Traços de Estilo

“A poesia confunde-se com a prosa da mesma maneira que o poeta confunde-se com o homem da rua e já não pode nem deseja reivindicar para si a condição de eleito dos deuses.” (o poeta Gullar) “É preciso levar em conta as palavras que você escolhe, cuidar de cada sentença. É preciso ser sensível ao sentimento das pessoas.” (o jornalista Talese)

30.9.09

Sobre jornalistas e designações

O Jornalista Carlos Alberto Sardenberg, da rádio CBN, teve, no último dia 28 de Setembro, a brilhante idéia de entrevistar Marco Aurélio Garcia, assessor da presidência para assuntos internacionais, a respeito da situação em Honduras. Sardenberg disse o que foi adestrado a dizer, teve que ouvir o que não quis.

Teve que ouvir, por exemplo, que agora o mundo resolveu colocar a culpa de tudo no Hugo Chávez, teve que ouvir que a imprensa está transformando o mocinho em vilão, ao condenar Zelaya, teve que ouvir que ele próprio, Sardenberg, não tem credibilidade para falar de Honduras e por aí¬ vai. Um papelão daqueles para um Jornalista tarimbado. Simplesmente tragicômico.

Encurralado, Sardenberg titubeou em vários momentos e, quando Marco Aurélio Garcia reclamou dos jornalistas que estão usando o termo “interino” para Micheletti, aí Sardenberg conseguiu o feito de produzir uma das falas mais hipócritas que eu já ouvi de um Jornalista. Disse que “não é uma questão de nome, de designação, a questão é que eles estão lá, estão governando”. Ora, ora, será que tantos anos de Jornalismo não ensinaram a Sardenberg o poder manipulador da palavra? Como pode chegar a cara-de-pau de dizer que nomes e designações não são importantes?

Se for assim, da próxima vez que me assaltarem, vou ligar pra CBN e dizer: podem noticiar que meu dinheiro está com um proprietário interino. Se a pessoa me perguntar o porquê, nem titubeio, digo logo: pergunte ao Sardenberg, provavelmente ele vai dizer que a expressão é válida, afinal as designações não fazem diferença alguma e a questão toda é quem está gerenciando as minhas finanças naquele momento, não é?

30 de Setembro de 2009,
Ana Helena Tavares

Obs: Para ouvir a tal entrevista, clique aqui.

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22.9.09

Honduras: a posição firme do Brasil e a ousadia dos golpistas

É humanizar e ser livre ou autodestruir-se

Por Ana Helena Tavares

Segundo informações do Ministério das Relações Exteriores, a situação hoje, 22 de Setembro de 2009, é crítica em Honduras. A Embaixada do Brasil teve a água, a eletricidade e as linhas de telefone fixo cortadas. Segundo a agência de notícias AFP, “a eletricidade está sendo mantida com gerador”. O Ministério informou, ainda, que o Brasil solicitou apoio à Embaixada dos EUA para que, “em caso de necessidade, ofereçam segurança e diesel para o gerador”. No entanto, ainda não há notícia de que tenham obtido retorno.

Segundo informações do site Uol, “militares de Honduras cercaram na manhã desta terça-feira (22) a embaixada brasileira em Tegucigalpa, onde permanece o presidente deposto, Manuel Zelaya, e obrigaram a retirada dos manifestantes que passaram a noite em frente ao edifício.”

Em Nova York, onde se encontra para participar da Assembléia Geral da ONU, Lula declarou à imprensa que, para ele, “o normal que deveria acontecer é que os golpistas deveriam dar um lugar a quem tem direito de estar nesse lugar, que é o presidente eleito democraticamente pelo povo”. Lula disse ainda: “Nós esperamos que os golpístas não entrem na Embaixada do Brasil”.

Em nota, os golpistas disseram que pretendem responsabilizar o Brasil por possíveis atos de violência: “A tolerância e a provocação que se realiza desde o local dessa representação do Brasil são contrárias às normas do direito diplomático e transformam a mesma e seu governo nos responsáveis diretos dos atos violentos que possam suscitar dentro e fora dela”, disseram.

