Traços de Estilo

“A poesia confunde-se com a prosa da mesma maneira que o poeta confunde-se com o homem da rua e já não pode nem deseja reivindicar para si a condição de eleito dos deuses.” (o poeta Gullar) “É preciso levar em conta as palavras que você escolhe, cuidar de cada sentença. É preciso ser sensível ao sentimento das pessoas.” (o jornalista Talese)

28.6.09

Quando os animais explicam

Minha Pérola!
Freud e seu Lün, um chow-chow presenteado por Helene Deutsch.

“Diálogo” com Sigmund Freud, em homenagem à minha labradora, Pérola, fiel companheira, que morreu segunda-feira à noite, dia 22/06/2009. Os trechos de minha autoria aparecem em negrito. Os trechos de autoria do gênio da psicanálise aparecem em itálico e foram retirados de uma rara entrevista que ele concedeu ao jornalista americano George Sylvester Viereck, em 1926. A entrevista completa está disponível em http://niilismo.net/forum/viewtopic.php?t=216

Sigmund Freud: Eu prefiro a companhia dos animais à companhia humana.

No meio do caminho eu tinha uma Pérola
Eu tinha uma Pérola no meio do caminho

Nunca me esquecerei daquele olhar naqueles momentos
Queria passar e lá estava ela
Agora quero ficar e ela não está lá

Deveria ter sentado mais no meio do caminho?
E acariciado mais a Pérola?

Não… Eu brinquei muito com minha Pérola!
Quantas chegadas festivas em casa!

Não há companhia como aquela…

Sigmund Freud: Porque são tão mais simples. Não sofrem de uma personalidade dividida, da desintegração do ego, que resulta da tentativa do homem de adaptar-se a padrões de civilização demasiado elevados para o seu mecanismo intelectual e psíquico.

Pois é, homens matam e morrem em busca de status, sem saber que caso alcançassem a estatura dos animais seriam muito mais felizes.

Sigmund Freud: O homem selvagem, como o animal, é cruel, mas não tem a maldade do homem civilizado. A maldade é a vingança do homem contra a sociedade, pelas restrições que ela própria impõe.

E, enquanto nós nos cobramos tanto, constantemente, de nos encaixar em um mundo totalmente desencaixado pela nossa própria ação, do que os animais se cobram a não ser da nobre tarefa de zelar por quem amam?

Sigmund Freud: As emoções do cão (acrescentou Freud pensativamente) lembram-nos os heróis da Antigüidade. Talvez seja essa a razão por que inconscientemente damos aos nossos cães nomes de heróis como Aquiles e Heitor.

Menorzinha da ninhada…

Teu nome é Pérola!

Fruto de superações
Lutou pra mamar
Com os irmãos fortões!

Misturada de raças…

Tu nasceu labradora
Minha Pérola!
Uma vencedora!

“Ih, ela tem o um monte de pintinhas na barriga e, caramba, o nariz é rosado!”
“Você vai mesmo querer essa?”
“Ah, sei lá, pode ser um tipo de câncer, ela pode não durar muito, hein…”
É essa, mãe!

Não era câncer
Ela me explicou o valor (e o sabor!) de rolar na lona
Viveu de forma intensa
Séria e bobona…

Seu sorriso? Uma janela…

Uma estrada que Deus me deu

Sorria com os olhos! Que grande aula era aquele olhar!

Queria conversar com o meu

Queria dizer: vai em frente, menina!

Acredito no seu potencial!

E, se ela acreditava…

Duvidar seria no mínimo desagradável.

Sigmund Freud: As mais desagradáveis características do homem são geradas por esse ajustamento precário a uma civilização complicada. É o resultado do conflito entre nossos instintos e nossa cultura.

O único “conflito” que ela tinha não era pra dentro, era pra fora…

Era com a cachorrada da vizinhança

Acho que ela os achava muito abusados

Só quem podia latir por ali era ela, ora!

De brava? Só o tamanho…
Ela era um ser feliz dia após dia!
Só tinha um hábito meio estranho…
Gostava de me olhar quando eu escrevia

Sigmund Freud: (sorrindo) Fico contente de que não possa ler. Certamente seria um membro menos querido da casa, se pudesse latir sua opinião sobre os traumas psíquicos e o complexo de Édipo!

