Traços de Estilo

“A poesia confunde-se com a prosa da mesma maneira que o poeta confunde-se com o homem da rua e já não pode nem deseja reivindicar para si a condição de eleito dos deuses.” (o poeta Gullar) “É preciso levar em conta as palavras que você escolhe, cuidar de cada sentença. É preciso ser sensível ao sentimento das pessoas.” (o jornalista Talese)

7.7.09

Nas ondas de um canudo que ouve

O menino Lobato

O experiente Lobato

“Diálogo” com Monteiro Lobato. Os trechos de autoria do gênio da literatura infantil (que tinha também tantas outras faces igualmente geniais) foram retirados do áudio da última entrevista que Lobato concedeu. A entrevista foi concedida ao radialista Murilo Alves Mendes, da rádio Record, em 02 de Julho de 1948, dois dias antes de Lobato falecer. Está disponível na internet em áudio (dividido em três vídeos do youtube). Como não achei a entrevista transcrita, eu mesma fiz a transcrição (não da entrevista toda, mas da quase totalidade). Para quem quiser ouvir Lobato falando o que está aí transcrito e algo mais, postei os três vídeos que contêm o áudio da entrevista juntos no seguinte link do meu outro blog: http://ahrt84.blogspot.com/2009/07/61-anos-sem-monteiro-lobato-estar-aqui.html

Segue então meu “diálogo” com Lobato – os trechos de minha autoria aparecem em negrito, os de Lobato em itálico:

Monteiro Lobato: Bom, agora eu vou falar aqui, não é? Nesse canudo (referindo-se ao microfone). Eu não tenho prática nenhuma, de maneira que é possível que saia tudo errado.

Eu também não me sinto muito à vontade falando para um grande público, sabe, sou tímida. E tenho impressão que todo o tímido se cobre por uma invisível capa na hora de subir a qualquer palco que a vida lhe imponha. É como se ele se superasse e, naquele momento, não fosse exatamente a pessoa que vive em seu interior. Não há falsidade aí, os dois seres convivem, porque ninguém é só erro, ninguém é só acerto. Mas ainda desconfio que o melhor mesmo é errarmos. Sem erros nada de acertos, não acha?

Monteiro Lobato: Eu toda noite ouço o Zé Caninha, naquele programa “Cartola de protesto”, e gosto imensamente deles por uma coisa, uma descoberta que eles fizeram, ele e o seu companheiro Vasconcelos: eles descobriram que é um grande erro estar renovando o programa, o certo é repetir todas as noites a mesma coisa, porque o público acostuma, gosta e não quer mudança. Eu mesmo fico danado quando eles mudam as pilhérias, gosto de ouvir todas as noites as mesmas pilhérias. E aconselho aos técnicos de rádio que estudem esta descoberta, porque é uma descoberta psicológica interessante e muito importante. Até aqui o rádio era baseado na renovação constante dos programas, novidade em cima de novidade. Pois bem, eles descobriram que isto está errado. Eu até quero que eles mudem um bocadinho, levemente, todo dia, mas quando eles mudam demais eu fico danado e acabo protestando com uma carta.

É engraçado como o ser humano lida com as mudanças. Se elas forem paulatinas, de modo que quase não apareçam, ainda são bem digeridas. Se forem bruscas, a revolta é geral. Tudo é a forma como são conduzidas. Mas o fato é que na vida tudo muda numa velocidade não imaginada por nenhuma roda gigante. E elas são de tal maneira rápidas que é da maneira que o olho humano não as enxerga cotidianamente. Em sua maioria, soam como um correr natural do rio, páginas de um livro que não seria o mesmo sem aquelas reinações, não é? E ainda bem que nosso olhar tem essa limitação, foi a forma que Deus encontrou de nos emprestar alguma perfeição. Afinal, se conseguíssemos sempre enxergar o virar das páginas, que a cada minuto são diferentes, não viveríamos, pois seríamos constantemente invadidos pela vontade de retornar ao nosso passado.

Monteiro Lobato: Você veja aqui o amigo Murilo, que na Espanha era pintor e agora aqui é radiofonista. Ou sei lá como chama isso. Radialista, né? (“Um neologismo que eu não gosto muito”, diz o Murilo). Ele dá-me um canudo que ouve (o microfone…) e eu sou obrigado a falar nesse canudo… E se eu estivesse falando sozinho eu estava muito satisfeito, mas estou aqui com várias testemunhas. O “pintor” Murilo (rindo) e (dentre outros citados) aqui o amigo Armando Pinto, um sonhador… que está procurando um editor e não acha, porque a coisa mais rara que há no mundo hoje é um editor que edite!

Assim como são raros os artistas que produzam arte! Num mundo que já perdeu a noção do que é arte, que já não sabe que ela é um algo a mais, que precisa trazer em si a capacidade de transformar os que tomam contato com ela para só assim poder ser chamada de arte, dizer-se artista é fácil. O difícil é conseguir que suas palavras sejam gravadas em corações de modo a ecoarem décadas e mais décadas depois.

Monteiro Lobato: Bom, eu estou falando e dizem eles que o aparelho (o microfone…) está gravando! E depois vai repetir ao público as minhas bobagens… Eles acham que as minhas bobagens podem interessar… Eu duvido! Eu quero ver para crer!

Bom, nem sempre os gênios conseguem ver em vida o interesse do grande público por sua obra. Mas os verdadeiros artistas são imortais.

