Traços de Estilo

“A poesia confunde-se com a prosa da mesma maneira que o poeta confunde-se com o homem da rua e já não pode nem deseja reivindicar para si a condição de eleito dos deuses.” (o poeta Gullar) “É preciso levar em conta as palavras que você escolhe, cuidar de cada sentença. É preciso ser sensível ao sentimento das pessoas.” (o jornalista Talese)

5.5.09

O doce maior da vida

- Para minha mãe, Maria do Céu, o meu maior doce, e para todas as verdadeiras mães do mundo.

Dentro do instinto biológico ideal, toda mulher deveria nascer mãe. Afinal, todas deveriam nascer para reproduzir. Só que algumas conseguem, outras não. E, além disso, quem disse que reproduzir é ser mãe?

Sinceramente, não acredito que o famoso “instinto maternal” seja comum a todas as mulheres. Não creio que toda mulher nasça com o instinto social (se é que cabe este termo) de ser mãe. Se assim fosse, como seriam possíveis todos os casos de mães que renegam, maltratam e até matam seus filhos? Como chamar aqueles seres de mães? Como é possível dizer que aquelas pessoas nasceram mães? A sociedade pode ter corrompido algumas, mas há aquelas que parecem já ter nascido com raiva de bonecas…

Dizem que o ato de brincar de boneca é o maior ensaio para as futuras mães. Mas há meninas que só gostam de brincar de carrinho e nem por isso significa que vão torna-se péssimas mães. Para muitas mulheres o seu maior sonho é vir a ser mãe. Outras, porém, preferem ter como ambição uma carreira de sucesso ou um amante insaciável - sem jamais pensar em ter filhos. Nem todas as mulheres, fazem uma festa a uma criança ou brincam com elas. Como todos nós sabemos, não é difícil encontrar muitas que repudiam crianças, quase como se as mesmas fossem um estorvo a evitar a todo o custo.

A sociedade mudou, é claro, mas isso não quer dizer que antes todas nasciam mães e agora não. Desde sempre houve desvios. O fato é que o termo mãe é grande demais para que se possa afirmar que toda mulher já nasce com ele. Não, não nasce. Mãe é uma das menores palavras da língua portuguesa e é a que talvez tenha um dos significados mais complexos. Não há mãe sem sonhos construídos em conjunto.

Sendo assim, não posso dizer que toda mulher já nasce podendo ser considerada mãe. Pois, quando olho pro mundo à minha volta, não posso crer que todo ser humano, homem ou mulher, já nasça amando. Na verdade, não nasce amando nem odiando. Sentimentos são edificados tal como castelos. E só o real amor pelos filhos torna uma mulher mãe.

Sendo biológica ou adotiva, quando a mãe é mãe, atribui todo o amor que tem dentro de si àquela criatura condicionada ao seu encanto – e a relação com seus filhos depende tanto do toque carinhoso na cria como da capacidade de uma “troca de olhares” a léguas de distância.

Não, eu não posso dizer que sou mãe. Sequer que sei o que significa ser. Posso no máximo fazer recortes da realidade que observo. Uma mãe, creio eu, está desde o simples gesto do pedaço de doce levado no quarto do filho até a crença inabalável que seus filhos são seu maior doce.

Tantas e tantas definições já foram dadas para as mães. Nenhuma delas alcança o que se passa no coração das verdadeiras mães ao perder um filho. Mário Lago, autor daquela conhecida música que tenta definir o que é uma “mulher de verdade”, disse certa vez num desconhecido poema: “É um fruto de sua vida / Um fruto que Deus lhe deu / Quem perde mãe já perdeu / o doce maior da vida”. Não resta dúvida que nossas mães são um doce inigualável. Mas arrisco-me a dizer que a dor da perda de uma mãe em nada supera a dor da perda de um filho. É uma questão de ordem natural das coisas. Como o próprio Mário Lago disse: o filho “é um fruto de sua vida”. É exatamente isso. E, nesse sentido, eu acrescentaria que as verdadeiras mães projetam em seus filhos um sentimento de imortalidade. O que gera uma sensação de perda de continuidade terrível a cada filho que morre.

