Traços de Estilo

“A poesia confunde-se com a prosa da mesma maneira que o poeta confunde-se com o homem da rua e já não pode nem deseja reivindicar para si a condição de eleito dos deuses.” (o poeta Gullar) “É preciso levar em conta as palavras que você escolhe, cuidar de cada sentença. É preciso ser sensível ao sentimento das pessoas.” (o jornalista Talese)

14.5.09

Sábado de Aleluia

-> Para o meu amigo Anderson de Souza, que adora me dizer: “Tá vendo aquele assunto ali? Mete a caneta, menina!!! Cria polêmica!!!”

Um povoado pobre da Baviera alemã, uma família sem ambições. Era Sábado de Aleluia, quando nasceu o menino. Na Páscoa foi batizado.

A mãe era uma bela cozinheira de vastos olhos claros, o pai um comissário de polícia do Reich. E aquele abençoado menino tinha também um priminho, que sofria de síndrome de down e foi morto aos quartoze anos pelo regime nazista.

Aqueles pais muito lutaram para, em tempos de fome, prover estudo ao menino e à sua irmã mais velha, Maria. Aquele pai muito lutou para, em tempos de guerra, ensinar aos filhos que o nazismo só trazia sangue.

Ainda assim, o menino, já jovem, ao invés de lutar contra aquele regime assassino que havia matado seu primo, alistou-se num movimento hitleriano. Foi compulsório?

Talvez esteja aí a mostra de todo o senso de justiça que o permitiu se tornar padre. A importância de pronunciar constantemente a palavra perdão também deve vir de lá.

Uma praça nobre no coração de Roma, muitas famílias, muita esperança. É Sábado de Aleluia. Na Páscoa, o menino estará na sacada.

13 de Maio de 2009,

Ana Helena Tavares

Obs. importante: Este é um conto de não-ficção. Todos os personagens são reais e todas as informações sobre a história de vida deles constam em registros biográficos.

Sábado de Aleluia no Recanto das Letras

criado por Ana Helena Tavares    09:23:27 — Arquivado em: Contando Histórias, Contos — Tags:, , , , , , , , ,

6.3.09

O feijão com arroz das minhas retinas

Acabo meu feijão com arroz. Amarro as sandálias. Elevador. Cumprimentos na portaria.

Pé na calçada. O vendedor de croissants balança sua buzina sentado numa sombra. “Tocá-la para quem?” Já parece não saber.

No asfalto em lume, o cadeirante se arrisca em meio aos carros para vender balas. De mascar. Masca uma delas olhando vidros feitos para conter balas. De matar. “Como eles vão acreditar em mim, moça?”. É de lascar.

Mais à frente um triciclo corre vazio. Mas por ali circulou mercadoria, é essa a função dele. De outro lado, há vários estacionados com papelão. Parece que a cooperativa está funcionando a toda.

Na feira, chegam carrinhos com malas enormes. Não se fala sobre de onde vieram. O que importa é para onde vão.

Mas na mesma rua vê-se uma mãe indiferente àquele vai-e-vem de carrinhos. Lá vai ela com todo cuidado ajeitar a toquinha de natação da menina. Estava dobrada demais, ora.

E alguém também precisa varrer a rua. Sob sol escaldante? Não importa.

No alto, a dança é de toldos balançando, mas o jovem ao celular não parece saber do show. Mais sorridente está a senhora com sua bengala, ameaçando imitar Chaplin.

Numa esquina anuncia-se todo tipo de conserto, na outra a sociedade segue desconsertada.

Vende-se de tudo a céu aberto – de tapetes a esponjas. Talvez para limpá-los. Se bem que no Brasil geralmente se prefere jogar a sujeira para debaixo deles.

Homens e mulheres viram cartazes. Será que ainda sabem quem são? E com que velocidade distribuem papéis! Será que algum dia os leram?

Calma! Ali na farmácia tem um cafezinho. Ops… Na farmácia? Sim, cafezinho e até croissant.

Coitado do rapazinho da buzina… O mundo está de um jeito que qualquer dia drogaria vai vender feijão com arroz.

06 de Março de 2009,

Ana Helena Tavares.

O feijão com arroz das minhas retinas no Recanto das Letras

criado por Ana Helena Tavares    19:19:13 — Arquivado em: Contando Histórias, Contos — Tags:,

3.10.08

Cochicho e cochilo

- Para o “assaltante de mão trêmula”.