Parece que os animais não sentem essa coisa chamada “trauma”, né? Pelo menos não como a gente.

28 de Junho de 2009,

Ana Helena Tavares

Quando os animais explicam no É-poésis

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8.2.09

Dialogando numa senzala

“Diálogo” com Castro Alves (trechos dele entre aspas e os meus em negrito).

“Donde vem? onde vai? Das naus errantes
Quem sabe o rumo se é tão grande o espaço?
Neste saara os corcéis o pó levantam,
Galopam, voam, mas não deixam traço.”

Venho de perto. Daqui mesmo. Aqui nasci.
Roubaram-me o rumo. Tudo é cansaço.
Mas naquele raio de sol,
Me apego e me refaço

”Bem feliz quem ali pode nest’hora
Sentir deste painel a majestade!”

Aquele raio é minha única vontade
O quero tanto e tanto
na mesma medida em que morro
tanto e tanto
Por isso o quero.

“Esperai! esperai! deixai que eu beba
Esta selvagem, livre poesia”

Como esperar, nobre poeta?
Donde venho é desse chão
Onde vou? Beijá-lo, claro!

“Por que foges assim, barco ligeiro?
Por que foges do pávido poeta?
Oh! quem me dera acompanhar-te a esteira
Que semelha no mar — doudo cometa!”

Não fujo de ti, ilustre trovador!
Nem sei bem de que fujo, talvez de mim.
Como se eu pudesse enganar minha dor
Como se desejo tivesse fim
Sabes o que meu desejo quer, ilustríssimo?
Desejar mais e mais!

“Sacode as penas, Leviathan do espaço,
Albatroz! Albatroz! dá-me estas asas.”

Bem queria eu ser uma gaivota
Dividiria, sim, as minhas asas e voaria contigo lado a lado.
Que graça tem voar numa só nota?
A mesma graça de um desejo saciado…

“Donde é filho, qual seu lar?”

Deves estar achando que não digo coisa com coisa, acertei?
Afinal quero ou não a liberdade?
Sabe, é que essa cachaça, esse luar…
Abalam a pessoa que é uma loucura…
Mas é que a liberdade, de tanto que se a procura
Quando se acha ela se parece com o mar…
Bela, vasta e de dar medo…

07 de Fevereiro de 2009,

Ana Helena Ribeiro Tavares

Dialogando numa senzala no Recanto das Letras

criado por Ana Helena Tavares    07:23:51 — Arquivado em: Diálogos poéticos — Tags:, , , , , , , , , , , , , , , , , , , , ,

4.12.08

Versos sem nenhum caráter

“Diálogo” poético com Mário de Andrade. Aspas nos trechos dele e os meus em negrito.

- Para minha amiga Márcia Eloy, que mesmo depois de já ter visto jorrarem em sua frente tantas gotas de sal e de, junto a elas, já ter chorado tantas lágrimas de ário, jamais desistiu da militância.

“Eu insulto o burguês! O burguês-níquel
o burguês-burguês!
A digestão bem-feita de São Paulo!
O homem-curva! O homem-nádegas!
O homem que sendo francês, brasileiro, italiano,
é sempre um cauteloso pouco-a-pouco!”

Eu enalteço o extremista! O extremista-nota
o extremista-extremista!
O mal-feito que se nota! Que se deixa notar.
O homem-direto! O homem-mão!
O homem que sendo branco negro e pardo
É sempre sim, sim, sim ou não, não, não.

“Eu insulto as aristocracias cautelosas!
Os barões lampiões! Os condes Joões! Os duques zurros!
Que vivem dentro de muros sem pulos,
e gemem sangue de alguns mil-réis fracos’

Eu obedeço aos humildes que não mandam!
Aos mendigos poetas! Às vozes discretas… Aos sussurros dos burros!
Considerados burros por um mundo partido ao meio,
Por gemerem o sangue alheio.

