Traços de Estilo

“A poesia confunde-se com a prosa da mesma maneira que o poeta confunde-se com o homem da rua e já não pode nem deseja reivindicar para si a condição de eleito dos deuses.” (o poeta Gullar) “É preciso levar em conta as palavras que você escolhe, cuidar de cada sentença. É preciso ser sensível ao sentimento das pessoas.” (o jornalista Talese)

31.7.09

Nos quadrados também há um pulso

Carinho que vem quadrado
Nem bem se vê de que lado
Pode vir também em bandeja
De forma que bem se veja

Há amor no silêncio
Não expressar não é defeito
Olhares podem ser gestos
Cada um ama ao seu jeito

Identificar o afeto
Por tímido que seja
É desafio concreto
De uma vida que lampeja

Olha a flor que ele colheu
Será que já não te deu?

31 de Julho de 2009,
Ana Helena Tavares

Nos quadrados também há um pulso no site O melhor da web

Nos quadrados também há um pulso no Recanto das Letras

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27.7.09

Ser como gota de chuva

“Não é o mais forte nem o mais inteligente que sobrevive. É o mais adaptado às mudanças” (Charles Darwin)

Chove. E eu com vontade de mergulhar em cada gota.

As gotas caem nos meus olhos, mas meus olhos querem ser elas.

Límpidos, nascidos de nuvens, sem o embaçamento da metrópole empoeirada.

Livres, guiados pelo vento, sem as amarras da sociedade que me molda.

Ser como gota de chuva. Flutuar, conhecer lugares longínquos, beijar cada chão.

Ser cristalina no ar e desmanchar-me turva no asfalto quente que me evaporaria e me faria voltar a ser gota. Um eterno recomeço.

Assim precisaria ser a vida. Cada sol nos anuncia uma nova chance de voltar a ser gota.

E de percebermos que aquele berro que ficou calado não morreu. Apenas se transformou.

27 de Julho de 2009,
Ana Helena Tavares

Ser como gota de chuva no Recanto das Letras

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21.7.09

O progresso e o sacrifício do beijo no carcereiro

Se não foram poucas as realizações do governo Lula em projetos sociais, há que se assumir que isso se deve em grande parcela ao talento do nosso presidente para agregar para suas trincheiras conhecidos adversários. Não por acaso ele desfila sua credibilidade, de cabeça erguida, pelos mais nobres salões internacionais. E isso não o faz deixar de ser de esquerda, não o torna menos progressista. Ao contrário, o progresso requer o sacrifício do beijo no carcereiro.

Por Ana Helena Tavares

O que é ser de esquerda pura? Se dentre as definições estiver não aceitar conchavos suspeitos nem mesmo em momentos que seja necessário se livrar da forca, então a esquerda pura é uma grande utopia, simplesmente não existe. E é uma grande falsidade dizer-se puro.

Não há adegas neste país com vinhos que possam dizer que nunca se misturaram a azeite. Mais: misturas fazem parte do jogo político que, queiram os “puristas” ou não, precisa ser jogado. O grande segredo está em fazer com que este jogo não apague a chama da defesa da justiça social, da luta pelas liberdades democráticas e dos Direitos Humanos, bandeira indiscutível do nosso presidente.

Chegar ao governo não é a mesma coisa que chegar ao poder. É preciso deixar isso sempre claro. Poder conquista-se a troco de alianças.

Se não foram poucas as realizações do governo Lula em projetos sociais, há que se assumir que isso se deve em grande parcela ao talento do nosso presidente para agregar para suas trincheiras conhecidos adversários. Não por acaso ele desfila sua credibilidade, de cabeça erguida, pelos mais nobres salões internacionais. E isso não o faz deixar de ser de esquerda, não o torna menos progressista. Ao contrário, o progresso requer o sacrifício do beijo no carcereiro. Sempre foi assim em toda história da humanidade. Como então uma esquerda fechada conseguirá avançar? Manter ideais, sim, mas transformar rivais em aliados nos momentos de batalha mais sangrenta é questão de sobrevivência.