Mãe é isso. É se doar de forma incondicional, vibrando mais com as vitórias dos filhos do que com as próprias, não se importando em até matar por eles, ou em deixar de respirar se for para o filho continuar perdendo o fôlego.

E isso não se vê em qualquer esquina.

05 de Maio de 2009,
Ana Helena Tavares

O doce maior da vida no Recanto das Letras

O doce maior da vida no blog do Patolino

criado por Ana Helena Tavares    22:31:38 — Arquivado em: Algum lugar entre a prosa e a poesia, Ampla homenagem, Crônicas — Tags:, , ,

6.1.09

Sonhos não terminam de manhã! (ou Minas ainda há! 1ª e 2ª partes*)

Foto: Ana Helena Tavares

Uma rede, um pedaço de Minas...

Uma rede, um pedaço de Minas...

- Para o meu amigo Gilson Caroni Filho, capixaba com alma mineira, alma de menino… Um menino incansável na luta por justiça, que tanto sonhou construir mudanças no mundo que hoje muda o mundo construindo sonhos.

Vou para Minas, mas cadê Minas?
Disseram que se desfez, disseram que agora é mar.
Mas, ué, lá não tem praia, lá tem boi, lá tem vaca, lá tem o verde que dá café.
Posso sentir o cheiro. E sentir é saber.
Que algo existe, sim, existe! Sinto e…
por isso, ainda há!

De onde vem o leite que tomo de manhã?
Não me enganem!
“Ah, foi feito em laboratório…” Nada disso!
E aquela vaquinha branca que vi sestrosa pelo mato?
Minhas retinas não me iludem e se for ilusão, que mal há?
Tenho certeza, Minas ainda há!

De onde vem aquele pozinho pretinho com um cheiro irrepetível?
“Shiii, hoje em dia isso se fabrica, moça!”
Pela janela do carro observo, de um lado e de outro, cafezais em flor,
lá no meio deles, do coração de uma casinha simples pareço ouvir:
“Cheirinho de café quente, já colheu o resto?” Por lá não passou Mr. Ford,
por lá Minas ainda há.

Vou para Minas, sei que ela está lá! Sei porque sinto.
Ando nas ruas de minha querida metrópole, olho para uma rosa, sinto seu aroma e sei. Tiro o calçado na minha varanda, piso numa nesga de terra e sei.
Até ao acariciar meus cachorros olho profundamente seus olhares indecifráveis
e entendo que Minas sempre haverá.
Basta se querer que ela exista.

Queijo com goiabada,
cheiro de terra molhada,
palmas na calçada: “Ô, de casa!”
Cheguei em Minas. Uma rede, um quintal: “Ah, que bela amendoeira!”
Será dali que saem aquelas amêndoas parrudas de Natal?
Sabia que Minas ainda havia.

Como passar um Natal sem Minas?
Um Natal sem o interior,
qualquer interior.
Noel vem de uma cidade sonho?
Vem da minha Minas.
Todo real foi sonho antes.

Carrinho de rolimã desce,
sobe ladeira.
Era o brinquedo preferido do menino magrinho, irmão de mais dezesseis,
na sua longínqua Minas.
Hoje, bem-sucedido empresário, no Rio de Janeiro que adotou, ele garante:
“Minas não sai de lá.”

É por isso que eu vou para lá.
Na minha viagem, talvez não ouça nenhum “uai”.
Quem sabe não encontro algum capixaba, ou paulista talvez…
Que interior rico tem São Paulo, que interior rico tem o Brasil.
E pelo mundo afora já imaginaram quantos recantos não são, por assim dizer, mineiros? “Para que pressa, meu senhor, a gente já chega, é logo ali…”

E o senhorzinho, então,
vai indo,
vai indo,
até que avista Minas.
Ela estava
dentro dele.

Porque dentro dele
canta um galo.
Acordou junto
à primeira fornada.
Um pão quentinho
e Minas cabia naquele cantinho.