No vagão mais sossegado do trem, senta-se alguém insuspeito ao lado do menino franzino. As poucas pessoas ao redor parecem perceber algo diferente naquele banco ao fundo, mas estão por demais ocupadas por suas próprias preocupações e temem que suas suspeitas se confirmem. O maquinista segue indiferente a tudo.

“Poderia ser comigo, é melhor fingir que não vi, vai que ele está armado?”, pensam alguns. Sim, ele estava armado, mas o menino franzino saiu de lá com a impressão de que a arma tinha mais coragem que o dono.

“Minha mãe morreu ontem”, dizia o assaltante de mão trêmula. “Que maneira de chorar as mágoas”, pensava o menino, enquanto se via obrigado a entregar bens materiais (que, para o menino, guardavam mesmo eram sentimentos). Dinheiro? Curioso… O que o menino tinha o assaltante achou pouco e não quis. Será que, depois da morte da mãe, (se é que um dia ele teve uma) aquele insuspeito assaltante não precisava comprar pão?

Não, ele não parecia ter fome de pão. Na verdade, ele não sabia de que tinha fome. Estava de tal maneira atordoado que, ao que tudo indicava, seu alimento era outro. Bem mais caro que qualquer pãozinho e com propriedades bem mais alucinógenas que qualquer produto de padaria. Caro pelo preço e exageradamente caro porque não o alimentava: o fornecia apenas uma ilusão momentânea e o matava aos poucos. Mas ele era dele dependente.

Chegou naquele assalto mais morto do que sua mãe – onde quer que ela esteja – e, ainda que levasse uma arma consigo, não parecia querer ferir ninguém, o que parecia mesmo era querer conseguir um pouco mais do vil metal pra sair dali e continuar se matando.

Ao mesmo tempo em que o mundo não fazia mais sentido pra ele, ele também havia se tornado quase invisível aos olhos da sociedade.

Antes de deixar a “companhia” do menino franzino (que se manteve sentado paralisado por uma espécie de “estado de choque”) o assaltante ainda se deu ao luxo de arrancar um aparelho eletrônico da mão de outro passageiro, que inesperadamente começou a chorar. Cochicho – e cochilo – geral no vagão. Inércia.

Próxima estação, o maquinista abre as portas. Sob olhares atentos, lá se vai um homem em desespero procurar o lugar mais próximo para se matar com conta-gotas.

Ana Helena Ribeiro Tavares,
03 de Outubro de 2008

Cochicho e cochilo no Recanto das Letras

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7.5.05

Pinceladas da Paixão

- Para todos os corações apaixonados dessa cidade maravilhosa.

Eram 5h da madrugada, as luzes da Vieira Souto já iam se apagando, a cidade começava a acordar. Indiferente ao dia que se anunciava majestoso, no escuro de um quarto de hotel – sem luxo, sem estrelas – ecoava uma voz trêmula, entrecortada a um choro seco. A voz era de Rafael, um apaixonado pelo Rio e pela arte, que julgava ter perdido o dom para a pintura e com ele até o ânimo para pedalar pelo calçadão da famosa garota, como fazia todas as manhãs.

O cenário era desolador, quadros quebrados empilhavam-se no chão de madeira. Rafael, cada vez mais atordoado por seus pensamentos, não conseguia dar mais do que duas pinceladas sem lembrar de sua doce Catarina, que havia podido apreciar pela última vez há cerca de dois meses, mais linda do que nunca, tomando banho de sol no pedaço de praia em frente à janela de seu quarto. Desde aquele dia ela desapareça, deixando em pedaços um jovem coração.

Toca o telefone, Rafael se enche de esperanças. Do outro lado da linha o silêncio é ensurdecedor. Rafael estava surdo para o mundo. Queria voltar a pintar as belezas ao seu redor, a beijar o mar que tanto amava, mas faltava-lhe sua musa.

Os dias se passavam e o pintor não conseguia sair de seu quarto, tinha entrado em depressão profunda. Lembrava-se dos passeios pelo Jardim Botânico, quando aliava suas três grandes paixões: sob o olhar atento de Catarina, adorava pintar o Cristo nas diversas horas do dia – sentia-se um Monet tropical. Para ele, não era apenas uma estátua, era como um pássaro de marfim que liberava sua imaginação. Nada mais disso fazia sentido.

