Nossa Senhora da Glória, festejada a 15 de Agosto no Rio de Janeiro e a 2 de Fevereiro na Bahia, como Nossa Senhora das Candeias, ou dos Navegantes.

Mitologia fenícia

O estado de umidade dependia do Deus Aleyin e, por isso, ele era considerado o espírito das fontes, mananciais, arroios e rios.

Mitologia indígena brasileira

Tamandaré, o correspondente indígena do Noé bíblico, salvou sua civilização, livrando-a da tempestade que alagou o local em que vivia. A mitificação da água, elemento recorrente na mitologia indígena, recorre justamente da suma importância que essa substância pura tem para as tribos do Brasil. Quando, há quase quinhentos anos, os lusitanos aportaram em terra de Pindorama, como os índios a chamavam, um dos aspectos que mais os impressionaram foi a limpeza característica de todos os índios: homens e mulheres tão limpos que não se intimidavam em mostrar suas “vergonhas”. Provavelmente, essa cena remeteu-lhes à própria realidade dos europeus, em que banhos diários eram simplesmente inimagináveis.

Mitologia celta

Entre os celtas Boann era a deusa da água e da fertilidade. Os heróis celtas, muito freqüentemente, consideram-se filhos do Rio Reno.

Mitologia egípcia

No panteão de deuses egípcios, havia três divindades relacionadas com a água: Sobeque e os irmãos Osíris e Seth. Sobeque, também conhecido como Deus-crocodilo, era considerado o senhor do universo e venerado em cidades que dependiam da água. Já Osíris era o Deus da vegetação, a personificação da fecundidade e a fonte total e criadora das águas. Simbolizava na sua morte a estiagem anual e no seu renascimento, a cheia periódica do rio Nilo e o desabrochar do trigo. Ensinava os seus súditos a cultivar a terra e aproveitar da melhor maneira os seus frutos, procurando orientá-los em tudo que precisassem. Seth, por sua vez, era o Deus do Alto Egito e estava associado às tempestades. Conta a lenda, que depois que matou seu irmão Osíris, passou a ser conhecido não só como o Deus das tempestades, mas também como o Deus da destruição e da guerra.

No Egito, para garantir a existência e continuidade da vida, a mesa de pedra talhada ou a mesa de libação era posicionada nas margens dos rios e sobre ela derramava-se vinho que – ao escorrer pelos sulcos sinuosos da terra – representava os meandros desses rios.

Certa vez, um grego, ao conhecer o Egito, deu ao país o título de O Dom do Nilo, em virtude de o Rio Nilo proporcionar a maior parte da riqueza do Egito.

Toda essa exposição da mitificação da água nas antigas civilizações citadas só vem mostrar o quanto esses povos sabem – ou, infelizmente, sabiam: o incalculável valor da água. E faz-nos pensar em quão maravilhoso seria se a nossa civilização dita moderna, se inspirasse nessas civilizações consideradas tão atrasadas e desse a merecida atenção a esse bem natural, tratando-o como parceiro para o desenvolvimento.

4) A água como purificação do corpo e do espírito
“Eu voz batizo com água, para o arrependimento”. (Mateus 3:11)

A palavra batismo vem do grego, “baptizein”, que quer dizer mergulho ou imersão na água.

Nas religiões cristãs em geral, o batismo é o rito escolhido por Deus, simbolizando o início da vida espiritual do indivíduo. O batismo nas águas ministrado por João Batista, no Rio Jordão, por exemplo, era um banho profundamente sagrado.

Para os seguidores da linhagem Luterana, representa a admissão solene da iniciação religiosa, através do ritual da ablução, ou seja, banho de todo o corpo, ou parte dele, com esponja embebida em água ou toalha molhada, ou seja, é essencialmente um ritual de purificação por meio da água.