“Eu insulto o burguês-funesto!
O indigesto feijão com toucinho, dono das tradições!
Fora os que algarismam os amanhãs!
Olha a vida dos nossos setembros!
Fará Sol? Choverá? Arlequinal!
Mas à chuva dos rosais
o êxtase fará sempre Sol!”

Eu exalto o freguês-modesto!
Um gesto baixo, e um pão bem quente com manteiga à beça!
Viva os que algodoam as nuvens!
Olha como são alvas e fofas!
Fará Sol? Choverá? Algodoem-nas!
Mas aos camuflados que se abrigam nos brejos
A cegueira trará sempre dilúvio.

“Morte à gordura!
Morte às adiposidades cerebrais!
Morte ao burguês-mensal!
Ao burguês-cinema! Ao burguês-tiburi!”

Vida à textura!
Vida a tudo que se testa! Tudo que se cava!
Vida ao trabalhador-diário!
Gotas de sal, lágrimas de ário.

04 de Dezembro de 2008,
Ana Helena Ribeiro Tavares

Versos sem nenhum caráter

criado por Ana Helena Tavares    19:42:26 — Arquivado em: Diálogos poéticos — Tags:, , , , ,

21.11.08

Poema limpo

“Diálogo” poético com Ferreira Gullar. A Gullar as aspas que são de Gullar (os trechos de minha autoria aparecem em negrito).

- Este “diálogo” é, claro, uma homenagem a Ferreira Gullar. Os trechos de minha autoria dedico ao meu amigo Antônio Carlos Secchin, que mergulhou recentemente na obra de Gullar e a quem devo alguns bons ensinamentos muito importantes para a minha formação poética.

“Do mesmo modo que te abriste à alegria
abre-te agora ao sofrimento
que é fruto dela
e seu avesso ardente.”

Do mesmo modo que te fechaste ao amor
fecha-te agora ao ódio
que sem o amor não vive
que não é pomba livre.

“Do mesmo modo
que da alegria foste
ao fundo
e te perdeste nela
e te achaste
nessa perda”

Do mesmo modo
que à paixão te entregavas
e só vias chamas
e te encontravas nelas
sem pensar
em dramas

“Deixa que a dor se exerça agora
sem mentiras
nem desculpas”

Deixa que a cor apareça agora
sem embace
sem demora

“e em tua carne vaporize
toda ilusão”

e no suor de sua camisa
faça brisa

“Que a vida só consome
o que a alimenta.”

Que a vida só não some
pra quem a inventa.
E as partes não se traduzem
a qualquer vento.

“Não tem a mesma velocidade o domingo
que a sexta-feira com seu azáfama de compras
fazendo aumentar o tráfego e o consumo
de caldo de cana gelado”

Não tem a mesma força o solitário
que o grupo com seus elos sem preço
fazendo diminuir a sensação de impotência
de vitrines feitas de aparência

“nem tem
a mesma velocidade
a açucena e a maré
com seu exército de borbulhas e ardentes caravelas
a penetrar soturnamente o rio”

nem tem
a mesma força
o soco e o afago
com seu casaco encorpado e caloroso cobertor
a proteger o que não vê

“Melhor se vê uma cidade
quando naquele chão
onde agora crescem carrapichos
eles efetivamente dançaram
(e quase se ouvem vozes
e gargalhadas
que se acendem e apagam nas dobras da brisa)”

Melhor se vê uma pessoa
Quando naquela mente
onde agora crescem ervas daninhas
girassóis já sorriram em coro
(e quase se sente o aroma
e o frescor
que nos belisca a lembrar do passado)

“Mas
se é espantoso pensar
como tanta coisa sumiu, tantos
guarda-roupas e camas e mucamas
tantas e tantas saias, anáguas,
sapatos dos mais variados modelos
arrastados pelo ar junto com as nuvens,
a isso
responde a manhã
que
com suas muitas e azuis velocidades
segue em frente
alegre e sem memória”

Mas
se assusta penetrar
nas profundezas de um cérebro sem eira
que não se reconhece no espelho
pro qual tanto faz o azul e o vermelho
arrastado pelo chão em eterna bananeira
a isso
responde a noite
que
com sua iludida e incolor luneta
refaz o dia
jovial e sem caneta.