Daí, cá com meus humildes botões, eu fico pensando… É sempre assim… A ambição desenfreada dos que nasceram para o despotismo não aceita que o povo, que pra eles só presta manipulado, enxergue com seus próprios olhos. Quando a democracia procura fortalecer-se por meio de consulta popular, a elite conservadora sente-se ameaçada e, tendo chance, tira o pó dos canhões. E não duvido que na caserna ainda repouse o sonho dourado da extrema direita brasileira. Os que ontem apoiaram o chumbo e que hoje continuam no poder, espalhados pelo Congresso, até podem fingir apoiar a paz, mas essa máscara não lhes segura no rosto.

Contar com a ignorância do povo sempre foi ferramenta fundamental de opressão política. Júlio César já sabia disso. Tanto aqui como em Honduras, as elites conservadoras mantém isso em comum: a voz deles é a voz de Deus, portanto povo não tem voz.

Reclamar seus direitos, cobrar deveres daqueles em quem bem mais que um voto, se depositou confiança. Quantos no mundo podem fazer isso e não fazem? Quantos não podem e nem sabem o porquê?

Os homens nascem com total liberdade de pensamento. Podem e devem valer-se dela ao longo da vida. É natural que quem tem um pensamento conservador chie com a possibilidade do progresso; é natural e vital que os progressistas da esquerda chiem junto para defender as idéias em que acreditam; o que não é natural, ou não deveria ser, é o comodismo, a apatia, a inércia.

Só plantando paz é possível colhê-la. É humanizar e ser livre, ou autodestruir-se. Parabéns à diplomacia brasileira pela posição firme de abrigar e apoiar aquele que é o presidente legítimo de Honduras.

22 de Setembro de 2009,
Ana Helena Tavares

Obs: Este texto foi escrito originalmente para a minha coluna na “Revista Médio Paraíba” e para o blog “Quem tem medo do Lula?“. Trata-se de uma atualização do meu artigo “Honduras e os pacotinhos vazios“.

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Sobre a sabatina da Folha de S. Paulo com seu Ombudsman

Carlos Eduardo Lins da SilvaEntre importantes erros assumidos, uma grande ausência e uma comparação que só pode ser piada

Por Ana Helena Tavares

A Folha de S. Paulo, para marcar os 20 anos da criação de seu cargo de Ombudsman, aquele cargo que serve para o jornal tentar passar a idéia de que há lá dentro uma democracia que não há, promoveu ontem, 21 de Setembro de 2009, uma sabatina com seu atual Ombudsman, Carlos Eduardo Lins da Silva, que resiste bravamente há 18 meses no cargo. Não, ele não é dos piores, muito longe disso. Quem conhece toda a dificuldade e a pressão do seu cargo, sabe que faz um trabalho digno de respeito.

Um dos importantes erros da Folha que ele corajosamente assumiu desde o início, refere-se ao lastimável episódio da ficha falsa de Dilma, a que ontem ele se referiu exatamente com essas palavras:

No caso do dossiê da Ministra Dilma Roussef, fiz sugestões muito concretas. Foi um caso polêmico, muito controvertido e nenhuma delas foi atendida. Foi a situação da reprodução de uma suposta ficha da ministra Dilma do período em que ela era militante de um movimento revolucionário no regime militar. Essa foto foi publicada em primeira página da Folha como se fosse verdadeira. Depois a Folha disse que não tinha como provar que era verdadeira, mas também não tinha como provar que era falsa. Na minha opinião, é um dos dois erros mais graves que a Folha cometeu ao longo destes 18 meses”.

O outro erro a que ele se refere certamente também foi grave, mas este não foi só dos Frias, foi dos Mesquita, dos Marinhos e de outros. Sedentos por plantar o terror na velha ânsia de vender mais e mais. Pois é, infelizmente o terror vende. E o erro em questão foi a fatídica gripe suína. Ontem, assim Carlos Eduardo Lins da Silva se referiu à cobertura da Folha sobre o assunto:

Há exatamente dois meses a Folha, em chamada de 1ª página, disse: Em dois meses, trinta e tanto milhões de brasileiros devem estar infectados e 4,4 milhões devem estar internados. Isso baseado em um modelo matemático que não era alimentado por dados a respeito desta gripe, mas sim de outras gripes do passado. Esse acho que foi o erro mais grave que a Folha cometeu nesse meu período como Ombusdman”.