Na Igreja Católica Romana, o batismo também é de fundamental importância, simbolizando o renascimento espiritual. Assim como nas demais religiões, a água é um elemento indispensável do ritual católico do batismo e quem recebe o sacramento pode simplesmente ter a testa molhada ou a cabeça respingada com água, representando a purificação de todas as culpas e pecados.

Fazendo um breve paralelo com o fato de o batismo em água ser em algumas religiões considerado a purificação dos pecados, lembro aqui de uma curiosidade sobre a simbologia da água. Dante Alighiere, em sua Divina Comédia, sugere a água como símbolo de purgação, quando em uma das passagens do texto diz que o ser do purgatório poderia ver a água, mas não poderia bebê-la, o que lhe seria uma forma de castigo. Visão semelhante ao mito grego de Sísifo.

Voltando à presença da água no ritual de batismo das diversas religiões, no caso dos judeus dos tempos apostólicos, ser “batizado” sugeria “batismo de prosélito”, ou seja, ato praticado quando um pagão se voltava contra o judaísmo. Este, ficava em pé com a água até o pescoço enquanto era lida a lei, depois submergia das águas, como sinal de que abandonara as práticas do paganismo para então prosseguir nos preceitos judaicos.

Há em toda época antiga, rios sagrados, no qual os povos banhavam-se para purificar-se física ou mentalmente, hajam vistos os povos da Índia milenar serem levados a banhar-se nas águas do rio sagrado, o Ganges, cumprindo assim parte de um ritual que, para eles, é indispensável e sagrado. Além disso, nos rituais da Umbanda os banhos também se fazem muito presentes. Desde os tempos mais remotos, eles sempre foram um potente integrante do sentimento religioso.

5) A influência da água como quarto elemento da natureza

“Energia concentrada, lenta e grande talento para estabelecer conexões.” (astrologia)

A água se adapta à forma que a abriga, seja um copo, um vaso ou um pedaço de terra, por exemplo. O elemento água é receptivo e moldável, assim como nossos sonhos, nossas fantasias, nossos desejos e nossas emoções.

Na astrologia, o elemento pode ser simbolizado pela alma ou pela emoção.
Os signos de água – Câncer, Escorpião e Peixes – vivem em seus sentimentos, é o estado emocional que determina seu comportamento. Os aspectos negativos são: temores irracionais, instabilidade, descontrole emocional e magoar-se com facilidade, o que deve ser contornado por meio da firmeza. As pessoas de água devem ser firmes consigo mesmas, não se deixando levar pelas emoções e sentimentos descontrolados.

Há, claro, muitos aspectos positivos trazidos pelas vibrações do elemento água. As pessoas dos signos de água, são extremamente intuitivas e tendem a descobrir a vida com mais sensibilidade do que racionalismo. Sempre em sintonia com as emoções, muitas vezes vêem nelas sutilezas que outras pessoas sequer percebem. A energia do elemento as leva sempre a procurar agir com o coração. Esta sensibilidade tem uma força incrível, quando canalizada para atividades ou situações que exijam o uso das emoções.

6) O potencial terapêutico da água – Como ela se faz presente na vida do ser humano

“Uma lágrima, uma gota de água: a sutil explosão corporal dos sentimentos” (Ana Helena no poema “A água é dona da água?”)

Há muitos séculos que a água vem sendo usada para terapias – romanos, chineses, japoneses, egípcios e hebreus já acreditavam no seu poder terapêutico e energético. Nos dias de hoje, está cada vez mais comprovada a sua eficácia no auxílio à cura de diversos males.

A água de fato pode ser uma grande aliada para terapias mentais e corporais. Com a hidroterapia, a pessoa pode executar movimentos que, muitas vezes, julgava-se incapaz. Esse tipo de tratamento permite resultados mais rápidos e eficazes, pois fora d’água as dores tendem a ser mais agudas. Além disso, em terra o corpo tem que lutar contra a gravidade, já o ambiente aquático neutraliza esse fator. Em vista disso, em muitos casos, os astronautas, são treinados na água.