Temos agora aí a CPI da Petrobras, este engodo plantado pela oposição para desestabilizar o governo e afundar o país. Numa situação como essa, ter maioria no Congresso, mesmo que à custa de determinados acordos que nunca foram e não são dos sonhos do governo, parece que se faz arma fundamental – e inevitável. Só assim é possível vislumbrar um afrouxamento da corda que essa oposição que nós temos, totalmente desinteressada com o país, ajudada por nossa grande imprensa, vendida e imunda, tem colocado todos os dias no pescoço de Lula.

Ora, responda-me rápido: se fosse você que estivesse lá no Planalto, você também não iria querer se livrar da forca?

21 de Julho de 2009,
Ana Helena Tavares

O progresso e o sacrifício do beijo no carcereiro no blog Quem tem medo do Lula?

criado por Ana Helena Tavares    16:33:46 — Arquivado em: Algum lugar entre a prosa e a poesia

11.7.09

Juntando os pedaços

-> Dedico este artigo a todos os ex-presos políticos deste país.

Anos de chumbo, anos pautados pela dureza. Uma pauta encapuzada, protegida pelos setores conservadores que crêem na mão pesada como saída.

Nosso país, porém, saiu da ditadura a qual se viam os capuzes para mergulhar em anos de uma hipocrisia perigosa. Uma hipocrisia compactuada pela parcela podre da mídia, saudosa dos anos de repressão em que se acreditavam mais felizes. Saber-se sob controle exerce estranho fascínio, mesmo em mentes das mais instruídas, vai entender. Isso sem falar naqueles fascinados por exercê-lo.

Um fascínio que se mantém na velha política dos coronéis. Capangas ciceroneiam o principal juiz de nossa mais alta Corte. Seguranças engravatados do presidente do Senado recebem equipes de reportagem com truculência. Talvez na esperança de que, assim, pareça que eles precisam lutar com a imprensa. Como se já não tivessem um exército de repórteres vendidos a eles. Só que os corredores de nosso Congresso estão corroídos por inúmeras mazelas, as quais estão longe de se resumirem a um único ladrilho defeituoso, como tentam sugerir os “filiados” ao Partido da Imprensa Golpista.

Por mais que o presidente do Senado seja legítimo representante do pior que a política pode oferecer, não consigo deixar de me revoltar quando vejo ele ser chamado de “o último coronel da política brasileira”. Basta visitar o nordeste e ter um dedinho de prosa com o povo simples da região que eles dão conta direitinho de quantos coronéis nossa política ainda abriga. Jader Barbalho e Renan Calheiros devem estar enciumados. Já os imagino se perguntando: “Então será que não somos mais coronéis do nordeste?” Deve haver até ex-presidente com ciúmes dessa história – aquele que teve que aturar os caras-pintada nas ruas gritando para derrubá-lo – e o derrubaram – que hoje é um dos maiores latifundiários deste país, dono de canaviais, arrozais e cultivo de soja, em vastas áreas a perder de vista, infestadas de jagunços armados. Pela grande-imprensa eu nunca vi passarem esses latifúndios, só se passaram correndo por notas de pé de página. É explicável: para os donos da mídia o MST é terrorismo, mas os capangas e jagunços rurais que matam trabalhadores a sangue frio podem ficar impunes.

Capangas, seguranças armados, jagunços… Estão longe de um charme de um 007, mas os desafie de verdade e tenho certeza que, assim como o agente secreto da rainha inglesa, eles também “têm licença para matar”. Assim como quem os paga se julga com “licença” para ludibriar constantemente o povo.

É, portanto, um constante jogo de aparências que já não permite que a sociedade enxergue com precisão onde estão seus algozes. Mas lá estão eles. Os de hoje, que usam outros métodos, e os de ontem, escondidos do grande público, caminhando impunes pelas ruas desse Brasil, depois de pagarem com a morte o idealismo de tantos brasileiros.

Alguém viu por aí o Tenente Coronel José Ney Fernandes Antunes? De 68 a 71 ostentava o cargo de “conselheiro” dentro da Polícia do Exército. Hoje é provável que esteja tranqüilamente dando conselhos aos seus netos.

Viram por aí o Tenente (torturador) Armando Avólio Filho? Ah, sim, consta que está reformado como general.
E o Tenente (torturador) Luiz Mário Correia Lima? Ah, minha gente, vejam vocês, esse foi até condecorado! Foi promovido a major e hoje deve desfilar impunemente naqueles melancólicos encontros de oficiais da caserna com honrarias no peito conferidas a ele por seu empenho na captura de “terroristas”. Só o que as medalhas não trazem escrito é o que significam terroristas para ele.