21 de Novembro de 2008,
Ana Helena Ribeiro Tavares

Para ver o dia em que declamei para Gullar estes versos, clique aqui.

criado por Ana Helena Tavares    12:06:28 — Arquivado em: Diálogos poéticos — Tags:, , , , , , , , , , , , , , , , , , , , ,

25.7.08

Pasargadeando I

Foto: Ana Helena Tavares

- “Diálogo” poético com Manuel Bandeira - aspas nele! E negrito nos trechos de minha autoria.

- Dedico esse “diálogo” à minha tia Lourdes, que alimenta o beija-flor da foto e é, ao mesmo tempo, um necessário toque de realidade nesse meu mundo de pasargadeios…

Afirmo a todos que ganharam lugar nobre em meu coração:
No início, as aparências (falso espelho que embaça verdades)
Não eram de meu agrado…

Bobagem acreditar que o que fica é a primeira impressão!
Antes de muitos relacionamentos humanos (amores, amizades)
Houve um pré-julgamento equivocado.

“A primeira vez que vi Teresa
Achei que ela tinha pernas estúpidas
Achei também que a cara parecia uma perna

Da terceira vez não vi mais nada
Os céus se misturaram com a terra
E o espírito de Deus voltou a se mover sobre a face das águas.”

Deus é a única perfeição.
E eu, criatura, já quis reunir:
O carisma de minha mãe
A honestidade de meu pai
A paciência de meu irmão
A memória avantajada de um de meus tios
O pragmatismo do outro
A sagacidade de uma de minhas tias
A sensatez da outra
A perseverança de minha avó materna
A vitalidade da outra avó
A alegria contagiante de meu avô materno
E o empreendedorismo do outro avô…
Ufa, hoje quero ser quem eu sou!

“Não quero o êxtase nem os tormentos.

— Quero a delícia de poder sentir as coisas mais simples.”

Garganta inflamada, vômito, diarréia e congestão nasal.
O corpo mais mole que uma maria-mole.
– (Atchim) Doutor, estou (atchim) mal (atchim)!
– Sente-se aqui. Abra a boca. Abra mais.
– Ahhhhhhhhh…
Caleidoscópio em punho, medidor de pressão, exames rápidos.
– É uma virose!
– Mas, doutor, minha cabeça lateja e estou explodindo de febre…
– É uma virose, já lhe disse! Vá à farmácia e compre isso e isso. Ah, e também isso.
……………………………………………………………………………………………………………………………
Conheço gente que foge de médico como gato de água.

“Febre, hemoptise, dispnéia e suores noturnos.
Tosse, tosse, tosse.

Mandou chamar o médico:
— Diga trinta e três.
— Trinta e três . . . trinta e três . . . trinta e três . . .
…………………………………………………………………………………………………

— O senhor tem uma escavação no pulmão esquerdo e o pulmão direito infiltrado.
— Então, doutor, não é possível tentar o pneumotórax?
— Não. A única coisa a fazer é tocar um tango argentino.”

Assim como tango lembra nostalgia
Nostalgia me lembra a pureza da infância

E foi das lembranças dessa fase
Que tive hoje a prova do passar do tempo
Ao observar brincando na calçada
A filha de uma amiga minha de infância
Pensei:
É a cara da mãe!
Corrigi:
É a cara da mãe
Quando a mãe era criança…
Óh, Deus, se a tal mãe tem a minha idade
(conclusão óbvia)
O meu rosto também mudou!
Pausa…
Em frente ao espelho a verdade me saltou aos olhos.

Uma mudança natural, que não me entristece.
Minha infância foi de grande alegria
E recordá-la me fez ganhar o dia.

“Andorinha lá fora está dizendo:
— “Passei o dia à toa, à toa!”

Andorinha, andorinha, minha cantiga é mais triste!
Passei a vida à toa, à toa . . .”

Vida num sítio retirado:
Na auto-estrada carros vêm e vão
Sabe-se lá de onde, pra onde
Na varanda, moradores conversam alto
Cachorros brigam por ciúmes
O beija-flor, indiferente a tudo, vem se refrescar…
Dos lados o verde que tão bem cheira,
Por cima o azul sem fronteira,
Pela frente o mundo, pra quem o queira.