Essencialmente, a terapia aquática é eficaz por conseguir aliar o bem-estar físico e mental. As aplicações hidroterápicas podem ser na forma de fricções, banhos, compressas, duchas, enfaixamentos e saunas. Dentro d’água, um paciente ferido pode, por exemplo, exercitar um músculo danificado expondo-se menos à dor e ao estresse.

Além de auxiliar em terapias, a água é também considerada a melhor bebida. Revigorante e desintoxicante, beber água com freqüência é de extrema importância para o bom funcionamento do corpo humano, o qual é 70% água.

Ainda dentro do contexto da influência que a água exerce sobre o ser humano, ela é muito vista também como sinônimo de lazer e esporte. Para quem procura diversão, por exemplo, parques aquáticos e aquários artificiais fazem grande sucesso.

No que diz respeito aos esportes aquáticos, inúmeras são as opções. Pólo aquático, hidroginástica, saltos ornamentais, mergulho, natação, canoagem, iatismo, pesca submarina, remo, vela, surfe… E poderia citar muitos outros, mas dentre esses vale ressaltar que a natação é considerada o esporte mais completo, por trabalhar magistralmente a maior parte dos músculos do corpo, aliando a isso a contribuição para uma melhor respiração e o estímulo à circulação sangüínea.

Como se pode ver, estando ou não doente, seja em terapias ou em atividades esportivas, qualquer pessoa pode e deve lançar mão dos benefícios da água para aliviar a musculatura, relaxar a mente e gozar a vida.

7) A água vista como símbolo de prosperidade, fartura e fertilidade

“Essa terra é de tal maneira graciosa que, querendo aproveitá-la, dar-se-á nela tudo por bem das águas que tem” (Pero Vaz de Caminha na “Carta do Descobrimento do Brasil” )

Feliz da terra que tem água! Águas que embelezam, transportam, alimentam, fertilizam…

Grande magia há numa paisagem rodeada de água. Sentar-se a observar o correr de um rio ou o bater das ondas do mar é um colírio para os olhos, um elixir para a mente.

Lugares com grande ocorrência de rios e mares são abençoados não só porque o transporte aquático constitui-se em importante estratégia comercial, mas também pela grande beleza que há em se ver atravessando um lago, um rio, um mar… Poder “andar” por sobre as águas
seja num luxuoso navio ou num simples barco, sempre foi algo que encantou o ser humano.

Sabe-se que as hidrelétricas são grandes aliadas para o abastecimento de eletricidade. No entanto, a água, muito antes de ser fornecedora de energia, é essencial geradora de alimentos. Desde os tempos mais remotos até os nossos dias, a pesca sempre foi uma das mais importantes atividades humanas. Com peixes e frutos do mar pode-se alimentar toda uma comunidade.

A água, porém, não só gera alimentos, como também possibilita a sua produção em terra. Sem água o solo por si só não daria conta e plantações não sobreviveriam. Terra com água é terra fértil e produtiva.

8 ) Conclusão e considerações finais – A prioridade de se olhar a questão com maior compromisso para que, preservando-se a água, seja preservada também a beleza de seus mitos

“Para algo ser um mito não é preciso que de fato exista, mas sem água nem vida existe… Num mundo desértico, quem sobraria para manter esse mito??” (Ana Helena no poema “A água é dona da água?”)

Há muitos anos que o descaso de grande parte da humanidade com a natureza e, em particular, com a preservação da água, vem fazendo com que se tornem cada vez mais escassas as fontes de água utilizável pelo ser humano.

Nosso planeta recebeu o privilégio de ser o único a ter água em estado líquido, possibilitando que nele surgisse a vida e, conseqüentemente, a humanidade. Resta a nós preservar essa dádiva que nos foi dada para que ainda possa haver muitas e muitas gerações sobre a Terra. Sendo conservada, assim, a vida e sua qualidade, e fazendo com que essas futuras gerações possam conhecer o fascínio da água e continuar a cercá-la de mitos.