Lá fora, as folhas choram
o orvalho da noite que ninou as ladeiras.
Telhas com lodo acusam:
por ali passou água,
por ali passou vida;
Minas passou por ali.

E para onde foi Minas?
Terá ido para o bater de asas do beija-flor
ou para o deslizar da gaivota?
Não importa. Minas paira.
É o que os galos anunciam
todas as manhãs.

Você não os ouve de seu arranha-céu?
Experimente passar um dia arranhando
a terra…
Fazendo desenhos nela, casinhas de barro…
Ah! Como fiz casinhas de barro!
Sim, Minas mora nelas.

E pode morar também na sua,
basta ouvir o cantar do galo.
De repente, no ouvido um estalo.
É estalinho, é São João.
A brasa da fogueira escreve no vento:
“É Minas! É trem ‘bão’!”

Olha o trem…
ziguezagueando as montanhas,
parece brincar
com os cafezais.
Café com galo cantando?
É gosto de quero mais.

“Toma os trocados
pro seu doce,
vai lá na barraca,
meu filho,
deixa eu fazer o bolo de milho.”
Ah! Quero mais…

Minas deixa esse gosto nos lábios dos que já a beijaram.
E sinto… E há.
Como quando um domingo à tarde me faz sentir passar a banda…
Ela não passou? Mas senti.
Como quando um pingo de arte me faz sentir rodar em ciranda…
Não rodei? Mas senti.

Minas é sensação.
Como amar sem sentir?
E que gosto tem o real
sem o amor
que se confunde
com aquele chamego de interior?

Que gosto tem a fruta comida do pé?
Tem gosto de Minas!
Para que lavá-la e tirar seu pólen?
Minas é aquela pétala que compõe a flor,
porque secá-la é lhe negar sabor.
Sim, mangas têm pólen, margaridas têm sabor.

Como um grão de areia
que na nossa mão é maior que o mar,
Minas transforma,
se transforma,
nos transforma.
Por isso vive.

Vive na folha que cai da árvore
e voa que voa.
Sabe-se lá onde vai parar.
Vive na formiguinha que sobe a parede
à toa, à toa…
Que nada, está a trabalhar.

Está presente nas abelhas que dão mel
e nas ovelhas que dão lã.
De onde vem isso tudo, meu Deus?!
Para compor uma mesa de ceia, risadas harmônicas
e tortas rodeadas de saladas de frutas.
Quantas Minas, quanto campo, quantas lutas!

A pedra que dava ouro hoje dá louro
a quem nela crê.
Em Minas, tem dessas pedras que rolam na grama,
se sujam de lama,
sem se importar com quem vê.
Nem com quem ouve…

Mas o galo quer platéia… E a platéia precisa dele.
Ouça você com mais cuidado.
Sim, ele canta em sua metrópole.
Até na Avenida Central ele canta.
Verdadeiro mestre em disfarces,
sabe de inglês a javanês.

“Um dia traduzi num exame escrito:
‘Liberta que serás também’.
E repito”
Foi assim que Vinícius de Moraes confessou ter um dia
errado a tradução do lema da bandeira mineira.
Repito com ele!

Como saber se Minas há
se você nunca buscar libertar-se para que ela liberte-o?
Não tem tempo?
Ah, foi bom lembrar…
Cocoricó!!!!!
Para ser livre, Minas gosta de libertar os relógios.

E o que Minas
mais gosta mesmo
é de ser Minas.
Uma autenticidade
que nunca ninguém
vai lhe tirar.

Seja você
mineiro ou capixaba,
brasileiro ou estrangeiro,
é fácil entender.
Minas é sinônimo
de sonhar.

Já foi num campinho daqueles de várzea
e observou alguns pés descalços
atrás de um sonho?
Já interpretou o rosto de quem ganhou sua primeira pipa
e foi pro alto de uma ladeira para soltá-la
sonhando alcançar as nuvens?

A Minas
de que falo
é tudo isso.
Todos os sonhos
que enquanto houver
o pulsar de corações
não morrerão.