Quando já estava entregue ao álcool, que antes não suportava, o que parecia impossível aconteceu. A porta do quarto se abriu e o rosto de Rafael se iluminou. Seria uma visão? Mas tudo parecia tão nítido e, sim, era ela, o mesmo olhar penetrante, o mesmo sorriso faceiro. Quando ele tentou se aproximar, a decepção: a bela afastou-se, não permitindo ser tocada. Não conseguindo mais se conter, o jovem jogou-se em direção à sua musa, encontrando apenas o abraço de seu tapete. Tudo não passara de um delírio, efeito da bebida.

Passou semanas tendo a mesma visão. Rafael não agüentava mais, estava à beira da loucura. Foi quando tomou uma decisão que lhe parecia a mais sensata – tinha que sair do Rio. Como poderia apreciar e pintar a exuberância do Pão de Açúcar, a elegância da Lagoa e todas as maravilhas dessa cidade pela qual tinha encanto, se tudo isso só lhe trazia mais lembranças de Catarina?! Resolveu que enfim aceitaria o convite que seus primos sempre lhe faziam e iria para o sul do país, passar o resto da vida no campo. Talvez, deixando pra trás todos os lugares em que tinha sido feliz com sua amada, mesmo que isso significasse estar longe da terra que adorava, voltasse a ter interesse pelas cores do dia e conseguisse pintar novamente.

Não levaria muitos pertences, nem sequer a foto que havia tirado com Catarina no entardecer do Arpoador, paraíso dos apaixonados. Se estava determinado a esquecê-la, não poderia levar fotos suas. Na mala, pôs apenas algumas roupas, poucos objetos pessoais e seus inseparáveis materiais de pintura. Com muito custo e um aperto no peito, pisou na calçada de seu prédio e olhou profundamente o horizonte, parecia querer despedir-se. Chegou ao Galeão por volta das 15h e sentou-se, cabisbaixo, numa das poltronas do salão de embarque. Soou a primeira campainha de chamada do vôo e Rafael já ia levantando-se, quando uma mão acarinhou seu ombro. Ele não queria olhar para trás, estava certo de que se decepcionaria, afinal só um grande milagre poderia devolver-lhe Catarina. Foi desse dia em diante que ele passou a acreditar em milagres. Dessa vez, era mesmo ela. Catarina precipitou-se à sua frente, segurando-o com firmeza. O rapaz não podia acreditar no que seus olhos viam, no que seu corpo sentia. Estava mais lúcido do que nunca, não era uma ilusão. Com um misto de riso e choro, abraçou-a com todas as forças e teve certeza de que ela estava ali.

A jovem lhe contou que no dia do último encontro dos dois havia recebido uma ligação, dizendo que sua mãe, que morava em Brasília, estava perto da morte. Precisava ir imediatamente ao seu encontro. Só teve tempo de pegar o carro, passar em casa, pôr uma roupa e pegar o primeiro avião. Desde então, havia tentado ligar para ele, mas não tivera coragem de falar nada, com medo de ele nunca perdoá-la por ter partido sem avisá-lo. Arrependida, queria recomeçar.

Rafael estava feliz demais para se perguntar se tudo aquilo era verdade ou não. Só pensava que ela havia voltado para junto dele e, mesmo que o houvesse traído, seu amor era suficiente para perdoá-la. Cancelou na mesma hora a viagem. Naquele momento, a única coisa que o interessava era ter de novo sua amada em seus braços.

Batiam 18h de uma tarde de verão, as luzes da Vieira Souto já iam se acendendo, o céu começava a vestir-se de negro. Indiferente à noite que se anunciava majestosa, no escuro de um quarto de hotel, ecoava a canção do amor. A voz era de Rafael, um apaixonado pelo Rio e pela arte, que havia retomado a alegria de pintar e com ela o gosto pela vida. Na manhã seguinte, era possível vê-lo pedalando pelo calçadão da famosa garota, como há muito tempo não se via. Naquele dia, até o Cristo amanheceu sorrindo.

Ana Helena Ribeiro Tavares
07/05/05

criado por Ana Helena Tavares    12:26:44 — Arquivado em: Contando estórias, Contos — Tags:, ,

31.7.03

Uma estória portuguesa com certeza!

