Traços de Estilo - por Ana Helena Tavares

“A poesia confunde-se com a prosa da mesma maneira que o poeta confunde-se com o homem da rua e já não pode nem deseja reivindicar para si a condição de eleito dos deuses.” (o poeta Gullar) “É preciso levar em conta as palavras que você escolhe, cuidar de cada sentença. É preciso ser sensível ao sentimento das pessoas.” (o jornalista Talese)

8.10.09

Por que o menino é o pai do homem?

Gravando o depoimento de Zuenir Ventura.

Gravando o depoimento de Zuenir Ventura.

Esta reportagem é um presente para o meu eterno mestre, meu amigo e incentivador, Gilson Caroni Filho. Ele dá aula para jovens e diz que tem “a idade dos alunos”, mas eu ainda acho que ele é mais novo. Por isso, parabéns por mais uma primavera, mas parabéns, principalmente, por ser um menino.

Por Ana Helena Tavares

William Wordsworth, um poeta romântico e naturalista inglês, certa vez escreveu um pequeno poema, chamado “My heart leaps up when I behold”, em que deixou registrado que “o menino é o pai do homem”. Wordsworth fazia, com isso, uma afirmação e tanto: Todo o homem traz em si um pouco do menino(a) que foi. O poema era pequeno em tamanho, porém grande, imenso, em significado. Tanto é que daquelas palavras fizeram uso inúmeros escritores que viriam bem depois dele.

Foi o caso, por exemplo, de Machado de Assis, que viria a apoiá-lo de forma veemente intitulando de “O menino é o pai do homem” um capítulo inteiro de seu “Memórias Póstumas de Brás Cubas”. Inversamente ao tamanho do poema de Wordsworth, este é um dos capítulos mais extensos do livro “Memórias Póstumas”, um livro marcado por capítulos curtíssimos. Não só pela diferença de tamanho com os outros, mas, principalmente, pelo conteúdo visceral de memórias específicas da infância, é engraçado, inclusive, notar como aquele capítulo parece solto no livro, verdadeiramente livre e desimpedido dentro do romance, ao contrário da maioria dos demais, que parecem uma costura. Talvez por conta desta aparente independência, há inúmeros sites que, equivocadamente, reproduzem aquele texto como “uma crônica machadiana”, sem procurarem saber ou sem se interessarem em citar que é capítulo integrante de “Memórias Póstumas” (mais precisamente o 11º). Já vi até gente dizendo, em comentário num site: “não encontrei este texto na coletânea de crônicas do Machado”. Nem vai encontrar.

Machado parece ter querido aproveitar que escrevia suas memórias póstumas, codinome Brás Cubas, para jogar ali toda a sua argumentação do porquê de o menino(a) que fomos ser o nosso “pai/mãe”, ou seja, do porquê de todos nós sermos fruto da criança que fomos e, enfim, do porquê de o homem ser fruto do meio.

Este assunto vem me chamando atenção já há algum tempo, então quero deixar aqui minha humilde contribuição. Estive recentemente no Centro Cultural Banco do Brasil para um evento sobre Jornalismo Literário e aproveitei para fazer uma pequena reportagem sobre “a influência da infância na fase adulta”, gravando cinco depoimentos em exclusivo sobre o assunto. Todas essas cinco pessoas, dentre elas o jornalista e escritor Zuenir Ventura, têm mais de 50 anos e a pergunta que fiz foi: Você considera que traz um menino(a) dentro de si? Por quê? Seguem abaixo as respostas:

Georgina, professora primária:

“Graças a Deus eu trago. Porque trazendo essa menina dentro de mim eu tenho esperança, eu tenho alegria. Se eu não trouxesse essa menina dentro de mim, eu já estaria morta. Até por tudo o que a gente vive hoje em dia, de violência, desrespeito, eu tenho que trazer essa menina dentro de mim pra poder acreditar que ainda existe esperança e alegria. Ainda mais trabalhando com criança pequena, eu tenho sempre que ter essa menina presente”

Curtis, engenheiro:

“Eu acho que você tem que considerar dois fatores. Primeiro se a pessoa teve uma infância muito boa, se ela foi muito feliz. Eu acho que isso no futuro, quando a pessoa for adulta, sempre vai remeter a uma fase boa. E também isso tem uma função muito boa na formação do caráter e de como a pessoa vai ser no futuro.”