Ela está nos hábitos mais gostosos
que a humanidade já produziu.
Desde o sonho
de abraçar o mundo
ao desejo
de abraçar e beijar aquele menino/menina com quem tanto se sonha.

Sim, Minas está também nos namoros
e nos choros
que eles produzem…
Já se banhou num lago em dia de chuva fina e chorou de amor na cabeceira de um rio? Ou quem sabe… Já correu no temporal e chorou de amor à beira mar?
Suas lágrimas foram para Minas.

Chove e, em cada gota,
Minas é mais Minas.
Da janela se vê folhas escorrerem sua alegria.
Oh! Que lindo girassol no florista
de minha metrópole ensolarada…
Foi regado com amor.

Minas está no sol e na chuva, no sol e na lua –
está no encontro dos dois.
Está em tudo que é vida e vida
– para quem a vive intensamente –
cheira a sonho, como o pão de queijo quentinho da vovó,
como almofadas macias que embalam meu sono.

Sonhei que uma borboleta piscava para mim de noite.
Estou certa de ter visto uma beliscar os primeiros raios de sol.
Borboleta, borboleta… Borboleta que vai e volta…
Será a mesma? Eu sabia!
Minas está nela
e sonhos não terminam de manhã.

Dezembro de 2008

(escrito à mão, entre os dias 08 e 15, num lugar cheirando a Minas)
Ana Helena Ribeiro Tavares

*Um texto que nasceu por partes…

Minas ainda há 1ª parte no Recanto das Letras

Minas ainda há 2ª parte (ou As manhãs são dos galos e das borboletas) no Recanto das Letras

Minas ainda há 1ª parte no blog do radialista mineiro Carlos Ferreira

Minas ainda há 1ª parte no blog do Patolino

E as partes se juntaram…

Sonhos não terminam de manhã no Portal Literal

Sonhos não terminam de manhã no Guia de Concursos Literários

Sonhos não terminam de manhã no blog É-poésis

Obs: Claro está que este texto é minha singela homenagem ao maravilhoso estado de Minas Gerais e é importante ainda frisar que o título original de “Minas ainda há” trata-se de uma homenagem a Drummond, nosso magistral poeta mineiro, que dizia que “Minas já não há…”

11.10.08

Gênios nem sempre são tudo isso

Dedicatória: Em um de seus poemas mais auto-biográficos, Drummond declara que, quando nasceu, um anjo torto lhe disse:

“Vai, Carlos, ser gauche na vida”.

Este texto é uma homenagem a todos os verdadeiros mestres e, por ser livremente inspirado num conjunto de aulas de sociologia, é totalmente dedicado ao maestro que as conduziu: Gilson Caroni Filho, que, quando nasceu, ouviu daquele mesmo anjo:

“Vai, Gilson, ser mestre na vida”.

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Onde está a genialidade de um mestre? Títulos acadêmicos? Não! “Sou doutor, PhD, Honoris Causa”, falou o professor na primeira aula. “O que disse mesmo o professor?”, perguntam-se os alunos ao final do curso.

Mestres não precisam de apresentações. Se é que possuem títulos, ótimo, mas que os deixem nas molduras de suas paredes. O maior cartão de visita de um professor é sua aula e é ela que o tornará ou não mestre para seus alunos. Só ela: a aula. Sabe para que servem os certificados nessa hora? Soam como um recado para os alunos: “Atenção, eu sou o professor e sou maior que vocês”. Tudo bem que há uma inegável hierarquia, mas o “sou maior que vocês” não faz parte dela e não combina com mestres. Uma coisa é admirar um trabalho que se acompanha de perto e outra, bem diferente, é ser coagido a reverenciar certificados. Ah, sim, e para se acompanhar algo de perto, para que o aprendizado seja realmente de trocas, para que a relação de professor/aluno passe a ser mestre/discípulo, há que se haver a quebra de barreiras, há que se evitar com todas as forças os estrelismos. Não dá pra imaginar Sócrates dizendo pra seus discípulos “Sou doutor em ciências humanas, PhD em conhecimento do mundo e Honoris Causa em filosofia”. Meu Deus, ora vejamos, Sócrates era aquele que “só sabia que nada sabia” e, tantos anos depois, sua linha de pensamento ainda desfila pelo mundo, sendo a filosofia separada em antes e depois dele. Conclui-se que a genialidade não precisa ser alardeada. E mestres não precisam ser gênios.