Parabéns ao Ombusdman pelos importantes erros apontados, mas e a “Ditabranda”? Pergunto eu… Por que ela ficou de fora de tão nobre evento? A sabatina foi enorme, as perguntas foram inúmeras e por que os nobres entrevistadores (Marcelo Coelho, Eleonora Gosman, Verônica Goyzueta e Eugênio Bucci) não colocaram a “Ditabranda” em pauta ou por que o entrevistado não tratou de lembrá-los? Esquecimento, concordância ou submissão?

Bem, mas como é véspera de ano eleitoral, nada mais oportuno do que comparar a cobertura dada pela Folha ao governo FHC com a dada ao governo Lula. E aí… Lins da Silva produziu uma pérola:

Muitos leitores acham que a Folha foi mais condescendente com o governo FHC do que com o governo Lula. Essa é uma resposta que só pode ser dada por meio de um trabalho acadêmico, científico, metodologicamente e comprovadamente constatado. Fica-se muito no terreno das impressões… Na minha impressão, a Folha era muito dura com o presidente Fernando Henrique também.”

Prefiro acreditar que essa foi pra descontrair o ambiente, só pode…

Ana Helena Tavares

Obs: Matéria escrita originalmente para o blog “Quem tem medo do Lula?

criado por Ana Helena Tavares    17:30:44 — Arquivado em: Jornalista é contador de Histórias!, Reportagens — Tags:, ,

20.9.09

Só vibra o pulso de quem sonha - ou o porquê de eu acreditar no Lula

Lulaaaa

Por Ana Helena Tavares

Cor, brilho, voz, vibração, palavra. Certa vez ouvi uma senhora de 92 anos, esbanjando vitalidade, dizer que a palavra sempre foi sua maior arma. Foi com ela que sempre lutou e – mesmo nas derrotas – venceu.

Contou que já é professora de português há 75 anos e que, depois de tanto tempo, já viu passar pelas mãos dela pessoas de todos os credos – de todas as cores. Rindo, disse que já havia sido alfabetizada quatro vezes por quatro reformas ortográficas. Pelo entusiasmo demonstrado, certamente ainda passaria por mais quatro.

Seu brilho arrebatador no olhar e seu pulso vibrante acusam: ela nunca deixou de sonhar. Sim, ela tem um sonho. Faço idéia do sorriso que Luther King abriria ao saber qual. Ela sonha com um mundo em que as pessoas não nasçam para viver – mas para conviver. Seus 92 anos lhe ensinaram que essa é a maior das artes.

Tomando por base esse sonho tão grande, que é meu, dela e de tantos, fiquei pensando o que, mesmo os críticos mais ferrenhos, teriam a dizer quanto à figura de Lula no que diz respeito à habilidade para essa arte chamada convivência. Olhos castanhos, azuis, verdes ou negros, para ele todos foram sempre dignos do mesmo respeito.

Não há adegas neste país com vinhos que possam dizer que nunca se misturaram a azeite. Mais: misturas fazem parte do jogo político e, se não foram poucas as realizações do governo Lula em projetos sociais, há que se assumir que isso se deve em grande parcela ao talento do nosso presidente para agregar para suas trincheiras conhecidos adversários. O grande segredo está em não permitir que este jogo político que, queiram os “puristas” ou não, precisa ser jogado, contamine a chama da defesa da justiça social, da luta pelas liberdades democráticas e dos Direitos Humanos, de modo a apagá-la.

Foi mantendo acesa essa chama que, depois de realizar tantos sonhos, muitas vezes, tidos como quase irrealizáveis, ele se fez respeitar. Foi assim que seu olhar de retirante chegou a 2009 vendo o olhar negro do chefe da Casa Branca apontar para ele e dizer: “Esse é o cara!”.

Não me digam que é por mero acaso que “o cara”, mesmo bombardeado por uma grande imprensa de interesses pequenos, desfila sua credibilidade, de cabeça erguida e pulso sempre vibrante, desde os mais nobres salões internacionais aos mais pobres grotões deste país.