Cuidar da água é manter viva a Terra. O início da vida dependeu da água e dela também depende o seu futuro.

Ana Helena Tavares

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23.5.09

O aflorar do ser - um ensaio para teatro

Livremente inspirado no texto “Apelo aos homens”, de Charles Chaplin.

ROTEIRO: Ana Helena Tavares e Maria Cecília Sousa.

A cena inicia-se com a personagem Carlitos entrando e sentando-se no banco de praça. Sua expressão é triste, pois ele demonstra estar completamente desgostoso da vida. Nitidamente, percebe-se em seu rosto um profundo descontentamento. (Seu pensamento então, é transmitido para o público em off)

Voz em off: – Não entendo. Não consigo e acho que nunca irei compreender o que se passa na cabeça da humanidade. Tenho pena, é verdade. Tenho muita pena do rumo que estamos tomando e me preocupo se haverá tempo para mudá-lo. Sabe, não nasci para governar nem dirigir nada! Este nunca foi um dos meus pedidos. Mas também não nasci para ser adestrado ou domesticado por ninguém. E talvez seja esse o meu grande erro… Ficar sempre com meias palavras, não querer prejudicar ninguém. Ganhei fama! Mas para quê? Não me respeitam como sou e, aliás, nem a si próprios respeitam. Se fosse só comigo… Ah! Não seria o grande problema, essa vida até já me foi generosa. O que me decepciona é ver os homens calarem-se diante de tanta incompreensão! E olha que nem estamos na época do cinema mudo! Se bem que naquela época ainda havia mais expressão. Esses olhos que outrora sonhavam sorrindo, hoje choram diante da triste realidade do mundo.

(CARLITOS PRESENCIA CENAS DE VIOLÊNCIA E DESCASO, QUE OCORREM NA PRAÇA NO MOMENTO EM QUE ELE ESTÁ SENTADO NO BANCO: UM ÔNIBUS QUE NÃO PÁRA AO VER UMA VELHINHA FAZER SINAL; UM ASSALTO; E UMA MENINA QUE VEM LHE PEDIR ESMOLA)

Voz em off (CARLITOS LEVANTA-SE E DIRIGE-SE AO PÚBLICO):
– Chega! Não suporto tamanha dor!
(EM SEGUIDA, DESABA ESMORECIDO SOBRE O BANCO. ENTÃO, SUBITAMENTE A SUA ALMA SE MATERIALIZA EM DUAS PERSONAGENS, QUE EMERGEM POR DETRÁS DO BANCO)

1ª voz: – Veja só, sua malvadeza, o que fez com este homem! Quase o levou ao desvario! Não fosse eu a conduzi-lo pelo caminho certo e você, com certeza, já o teria consumido.

2ª voz: – Não. Não mesmo! Para falar a verdade, boa samaritana, não tenho pressa em dominá-lo. Aliás, qual o prazer que teria uma criança em brincar com todos os brinquedos tão rapidamente? Antes o seu prazer está em desfrutar e se deliciar com a verdadeira alegria que cada brinquedo lhe proporciona. Assim sou eu! Divirto-me muito mais aos pouquinhos, deliciando-me com o efeito de meu veneno. Recebo o meu galardão quando vejo aflorar no pensamento das pessoas a ira e o descaso. Por que esta cara? Não sou tão má assim… Já me cansei dessa vida, agora sou apenas negligente!

1ª voz: – Sinto-me perdida ao dividir o mesmo corpo com você. Mais ainda, em ser a sua outra face. Mas não vou desistir! Aquele que pega no arado e olha para trás, retrocede para a perdição. Não a desprezo, nem a odeio. Todos temos o desejo de nos ajudarmos uns aos outros. E eu quero ajudá-la a livrar-se de tanto ressentimento.