Monteiro Lobato: Muito bem. Estou comovido e o Murilo está notando a minha comoção, cujos sinais são visíveis. A primeira dificuldade que eu encontro em falar no rádio é ter o que dizer, é ter assunto. Porque os assuntos são infinitos, mas quando a gente chega na hora de agarrar um não é fácil.

Os assuntos têm que ser agarrados, de preferência, um de cada vez, não é? Podíamos falar sobre a questão do petróleo. Eu não poderia perder essa oportunidade, não acha? Afinal, estou “dialogando” com aquele que foi um dos mais ardorosos defensores da criação da Petrobras, tendo chegado a bater de frente com Vargas por conta disso, o que o levaria a ser preso por duas vezes. Consta ainda que toda sua incessante luta pela nacionalização da extração do petróleo teria sido um dos fatores decisivos que o levaram à pobreza, a problemas sérios de saúde e, enfim, a um profundo desgosto.

Monteiro Lobato: Sobre o petróleo. Bom, é um assunto em que eu era muito versado antigamente. Eu levei dez anos entendendo de petróleo e tirando petróleo, furando a terra, etc… Hoje eu noto que o petróleo fez um grande “progresso” (com tom de ironia). Em vez de estarem furando a terra, tão querendo esmola. Virou mais um pobre. O Brasil tem agora, além de seus pobres habituais, o pobrezinho do petróleo. Aí, eu já vi num lugar um caldeirãozinho com um letreiro: “Pró Petróleo!” São os estudantes que estão tirando dinheiro pra fazer discurso sobre o petróleo. De maneira que o que eu sei do petróleo é isso: que ele “evoluiu” muito desde furar terra, como no meu tempo, uma coisa muito perigosa. Eu fui pro exterior e pra cadeia por causa de andar furando a terra aqui. Por causa de agarrar o leão pela cauda. E eu agora estou contemplando essa “evolução”. Acho até que os brasileiros devem contribuir com seus níqueis no caldeirãozinho do petróleo. Já que o petróleo não sabe dar dinheiro de outra maneira que dê sob forma de esmola. Estaremos, então, com mais um pobrezinho aqui, ao lado de tantos que já temos (sempre com tom de ironia).

Poxa, nesse nosso Brasil do século XXI, definitivamente o senhor precisava estar aqui. Tanto o Brasil como o mundo precisam sempre de pessoas capazes de unir espírito combativo com sensibilidade. “É preciso ser duro, mas sem perder a ternura jamais”, diria Che. E é isso o que pessoas como o senhor passam a vida fazendo. Lutar, sim, porém sem jamais perder a capacidade de comover-se e comover. Sua vasta obra, com personagens que encantaram e ainda encantarão crianças de várias gerações (e, diria até, crianças de todas as idades), é algo que não me deixa mentir.

Monteiro Lobato: Eu nem me lembro mais como surgiram essas personagens… Faz tanto tempo! Eu lembro que tem a Emília, que é muito engraçadinha, mas não me lembro como que ela surgiu. Tudo isso são águas passadas.

Bem, a quantidade de informações na mente humana é mesmo absurda. Então, se ela não tivesse esse mecanismo chamado esquecimento, eu creio que a vida seria inviável. Nossa mente já foi criada de modo a peneirar da forma mais sábia possível os arquivos da memória. Certamente, como parece claro, o que fica sempre é o principal. O que nos tocou mais fundo e que representará a peça chave para o entendimento do todo e, conseqüentemente, para que possamos avançar para além das estradas já percorridas. Pena que, às vezes, não consigamos esquecer tudo o que queremos. Todas as mazelas que assolam o mundo e o nosso Brasil, sem dúvida, se nós pudéssemos não as guardaríamos na lembrança. Mas são assuntos que tem ser levantados sempre, não é? No Brasil dos anos 40, por exemplo, dizia-se que “vivíamos no país do suborno”. É até curioso dizer isso pro senhor hoje… Ah, como eu queria que as coisas tivessem melhorado nesse sentido!

Monteiro Lobato: Veja bem, eu tenho medo de me comprometer. Eu já fui pra cadeia e depois disso eu fiquei cauteloso. E, antes de eu emitir uma opinião, eu penso nas conseqüências. Porque há uma pessoa que já me proibiu de voltar à cadeia: minha mulher. E eu respeito muito as opiniões dela. Ela acha que já foi o bastante. E, graças aos seus conselhos, eu me tornei cauteloso. De maneira que eu não vou dizer nada sobre esse negócio de suborno… Mesmo porque não sei o que é suborno. Nunca fui subornado. Não tenho nenhuma experiência pessoal do caso. Agora, ouço dizer que é uma coisa muito “agradável”, que as pessoas conseguem grandes lucros por intermédio do suborno. Mas não vale a pena entrar num assunto que pode desrespeitar pessoas “respeitáveis” aí fora (mais uma vez as aspas ficam por conta de todo o contexto da fala e do visível tom de deboche na voz de Lobato). (…alguns minutos depois, bem sério) Cá entre nós, que ninguém nos ouve, eu não acredito em mais nada. E tenho verificado o seguinte: que só os homens que chegaram a essa filosofia é que são felizes. Porque todos que ainda acreditam em alguma coisa acabam levando na cabeça. Só os céticos absolutos é que acertam. De maneira que, cá entre nós que ninguém nos ouve, eu acho que esta é a verdadeira filosofia: não acreditar em nada! Porque tudo é duvidoso.