“Jardim da pensãozinha burguesa.

Um gatinho faz pipi.
Com gestos de garçom de restaurant-Palace
Encobre cuidadosamente a mijadinha.
Sai vibrando com elegância a patinha direita:
— É a única criatura fina na pensãozinha burguesa.”

Sociedade cheia de rapapés!
Pra que?
Dentro nada, fora dez?

“Irene preta
Irene boa
Irene sempre de bom humor.

Imagino Irene entrando no céu:
— Licença, meu branco!
E São Pedro bonachão:
— Entra, Irene. Você não precisa pedir licença.”

Branco
Prepotente
Mau-caráter
Querendo sempre levar vantagem
Se mostra a fineza em pessoa…
Sobrinho-neto de sardinheira, só pensa em caviar.

Imagino-o tentando entrar no céu:
– Sai da frente que eu cheguei!
E São Pedro sem meias palavras:
– Soldados!!!!!

“Vi ontem um bicho
Na imundície do pátio
Catando comida entre os detritos.

Quando achava alguma coisa,
Não examinava nem cheirava:
Engolia com voracidade.

O bicho não era um cão,

O bicho, meu Deus, era um homem.”

Crianças esquecidas em carros
Atiradas pela varanda
Arrastadas pelas ruas
Baleadas por quem as tinha que defender
Abandonadas em rios
Jogadas no lixo

Há homens, meu Deus, piores que bicho!

“Que importa a paisagem, a Glória, a baía, a linha do horizonte?
— O que eu vejo é o beco”

Por que tanto noticiam becos, trevas, desgraças, escuridão, a morte?
– O que eu vejo é a vida!

“João Gostoso era carregador de feira livre
Uma noite ele chegou no bar Vinte de Novembro
Bebeu
Cantou
Dançou
Depois se atirou na lagoa Rodrigo de Freitas e morreu afogado.”

Maria tinha cinco filhos
E era esposa de um trabalhador
Uma manhã acordou sem ser chamada
Cozinhou
Lavou
Passou
Depois se ajoelhou na igreja da favela
E chorou o inexplicável…

“Assim eu quereria o meu último poema.
Que tivesse a beleza das flores quase sem perfume
A paixão dos suicidas que se matam sem explicação.”

Pasargadeando II - continuação

- “Diálogo” com Manuel Bandeira - 2ª parte

Quando eu escrever meu último poema
Dificilmente saberei que é o último
Mas, Deus, tenho alguns pedidos a fazer:
Que nele eu diga algo que nunca disse
E de uma forma direta
Como sempre foi difícil pra mim.
Sabes bem, meu Deus, que…
Quando eu escrever meu último poema
Pouco tempo depois terei morrido.
Por isso, peço pra ele o encanto
Que há no olhar de um recém-nascido.

“Estou farto do lirismo comedido
Do lirismo funcionário público com livro de ponto expediente
protocolo e manifestações de apreço ao Sr. diretor.
Estou farto do lirismo que pára e vai averiguar no dicionário
Político
Raquítico
Sifilítico
De todo lirismo que capitula ao que quer que seja
fora de si mesmo
De resto não é lirismo
Será contabilidade tabela de co-senos
Quero antes o lirismo dos loucos
O lirismo difícil e pungente dos bêbedos

— Não quero mais saber do lirismo que não é libertação.”

A mão que escreve
É indecisa
Detalhista
Pensa demais
Titubeia

– A mente queria ser a mão…

“Café com pão
Café com pão
Café com pão

Que vontade
De cantar!
Oô…
(café com pão é muito bom)”

Bigode de leite condensado
Sorriso de lado a lado

Há tantas coisas simples e boas
À espera de quem as valorize
Mas antes é preciso
Valorizar a si mesmo

“Provinciano que nunca soube
Escolher bem uma gravata;
Poeta ruim que na arte da prosa
Envelheceu na infância da arte,
Arquiteto falhado, músico
Falhado (engoliu um dia
Um piano, mas o teclado
Ficou de fora); sem família,
Religião ou filosofia;”