Ana Helena Tavares

Obs: Neste texto, que está também no blog que ajudo a editar, o “Quem tem medo do Lula?“, eu adapto e mesclo pedaços de dois artigos meus: “O progresso e o sacrifício do beijo no carcereiro” e “Sim, nós podemos!“, de modo a focar mais especificamente na figura política e humana de Lula.

criado por Ana Helena Tavares    19:35:39 — Arquivado em: Releituras — Tags:, ,

17.9.09

A ditadura de ontem e a de hoje

Dentre várias ditaduras que ainda rondam nossa sociedade, tal como a ditadura da beleza, imposta pela indústria da moda, pode-se verdadeiramente dizer que vivemos sob uma ditadura midiática, que já não permite que a sociedade enxergue com precisão onde estão seus algozes.

Por Ana Helena Tavares

Nosso país saiu de uma ditadura a qual se viam os capuzes para mergulhar em anos de uma hipocrisia perigosa. Uma hipocrisia compactuada pela parcela podre da mídia, saudosa dos anos de repressão em que se acreditavam mais felizes. Saber-se sob controle exerce estranho fascínio, mesmo em mentes das mais instruídas, vai entender. Isso sem falar naqueles fascinados por exercê-lo.

Um fascínio que se mantém na velha política dos coronéis. Capangas ciceroneiam o principal juiz de nossa mais alta Corte. Estão longe do charme de um 007, mas os desafie de verdade e tenho certeza que, assim como o agente secreto da rainha inglesa, eles também têm licença para matar. Assim como quem os paga se julga com “licença” para ludibriar constantemente o povo e sente-se livre de penalidades. Ou pior, acima delas.

Enquanto a parcela podre da mídia distrai a população com factóides, Lina Vieira que o diga, os anos de chumbo são devidamente barganhados e transfigurados. Para os donos da mídia, o MST, por exemplo, é terrorismo, mas, quando um trabalhador rural morre baleado com um tiro nas costas, saído das armas da polícia, o episódio é chamado de “incidente”.

E, nesse caso específico, quem escreve uma matéria chamando crime de incidente, o que está fazendo senão espelhar ali a ideologia de seus patrões? É o famoso analfabeto político por opção, aquele que pensa com a cabeça de quem o paga.

“Como era a reunião de pauta no Pasquim?”, perguntaram certa vez ao jornalista Luiz Carlos Maciel. Talvez porque aquele era um jornal totalmente avesso a esse jornalismo/mercado, tão em moda, a resposta imediata foi: “Reunião de Pauta?!?! No Pasquim?!?!”. Pois é, simplesmente não havia. E por quê?

Porque faltava àquele jornal algo que sobra à grande imprensa de hoje… O que seria? Objetividade! E foi essa falta que proporcionou o seu sucesso.

Não falo de objetividade na linguagem. Aquela que – de forma totalmente imparcial – se apega exclusivamente ao objeto de análise. Isso é mito do jornalismo. “Conversa fiada”, como definiu o próprio Maciel.

O jornalista, por mais neutro que tente ser, nunca consegue se desprender por completo do sujeito que é. Portanto, todo o relato já é – por natureza – subjetivo. E como seria bom se milhões de leitores e telespectadores entendessem isso…

Então, temos aí que a objetividade à qual o Pasquim se opunha com todas as suas forças e à qual vemos a grande imprensa de hoje totalmente rendida é uma objetividade de outro tipo. É uma objetividade que vem de escolhas, interesses e, como não poderia deixar de ser, objetivos.

Nada tem a ver com o objeto a ser apresentado, ou em outras palavras, sua excelência: o fato. Esse, aliás, muitas vezes fica mesmo é relegado a décimo plano. Quem sabe ele aparecerá numa notinha de pé de página. Se der sorte.

E essa objetividade tem dono, sua santidade: o mercado. A ele, sim, o jornalismo deveria fazer oposição sempre…

Mas, aquele pra quem os donos de jornais rezam todas as noites, é capaz de tolher qualquer idealista numa reunião de pauta.