Concordo que a dúvida é algo vital. Quem não se dá o direito de duvidar, pára de pensar e, sem se dar conta, deixa de viver. Tirar do homem a dúvida seria tirar seu bem mais precioso e pôr por terra a diversidade de seu conhecimento. No entanto, vou ter que discordar de um ceticismo tão radical. Apesar de eu ter a consciência de que nenhuma verdade é absoluta, acredito ser fundamental para o ser humano criar ilusões proveitosas, escolhendo “meias-verdades” nas quais seja útil confiar. Se a humanidade não acreditasse no seu próprio futuro, onde estaríamos hoje? Com um pouco mais de esperança em soluções que possam viabilizar o bem comum, seriam possíveis até maiores acordos entre nações, não acha?

Monteiro Lobato: Eu acho que um acordo entre as nações será possível no dia em que todas tiverem armas iguais. Quando todas tiverem bombas atômicas de igual força, a harmonia entre elas vai ser absoluta. Porque o que causa diferenças entre os povos é a diferença dos armamentos. Enquanto uma tiver bomba atômica e a outra não, a que tiver bomba atômica usará da sua superioridade. Quem tem força, abusa. Agora, quando falta a força, então todos ficam muito bonzinhos. O que está faltando ao mundo, para o restabelecimento da paz, é apenas isso: bomba atômica para todos! No dia em que chegarmos a isso, todos os problemas estarão resolvidos. E viraremos, então, uns carneirinhos, todos cordeiros (novamente irônico).

Bem, parece que não é exatamente esse o ideal, né? Falemos, então, de idealismo. Essa coisa que faz parte de sua história. Essa coisa que move o mundo. Creio que jovens sem ideais deixam um pouco perdido o sentido da palavra juventude. É nessa época que precisam aflorar motivações que permitam a construção de uma vida. O senhor foi um jovem idealista e não acredito que, sem isso, teria chegado aonde chegou. Mas sei que o idealismo sozinho não basta. Por conta de idealismos ocos, sem estruturas, interna e externa, fortes o suficiente para fazê-los vingar, o mundo já viu muitas mentes jovens e brilhantes se perderem das piores formas. Sei, portanto, que há um algo mais. Um ingrediente que faz com que a pessoa possa romper a barreira entre o idealismo da juventude e uma velhice que lhe confira respeito. Algum palpite?

Monteiro Lobato: Crescer e aparecer. Esta é uma condição essencial. Antes que este jovem cresça e apareça, ele não poderá ser nada. Crescendo ele alcançará a maturidade, alcançando a maturidade ele dará tudo de si, ele porá em relevo todas as qualidades latentes que possua. E, se de fato ele tem qualidades, esse jovem aparecerá. Se ele não tem qualidade, a maturidade servirá para revelar isso, e ele não aparecerá. De maneira que o aparecimento de um jovem, em especial no mundo das letras, é uma coisa que depende exclusivamente das qualidades naturais desse jovem. Se ele tiver qualidades boas, ele vencerá. Se ele não tiver qualidades boas, ele fracassará e com muita justiça. É isso o que pensa o velho Lobato com sua vasta experiência acumulada.

Experiência. Uma bela palavra. Acho que estou no mundo para isso mesmo: para experimentar! E, ainda jovem, do que eu mais me arrependo não são daquelas experiências que explodiram na minha frente, mas daquelas que eu não vi explodir pelo medo de tentar. Penso que quem muito quer mudar o passado não deve gostar muito da pessoa que é. Afinal, foi o passado que nos fez como somos, ele é irreversível, e precisamos conviver com o espelho. Gosto de quem sou, por isso eu sou grata a cada tijolo quebrado que ajudou a me construir. Voltaria à adolescência e levaria a mesma falta bem na hora que eu ia chutar ao gol na pelada dos times do CPII. Meu joelho não seria o mesmo sem aquilo. Voltaria à infância e tropeçaria com minha bicicleta naquela mesma pedra que deixou esta marca, quase invisível, logo abaixo do meu nariz. Mas eu sei que ela está lá. E gosto de lembrar o dia em que meus amigos saíram correndo para avisar minha avó que eu estava desacordada na calçada. E o sorriso deles depois ao ver que eu estava bem? E se eu não tivesse caído, como teria a lembrança daqueles olhares? Voltaria a engatinhar só para dar com a testa na mesma quina de porta. Uso franja pra esconder a pequena cicatriz. Pensam que é charme… É, definitivamente, eu faria tudo de novo sem medo de ser feliz, porque tudo foi como tinha que ser. E as coisas boas então? Ahhhhhhh!!!!! Faria tudo de novo!

Monteiro Lobato: Bem, eu talvez voltasse à mesma profissão. Porque há nela uma coisa que me seduz muito: o interesse que as crianças revelaram por uma parte da minha obra, a parte infantil. O grande número de cartas de crianças que eu recebo, a sinceridade do que elas dizem, e o fato de virem não só do Brasil como de outros países, sobretudo dos países de língua espanhola, me fazem crer que se eu voltasse, se eu fosse viver de novo a minha vida, eu ia entrar pelo mesmo caminho. Porque não creio que em qualquer outro setor fosse possível eu ter as mesmas compensações que tenho com as crianças. Ainda agora recebi aqui a mãe da Lilidet. Essa Lilidet é uma menina encantadora, que prometeu me visitar. Eu estou ansiosamente à espera da visita da Lilidet. Eu considero uma visitinha da Lilidet um prêmio. Ora, são inúmeras as crianças que me visitam. Eu considero cada uma delas um prêmio. De maneira que eu sou um sujeito muito premiado. E um sujeito que se acostumou a ser muito premiado numa vida, se voltar outra vez ao mundo ele quer continuar a ser.