Suburbana que nunca gostou
De cerveja
E deve ser péssima sujeita:
Além de ruim da cabeça
É também doente do pé
Carioca que vai à praia
No inverno
Pra andar pelo calçadão
De preferência pela contramão
Poeta amadora que na arte da prosa
Ainda engatinha
E em mensagens
É chegada a uma ladainha
Pintora que entorta
O sete
Tecladista de uma só mão
Um ser sem coordenação
A família é pequena
E bem complicada
Mas sempre a apoiou
Tem suas vãs filosofias e crê
Em Deus
Mas religião não é algo
Que lhe atraia
Uma alma sonhadora e idealista,
Um olhar observador
Que inquieta o coração
Uma mente em turbilhão.
Alguém que tem saudades
De quando ainda não existia
E sente uma estranha falta
Do que ainda está por vir
Gosta de explicar e adora esclarecer
Algum mistério
Sonhou ser professora, mas não nasceu
Pro magistério
Passou anos e anos
Nadando
Até que teve um burn out
(se afogou e se queimou com água)
Nadava sem definição de raia
Até que chegou ao jornalismo
Andando
(se encontrou)
E, feliz, definiu sua praia.

“Vou-me embora pra Pasárgada
Aqui eu não sou feliz

Em Pasárgada tem tudo
É outra civilização

E quando eu estiver mais triste
Mas triste de não ter jeito
Quando de noite me der
Vontade de me matar
— Lá sou amigo do rei —
Terei a mulher que eu quero
Na cama que escolherei
Vou-me embora pra Pasárgada”

A quem muito busca riqueza
Felicidade não costuma dar atenção

Quando eu aterrissar numa terra distante
Tão longe que nem se imagine
E quando lá eu me sentir
Sozinha e desnorteada
– Farei amizade com um mendigo –
Sem a burocracia dos palácios
Pelas ruas encontrarei o meu amigo
Sem os afazeres de um rei
Ele terá tempo pra estar comigo
E conhecerá melhor a cidade
Pois não viverá preso a seu castelo
Terá a rua como abrigo
E sem o fardo da superexposição
Poderemos nos divertir à vontade
Quanto a ouro… Nem ligo!

“Belo, belo!
Mas basta de lero-lero
Vida noves fora zero.”

Julho de 2008
(escrito à mão, entre os dias 20 e 25, numa Pasárgada),

Ana Helena Ribeiro Tavares

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4.7.08

Dois banquinhos, um bate-papo

Foto: Ana Helena Tavares

- Hoje o bate-papo é sobre amizade… Vinicius e eu, eu e Vinicius… E aspas nele!

- Dedico esse “diálogo” a todos os meus verdadeiros amigos, impossível e desnecessário citar nomes.

“Enquanto passando, enquanto esperando,
de que mais precisa um homem senão
de suas mãos para apertar as mãos do amigo
depois das ausências, e pra bater nas costas do amigo,
e pra discutir com o amigo…?”

Mão amiga,
Afaga-nos com a canção,
Entoada pelo coração,
Nosso ícone.
Liberta-nos do impossível,
Assusta a solidão…
Rei de todos que
Amigos têm!

“Suportaria, embora não sem dor,
se morressem todos os meus amores,
mas enlouqueceria se morressem
todos os meus amigos”.

É naqueles amigos
De raridade impagável,
Tão ávidos por liberdade,
Imbuídos de amizade,
Que algo faz nascer-me a vontade
De sair cantando, ter identidade
E, sem maldade,
Existir. Não parar,
Tentar!
Ombros fiéis poder encontrar…
Para com eles remar,
Regar minha esperança.
E, com carinho no peito,
Semear amizades…

“Fez-se do amigo próximo o distante
Fez-se da vida uma aventura errante
De repente, não mais que de repente.”

No impulso desse riso da vida,
Dessa sincera fonte de paz
O iminente sorriso
Que um amigo nos traz.

“De que mais precisa um homem senão
de um amigo pra ele gostar,
um amigo bem seco, bem simples,
desses que nem precisa falar — basta olhar –
um desses que desmereça um pouco da amizade,
de um amigo pra paz e pra briga?”