A mídia nos impõe, portanto, um constante jogo de aparências. Dentre várias ditaduras que ainda rondam nossa sociedade, tal como a ditadura da beleza, imposta pela indústria da moda, pode-se verdadeiramente dizer que vivemos sob uma ditadura midiática, que já não permite que a sociedade enxergue com precisão onde estão seus algozes. Mas lá estão eles. Os de hoje, que usam outros métodos, e os de ontem, escondidos do grande público, caminhando impunes pelas ruas desse Brasil, depois de pagarem com a morte o idealismo de tantos brasileiros.

Alguém viu por aí o Tenente Coronel José Ney Fernandes Antunes? De 68 a 71 ostentava o cargo de “conselheiro” dentro da Polícia do Exército. Hoje é provável que esteja tranqüilamente dando conselhos aos seus netos.

Viram por aí o Tenente (torturador) Armando Avólio Filho? Ah, sim, consta que está reformado como general.

E o Tenente (torturador) Luiz Mário Correia Lima? Ah, minha gente, vejam vocês, esse foi até condecorado! Foi promovido a major e hoje deve desfilar impunemente naqueles melancólicos encontros de oficiais da caserna com honrarias no peito conferidas a ele por seu empenho na captura de “terroristas”. Só o que as medalhas não trazem escrito é o que significam terroristas para ele.

É possível que esteja também solto por aí aquele que era conhecido como o “Tenente Mata Rindo”. Dá para imaginar isso? O sujeito era tão sem piedade que tinha declarado prazer em matar, não escondia o riso. Isso para mim já é doença. E o pior é a sensação de que uma pessoa dessas possivelmente continua rindo por aí, sabe-se lá fazendo o que, sabe-se lá rindo de que. Mas solta – livre, leve e solta!

Dessa maneira, fica até fácil entender o medo que alguns ex-presos políticos mantém ao sair às ruas. Só eles sabem de fato o que passaram e o trauma que ficou. O Brasil precisa lhes dar alguma tranqüilidade, precisa dar uma indenização que vai muito além do vil metal. A Lei de Anistia precisa, sim, ser revista. Ela não pode ser irrestrita e deixar de punir quem praticou tortura. Eu não tenho dúvidas de que a punição a esses monstros que assombraram nosso país seria para os tantos que sofreram nas mãos deles a maior condecoração que poderiam receber. E eles, sim, merecem.

Na entrada das sessões de tortura, havia o corredor polonês, feito por vários militares. Essa também era uma prática da polícia civil, Dops, DOI-Codis e Polinter quando prendiam grupos de “terroristas”, conforme eram tratados todos os capturados, e o corredor polonês eram as “boas-vindas”.

Eu não vivi aquela época. Nasci bem no finalzinho do exato ano em que Tancredo Neves, Ulysses Guimarães, Leonel Brizola, Luís Inácio Lula da Silva e, até mesmo, um FHC bem diferente do que ocupou o Planalto, subiam juntos a palanques para gritar que as eleições tinham que ser diretas e tinham que ser já! Ou seja, cheguei a esse mundo doido e a esse Brasil de tantas contradições, ganhando de presente de boas-vindas a democracia. Pena que hoje eu veja essa democracia, conseguida a tão duras penas, ameaçada por todos os lados pela pior das ameaças que pode existir – aquela que vem sob o disfarce de benefício.

O grande jornalista Ricardo Kotscho defende que hoje em dia é mais fácil para o jornalista se manifestar do que na ditadura. Sem dúvida que é. O fato de ser mais fácil não quer dizer, porém, que seja assim tão fácil. Infelizmente, falsos paladinos da liberdade e da moralidade têm se proliferado mais que cupim. Nosso sistema judiciário está entregue a pessoas que se julgam os donos do mundo. Como posso me alegrar, encher o peito e dizer – “Nasci e até hoje vivo num país democrático” – quando vejo jornalistas serem censurados por fazer jornalismo? Inúmeros casos recentes poderiam ser citados. O juiz que anda com capangas e anuncia ao país que “jornalista não precisa de diploma porque isso é uma afronta à liberdade de expressão” é doutor honoris causa em baixar ordens para censurar a imprensa. E, ainda assim, ele consegue fazer com que boa parte da sociedade acredite que ele tem alguma vocação para timoneiro da democracia.