- Para o meu primo Quim, bem mais que um primo um amigo! Homem que quase morreu na guerra de Angola e um dia, do alto de sua enorme sensibilidade, observando as estrelas junto a mim em Portugal, ousou querer me dar a mais brilhante.

Certa altura, numa pequena vila do interior de Portugal, chega uma alfacinha, que foi visitar seus parentes.
– Olá, Carlos! Tudo bem? – perguntou a rapariga para seu primo, que estava à sua espera na paragem.
– Estou um pouco empalamado, mas não é nada de grave, só uma constipação – respondeu Carlos – e tu, Maria do Céu, como estás?
– Só estou um pouco cansada da viagem.
– Pois, já se sabe que é uma viagem cansativa, mas cá estamos.
– E como está o nosso avô?
– Há de ver como ele está fino. Ora bem, a carrinha está à nossa espera. Anda cá, vamos para casa.
– Vamos, então.
Ao chegarem no apartado de Carlos, o telemóvel dele tocou, era sua filha, Fernanda, que estava a trabalhar.
– Está lá?
– Estou.
– A Maria do Céu já chegou? – perguntou Fernanda.
– Já. O autocarro não atrasou. – respondeu Carlos.
– Atrasou? E chega a que horas?
– Ela já chegou. Eu disse que o autocarro não atrasou. Estás a ficar mouca ou quê?
– Pronto, está bem, não vamos ficar ao barulho por causa disso. Não estava a perceber o que havias dito. Diga a ela que devo tardar um pouco, pois o travão do meu carro avariou e terei de pegar um autocarro ou um comboio.
– Ai, como um caraças! Pena que eu não conduzo se não iria te buscar, mas vou dizer para o teu homem ir. – disse o pai preocupado.
– Até que faria jeito, mas é escusado.
– Está bem, então adeus.
– Adeus.
Carlos desligou o telemóvel e continuou a conversar com a prima que havia chegado. Ele disse que tinha ficado todo prosa ao saber que ela havia vencido o concurso de música portuguesa. Ela comentou que os tripeiros tinham ficado mordidos, pois há muito eles não perdiam esse concurso. Os dois ficaram até as tantas a rir e a contar anedotas.
No dia seguinte, quando ela acordou, o pequeno-almoço já estava na mesa:
– Já pusestes a mesa!? Tu não tens mesmo parança, escusava de se incomodar. – disse Maria do Céu admirada, pois ainda era muito cedo.
– Incômodo nenhum – respondeu Carlos. – faço isso com muito gosto e, como sabes, estou acostumado a acordar cedo. Olha, fiz este galão para si. Tu gostas?
– Gosto.
– Então vou botar na sua chávena-almoçadeira com um pouco de açúcar pilê, pois só tem um chisquito do outro. Tem aí um malga com manteiga. O cacete estorricou um pouco, mas é só dar uma raspadela.
– Para mim está ótimo.
Sentaram-se os dois a mesa.
– O galão está muito quente. – disse Maria do Céu.
– Pois… foi feito ao lume. – brincou Carlos.
– Tu és mesmo um patusqueiro.
– Espere um pouco que ele esfria. Enquanto isso prova esse melão que está bem sumarento.
Ela provou um pouco.
– Está a saber bem? – perguntou Carlos.
– É, sabe muito bem. – respondeu ela, satisfeita.
Eles terminaram o pequeno-almoço e Maria do Céu disse que mais tarde iria passear pela vila.
– Podes ir. Eu não vou consigo, pois vou ao banco pegar o dinheiro da reforma. Vou empatar muito tempo naquela bicha medonha. – disse Carlos, aferroado por ter de enfrentar a bicha.
– A bicha está sempre grande? – perguntou Maria do Céu.
– Ui! Teje calada!
– Não tem mal. Eu vou sozinha.
– Ora bem, já vou. – disse Carlos, abrindo a porta. – Ao sair, cuidado para não tropeçar no capacho.
– Está bem. Então adeus.
– Adeus.
Mais tarde, a rapariga foi passear. Estava a caminhar pelo passeio quando encontrou uma malta com muitos conhecidos.
– Estou a pensar em fazer umas compras. O que achas Antônio? – perguntou Maria do Céu, dirigindo-se a um deles.
– Está um estorreiro do caraças, mas vamos aproveitar que está tudo em saldos. – disse Antônio para a rapariga.
E foram os dois fazer compras.