Sabe que, às vezes, eu desejo voltar a ser criança? Ainda que eu nunca tenha deixado de ser… Mas era só para voltar a ouvir as histórias de um certo “Sítio do Pica-pau Amarelo” antes de dormir…

Monteiro Lobato (rindo): O meu maior desejo neste momento seria ver este locutor pelas costas e eu já lá em cima no meu apartamento – e na cama – para descansar dessa sova que levei hoje!

07 de Julho de 2009,
Ana Helena Tavares

criado por Ana Helena Tavares    21:43:23 — Arquivado em: Diálogos, Proseando — Tags:,

28.6.09

Quando os animais explicam

Minha Pérola!
Freud e seu Lün, um chow-chow presenteado por Helene Deutsch.

“Diálogo” com Sigmund Freud, em homenagem à minha labradora, Pérola, fiel companheira, que morreu segunda-feira à noite, dia 22/06/2009. Os trechos de minha autoria aparecem em negrito. Os trechos de autoria do gênio da psicanálise aparecem em itálico e foram retirados de uma rara entrevista que ele concedeu ao jornalista americano George Sylvester Viereck, em 1926. A entrevista completa está disponível em http://niilismo.net/forum/viewtopic.php?t=216

Sigmund Freud: Eu prefiro a companhia dos animais à companhia humana.

No meio do caminho eu tinha uma Pérola
Eu tinha uma Pérola no meio do caminho

Nunca me esquecerei daquele olhar naqueles momentos
Queria passar e lá estava ela
Agora quero ficar e ela não está lá

Deveria ter sentado mais no meio do caminho?
E acariciado mais a Pérola?

Não… Eu brinquei muito com minha Pérola!
Quantas chegadas festivas em casa!

Não há companhia como aquela…

Sigmund Freud: Porque são tão mais simples. Não sofrem de uma personalidade dividida, da desintegração do ego, que resulta da tentativa do homem de adaptar-se a padrões de civilização demasiado elevados para o seu mecanismo intelectual e psíquico.

Pois é, homens matam e morrem em busca de status, sem saber que caso alcançassem a estatura dos animais seriam muito mais felizes.

Sigmund Freud: O homem selvagem, como o animal, é cruel, mas não tem a maldade do homem civilizado. A maldade é a vingança do homem contra a sociedade, pelas restrições que ela própria impõe.

E, enquanto nós nos cobramos tanto, constantemente, de nos encaixar em um mundo totalmente desencaixado pela nossa própria ação, do que os animais se cobram a não ser da nobre tarefa de zelar por quem amam?

Sigmund Freud: As emoções do cão (acrescentou Freud pensativamente) lembram-nos os heróis da Antigüidade. Talvez seja essa a razão por que inconscientemente damos aos nossos cães nomes de heróis como Aquiles e Heitor.

Menorzinha da ninhada…

Teu nome é Pérola!

Fruto de superações
Lutou pra mamar
Com os irmãos fortões!

Misturada de raças…

Tu nasceu labradora
Minha Pérola!
Uma vencedora!

“Ih, ela tem o um monte de pintinhas na barriga e, caramba, o nariz é rosado!”
“Você vai mesmo querer essa?”
“Ah, sei lá, pode ser um tipo de câncer, ela pode não durar muito, hein…”
É essa, mãe!

Não era câncer
Ela me explicou o valor (e o sabor!) de rolar na lona
Viveu de forma intensa
Séria e bobona…

Seu sorriso? Uma janela…

Uma estrada que Deus me deu

Sorria com os olhos! Que grande aula era aquele olhar!

Queria conversar com o meu

Queria dizer: vai em frente, menina!

Acredito no seu potencial!

E, se ela acreditava…

Duvidar seria no mínimo desagradável.

Sigmund Freud: As mais desagradáveis características do homem são geradas por esse ajustamento precário a uma civilização complicada. É o resultado do conflito entre nossos instintos e nossa cultura.

O único “conflito” que ela tinha não era pra dentro, era pra fora…

Era com a cachorrada da vizinhança

Acho que ela os achava muito abusados

Só quem podia latir por ali era ela, ora!

De brava? Só o tamanho…
Ela era um ser feliz dia após dia!
Só tinha um hábito meio estranho…
Gostava de me olhar quando eu escrevia

Sigmund Freud: (sorrindo) Fico contente de que não possa ler. Certamente seria um membro menos querido da casa, se pudesse latir sua opinião sobre os traumas psíquicos e o complexo de Édipo!

Parece que os animais não sentem essa coisa chamada “trauma”, né? Pelo menos não como a gente.

28 de Junho de 2009,

Ana Helena Tavares

Quando os animais explicam no É-poésis

criado por Ana Helena Tavares    19:40:32 — Arquivado em: Algum lugar entre a prosa e a poesia, Diálogos, Diálogos poéticos, Proseando — Tags:, , ,

5.6.09

Dialogando com a água

1) Um pouco de história… – A evolução do potencial hídrico no mundo e o desenvolvimento dos muitos mitos que envolvem a água

“A água é a seiva do nosso planeta. Ela é a condição essencial de vida de todo ser vegetal, animal ou humano. Sem ela não poderíamos conceber como são a atmosfera, o clima, a vegetação, a cultura ou a agricultura. O direito à água é um dos direitos fundamentais do ser humano: o direito à vida, tal qual é estipulado do Art. 3 º da Declaração dos Direitos do Homem.” (Art. 2º da “Declaração dos Direitos da Água”, homologada pela ONU, em Paris, em 1992).