É possível que esteja também solto por aí aquele que era conhecido como o “Tenente Mata Rindo”. Dá para imaginar isso? O sujeito era tão sem piedade que tinha declarado prazer em matar, não escondia o riso. Isso para mim já é doença. E o pior é a sensação de que uma pessoa dessas possivelmente continua rindo por aí, sabe-se lá fazendo o que, sabe-se lá rindo de que. Mas solta – livre, leve e solta!

Dessa maneira, fica até fácil entender o medo que alguns ex-presos políticos mantém ao sair às ruas. Só eles sabem de fato o que passaram e o trauma que ficou. O Brasil precisa lhes dar alguma tranqüilidade, precisa dar uma indenização que vai muito além do vil metal. Eu não tenho dúvidas de que a punição a esses monstros que assombraram nosso país seria para os tantos que sofreram nas mãos deles a maior condecoração que poderiam receber. E eles, sim, merecem.

Cresci ouvindo a triste história do meu tio, Carlos Aberto, ex-preso político que sofreu o pão que o diabo amassou, mas, felizmente, sobreviveu. E, não fosse isso, tenho amigos ex-presos políticos. Com um desses amigos, que prefere ser identificado como Freitas, eu conversei recentemente sobre aquela época. Foi essa conversa que me inspirou a escrever este artigo, tendo sido, inclusive, o Freitas que me passou os nomes dos militares que participaram das torturas naquela época e que ainda estão vivos – e impunes. Além dos já citados, ele me contou também sobre o 2º Sargento (torturador) Eli, do qual ele diz que não se esquece porque era a cara do jogador de futebol Ademir da Guia. O 2º Sargento Eli teria lhe dito num bar na Rua Maia de Lacerda no Rio Cumprido, já depois de ele ter sido solto: “Suma do Rio ou vamos lhe matar da próxima vez!” E, assim, lá se foi o Freitas para São Paulo. Também esse Eli deve estar gozando da vida livre.

Assim como o Cabo Gil, que era também enfermeiro. Segundo Freitas, quando ele estava preso, este era o que aplicava injeções para que ele revivesse as sessões de tortura. Sempre a mando do médico responsável, o Tenente Drº. Ricardo Agnase Fayad, e, ainda, de outros militares médicos que andavam com uma prancheta dando os óbitos.

Freitas fez questão de que eu citasse alguns dos companheiros que foram torturados com ele, então vamos lá: Djalma (Touro), Elias (padeiro e mineiro) e Loira, morta no choque no dia 10/11/70.

Na entrada das sessões de tortura, havia o corredor polonês, feito por vários militares. Essa também era uma prática da polícia civil, Dops e Polinter quando prendiam grupos de “terroristas”, conforme eram tratados todos os capturados, e o corredor polonês eram as “boas-vindas”.

Eu não vivi aquela época. Nasci bem no finalzinho do exato ano em que Tancredo Neves, Ulysses Guimarães, Leonel Brizola, Luís Inácio Lula da Silva e, até mesmo, um FHC bem diferente do que ocupou o Planalto, subiam juntos a palanques para gritar que as eleições tinham que ser diretas e tinham que ser já! Ou seja, cheguei a esse mundo doido e a esse Brasil de tantas contradições, ganhando de presente de boas-vindas a democracia. Pena que hoje eu veja essa democracia, conseguida a tão duras penas, ameaçada por todos os lados pela pior das ameaças que existem – aquela que vem sob o disfarce de benefício.

Falsos paladinos da liberdade e da moralidade têm se proliferado mais que cupim. Nosso sistema judiciário está entregue a pessoas que se julgam os donos do mundo. Como posso me alegrar, encher o peito e dizer – “Nasci e até hoje vivo num país democrático” – quando vejo jornalistas serem censurados por fazer jornalismo? Recentemente houve um vergonhoso caso de censura no jornal “O século diário”, do ES, mas outros podem ser citados. O juiz que anda com capangas e anuncia ao país que “jornalista não precisa de diploma porque isso é uma afronta à liberdade de expressão” é doutor honoris causa em baixar ordens para censurar a imprensa. E, ainda assim, ele consegue fazer com que boa parte da sociedade acredite que ele tem alguma vocação para timoneiro da democracia.

