Traços de Estilo

“A poesia confunde-se com a prosa da mesma maneira que o poeta confunde-se com o homem da rua e já não pode nem deseja reivindicar para si a condição de eleito dos deuses.” (o poeta Gullar) “É preciso levar em conta as palavras que você escolhe, cuidar de cada sentença. É preciso ser sensível ao sentimento das pessoas.” (o jornalista Talese)

27.7.08

Recado de primavera

Publico hoje aqui um texto em formato de carta. Um texto ingênuo e profundamente despretensioso, afinal vai fazer 10 anos e foi escrito quando eu tinha apenas 13 anos. No entanto,  foi com este texto que ganhei meu primeiro concurso literário (ainda nos bancos escolares do meu querido CPII) e pode-se dizer que esta foi minha primeira crônica, tendo sido assim o marco inicial de toda uma história… E só por isso já deveria ter merecido espaço aqui há mais tempo… Trata-se de uma paródia a um texto homônimo de Zuenir Ventura (que naquela época ainda escrevia pro Jornal do Brasil). Algum tempo depois de escrevê-lo, cheguei a entrar de fato em contato com Zuenir, que respondeu parabenizando-me e terminou dizendo: “Espero que você continue fazendo seus exercícios de estilo”. Um dia ainda terei oportunidade de dizer pessoalmente a ele que, não só continuei, como é àquelas palavras que se deve o nome deste blog. Segue então o texto…

Vou continuar vigiando as ruas, os pássaros e os rapazes em flor

Meu caro Zuenir Ventura,

Escrevo-lhe aqui do Andaraí para lhe dar uma notícia grave: a primavera chegou. Ao ler “Recado de primavera”, que você escreveu ao cronista Rubem Braga, resolvi mandar-lhe uma carta parecida.

Sempre que posso leio suas crônicas no Jornal do Brasil, pois as acho muito criativas. Infelizmente, ainda não tive o prazer de conhecê-lo pessoalmente, mas espero que isso brevemente aconteça.

Pouca coisa mudou, cronista, nesses dois anos. As “violências primaveris” de que Rubem Braga falava na carta a Vinícius de Moraes, continuam sendo “violências mesmo”, só que, às vezes, são até piores.

Esse ano a primavera está um tanto estranha. Para se ter uma idéia, ao invés de tempo quente e estável, ultimamente tem estado frio e ocorrido muitas chuvas inesperadas. Dizem que é culpa de um tal fenômeno chamado “La Niña”.

O tempo vai passando, cronista. Chega a primavera nesse Rio de Janeiro, que apesar de tudo, continua a “Cidade Maravilhosa”, narrada em prosa e verso por tantos poetas, músicos e escritores como você.

Eu ainda vou ficando por aqui a vigiar, em nome de todos aqueles que já se foram, as ruas, os pássaros e os rapazes em flor. E estudando, como todo jovem, para um dia ser alguém. Até breve!

Ana Helena Ribeiro Tavares
Setembro de 1998.

criado por Ana Helena Tavares    18:15:27 — Arquivado em: Crônicas, Paródias poéticas — Tags:, ,

10.7.08

Não Faça listas

Foto: Ana Helena Tavares

Não faça listas, faça amigos

Que você terá muitos anos mais…
Mesmo que não os veja todo dia
Se precisar, eles estarão no cais

Não faça listas, sonhe bem alto!
Quem sabe os anjos poderão acordar…
Quem sabe um deles não te reconhece
E faz sua estrela mais forte brilhar…

Onde você está pensando que vai?
Sem um ombro ao lado quando seu peito chora…
Se a vida não está como achou que seria
Não espere o amanhã pra mudar o agora.

Tenha segredos, mas não guarde todos
Compartilhar faz bem ao viver
Como é possível seguir em frente
Sem alguém por perto pra nos entender?

Defeitos todo ser humano tem
Nossos amigos têm que aprender a lidar
Mas mentiras são como facadas
Que fazem uma amizade aos poucos sangrar

A maior mentira é pra si mesmo
Quantos cantam pra mágoas esquecer?
Digo: continue cantando, mas lute por assobios
De uma platéia que ame você…

- Livremente inspirado na letra da música “A lista”, de Oswaldo Montenegro.

Ana Helena Ribeiro Tavares,

8/07/08

Para ver um clipe com a música “A Lista”, de Oswaldo Montenegro, interpretada pelo próprio, clique aqui

criado por Ana Helena Tavares    18:07:38 — Arquivado em: Paródias poéticas, Todos os poemas — Tags:, , , , , , , , , , , , , , , ,

9.6.08

Poema em linha curva

Foto: Ana Helena Tavares

Jamais encontrei quem fosse perfeito
Quem há neste mundo que não tenha um defeito?!