Nosso planeta bem poderia se chamar planeta Água, afinal, mais da metade dele (2/3) é coberto pelo precioso líquido. No entanto, ao contrário do que se pensa é muito reduzida a porção utilizável pelo homem.

Nesse contexto, nunca é demais lembrar que nos últimos anos a evolução do consumo de água tem levado muitos reservatórios ao limite de sua capacidade. Considerando-se que, historicamente, a disponibilidade de água sempre exerceu grande influência sobre a evolução de um país e de seu povo, a situação mostra-se, então, alarmante.

Há de se considerar que, ao redor do globo, a água doce superficial é distribuída de forma desigual. Enquanto ela é abundante em algumas regiões, como no sul e no norte do Brasil, onde durante todo o ano as bacias dos rios Amazonas e Paraná proporcionam energia, alimento e vida, em outras, sua ausência é sinônimo de pobreza e morte. Afinal, variando-se a quantidade de água de um lugar para outro, variam também, em especial, as características da agricultura e da pecuária, variando, enfim, as possibilidades de desenvolvimento humano. Em lugares onde o clima é predominantemente árido e o abastecimento de água depende de rios e de raras estações de chuva, isso é ainda mais visível, tornando a luta pelo acesso à água e, portanto, à vida, um problema cada vez mais crônico.

Vejam o paradoxo… A água teve papel primordial na origem da vida, sem ela não haveria sequer seres vivos quanto mais seres humanos, e essa mesma humanidade que ela inventou é agora a responsável por sua agonia e pode ser, no futuro, o motivo de seu fim. Não cuidar da água é uma atitude de autodestruição, é fechar os olhos para nós mesmos e para nossa história, é esquecer o cerne da vida e ofuscar o seu encanto.

De elemento purificador em muitas religiões a comprovado potencial terapêutico, a água sempre exerceu grande influência no ser humano. Desde os tempos mais remotos, a imponência da água e seus muitos segredos sempre aguçaram a imaginação dos povos. Na tentativa de explicar o que se mostrava inexplicável e maravilhados com sua magia, os antigos endeusaram a água e cercaram-lhe de mitos que sobrevivem até hoje, dando um toque todo especial à relação do homem com a natureza.

2) Fonte de vida – A água e a origem do mundo

“Conseguir alimento não deve ter sido problema para os primeiros seres vivos, pois a água do mar os envolvia.” (Fernando Gewandsznajder – biólogo - em seu livro “Biologia”)

Segundo estudos científicos, a origem da água na Terra se deu em duas fases distintas: 1) pela ocorrência de vapor de água na atmosfera primitiva que se dispersou num primeiro momento por causa da elevada temperatura existente, provocando uma notável diminuição da temperatura ambiente; 2) pela representativa chegada de quantidade vinda do interior do planeta, ocupando os vales da crosta, numa profundidade média de 3 a 4 quilômetros. Esse volume de água não foi disperso para o espaço sideral em forma de vapor, como foi o caso da maioria dos planetas, que eram extremamente quentes, em virtude de a água ter se deparado com uma crosta terrestre menos aquecida. Aliás, a Terra é o único planeta que tem água em estado líquido.

No início, a água era pobre em minerais. Entretanto, seu enriquecimento – especialmente em sais – foi gradual, tendo sido feito através de sua movimentação sobre os leitos dos oceanos, em movimentos sísmicos, a altos graus de temperatura e através de uma contínua acumulação proveniente dos continentes e com eventuais precipitações pluviais.

Essa gênese hídrica foi o berço da vida. Sabe-se que proteínas aquecidas e misturadas à água fria podem agrupar-se formando pequenas gotas chamadas microsferas. Outro tipo de aglomerado de moléculas orgânicas pode ser também obtido, misturando-se ácido a uma solução de proteínas em água: as proteínas se aproximam e formam aglomerados visíveis ao microscópio óptico: são os coacervados. O coacervado ou a microsfera, presente nos mares primitivos, que tivesse aprisionado em seu interior proteínas enzimáticas e uma molécula de ácido nucléico (originada das sínteses de moléculas orgânicas da atmosfera primitiva), seria considerado o primeiro ser vivo. Isso porque ele teria a capacidade de realizar metabolismo, de reproduzir-se, de apresentar hereditariedade e de evoluir.

Desde o surgimento dos primitivos seres vivos, todas as formas de vida têm uma necessidade imperativa de água – e esta provém dos oceanos, até mesmo aquela que é utilizada na terra pelas plantas e animais. Vida alguma poderia existir, porém, por um momento sequer sobre a Terra, se a água não tivesse a capacidade de dissolver mais substâncias do que qualquer outro líquido conhecido, o que, por exemplo, possibilitou ao primeiro ser vivo nutrir-se simplesmente absorvendo e utilizando as inúmeras moléculas orgânicas simples presentes na água. Por vários motivos, essa e muitas outras propriedades da água – no estado líquido –, como a sua extraordinária capacidade de armazenar calor, parecem quase ter sido inventadas para tornar o mundo hospitaleiro à vida. Na verdade, em última análise, nós mesmos, os seres humanos, tivemos origem na água.