Ah, a humildade… Só ela é capaz de fazer qualquer relação verdadeira. E ela também cabe aos alunos. Imaginem Aristóteles dizendo pra Platão: “Já sei tudo, não preciso mais de seus ensinamentos”. Imaginaram? Acho bom que não. Consta que Aristóteles bateu muito de frente com seu mestre, muito mesmo, fundando novas teorias, mas não tendo nunca renegado a importância de quem o precedeu. Até que ponto Platão foi legal com seus discípulos? Até o ponto em que lhes deu liberdade. Um ponto infinito. E por que foi tão legal isso? Porque lhes deu liberdade sem os perder de vista. E mestres são legais.

Sejamos sinceros… Quando a frase começa assim é bom sinal. É sinal de uma cumplicidade sem a qual não deveria se sustentar nenhuma sala de aula – ou pátio de aula, rua de aula, trem de aula (aula que é aula, convenhamos, pode ocorrer em qualquer lugar). Por esse raciocínio, fica até engraçado pensar nas provas tradicionais e suas notas burocráticas. Está lá o professor com seu grupo de alunos andando pela rua, ouvindo o cantar dos pássaros, cada um com uma prancheta na mão escrevendo sua análise sobre aqueles cânticos. Daqui a pouco vai o professor: fulano tirou 8,0 porque ignorou os bem-te-vis e sicrano tirou 9,9 porque não se lembrou dos rouxinóis. A primeira coisa que averiguamos é que essa situação é quase impossível. Ainda bem. A segunda coisa que se percebe é que esse professor devia ter uma clara preferência pelos bem-te-vis… Uma pequena metáfora para exemplificar o tendencionismo que, de certa forma, no âmbito do discurso é inevitável até para os verdadeiros mestres, mas que, em muitos casos, se faz cruelmente visível na aplicação de provas e distribuição de notas. Por isso mestres não precisam delas.

O que os mestres precisam ter é um bom papo… Isso mesmo, um bom papo. A coisa mais maravilhosa é quando a aula se torna um bate-papo. Você entra em sala com vontade de ouvir seu professor, de conversar com ele? Ainda que naquele dia só ele tenha falado, você sai de sala com a sensação de que aquele papo te abriu a mente? Sim? Então seu professor é um mestre. E, nesse contexto, pra que o academicismo de se adotar um livro base pro curso? Pra que quadros brancos, negros ou esverdeados? O mestre é a aula.

E quando esse mestre consegue fazer rir ensinando? Aí a maestria é completa. Periga os nomes na pauta serem trocados por apelidos. A chamada se faz desnecessária. Seja a aula de manhã, de tarde ou à noite, difícil não ter disposição pra uma aula em ritmo de mestre, em que se ri e se aprende. E não se vai lá pra dizer “presente!”. A aula é o presente.

Um presente que vem provar aos alunos que no outono há sempre uma primavera escondida. Isso porque a convivência com um verdadeiro mestre, essa troca de experiências, é um aprendizado de tal maneira proveitoso que abre um leque de possibilidades na mente daquele que se torna discípulo – aquele aluno que não necessariamente seguirá o mestre em sua área de atuação, mas valoriza-o profundamente. Um leque formado pelas possibilidades que já existiam dentro de cada discípulo e que o mestre só fez trazer à tona, mostrando a eles as primaveras que existem por trás do outono que, muitas vezes, eles próprios pintam em suas vidas. Mestres fazem isso.

Mestres são isso. Gênios nem sempre são tudo isso.