Ainda bem que Ulysses morreu no mar, então não dá nem para dizer que ele está se revirando no túmulo…

11 de Julho de 2009,
Ana Helena Tavares

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7.7.09

Nas ondas de um canudo que ouve

O menino Lobato

O experiente Lobato

“Diálogo” com Monteiro Lobato. Os trechos de autoria do gênio da literatura infantil (que tinha também tantas outras faces igualmente geniais) foram retirados do áudio da última entrevista que Lobato concedeu. A entrevista foi concedida ao radialista Murilo Alves Mendes, da rádio Record, em 02 de Julho de 1948, dois dias antes de Lobato falecer. Está disponível na internet em áudio (dividido em três vídeos do youtube). Como não achei a entrevista transcrita, eu mesma fiz a transcrição (não da entrevista toda, mas da quase totalidade). Para quem quiser ouvir Lobato falando o que está aí transcrito e algo mais, postei os três vídeos que contêm o áudio da entrevista juntos no seguinte link do meu outro blog: http://ahrt84.blogspot.com/2009/07/61-anos-sem-monteiro-lobato-estar-aqui.html

Segue então meu “diálogo” com Lobato – os trechos de minha autoria aparecem em negrito, os de Lobato em itálico:

Monteiro Lobato: Bom, agora eu vou falar aqui, não é? Nesse canudo (referindo-se ao microfone). Eu não tenho prática nenhuma, de maneira que é possível que saia tudo errado.

Eu também não me sinto muito à vontade falando para um grande público, sabe, sou tímida. E tenho impressão que todo o tímido se cobre por uma invisível capa na hora de subir a qualquer palco que a vida lhe imponha. É como se ele se superasse e, naquele momento, não fosse exatamente a pessoa que vive em seu interior. Não há falsidade aí, os dois seres convivem, porque ninguém é só erro, ninguém é só acerto. Mas ainda desconfio que o melhor mesmo é errarmos. Sem erros nada de acertos, não acha?

Monteiro Lobato: Eu toda noite ouço o Zé Caninha, naquele programa “Cartola de protesto”, e gosto imensamente deles por uma coisa, uma descoberta que eles fizeram, ele e o seu companheiro Vasconcelos: eles descobriram que é um grande erro estar renovando o programa, o certo é repetir todas as noites a mesma coisa, porque o público acostuma, gosta e não quer mudança. Eu mesmo fico danado quando eles mudam as pilhérias, gosto de ouvir todas as noites as mesmas pilhérias. E aconselho aos técnicos de rádio que estudem esta descoberta, porque é uma descoberta psicológica interessante e muito importante. Até aqui o rádio era baseado na renovação constante dos programas, novidade em cima de novidade. Pois bem, eles descobriram que isto está errado. Eu até quero que eles mudem um bocadinho, levemente, todo dia, mas quando eles mudam demais eu fico danado e acabo protestando com uma carta.

É engraçado como o ser humano lida com as mudanças. Se elas forem paulatinas, de modo que quase não apareçam, ainda são bem digeridas. Se forem bruscas, a revolta é geral. Tudo é a forma como são conduzidas. Mas o fato é que na vida tudo muda numa velocidade não imaginada por nenhuma roda gigante. E elas são de tal maneira rápidas que é da maneira que o olho humano não as enxerga cotidianamente. Em sua maioria, soam como um correr natural do rio, páginas de um livro que não seria o mesmo sem aquelas reinações, não é? E ainda bem que nosso olhar tem essa limitação, foi a forma que Deus encontrou de nos emprestar alguma perfeição. Afinal, se conseguíssemos sempre enxergar o virar das páginas, que a cada minuto são diferentes, não viveríamos, pois seríamos constantemente invadidos pela vontade de retornar ao nosso passado.