3) A água na mitologia

“Grande parte dos mitos origina-se do desejo do homem de explicar fenômenos naturais como a água” (Tancredo Pinto, professor de mitologia)

Quando se trata de mitologia, há uma pergunta que não quer calar: afinal, o que significa o termo mito?!

Pode-se dizer que, no nosso contexto, mito quer dizer história ou conjunto de histórias que fazem parte da cultura de um povo e tentam explicar fenômenos incompreendidos.

Mitologia greco-romana

A água é um elemento de fundamental importância na cosmogonia, a origem do mundo para a mitologia grega. A água, Hidros, aparece para salvar a Terra, Gaia, que
estava sendo queimada por Piros, o fogo.

Essa entidade Hidros/água, passa a fazer parte do mundo olímpico de Zeus e dos deuses do Olimpo. O deus Poseidon, Netuno para os romanos, era o senhor das águas, o deus dos mares e também dos rios. Seu palácio era no fundo do mar Egeu e sua arma era o tridente, com que provocava maremotos, tremores de terra e fazia brotar água do solo.

Entretanto, Poseidon, mesmo sendo o senhor das águas, não exerce sobre ela um poder absoluto, pois a água é um elemento primordial, que surgiu ainda antes de haver o deus.

A água se faz sempre muito presente, sendo símbolo de continuidade, fertilidade e proteção materna.

Ela sempre é habitada ou transformada. O rio Serifo, por exemplo, personaliza-se: ele toma forma de homem e deita-se com as ninfas. Mito muito semelhante à lenda do boto cor-de-rosa na mitologia amazônica, em que o peixe de um rio vira homem e deita-se com as mulheres à noite.

Mitologicamente, os rios são seres masculinos e cada rio é um homem.

Ao tomar banho de rio, as entidades femininas como as ninfas, podiam engravidar e ter muitos filhos. São inúmeros os filhos da água na mitologia, são cinqüenta, cem filhos num mesmo parto! Esse extremo exagero é justamente para fazer ver a fertilidade da água e sua grande importância na antigüidade.

A deusa do amor da mitologia, Afrodite (Vênus), não teria nascido do ventre de nenhuma mulher, deusa ou mortal, ela teria surgido da água do mar.

O mar era muito importante e vários personagens povoavam-no. Além de Poseidon (Netuno), sua esposa Anfitrite, seu filho Tritão (que era responsável pelo movimento das marés), e o velho do mar, Nereu, com suas 50 filhas, são outras divindades marítimas. Dentre as divindades aquáticas estão também os deuses rios, ninfas aquáticas e o deus Glauco, que supõe-se ter sido um pescador que, enlouquecido por uma erva mágica, atirou-se no mar e se tornou o profeta das águas. Havia ainda a deusa Tétis, as sereias, as pléiades, que eram filhas de Poseidon (Netuno), e as nereides, que são outras divindades aquáticas, no caso, todas mulheres.

Depois de guerras, lutas e mortes injustas, a água servia para a purificação. Como forma de se purificar de algum ato vil que cometessem, os gregos se banhavam num rio. Eles desenhavam o mar em formato de serpente que, muitas vezes, representa a mutação das águas. Para a cultura do mundo antigo, a água sempre foi de vital importância, um elemento extraordinariamente forte, sempre venerado e respeitado.

Mitologia asteca

Para os astecas, Tlaloc é o ser que se ocupa da tutela da água, é o Deus que pode fazer com que a vida possa continuar eternamente. Considerado também o Deus da chuva e da tempestade, era um dos deuses mais cultuados no antigo México.

Lendas africanas

Afrodite (Vênus), das lendas greco-romanas, é a mesma Iemanjá (sereia) dos cultos afros. Julga-se ser uma só sob nomes diferentes.

Na mitologia afro, Iemanjá é a divindade das águas verdes e salgadas. Ela leva um leque e bracelete de metal prateado e dança interpretando o movimento das águas agitadas. No Brasil, é considerada pelos umbandistas a rainha do mar e protetora da família, cultuada aos sábados e fins de ano nas praias.

No entanto, dentro do sincretismo católico-umbandista, ela é Nossa Senhora da Glória, festejada a 15 de Agosto no Rio de Janeiro e a 2 de Fevereiro na Bahia, como Nossa Senhora das Candeias, ou dos Navegantes.

Mitologia fenícia

O estado de umidade dependia do Deus Aleyin e, por isso, ele era considerado o espírito das fontes, mananciais, arroios e rios.

Mitologia indígena brasileira

Tamandaré, o correspondente indígena do Noé bíblico, salvou sua civilização, livrando-a da tempestade que alagou o local em que vivia. A mitificação da água, elemento recorrente na mitologia indígena, recorre justamente da suma importância que essa substância pura tem para as tribos do Brasil. Quando, há quase quinhentos anos, os lusitanos aportaram em terra de Pindorama, como os índios a chamavam, um dos aspectos que mais os impressionaram foi a limpeza característica de todos os índios: homens e mulheres tão limpos que não se intimidavam em mostrar suas “vergonhas”. Provavelmente, essa cena remeteu-lhes à própria realidade dos europeus, em que banhos diários eram simplesmente inimagináveis.

Mitologia celta

Entre os celtas Boann era a deusa da água e da fertilidade. Os heróis celtas, muito freqüentemente, consideram-se filhos do Rio Reno.