Ainda bem que Ulysses morreu no mar, então não dá nem para dizer que ele está se revirando no túmulo…

17 de Setembro de 2009,

Ana Helena Tavares

Obs: Neste texto, que está também no blog que eu ajudo a editar, o “Quem tem medo do Lula?“, eu adapto e mesclo dois artigos meus: “O Pasquim e a oposição à objetividade” e “Juntando os pedaços“.

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11.9.09

Quando os fins contradizem os meios

Recentemente, FHC só faltou prestar reverência a Gilmar Mendes, o definindo como “um homem de coragem e competência”. No mesmo dia, conseguiu falar sobre o “brilhantismo” de Daniel Dantas, ainda que tenha alegado “conhecê-lo pouco”. É, a idade tem dessas coisas, causa crises seríssimas de amnésia.

Por Ana Helena Tavares

Desde que saiu da presidência, a que papel FHC tem se prestado senão a tentativas vãs de criar um descrédito sobre a figura de Lula para ver se alcança uma nesga de esperança de voltar a ter alguma importância na cena política brasileira? FHC é de tão triste figura que nem sequer percebe que há muito já perdeu a graça.

Ao que parece, há quem consiga fazer da política um jogo de tal maneira contraditório, que é de dar nó na cabeça do mais maquiavélico jogador de pôquer. Roberto Marinho entendia dos dois jogos. FHC lecionou sobre Maquiavel. Conhece bem os tortuosos túneis da política (ou seriam “passagens secretas”?), aqueles da “arte” do bem encobrir, dos “alguéns” a proteger.

Como será mesmo que conseguiu o apoio da maioria dos deputados para a aprovação da sua reeleição em 98, sem uma consultazinha popular sequer? Ah, já sei, distribuía balas no Congresso no dia de São Cosme e Damião, não é?

Há quem diga que os opostos se atraem, na vida afetiva pode ser. Mas, no jogo político, talvez o ditado mereça uma inversão. Por mais que haja misturas, uma hora fica claro quem está ao lado de quem. Recentemente, (em entrevista registrada em vídeo) FHC só faltou prestar reverência a Gilmar Mendes, o definindo como “um homem de coragem e competência”. No mesmo dia, conseguiu falar sobre o “brilhantismo” de Daniel Dantas, ainda que tenha alegado “conhecê-lo pouco”. E os encontros que eles tiveram? É, a idade tem dessas coisas, causa crises seríssimas de amnésia.

Faz a pessoa esquecer, por exemplo, qual é mesmo o significado daquela palavra bonita da língua portuguesa chamada coerência. Que o diga Maria Augusta Tibiriçá Miranda, autora do livro “O Petróleo é nosso – a luta contra o entreguismo” que recentemente, em entrevista ao jornalista Paulo Henrique Amorim (clique aqui para conferir a entrevista), revelou o passado de militante nacionalista do ex-presidente e de sua família, afirmando enfaticamente que ao adotar sua política de privatizações “FHC traiu o tio, o pai e a si próprio”.

Fico imaginando a pose que ele desfilava pelos púlpitos da Sorbonne e chego à conclusão de que, definitivamente, pose não é classe. Para os alunos de Monsieur FHCÊ, “o príncipe dos sociólogos”, deve ter sido o “suprassumo da coerência” aprender nas cadeiras da sacrossanta universidade parisiense os ensinamentos de Marx e, anos mais tarde, em 2002, ao final do governo neoliberal de FHC aqui no Brasil, ouvirem dele: “Nunca houve nenhuma chance de neoliberalismo aqui. Este é um país muito pobre e o Estado sempre terá um papel importante na atenuação de diferenças sociais.” (declaração dada ao “Financial Times”). Acho que ele queria que a gente risse, mas nem por isso.

Talvez ele tenha querido também ser, por assim dizer, “engraçadinho” ao soltar a seguinte “pérola” no início deste ano: “Ai, que saudade do governo militar, onde eu podia falar” .