E aquele que tantas vezes se acha demais.
Tantas vezes tão garboso… de nada…
Preocupando-se com detalhes banais.
E enquanto isso perdendo a estrada.

Numa estrada sinuosa e esburacada.
Cada curva com seus interesses
Tantas vezes tão mal sinalizada!
Não há tempo pra contar os meses.

Pra que meses em busca da perfeição?
Defeitos nos diferenciam, e seriam mesmo defeitos?
São eles que tornam humana nossa condição
Desfazê-los? É criar um mundo desfeito.

“Sou perfeito!” Já tiveram a cara de pau de garantir.
Mas também quem há nesse mundo que não saiba mentir?

- Livremente inspirado no “Poema em linha reta”, de Fernando Pessoa (Álvaro de Campos).

7 de Junho de 2008
Ana Helena Ribeiro Tavares

Para ouvir o “Poema em linha reta”, de Fernando Pessoa, maravilhosamente declamado pelo grande Paulo Autran, clique aqui

criado por Ana Helena Tavares    11:41:18 — Arquivado em: Paródias poéticas — Tags:, , , , , ,

Por que escrevo?

Foto: Ana Helena Tavares

O escritor é um observador.
Observa tão atentamente
Que na escrita tem que expor
Tudo o que percebe à frente.

E ainda sabe ele que ao escrever
De fugir da timidez é capaz…
Se cara a cara não consegue deixar ver
Tudo o que seu coração traz…

E, enfim, nos textos que cria
(Com gosto doce, salgado ou azedo)
Está a sua mais profunda fantasia,

Toda sua emoção, todo seu medo.
Brincar com as letras é, com magia,
Levar seu mundo à ponta do dedo.

- Livremente inspirado no poema “Autopsicografia“, de Fernando Pessoa.

Ana Helena Ribeiro Tavares

criado por Ana Helena Tavares    11:40:15 — Arquivado em: Paródias poéticas, Sonetos, Todos os poemas — Tags:, ,

Minha cara família

Foto: Ana Helena Tavares

- Para minha avó Maria Helena (in memorian), que sempre colocou a família acima de tudo.

Minha cara família

Desculpe-me por gentileza

Se não mais podem me ver

Mas arrumei um mensageiro com presteza

Para que isto possam ler.

Aqui no céu o carteado continua

Mas ninguém uma aposta insinua

Todos os dias são ensolarados

Não sei mais o que são dias nublados

Mas o que preciso lhes contar…

É o que vejo aqui de cima

O clima aí anda meio estranho

Sei que vão andando

Por coragem e insistência

Mas não esqueçam de ir pensando

Por que também sem consciência

A confusão é sem tamanho.

Minha cara família

Eu não pretendo motivar

Nem aumentar recordações

Quero apenas poder esquentar

Um pouco os vossos corações

Aqui no céu a birita é proibida

Mas nem por isso uma revolta se incita

Adoramos passear nas nuvens

Não sabemos mais o que é ciúmes

Mas o que preciso lhes contar…

É o que vejo aí na Terra

A guerra parece ser em vão

Mas continuem guerreando

Pela paz e pela fé

E no amor acreditando

Porque também sem cafuné

É sem tamanho a confusão

Minha cara família

Eu até tentei telefonar

Mas o preço disso anda imenso

Vejo-me aflito pra poder lhes alertar

O quanto o mundo anda tenso

Aqui no céu, despreocupados pra valer

Nem sabemos mais o que é chover

Tudo o que queremos temos de graça

Não é preciso fazer uso de trapaça

Mas o que preciso lhes contar…

É o que minha visão alcança

Na Casa Branca só se pensa em canhão

O mundo tá de um jeito que sei não…

Mas façam sua parte

Porque também sem alguma arte

É sem tamanho a confusão

Minha cara família

Mandar carta eu preferia

Mas é rabugento o carteiro

Restou-me neste dia

Enviar um pombo mensageiro

Aqui no céu já não temos nenhum vício

Nada do que se vê em um comício

Temos política, mas não é o nosso forte

Desconfio que isso seja nossa sorte

Mas o que preciso lhes contar…

É das saudades que aqui vão

Muitos mandam beijos para os seus

Eu mando o meu amor

E para todos os meus queridos: adeus…

- Livremente inspirado na letra da música “Meu Caro Amigo”, de Chico Buarque e Francis Hime.

09 de abril de 2008,

Ana Helena Ribeiro Tavares

“Minha cara família” no blog do Patolino

Conheça a 2ª versão para este poema no blog República Vermelha

Para assistir a um raríssimo clipe com a música “Meu Caro Amigo”, interpretada por Chico Buarque (ainda novinho) com Francis Hime ao piano, clique aqui

criado por Ana Helena Tavares    11:36:42 — Arquivado em: Paródias poéticas, Todos os poemas — Tags:, , , , , , , , ,

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