2ª voz: – Pensa que sou maluca? Que estou deitada diante de algum analista?!! Não preciso da sua compreensão. Rejeito seu sentimento de pena! Este mundo não é digno de misericórdia. Pelo contrário, nunca houve melhor momento para as minhas bem-aventuranças. Nunca encontrei em coração humano tamanha liberdade para me expandir como agora. Basta apenas um pequeno descuido seu e então, a vingança, a desconfiança, os maus olhos surgem nas mentes humanas.

1ª voz: – Agora entendo o porquê de tanta violência nesse mundo, o porquê de tanta corrupção e imoralidade. Você governa a mente dessas autoridades que se deixaram corromper pela sua amargura. Não sou como você, que invade a vida dessas pessoas, entrando sem ser convidada. Eu bato à porta e se houver espaço, entro e faço morada proveitosa.

2ª voz (BATENDO PALMAS DE FORMA IRÔNICA): – Vejo que é bem dotada de inteligência! Mas não soube louvar-me como mereço! Não apenas sondo o pensamento dos poderosos, como também a mente de seus dependentes, fazendo com que se voltem uns contra os outros. Ou então, que aceitem passivamente suas imposições, como verdadeiras marionetes!

1ª voz: – Não. Isto nunca! Jamais serei passiva diante de suas atrocidades. (DIRIGE-SE AO PÚBLICO) “Soldados, não vos entregueis a esses brutos… Homens que vos desprezam e vos tratam como escravos, arregimentam as vossas vidas, impondo-vos atos, sentimentos e pensamentos; são eles que vos adestram, obrigam-vos a jejuar, tratam-vos como gado e servem-se de vós como de carne para canhão! Vós não sois carne! Sois homens com alma e matéria.”

2ª voz: – Vão apelo. Tarde demais. Se pelo menos tivesse ensaiado esse textinho na época da bomba atômica, talvez houvesse maior repercussão. Despertar agora com o mundo assolado pelo neoliberalismo, já não tem mais graça. Até a essência da maldade eles conseguiram desmoralizar. Já falei qual é a boa… Não é lucro pra mim criar uma nova bomba como as de Hiroshima e Nagasaki. Essas grandes coisas levam o povo a refletir. Minha glória se desencadeia nas pequenas raposinhas, como por exemplo, nos generosos desfalques cometidos pelas autoridades, nas guerras em alguns países, na fome e deixa-me ver… Ah! A nova diversão agora são os chamados “homens-bomba” ou, melhor, “guerreiros suicidas”! Explodir pizzarias, tacar avião em prédio e ver a coisa pegar fogo… Humm… Isso sim é divertido!!

1ª voz: – Diverte-me, sabia? Nunca me tirará do sério. Chateei-me apenas quando falamos sobre os homens, pois sei que não são de má índole e que são influenciados por você. Mas alegro-me quando vejo que este homem luta contra o seu próprio ego. (REFERINDO-SE AO CARLITOS) Porque se minha causa estivesse perdida, ele não teria chegado ao ponto de nos pôr para fora. E ainda que você tente corromper sua natureza física, estarei a cada dia renovando o seu interior.

2ª voz: – Doce ingenuidade! Vejo que sua vida acadêmica não anda nada bem. Eu falei: decoreba não é mesmo o caminho! Tudo muito bem ensaiadinho, comovente mesmo… (PEGA O JORNAL QUE ESTÁ EM CIMA DO BANCO E ABRE, MOSTRANDO AO PÚBLICO) Extra! Extra! O mundo já não se comove mais como antigamente! (ATIRA O JORNAL PARA TRÁS) Vejo que seus contatos andam mesmo dormindo no ponto… (ENCOSTA-SE NO PONTO DE ÔNIBUS E, IRONICAMENTE, FINGE DORMIR)

1ª voz: – Sua ironia chega a me dar voltas no estômago. Tenho pena de você, muita pena. Mas não posso ajudar quem não quer ser ajudado…

2ª voz: – Fique sabendo que estou muito bem assim! Já disse que se tem algo que não preciso é de sua compaixão. Não me venha novamente com essa!