Monteiro Lobato: Você veja aqui o amigo Murilo, que na Espanha era pintor e agora aqui é radiofonista. Ou sei lá como chama isso. Radialista, né? (“Um neologismo que eu não gosto muito”, diz o Murilo). Ele dá-me um canudo que ouve (o microfone…) e eu sou obrigado a falar nesse canudo… E se eu estivesse falando sozinho eu estava muito satisfeito, mas estou aqui com várias testemunhas. O “pintor” Murilo (rindo) e (dentre outros citados) aqui o amigo Armando Pinto, um sonhador… que está procurando um editor e não acha, porque a coisa mais rara que há no mundo hoje é um editor que edite!

Assim como são raros os artistas que produzam arte! Num mundo que já perdeu a noção do que é arte, que já não sabe que ela é um algo a mais, que precisa trazer em si a capacidade de transformar os que tomam contato com ela para só assim poder ser chamada de arte, dizer-se artista é fácil. O difícil é conseguir que suas palavras sejam gravadas em corações de modo a ecoarem décadas e mais décadas depois.

Monteiro Lobato: Bom, eu estou falando e dizem eles que o aparelho (o microfone…) está gravando! E depois vai repetir ao público as minhas bobagens… Eles acham que as minhas bobagens podem interessar… Eu duvido! Eu quero ver para crer!

Bom, nem sempre os gênios conseguem ver em vida o interesse do grande público por sua obra. Mas os verdadeiros artistas são imortais.

Monteiro Lobato: Muito bem. Estou comovido e o Murilo está notando a minha comoção, cujos sinais são visíveis. A primeira dificuldade que eu encontro em falar no rádio é ter o que dizer, é ter assunto. Porque os assuntos são infinitos, mas quando a gente chega na hora de agarrar um não é fácil.

Os assuntos têm que ser agarrados, de preferência, um de cada vez, não é? Podíamos falar sobre a questão do petróleo. Eu não poderia perder essa oportunidade, não acha? Afinal, estou “dialogando” com aquele que foi um dos mais ardorosos defensores da criação da Petrobras, tendo chegado a bater de frente com Vargas por conta disso, o que o levaria a ser preso por duas vezes. Consta ainda que toda sua incessante luta pela nacionalização da extração do petróleo teria sido um dos fatores decisivos que o levaram à pobreza, a problemas sérios de saúde e, enfim, a um profundo desgosto.

Monteiro Lobato: Sobre o petróleo. Bom, é um assunto em que eu era muito versado antigamente. Eu levei dez anos entendendo de petróleo e tirando petróleo, furando a terra, etc… Hoje eu noto que o petróleo fez um grande “progresso” (com tom de ironia). Em vez de estarem furando a terra, tão querendo esmola. Virou mais um pobre. O Brasil tem agora, além de seus pobres habituais, o pobrezinho do petróleo. Aí, eu já vi num lugar um caldeirãozinho com um letreiro: “Pró Petróleo!” São os estudantes que estão tirando dinheiro pra fazer discurso sobre o petróleo. De maneira que o que eu sei do petróleo é isso: que ele “evoluiu” muito desde furar terra, como no meu tempo, uma coisa muito perigosa. Eu fui pro exterior e pra cadeia por causa de andar furando a terra aqui. Por causa de agarrar o leão pela cauda. E eu agora estou contemplando essa “evolução”. Acho até que os brasileiros devem contribuir com seus níqueis no caldeirãozinho do petróleo. Já que o petróleo não sabe dar dinheiro de outra maneira que dê sob forma de esmola. Estaremos, então, com mais um pobrezinho aqui, ao lado de tantos que já temos (sempre com tom de ironia).

Poxa, nesse nosso Brasil do século XXI, definitivamente o senhor precisava estar aqui. Tanto o Brasil como o mundo precisam sempre de pessoas capazes de unir espírito combativo com sensibilidade. “É preciso ser duro, mas sem perder a ternura jamais”, diria Che. E é isso o que pessoas como o senhor passam a vida fazendo. Lutar, sim, porém sem jamais perder a capacidade de comover-se e comover. Sua vasta obra, com personagens que encantaram e ainda encantarão crianças de várias gerações (e, diria até, crianças de todas as idades), é algo que não me deixa mentir.

Monteiro Lobato: Eu nem me lembro mais como surgiram essas personagens… Faz tanto tempo! Eu lembro que tem a Emília, que é muito engraçadinha, mas não me lembro como que ela surgiu. Tudo isso são águas passadas.