– Penso em oferecer uma prenda ao meu pai, mas não sei o que hei de comprar. – disse a rapariga para Antônio.
– Podias comprar um fato. Eu conheço uma loja de pronto-a-vestir que vende uns fatos bem jeitosos, o que me dizes?
– Seria giro. Essa loja fica em que sítio?
– Fica um pouquito distante. É melhor irmos na minha lambreta.
– Está bem.
Pegaram, então, a lambreta e toca a andar. Chegando à loja procuraram alguém que os pudesse atender.
– Bom dia! Nós queríamos comprar um fato. – disse Antônio para a vendedora.
– O que acham deste? – perguntou a vendedora.
– Parece jeitoso, mas a gola está muito arrebitada e tem que ser um número mais pequeno. – disse Maria do Céu.
– E este outro?
– Este está bom – respondeu Maria do Céu, tirando o dinheiro da algibeira. – Obrigadinho.
– Obrigadinho.
Os dois saíram da loja e resolveram ir almoçar num restaurante e churrasqueira, que havia ali perto.
– Eu vou querer um prego, mas só se vier bem passado. – disse a rapariga para o garçom.
– De certo que sim. E o senhor o que deseja? – perguntou o garçom para Antônio.
– Eu quero um bacalhau a Zé do pipo. – respondeu o gajo.
Eles acabaram de almoçar e foram ao café tomar gelado. Na esplanada do café dois rapazes estavam ao barulho. Quando Antônio viu que quem estava na bulha eram Joaquim e Manuel, dois amigos seus, resolveu intervir.
– Que disparate é esse? Parem com isso! Um dia tão airoso e vocês ao barulho?! – disse ele enfezado.
– É esse estupor que fica a dizer asneiras! – disse Joaquim, referindo-se a Manuel.
– Eu, a dizer asneiras? Eu me fiei em você e me decepcionei. Eu já devia saber que havia muita imposturice no mundo. Tu és muito sostro. – retrucou Manuel.
– Mas tu és mesmo telhudo, ó pá! Tens uma balda, ou quê?
– Parem já com isso! – gritou novamente Antônio. – Estou para a minha vida! Vocês sempre foram amigos.
– Tens razão. – disse Joaquim.
– Pois então. Eu estava a pensar em levar a Maria do Céu para conhecer a minha quinta, o que acham de ir conosco? – convidou Antônio. – É da maneira que nós espairecemos um pouco.
Eles concordaram e lá se foram os quatro. O trânsito estava lento, por causa de dois pesados que estavam batidos na estrada. Tinham alguns sinistrados, mas nada de grave, só ferimentos ligeiros. Eles chegaram na quinta à tardinha. Estavam lá os filhos do Antônio. Ele ralhou com eles porque não haviam avisado que para onde iriam.
– Não ralhe com eles. – disse Maria do Céu.
– Eu me vejo tramado com eles – disse Antônio. – São muito marotos, deveriam estar em casa.
– Deixa os miúdos ficarem aqui. – disse Maria do Céu.
– Está bem. – concordou Antônio.
– O que achas de nós comermos logo o farnel que eu trouxe? – perguntou Joaquim para Antônio. – Tem sandes e sumo.
– Boa idéia. Então fazemos todos uma súcia. – disse Antônio.
E passaram lá horas consoladas. Foi uma borga!

Ana Helena Ribeiro Tavares
31/07/03

criado por Ana Helena Tavares    12:24:08 — Arquivado em: Contando estórias, Contos — Tags:, , ,

28.4.03

O pescador e o cobrador de impostos

José virou pescador quando seu irmão gêmeo, João, desapareceu num naufrágio. José decidiu que nunca mais se afastaria do mar para ficar perto do irmão. Um dia, alguém muito parecido com ele procurou José. “Só pode ser ele!”. Tão emocionado José ficou, que o homem não entendeu nada: “Nunca vi receberem tão bem um cobrador de impostos!”. Conversaram e tudo se esclareceu. Na época do desastre, João acordou desmemoriado num hospital. Conseguiu refazer sua vida, sem nunca ir atrás de seu passado. Como os dois irmãos agora só tinham um ao outro, resolveram aliar seus ofícios num sugestivo negócio: “Pesque-pague”.

Ana Helena Ribeiro Tavares
28/04/03

criado por Ana Helena Tavares    12:07:34 — Arquivado em: Contando estórias, Contos — Tags:,

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