Amizade sem superação de diferenças
É como uma roseira que se fere com seu espinho.
É como uma estrada que se perde em seu caminho.
Ou já imaginaram a videira embebedando-se com o vinho?

Ana Helena Ribeiro Tavares

criado por Ana Helena Tavares    18:46:37 — Arquivado em: Diálogos poéticos — Tags:, , , , , , , , ,

27.6.08

No meio do caminho uma conversa

Foto: Ana Helena Tavares

Encontrei Drummond num banquinho à beira mar e…

- Dedico este “diálogo” ao meu amigo Luís Maurício, um belo presente que a vida me colocou no meio do caminho.

(Aspas nos trechos de Drummond)

“Hoje somos mais vivos do que nunca.
Mentira, estarmos sós”.

É sempre bom estar junto…
Mas tantas redomas não se quebram.
E o que é mesmo estar e ser hoje nesse mundo?
Por que mais mãos não se apertam?

“O presente é tão grande, não nos afastemos.
Vamos de mãos dadas.”

Tijolo por tijolo, cada qual desunido…
É assim que o futuro vai ser construído?

“Não, ninguém morreu, ninguém foi infeliz.”

Felicidade, tá aí um sentimento indeciso…
Às vezes traz lágrima, às vezes sorriso…

“Eu não devia te dizer
mas essa lua
mas esse conhaque
botam a gente comovido como o diabo.”

Acho bonito demais o poder de comoção…
Pena que às vezes não traga efeito prático.
De que adianta ter a oportunidade na mão
E, de tão comovido, se manter estático?

“Nunca me esquecerei que no meio do caminho
tinha uma pedra.”

Sorte de quem encontra pedras na estrada
Pedras mesmo, grandes, duras
Aprendizado sem elas? Que nada…
A vida só é plena com aventuras

“Sem cavalo preto
que fuja do galope,
você marcha, José!”

Pano vermelho, fecha-se o tablado
Pertences em um punho, todos em retirada
Mas batem corações num palco iluminado.
E o ator reaparece – êta pessoa inconformada! –

“O fato ainda não acabou de acontecer
e já a mão nervosa do repórter
o transforma em notícia.”

Acho que o jornalista tem que ser um pouco ator
Não para fingir, mas para se inconformar com a dor

“A bomba
não destruirá a vida
O homem
(tenho esperança) liquidará a bomba.”

Será a História um relógio cíclico de ponteiros distraídos?
Será que a humanidade alterna períodos, de variadas durações,
Que de tempos em tempos se fazem parecidos?
Teríamos aí uma lei de ações e reações

“Joaquim suicidou-se e Lili casou com J. Pinto
Fernandes
que não tinha entrado na história.”

– Prefiro negar-te a viver sem motivo!
Talvez quem se suicida diga isso à vida
Mas será que essa pessoa viveu num mundo incompreensivo
Ou será que foi ela que nunca deu a ele outra saída?

“Como acordar sem sofrimento?
Recomeçar sem horror?”

Se houver amor, te juro,
Há também o apesar de tudo.

Ana Helena Ribeiro Tavares
27/06/08

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11.6.08

Dialogar vale a pena

Foto: Ana Helena Tavares

Como seria se meus humildes versos pudessem conversar com a poesia do gênio dos heterônimos? Imaginei como poderia ser esse diálogo inusitado, intercalando versos meus com os de Fernando Pessoa de modo que realmente parecessem conversar (os dele aparecem entre aspas). Segue abaixo o resultado em três postagens diferentes, divididas por temas.

- Cerca de meio ano após tê-lo escrito, dedico este “diálogo” à minha amiga Gaby Mendes, por sua coragem de ir dialogar com o “poeta fingidor” em solo lusitano.

criado por Ana Helena Tavares    21:56:23 — Arquivado em: Diálogos poéticos — Tags:

Vida

-”Diálogo” com Fernando Pessoa - 1ª parte

Vida. O soar de um coração
Doce magia e também sofrimento
A verdade feita de ilusão
Numa alegria banhada a lamento

“Ninguém sabe que coisa quer.
Ninguém conhece que alma tem,
Nem o que é mal nem o que é bem.
(Que ânsia distante perto chora?)
Tudo é incerto e derradeiro.
Tudo é disperso nada é inteiro.”