Mitologia egípcia

No panteão de deuses egípcios, havia três divindades relacionadas com a água: Sobeque e os irmãos Osíris e Seth. Sobeque, também conhecido como Deus-crocodilo, era considerado o senhor do universo e venerado em cidades que dependiam da água. Já Osíris era o Deus da vegetação, a personificação da fecundidade e a fonte total e criadora das águas. Simbolizava na sua morte a estiagem anual e no seu renascimento, a cheia periódica do rio Nilo e o desabrochar do trigo. Ensinava os seus súditos a cultivar a terra e aproveitar da melhor maneira os seus frutos, procurando orientá-los em tudo que precisassem. Seth, por sua vez, era o Deus do Alto Egito e estava associado às tempestades. Conta a lenda, que depois que matou seu irmão Osíris, passou a ser conhecido não só como o Deus das tempestades, mas também como o Deus da destruição e da guerra.

No Egito, para garantir a existência e continuidade da vida, a mesa de pedra talhada ou a mesa de libação era posicionada nas margens dos rios e sobre ela derramava-se vinho que – ao escorrer pelos sulcos sinuosos da terra – representava os meandros desses rios.

Certa vez, um grego, ao conhecer o Egito, deu ao país o título de O Dom do Nilo, em virtude de o Rio Nilo proporcionar a maior parte da riqueza do Egito.

Toda essa exposição da mitificação da água nas antigas civilizações citadas só vem mostrar o quanto esses povos sabem – ou, infelizmente, sabiam: o incalculável valor da água. E faz-nos pensar em quão maravilhoso seria se a nossa civilização dita moderna, se inspirasse nessas civilizações consideradas tão atrasadas e desse a merecida atenção a esse bem natural, tratando-o como parceiro para o desenvolvimento.

4) A água como purificação do corpo e do espírito
“Eu voz batizo com água, para o arrependimento”. (Mateus 3:11)

A palavra batismo vem do grego, “baptizein”, que quer dizer mergulho ou imersão na água.

Nas religiões cristãs em geral, o batismo é o rito escolhido por Deus, simbolizando o início da vida espiritual do indivíduo. O batismo nas águas ministrado por João Batista, no Rio Jordão, por exemplo, era um banho profundamente sagrado.

Para os seguidores da linhagem Luterana, representa a admissão solene da iniciação religiosa, através do ritual da ablução, ou seja, banho de todo o corpo, ou parte dele, com esponja embebida em água ou toalha molhada, ou seja, é essencialmente um ritual de purificação por meio da água.

Na Igreja Católica Romana, o batismo também é de fundamental importância, simbolizando o renascimento espiritual. Assim como nas demais religiões, a água é um elemento indispensável do ritual católico do batismo e quem recebe o sacramento pode simplesmente ter a testa molhada ou a cabeça respingada com água, representando a purificação de todas as culpas e pecados.

Fazendo um breve paralelo com o fato de o batismo em água ser em algumas religiões considerado a purificação dos pecados, lembro aqui de uma curiosidade sobre a simbologia da água. Dante Alighiere, em sua Divina Comédia, sugere a água como símbolo de purgação, quando em uma das passagens do texto diz que o ser do purgatório poderia ver a água, mas não poderia bebê-la, o que lhe seria uma forma de castigo. Visão semelhante ao mito grego de Sísifo.

Voltando à presença da água no ritual de batismo das diversas religiões, no caso dos judeus dos tempos apostólicos, ser “batizado” sugeria “batismo de prosélito”, ou seja, ato praticado quando um pagão se voltava contra o judaísmo. Este, ficava em pé com a água até o pescoço enquanto era lida a lei, depois submergia das águas, como sinal de que abandonara as práticas do paganismo para então prosseguir nos preceitos judaicos.

Há em toda época antiga, rios sagrados, no qual os povos banhavam-se para purificar-se física ou mentalmente, hajam vistos os povos da Índia milenar serem levados a banhar-se nas águas do rio sagrado, o Ganges, cumprindo assim parte de um ritual que, para eles, é indispensável e sagrado. Além disso, nos rituais da Umbanda os banhos também se fazem muito presentes. Desde os tempos mais remotos, eles sempre foram um potente integrante do sentimento religioso.

5) A influência da água como quarto elemento da natureza

“Energia concentrada, lenta e grande talento para estabelecer conexões.” (astrologia)

A água se adapta à forma que a abriga, seja um copo, um vaso ou um pedaço de terra, por exemplo. O elemento água é receptivo e moldável, assim como nossos sonhos, nossas fantasias, nossos desejos e nossas emoções.

Na astrologia, o elemento pode ser simbolizado pela alma ou pela emoção.
Os signos de água – Câncer, Escorpião e Peixes – vivem em seus sentimentos, é o estado emocional que determina seu comportamento. Os aspectos negativos são: temores irracionais, instabilidade, descontrole emocional e magoar-se com facilidade, o que deve ser contornado por meio da firmeza. As pessoas de água devem ser firmes consigo mesmas, não se deixando levar pelas emoções e sentimentos descontrolados.

Há, claro, muitos aspectos positivos trazidos pelas vibrações do elemento água. As pessoas dos signos de água, são extremamente intuitivas e tendem a descobrir a vida com mais sensibilidade do que racionalismo. Sempre em sintonia com as emoções, muitas vezes vêem nelas sutilezas que outras pessoas sequer percebem. A energia do elemento as leva sempre a procurar agir com o coração. Esta sensibilidade tem uma força incrível, quando canalizada para atividades ou situações que exijam o uso das emoções.