1ª voz: – O que lamento é esse ódio que a consome. Tire isso de você! Você tem raiva, e somente os que não são amados cultivam esse sentimento. Sim, os que não são amados e os infelizes.

2ª voz: – Acredita que no mundo há mesmo lugar para todos? Eu faço de tudo para que o homem se deleite dos prazeres da vida e o que recebo em troca? A ingratidão humana!!! Desista de querer conscientizar os outros! Só o que se recebe é um pé nas costas…

1ª voz: – Você não sabe o que diz. Se insisto é porque tenho esperança! E não penso em perdê-la! Faço meus os ideais de Policarpo Quaresma: “Luto e até morro pela causa, mas jamais viverei sem razão!” E minhas únicas armas (COMEÇA A RODAR EM VOLTA DA 2ª VOZ) são o amor, a fraternidade, a compreensão, a igualdade, a amizade, o respeito e a paz.

2ª voz: (ENQUANTO A 1ª VOZ RODA EM TORNO DELA, ESTA VAI ENTRANDO EM DESESPERO E, GRADATIVAMENTE, VAI CAINDO AO CHÃO) Não! Não! Nãooooooo!!!!!!!!

(A PERSONAGEM CARLITOS LEVANTA-SE, DIRIGINDO-SE À FRENTE DO PALCO, FORMANDO UMA RODA COM AS DUAS VOZES. INICIA-SE, ENTÃO, A COREOGRAFIA)

Para não dizer que não falei das flores
(Geraldo Vandré)

Caminhando e cantando e seguindo a canção
Somos todos iguais, braços dados ou não
Nas escolas, nas ruas, campos, construções
Caminhando e cantando e seguindo a canção

Vem, vamos embora,
Que esperar não é saber
Quem sabe faz a hora,
Não espera acontecer

Pelos campos, a fome, em grandes plantações
Pelas ruas, marchando, indecisos cordões
Ainda fazem da flor seu mais forte refrão
E acreditam nas flores vencendo o canhão

Vem, vamos embora,…

Há soldados armados, amados ou não
Quase todos perdidos de armas na mão
Nos quartéis, leis ensinam antiga lição
De morrer pela pátria e viver sem razão

Vem, vamos embora,…

Nas escolas, nas ruas, campos, construções
Somos todos soldados, armados ou não
Caminhando e cantando e seguindo a canção,
Somos todos iguais, braços dados ou não

Os amores na mente, as flores no chão
A certeza na frente, a história na mão
Caminhando e cantando e seguindo a canção,
Aprendendo e ensinando uma nova lição

(FORMA-SE NOVAMENTE UMA RODA, DE FORMA QUE A 3ª VOZ, QUE ATÉ ESSE MOMENTO ESTAVA ESCONDIDA ATRÁS DO BANCO, ESTEJA EM SEU INTERIOR E SURJA DE DENTRO DELA)

3ª voz: – “Aos que podem compreender-me, direi: Não desespereis. A infelicidade que caiu sobre nós não é mais do que o resultado de um apetite feroz, o azedume de homens que temem a via do progresso humano. O ódio dos homens passará e os ditadores morrerão; o poder que usurparam ao povo, voltará ao povo. E quanto mais os homens souberem morrer, souberem ser humildes, menos a liberdade desaparecerá! Trazeis o amor e a humanidade em vossos corações!” Paz no mundo!!!

(DECLAMAÇÃO EM DIFERENTES LÍNGUAS DA SEGUINTE FRASE: “PAZ NO MUNDO!”)

Somos todos iguais nesta noite
(Ivan Lins)

Somos todos iguais nesta noite
Na frieza de um riso pintado
Na certeza de um sonho acabado
É o circo de novo
Nós vivemos debaixo do pano
Entre espadas e rodas de fogo
Entre luzes e a dança das cores
Onde estão os atores?