11 de Outubro de 2008,
Ana Helena Ribeiro Tavares

Gênios nem sempre são tudo isso no Recanto das Letras

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1.8.08

Quando o privilégio é privilegiar

Fotos: Arquivo pessoal / Álbum de família
Na foto de cima, meu irmão, Daniel, com pose e uniforme de He-man, aos 6 anos e eu aos 2, entre nós, nosso pai, Manuel. Na foto de baixo, quando eu tinha 6 meses, as mãos de meu pai me levantam no ar.

Na foto de cima, meu irmão, Daniel, com pose e uniforme de He-man, aos 6 anos e eu aos 2, entre nós, nosso pai, Manuel. Na foto de baixo, quando eu tinha 6 meses, as mãos de meu pai me levantam no ar.

- Dedico esta crônica ao meu pai Manuel, esperando que todos os verdadeiros pais do mundo sintam-se homenageados.

Um herói sem fantasia, que jamais foge à luta, batalhando de forma incansável com todas as armas de que consegue dispor. Um herói que, se pudesse, requereria o privilégio de morrer antes dos filhos só para não ter que vê-los perder o privilégio da vida. E, se preciso fosse, não titubearia em morrer por eles, mas sonha mesmo é em poder viver para, com bandeirinha em punho, vê-los alcançar vitórias mais privilegiadas que as dele.

Todo pai a quem se possa chamar pai é herói. Os termos são quase sinônimos e isso não tem nada a ver com biologia. Assim como para ser mãe não basta colocar no mundo, um pai também não é simplesmente aquele que tem seu nome em nosso DNA. Certas vezes, esse é sim pai, mas há casos em que, infelizmente, não merece em nada o título. No entanto, ao nascer, todos mereceriam ter um pai. E há quem opte por criar os filhos renegados, são os pais adotivos. Mas adotar, paradoxalmente, também nem sempre significa dar amor. E um pai ama.

Há o caso do padrinho, que, escolhido para ser um segundo-pai, às vezes some do mapa, mas também acontece de se tornar o primeiro. E há ainda aqueles que com o tempo percebemos que podemos chamar de pai, mesmo que não seja padrinho, não haja certidão de adoção e nem compartilhem de nosso sangue, mas que compartilham conosco suas mais incríveis aventuras e tudo que a vida os deu de melhor. E um pai compartilha sua luz.

Vai daí que há muitos tipos de pais. Todos, por definição, igualmente heróis.

Aqueles que, além de pais biológicos, são também verdadeiros pais, ainda que sejam os mais completos, não são tão facilmente identificáveis. Numa praça que reúna os diversos tipos de pai interagindo com seus filhos, não pense que é assim tão fácil identificar quem tem laços sangüíneos com quem. As semelhanças físicas podem até ajudar, mas não se leve pelo jeito de ser – isso pode confundir bastante. Acredite, a convivência é capaz de tornar duas pessoas extremamente parecidas, há quem diga que até fisicamente. E um pai convive. Pode não ser uma presença diária, pode nem sequer ser mensal, mas, de longe ou de perto, um pai acompanha.

É fácil perceber dentre os vários pais a vontade de oferecer ao filho o privilégio de ir mais longe do que eles foram. Isso porque, dentro do espírito paternal, o maior privilégio é privilegiar. Ao pai biológico, porém, único capaz de ver crescer levando o seu nome um fruto de seu sangue (e quiçá de seu amor), reserva-se uma sensação de continuidade ímpar. Qualquer pai pode em muitos momentos olhar pro filho com esperança de que ele dê continuidade à determinada causa ou até, como tantas vezes acontece, sonhando com que ele siga a carreira que é tradição na família… Mas, se for mesmo um pai, certamente não fará disso uma imposição incondicional… Caso o filho não queira continuar nada, queira ir longe da sua maneira, criando tudo novo, esse pai, elogiando ou criticando, estará de alguma forma demonstrando apoio. Porque um pai sempre escolhe apoiar.

Escolha difícil e inusitada têm alguns pais adotivos. Um berçário repleto, um jardim cheio de crianças: – “E, agora, quem vou chamar de filho?”. Mas a vida, com sua sabedoria maternal, trata de indicar quem o vai chamar de pai.