Júlio Amaral, historiador:

“Eu acho que todo ser humano, quando adulto, é conseqüência das vivências dele, inclusive, de momentos da infância também. Então, nós somos hoje o resultado disso tudo, essa mistura que se reflete em muitas atitudes nossas. Não, logicamente, de forma infantilizada, mas muitos pensamentos daquele período nós usaremos em atitudes. De uma forma mais adulta, mas sem dúvida vai ser utilizado sim.”

Marlúcia, atriz:

“Eu acredito sim que todos temos uma parte do que fomos na infância, ou seja, a menina que eu fui eu ainda trago um pedaço dela em mim, percebendo a questão da humildade, da pureza, da simplicidade que essa criança tinha. Também as dificuldades, os defeitos, as virtudes, enquanto criança. Então, eu me vejo assim, principalmente em termos de sentimento. Em relação ao meu sentimento, às minhas atitudes comigo mesma. Em relação à sociedade não, mas em relação a mim mesma eu sinto que existe sim, porque todo mundo mantém um pouco do que é criança. Até mesmo porque a infância faz parte da formação da nossa personalidade de adulto. É impossível você deixar, contribui muito, como, infelizmente, também os traumas e as coisas desagradáveis. Por tudo isso, eu acho que todo mundo traz sim. E, inclusive, quando a gente conversa com crianças, a gente aprende muito com elas. São pequenas professorinhas.”

Zuenir Ventura, jornalista e escritor:

“Eu não só tenho um menino dentro de mim, como não quero perdê-lo. Às vezes ele aflora tanto, ele tá tão presente, que as pessoas dizem: ‘Pô, você parece criança!”. E eu recebo isso como um elogio. Porque eu acho que essa é uma das permanências que a gente tem que cultivar. Não há nada mais saudável para alguém do que essa presença desse estágio da vida. Porque a criança é tudo o que simboliza de inocência, de olhar pra realidade com os olhos lavados, novos. Então, não só concordo, como faço disso, de uma certa maneira, um objetivo de vida.”

Depois de tantas opiniões tão gabaritadas, me deu até vontade de pesquisar mais a fundo o assunto, quem sabe. Por agora, a quem quiser entender melhor este imbróglio, aconselho fortemente que comecem buscando o poema inglês e, depois, busquem o tal capítulo machadiano.

De minha parte, o que posso dizer é que minha mãe sempre se disse uma eterna criança e ela tem de fato uma admirável alma de menina. Além dela, ao longo de meus quase 25 anos, a vida já me presenteou com alguns adultos/meninos. E nisso é que a vida me foi generosa. É por causa deles que gosto tanto da menina que vive em mim e quero mantê-la viva sempre. Acima de tudo, é por causa deles que continuo acreditando no mundo.

08 de Outubro de 2009,

Ana Helena Tavares

criado por Ana Helena Tavares    14:19:36 — Arquivado em: Jornalista é contador de Histórias!, Reportagens — Tags:, ,

1 Comentário »

  1. Comentário por Marcelo Nogueira, advogado e agente da propriedade industrial — 12.10.09 @ 21:15:50

    Nossa postura quando criança reflete o adulto nos detalhes, suas expressões de afeição e como lidar com o inesperado; lembra-se de quão era instigante o “novo”?! Bem, partimos adiante para cada dia e revendo minha fotos ainda tenho aquele gostinho de felicidade, de rir à toa, de buscar sempre aproveitar o momento ao máximo, sem muitas coisas, igual ao livre menino que fui, sou e serei que vive por amar viver e querer mais.

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