Pede à banda pra tocar um dobrado
Olha nós outra vez no picadeiro
Pede à banda pra tocar um dobrado
Vamos dançar mais uma vez

Pede à banda pra tocar um dobrado
Olha nós outra vez no picadeira
Pede à banda pra tocar um dobrado
Vamos entrar mais uma vez

Somos todos iguais nesta noite
Pelo ensaio diário de um drama
Pelo medo da chuva e da lama
É o circo de novo
Nós vivemos debaixo do pano
Pelo truque malfeito dos magos
Pelo chicote dos domadores
E o rufar dos tambores

Roteiro escrito em 2001.

criado por Ana Helena Tavares    11:41:36 — Arquivado em: Ensaios, Ensaios para teatro — Tags:, , , , ,

20.2.09

Quando o poeta se lê

- Dedico este pequeno ensaio a Affonso Romano de Sant’Anna, porque “escrever é formular nossos sentimentos”.

Quando o poeta se lê descobre que não quer ser super homem, não quer ser limitado por nenhum tipo de perfeição. Cada defeito, em cada letra, é o que o constrói. É o que o faz querer continuar.

Poesia não nasceu pra ser perfeita. Tal qual uma pintura que o pintor veja e… “Óh, caramba, faltou ali um passarinho”. Belo motivo pra fazer um quadro só com ninhos.

É que quando o poeta se lê recobre a si mesmo com o que veio de si. Seja alegria, seja tristeza, está tudo ali diante daquelas retinas. Umas mais fatigadas que as outras.

Quem é o poeta? Ele pode escrever em prosa e ter a poesia na alma. Ele pode escrever em verso e passar a vida proseando. Poetar é verbo, é carne, é o poder que todos nós temos de alcançar as nuvens. E, ao mesmo tempo, nos faz engatinhar como crianças pra dentro de nosso próprio interior.

E quando o poeta se lê, ele também vê ao redor. Vê muito. Vê quantos poetas há por perto, ou longe. Mas a geografia não entra nessa. Corações de poeta se atraem. Vocês têm dúvida?

De uma palavra escrita pode surgir um sorriso. Um sorriso que já se viu, já se sentiu em outros. E não me digam que sorriso não é poesia. Risadas? Sonetos puros. Com direito a verso alexandrino.

O choro então? Dali pode vir um hino. Hinos são poesia. Se cantados com a mão no peito nem se fala. Verdadeiras odes gregas. Ou troianas.

Na poesia até a guerra pode apaziguar.

Mas e a rima, e a métrica? Não, não é isso que faz um poema. Alexandrinos, haicais, versos brancos, o que importa é o sentimento. O olhar descomplicado.

O poeta escreve porque precisa se ler. Precisa beber do vinho que seus próprios pés pisaram. E não há nada como uma leitura bem direta que o diga: Tá lendo, né? Olha aí, você é isso!

16 de Fevereiro de 2009,

Ana Helena Tavares

Quando o poeta se lê no Recanto das Letras

criado por Ana Helena Tavares    22:10:40 — Arquivado em: Algum lugar entre a prosa e a poesia, Ensaios, Ensaios monográficos — Tags:, ,