Mais do que fazer escolhas, ser pai é renunciar às próprias escolhas. É escolher privilegiar e sentir-se privilegiado com isso. Não se trata de ser escravo, nem é isso que um bom filho quer do pai. Mas qualquer relacionamento sincero passa por saber ceder, passa por querer ceder, se isso for o melhor para o ente querido. E pais não poderiam agir diferente disso com seus filhos. Todo pai precisa se manter firme em algumas posições que lhe são caras, até por uma questão de coerência, mas também percebe a hora certa de ceder e ao fazê-lo por seguir seus sentimentos não fracassa, ao contrário, dá uma das mais altas e sublimes demonstrações de carinho, ao abrir mão de si mesmo para cuidar dos filhos. Sim, um pai cuida, e como cuida, e para fazê-lo bem, muitas vezes, é preciso deixar de lado antigas idéias e, em algumas situações, esquecer-se das próprias vontades. Na certeza de que, em certa altura da vida, os bons filhos se tornam pais de seus pais e acabam por fazer o mesmo.

Tá aí colocado um novo tipo: os filhos que se tornam pais de seus pais. Isso sem falar no avô-pai, tio-pai, irmão-pai, etc., aqueles outros familiares que às vezes também se tornam nossos pais. E há ainda o amigo-pai, a que fiz referência no início da crônica. Aquele que, sem nos ser ligado nem pelo sangue nem pela lei, nos olha com brilho paternal, sonhando com nossos vôos e voando com a gente.

Voar é sonho antigo do ser humano. Mas se você é um pai de verdade (de qualquer um dos tipos, ou até mais do que um, ou todos) suas asas, ainda que não apareçam, estão aí prontas para aconchegar e defender os filhos em qualquer perigo. Quer mais super-poderes do que isso? É melhor parar de esconder a fantasia, o mundo já sabe que você é um herói.

Ana Helena Ribeiro Tavares
01/08/2008

criado por Ana Helena Tavares    18:25:56 — Arquivado em: Ampla homenagem, Crônicas — Tags:, , , , , , , , , , , , , ,

9.6.08

A magia de ser mãe

Foto: Ana Helena Tavares

- Dedico este poema à minha mãe Maria do Céu, esperando que todas as mães do mundo sintam-se homenageadas.

O que é ser mãe?
Talvez só quem é possa responder.
Mas, sem dúvida, ser mãe
É, acima de tudo, viver!

Viver para amar os filhos,
Tentando sempre compreendê-los.
Viver para cuidar dos filhos,
Querendo sempre protegê-los.

A maternidade é uma verdadeira viagem
Por vales tortuosos, cheios de magia –
Para desbravá-los é preciso ter coragem
De enfrentar novos desafios a cada dia.

Essa dádiva divina é uma árdua missão.
Mas quem a recebe não tem o que temer:
O amor que as mães têm no coração
Já é suficiente para lhes dar um grande poder.

E por mais que alguém diga o contrário,
Ser mãe é um sonho reluzente como o ouro.
Não há nada mais extraordinário
Do que dar à luz um singelo tesouro.

Com seu néctar amamentá-lo,
Segurando-o firme contra o peito.
E docemente acarinhá-lo
Até que fique calmo e satisfeito.

Depois vê-lo crescer
Feliz, na sua frente,
E cada vez mais viver
Para vê-lo se tornar “gente”.

E mesmo depois de ele crescer,
E a estrada da vida seguir,
Continuar tendo o prazer
De poder vê-lo sorrir.

Essa vitória é o apogeu,
Uma sensação indescritível!
Esplendor maior que o seu
É, sem dúvida, impossível.

As mães podem ser charmosas,
Sérias ou extrovertidas,
Duronas ou carinhosas,
Espontâneas ou contidas.

No fundo, isso pouco importa.
Certamente todas têm o seu valor.
O que de fato importa
É que todas têm muito amor.

Ana Helena Ribeiro Tavares

criado por Ana Helena Tavares    11:38:02 — Arquivado em: Ampla homenagem, Todos os poemas — Tags:,

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