6) O potencial terapêutico da água – Como ela se faz presente na vida do ser humano

“Uma lágrima, uma gota de água: a sutil explosão corporal dos sentimentos” (Ana Helena no poema “A água é dona da água?”)

Há muitos séculos que a água vem sendo usada para terapias – romanos, chineses, japoneses, egípcios e hebreus já acreditavam no seu poder terapêutico e energético. Nos dias de hoje, está cada vez mais comprovada a sua eficácia no auxílio à cura de diversos males.

A água de fato pode ser uma grande aliada para terapias mentais e corporais. Com a hidroterapia, a pessoa pode executar movimentos que, muitas vezes, julgava-se incapaz. Esse tipo de tratamento permite resultados mais rápidos e eficazes, pois fora d’água as dores tendem a ser mais agudas. Além disso, em terra o corpo tem que lutar contra a gravidade, já o ambiente aquático neutraliza esse fator. Em vista disso, em muitos casos, os astronautas, são treinados na água.

Essencialmente, a terapia aquática é eficaz por conseguir aliar o bem-estar físico e mental. As aplicações hidroterápicas podem ser na forma de fricções, banhos, compressas, duchas, enfaixamentos e saunas. Dentro d’água, um paciente ferido pode, por exemplo, exercitar um músculo danificado expondo-se menos à dor e ao estresse.

Além de auxiliar em terapias, a água é também considerada a melhor bebida. Revigorante e desintoxicante, beber água com freqüência é de extrema importância para o bom funcionamento do corpo humano, o qual é 70% água.

Ainda dentro do contexto da influência que a água exerce sobre o ser humano, ela é muito vista também como sinônimo de lazer e esporte. Para quem procura diversão, por exemplo, parques aquáticos e aquários artificiais fazem grande sucesso.

No que diz respeito aos esportes aquáticos, inúmeras são as opções. Pólo aquático, hidroginástica, saltos ornamentais, mergulho, natação, canoagem, iatismo, pesca submarina, remo, vela, surfe… E poderia citar muitos outros, mas dentre esses vale ressaltar que a natação é considerada o esporte mais completo, por trabalhar magistralmente a maior parte dos músculos do corpo, aliando a isso a contribuição para uma melhor respiração e o estímulo à circulação sangüínea.

Como se pode ver, estando ou não doente, seja em terapias ou em atividades esportivas, qualquer pessoa pode e deve lançar mão dos benefícios da água para aliviar a musculatura, relaxar a mente e gozar a vida.

7) A água vista como símbolo de prosperidade, fartura e fertilidade

“Essa terra é de tal maneira graciosa que, querendo aproveitá-la, dar-se-á nela tudo por bem das águas que tem” (Pero Vaz de Caminha na “Carta do Descobrimento do Brasil” )

Feliz da terra que tem água! Águas que embelezam, transportam, alimentam, fertilizam…

Grande magia há numa paisagem rodeada de água. Sentar-se a observar o correr de um rio ou o bater das ondas do mar é um colírio para os olhos, um elixir para a mente.

Lugares com grande ocorrência de rios e mares são abençoados não só porque o transporte aquático constitui-se em importante estratégia comercial, mas também pela grande beleza que há em se ver atravessando um lago, um rio, um mar… Poder “andar” por sobre as águas
seja num luxuoso navio ou num simples barco, sempre foi algo que encantou o ser humano.

Sabe-se que as hidrelétricas são grandes aliadas para o abastecimento de eletricidade. No entanto, a água, muito antes de ser fornecedora de energia, é essencial geradora de alimentos. Desde os tempos mais remotos até os nossos dias, a pesca sempre foi uma das mais importantes atividades humanas. Com peixes e frutos do mar pode-se alimentar toda uma comunidade.

A água, porém, não só gera alimentos, como também possibilita a sua produção em terra. Sem água o solo por si só não daria conta e plantações não sobreviveriam. Terra com água é terra fértil e produtiva.

8 ) Conclusão e considerações finais – A prioridade de se olhar a questão com maior compromisso para que, preservando-se a água, seja preservada também a beleza de seus mitos

“Para algo ser um mito não é preciso que de fato exista, mas sem água nem vida existe… Num mundo desértico, quem sobraria para manter esse mito??” (Ana Helena no poema “A água é dona da água?”)

Há muitos anos que o descaso de grande parte da humanidade com a natureza e, em particular, com a preservação da água, vem fazendo com que se tornem cada vez mais escassas as fontes de água utilizável pelo ser humano.

Nosso planeta recebeu o privilégio de ser o único a ter água em estado líquido, possibilitando que nele surgisse a vida e, conseqüentemente, a humanidade. Resta a nós preservar essa dádiva que nos foi dada para que ainda possa haver muitas e muitas gerações sobre a Terra. Sendo conservada, assim, a vida e sua qualidade, e fazendo com que essas futuras gerações possam conhecer o fascínio da água e continuar a cercá-la de mitos.

Cuidar da água é manter viva a Terra. O início da vida dependeu da água e dela também depende o seu futuro.

Ana Helena Tavares

criado por Ana Helena Tavares    09:38:31 — Arquivado em: Diálogos, Ensaios, Ensaios monográficos, Proseando — Tags:, , , ,

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