21.12.02

Breve ensaio sobre o bom senso

O bom senso é a coisa mais “organizada” do mundo, pois como cada pessoa acha-se sempre no direito de impor sua maneira de pensar, mesmo os mais resistentes à acomodação do pensamento, parecem não preferir aumentar a “inteligência” que supõem ter. Até é bem possível que todos ou pelo menos a maioria, tenha razão ao acreditar que não é preciso acrescentar algo novo ao que pensam, talvez por medo de acabar por contestar suas “certezas” e isso não é de todo nocivo… Isso nos chama a atenção ao fato de que a arte de fazer “boas” conclusões é instintivamente comum a todos. Ser mais ou menos racional do que o outro nem sempre é fator decisivo para que divirjamos em nossas opiniões. Provavelmente, isso se deve ao fato de fazermos sempre nossa opção de pensamento. A questão é que ser “bonzinho” nem sempre é fundamental: o que vale é usufruir corretamente dos nossos conhecimentos. Grandes tentações podem causar problemas por mais que a pessoa tenha alma nobre. Em contrapartida, essas mesmas pessoas podem também ser cobertas de honras. Os mais cautelosos devem ter sempre a honradez como sua melhor aliada, visto que aqueles que se distanciam dela estão arriscados a perder o rumo…

Ana Helena Ribeiro Tavares
21/12/02

criado por Ana Helena Tavares    21:23:16 — Arquivado em: Ensaios, Ensaios monográficos — Tags:,

15.7.02

Considerações sobre a questão da verdade

- Para Vera Vidal, minha filósofa amiga, minha amiga filósofa, que nunca deixou de acreditar nessa sua avoada orientanda, nunca deixou de acreditar no seu “prodígio da síntese”…

Verdade… Eis aí um conceito dos mais polêmicos. Palavra de estranha magia, que vem estimulando a imaginação do ser humano desde os primórdios da humanidade.

Será possível encontrar verdades inquestionáveis? Ou, ao menos, escolher entre as possíveis verdades, aquela que nos for mais cômoda, por parecer-nos mais adequada? Será??? Certamente, a grande maioria das pessoas, não saberia como responder a essas perguntas. Essa questão que à primeira vista pode até parecer banal, é tão ou ainda mais relativa do que a relação tempo/espaço, consagrada pela famosa “teoria da relatividade” de Einstein… Teoria que bem poderia ser aplicada ao conceito de verdade…

Foi justamente por não conseguir conviver com essa dúvida, que René Descartes dedicou-se, entre outras atividades, a pesquisar, incansavelmente, esse conceito. E para ele a única verdade que não poderia ser posta à prova é o fato de pensarmos, pois para ele só existimos porque pensamos, é o “Penso, logo existo”, ou seja, existo enquanto ser pensante. Ele acreditava, também, que dentre as supostas verdades que nos são apresentadas devemos, sempre, escolher a mais simples. Isso lhe parecia mais lógico…

Baseada nessas convicções cartesianas, arrisco-me a fazer um paralelo com o conceito de loucura… Como destinguir se uma pessoa está mesmo louca ou se apenas foge às verdades preestabelecidas e aceitas pela maioria, no que se pode chamar de “acordo involuntário”? Penso que não conseguir mesmo controlar o que se diz e não ter plena consciência do que se pensa, é que realmente pode-se chamar de loucura, pois quando a pessoa se acha meio louca, muitas vezes, por se achar diferente da maioria , isso não deve ser considerado loucura… Apenas, essa pessoa segue uma linha de pensamento que nos parece estranha, justamente pelo fato de o seu conceito de verdade fugir ao senso comum. O próprio Descartes deve ter sofrido esse tipo de preconceito que, aliás, deve ser a sina de todo o grande gênio. Digo isso, porque o processo de formação de opinião sobre qualquer assunto, traz muitas dúvidas, podendo levar a caminhos estranhos, quase sempre, incompreendidos pela maioria. E talvez seja esse o preço da “escala do conhecimento”, um dos principais métodos de Descartes.

Não tenho a pretensão, portanto, de ter certeza de nenhuma verdade, mesmo porque não acredito em verdades absolutas! Entretanto, concordo com Descartes quando ele diz que devemos escolher as verdades que nos pareçam mais simples. Afinal, se já é instintivo tentarmos definir as melhores verdades para nós, por que desafiar nossa própria natureza?

Ana Helena Ribeiro Tavares
15/07/02

criado por Ana Helena Tavares    21:19:44 — Arquivado em: Ensaios, Ensaios monográficos — Tags:, ,

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