Depois dessa, sinceramente acho que só merecia mesmo retornar à Sorbonne e perceber que, hoje em dia, os alunos de lá preferem ouvir o Lula.

11 de Setembro de 2009,

Ana Helena Tavares

Obs: Este texto está também no blog que ajudo a editar, o “Quem tem medo do Lula?“, e é uma adaptação que fiz do meu artigo “Sobre abusos e leviandades“, de modo a focar mais especificamente na figura política de FHC.

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10.9.09

Lula: Um dicionário rico e coerente

Wilson Dias  Ag. Brasil 7 de Setembro 2009Sociólogo desde criancinha e anti-racista da gema, o jornalista Ali Kamel lançou recentemente um livro, muito divulgado pelo PIG, chamado “Dicionário Lula”. É claro que, sempre que encontra jeito, ele não perde a oportunidade de alfinetar o presidente, mas Kamel apresenta nesse livro duas conclusões surpreendentes para quem conhece sua histórica cruzada anti-lulista. Uma é: “Lula emprega mais de dez mil palavras (em seus pronunciamentos de improviso), o que equivale ao léxico de pessoas cultas (seu léxico é bem variado, e inclui palavras cultas e mesmo raras).” Outra é que, segundo Kamel, Lula é bastante coerente, visto que dificilmente seus discursos apresentam mudança de posição.
Quem diria…

10 de Setembro de 2009,

Ana Helena Tavares

Obs: Texto escrito originalmente para o blog “Quem tem medo do Lula?“.


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3.9.09

Quando um gato vira leão - um tributo a Ted Kennedy

Voz tranqüila, porém firme, dedos apontados para os sonhos.

Por Ana Helena Tavares

Quando Collor se candidatou à Presidência da República, o exército de Roberto Marinho sabia que tinha uma arma na missão de elegê-lo: ele era um gato. Parece piada, mas é fato. Já vi muita mulher (instruída!) assumir que votou nele porque era “o mais bonito”. Agora em 2009, anos depois de o povo ter descoberto, com um paradoxal – e oportuno – empurrãozinho daquele mesmo exército, que gatos não põem mesa, vem ele querendo rugir no Senado. Só o que ele talvez não saiba é que para ser leão não basta rugir, é preciso que se consiga levar outros a rugirem junto ou a respeitarem o seu rugido.

Mas vocês talvez estejam pensando: “Que mau gosto fazer um tributo a Ted Kennedy e começar o texto falando do Collor!” Pois é, nem eu sei de onde me saiu essa idéia, mas é, sim, possível fazer uma relação de antagonismo entre as duas figuras.

Fernando Collor de Mello, assim como seu irmão já falecido, que era igualmente gato, teve desde sempre uma vida pessoal obscura. Poucos sabem, por exemplo, que seu pai, Arnon Afonso Farias de Mello, foi assassino de um senador. Os irmãos Kennedy, dois deles mortos precocemente, todos igualmente gatos, tiveram um pai mais exemplar. Todos os três, porém, tiveram uma juventude e, no caso de Ted, uma longa vida pessoal a que se pode tranqüilamente chamar de desvairada, incluindo conhecidos episódios de envolvimento com bebida.

Já na vida pessoal reside o antagonismo da relação que busco fazer aqui. Enquanto a de Collor se mostra um vale de sombras, a de Ted era um livro promíscuo, porém aberto.

No entanto, ao povo de nada importa a vida pessoal de um homem público. Importa sua combatividade, importa as causas pelas quais luta e as batalhas que consegue vencer nessa selva chamada política. E aí mora o grande antagonismo deste texto. Collor é um perdedor não por ter sido expelido da presidência pela mesma mão que o colocou, como num sórdido jogo de marionetes, mais do que isso, é um perdedor não por ter perdido alguma causa de interesse público – é um perdedor porque nunca às teve. Ted Kennedy, sem nunca ter chegado à presidência dos EUA, era um homem de causas públicas, um agregador nato, combativo até o fim naquilo em que realmente acreditava, o que lhe justificava o título de “o leão do Senado”.