Tal como o acordar de um vulcão
Ou a forte rajada do vento
As voltas da vida, meu irmão
Vêm à sorte, não dizem momento

“Chove. Que fiz eu da vida?
Fiz o que ela fez de mim
De pensada, mal vivida…
Triste de quem é assim!”

“Quem eu pudera ter sido
Que é dele? Entre ódios pequenos
De mim, estou de mim partido
Se ao menos chovesse menos!”

Mas todo o sempre haverá de ser
Grande exemplo de jornada
Aquele que lutando morrer
Sem deixar vazia a estrada

“Valeu a pena? Tudo vale a pena
Se a alma não é pequena.
Quem quer passar além do bojador
Tem que passar além da dor
Deus ao mar o perigo e o abismo deu
Mas nele é que espelhou o céu.”

E nessa vida, sem ter um segundo,
Vagamos à procura de um prumo
Envolto no mistério profundo
Daquilo que só tem um resumo:
Nós somos feito um nada no mundo
Pobre barco sem leme e sem rumo!

“E a única vida que temos
É essa que é dividida
Entre a verdadeira e a errada”

“Qual porém é a verdadeira?
E qual errada, ninguém
Nos saberá explicar;
E vivemos de maneira
Que a vida que a gente tem
É a que tem que pensar”

Pois a arte de saber viver
Que nos leva a ser feliz
É viver para o saber
Como eterno aprendiz!

“Mas triste de quem é feliz!
Vive porque a vida dura.
Nada na alma lhe diz
Mais que a lição da raiz –
Ter por vida a sepultura.”

“Eras sobre eras se somem
No tempo que em era vem.
Ser descontente é ser homem.”

Se para uns a luta é prazer
Em nossa vida tão desejada
Quem só deseja mesmo viver
Ganha forças surgidas do nada

criado por Ana Helena Tavares    21:45:33 — Arquivado em: Diálogos poéticos — Tags:,

Lua

-”Diálogo” com Fernando Pessoa - 2ª parte

“A lua (dizem os ingleses),
É feita de queijo verde.
Por mais que pense mil vezes
Sempre uma idéia se perde.”

Afinal, numa noite luminosa
Essa lua ensolarada
É a coisa mais formosa
É dama consagrada

“E era essa, era, era essa,
Que haveria de salvar
Minha alma da dor da pressa
De… não sei se é desejar.”

Sei que dos mágicos poderes
Dessa lua de marfim
Indecifráveis prazeres
Brotam em mim

“Sim, todos os meus desejos
São de estar sentir pensando…
A lua (dizem os ingleses)
É azul de quando em quando.”

criado por Ana Helena Tavares    21:44:31 — Arquivado em: Diálogos poéticos — Tags:,

Saudade

-”Diálogo” com Fernando Pessoa - 3ª parte

O que dizer da saudade?
Sentimento que chega de mansinho
E de repente dá uma forte vontade
Vontade de voltar ao ninho

Sem nos pedir licença
Chega para nos fazer
Sentir falta da presença
De alguém que nos faz viver

“E isto lembra uma tristeza
E lembrança é que entristece
Dou à saudade riqueza
Da emoção que a hora tece”

“Mas, em verdade, o que chora
Na minha amarga ansiedade
Mais alto que a nuvem mora
Está para além da saudade”

É sensação de peito apertado
Que não fere o corpo mas sim a alma
E só tornando-se a ver o ente amado
É que então o coração se acalma

“Tenho saudade, entre o tédio,
Só do que nunca quis ter
Eu amo tudo o que foi,
Tudo o que já não é,
A dor que já me não dói,
A antiga e errônea fé,
O ontem que dor deixou,
O que deixou alegria
Só porque foi, e voou
E hoje é já outro dia”

Por isso a saudade tão difícil de ser entendida
Parece nos fazer entender:
Não se pode dar valor a algo na vida
Só quando sua falta nos faz sofrer.

11 de Junho de 2008,

Ana Helena Ribeiro Tavares

criado por Ana Helena Tavares    21:43:47 — Arquivado em: Diálogos poéticos — Tags:,

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