Em tempos de omissão e, em alguns casos, até de contribuição direta de seu país, Ted Kennedy rugiu alto contra a ditadura no Chile, o Apartheid na África do Sul e a guerra do Vietnã. Embora certamente não tenha conseguido ver no mundo todas as mudanças com as quais sonhava, Ted levou muitos a rugirem junto. Ainda assim, como não poderia deixar de ser, foi, muitas vezes, voto vencido, mas nunca desistia e, com toda razão, gostava de vangloriar-se de ter lutado. Gostava, por exemplo, de anunciar que seu voto mais bem acertado no Senado foi aquele em que disse um sonoro não à invasão do Iraque. E ele estava mais do que certo por ter orgulho disso. Também eu teria – e muito. Sua atuação nesse e em outros casos de interesse mundial foi, claro, digna de toda admiração. Mas, em termos de política interna, sua grande causa talvez tenha sido a reforma na Saúde. Lutou sem trégua por um sistema público, no estilo europeu, ferozmente condenado pela direita, pelas seguradoras, pelos médicos, pelos hospitais – o leão foi bombardeado de todos os lados e jamais fraquejou.

Há poucas ligações de Ted Kennedy com a política brasileira. Não consta, por exemplo, que ele tenha tido o desprazer de conhecer pessoalmente Fernando Collor. Mas pelo menos um político brasileiro ele conheceu de perto, sobre o qual digam o que quiserem, pra mim foi um dos maiores – um leão de botina e bombacha, tchê – Leonel Brizola. Pois muito bem, o próprio. Quando Brizola foi expulso do Uruguai, em 1976, por ordem de Geisel, Ted Kennedy o recebeu como amigo nos EUA. Há quem diga que da amizade entre os dois nasceu a luta de Ted Kennedy contra a ditadura no Brasil.

Como é do conhecimento de muitos, Brizola não era homem de bajulações. Nesse sentido, é digno de nota o apreço especial que ele nutria pelo amigo Ted. Algo de fato incomum para Brizola, que definia Ted Kennedy como “um inconformado, um verdadeiro democrata na luta contra toda falta de liberdade.”

O fato é que com seu sorriso fácil, sua voz tranqüila, porém firme, dedos apontados para os sonhos, era mesmo muito difícil resistir aos discursos de Ted. Não eram vazios, menos ainda demagogos, como os de tantos. Aproximar-se dele era sinônimo de respeito, mesmo para quem estava em trincheiras opostas – lá estava Bush em seu enterro, por essa nem ele esperava. Era sinônimo de querer ouvir, mesmo para quem tanto gostava de falar, como era o caso de Brizola.

Leão é líder, e o olhar do líder não amedronta – agrega.

03 de Setembro de 2009,

Ana Helena Tavares

Quando um gato vira leão na Revista Médio Paraíba

Quando um gato vira leão no site youPode

Quando um gato vira leão no Recanto da Letras

criado por Ana Helena Tavares    19:42:14 — Arquivado em: Crônicas, Os dias lindos*, Perfis (ou ensaios biográficos) — Tags:, ,

1.9.09

A razão é o amor

*Para as minhas avós Maria Helena (in memorian) e Conceição, que sempre colocaram o amor acima de tudo.

Lutar pela causa justa
E nunca perder a garra de viver
É saber como ninguém quanto custa
O sabor de lutar por um querer!

Seu valor é incalculável!
Não é possível lhe pôr preço.
Pode haver algo mais louvável?
Se houver, é coisa que não conheço…

Digo louvável porque lutar pelo que se quer
E para isso dar o sangue se preciso for,
Sem se importar com o que pela frente lhe vier,
É a melhor demonstração do puro amor!

Apesar de se encontrar tão esquecido,
Este amor, eu sei, ainda existe!
Pois por mais que esteja ferido,
A tudo este sentimento resiste.

E enquanto houver pessoas assim, que lutem com confiança
Por causas nas quais acreditem de verdade,
Ainda terei – sim – a doce esperança
De o amor reinar por toda a humanidade…

Ana Helena Tavares

criado por Ana Helena Tavares    18:00:32 — Arquivado em: Brincando com os versos, Todos os poemas — Tags:

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