Bem, a quantidade de informações na mente humana é mesmo absurda. Então, se ela não tivesse esse mecanismo chamado esquecimento, eu creio que a vida seria inviável. Nossa mente já foi criada de modo a peneirar da forma mais sábia possível os arquivos da memória. Certamente, como parece claro, o que fica sempre é o principal. O que nos tocou mais fundo e que representará a peça chave para o entendimento do todo e, conseqüentemente, para que possamos avançar para além das estradas já percorridas. Pena que, às vezes, não consigamos esquecer tudo o que queremos. Todas as mazelas que assolam o mundo e o nosso Brasil, sem dúvida, se nós pudéssemos não as guardaríamos na lembrança. Mas são assuntos que tem ser levantados sempre, não é? No Brasil dos anos 40, por exemplo, dizia-se que “vivíamos no país do suborno”. É até curioso dizer isso pro senhor hoje… Ah, como eu queria que as coisas tivessem melhorado nesse sentido!

Monteiro Lobato: Veja bem, eu tenho medo de me comprometer. Eu já fui pra cadeia e depois disso eu fiquei cauteloso. E, antes de eu emitir uma opinião, eu penso nas conseqüências. Porque há uma pessoa que já me proibiu de voltar à cadeia: minha mulher. E eu respeito muito as opiniões dela. Ela acha que já foi o bastante. E, graças aos seus conselhos, eu me tornei cauteloso. De maneira que eu não vou dizer nada sobre esse negócio de suborno… Mesmo porque não sei o que é suborno. Nunca fui subornado. Não tenho nenhuma experiência pessoal do caso. Agora, ouço dizer que é uma coisa muito “agradável”, que as pessoas conseguem grandes lucros por intermédio do suborno. Mas não vale a pena entrar num assunto que pode desrespeitar pessoas “respeitáveis” aí fora (mais uma vez as aspas ficam por conta de todo o contexto da fala e do visível tom de deboche na voz de Lobato). (…alguns minutos depois, bem sério) Cá entre nós, que ninguém nos ouve, eu não acredito em mais nada. E tenho verificado o seguinte: que só os homens que chegaram a essa filosofia é que são felizes. Porque todos que ainda acreditam em alguma coisa acabam levando na cabeça. Só os céticos absolutos é que acertam. De maneira que, cá entre nós que ninguém nos ouve, eu acho que esta é a verdadeira filosofia: não acreditar em nada! Porque tudo é duvidoso.

Concordo que a dúvida é algo vital. Quem não se dá o direito de duvidar, pára de pensar e, sem se dar conta, deixa de viver. Tirar do homem a dúvida seria tirar seu bem mais precioso e pôr por terra a diversidade de seu conhecimento. No entanto, vou ter que discordar de um ceticismo tão radical. Apesar de eu ter a consciência de que nenhuma verdade é absoluta, acredito ser fundamental para o ser humano criar ilusões proveitosas, escolhendo “meias-verdades” nas quais seja útil confiar. Se a humanidade não acreditasse no seu próprio futuro, onde estaríamos hoje? Com um pouco mais de esperança em soluções que possam viabilizar o bem comum, seriam possíveis até maiores acordos entre nações, não acha?

Monteiro Lobato: Eu acho que um acordo entre as nações será possível no dia em que todas tiverem armas iguais. Quando todas tiverem bombas atômicas de igual força, a harmonia entre elas vai ser absoluta. Porque o que causa diferenças entre os povos é a diferença dos armamentos. Enquanto uma tiver bomba atômica e a outra não, a que tiver bomba atômica usará da sua superioridade. Quem tem força, abusa. Agora, quando falta a força, então todos ficam muito bonzinhos. O que está faltando ao mundo, para o restabelecimento da paz, é apenas isso: bomba atômica para todos! No dia em que chegarmos a isso, todos os problemas estarão resolvidos. E viraremos, então, uns carneirinhos, todos cordeiros (novamente irônico).

Bem, parece que não é exatamente esse o ideal, né? Falemos, então, de idealismo. Essa coisa que faz parte de sua história. Essa coisa que move o mundo. Creio que jovens sem ideais deixam um pouco perdido o sentido da palavra juventude. É nessa época que precisam aflorar motivações que permitam a construção de uma vida. O senhor foi um jovem idealista e não acredito que, sem isso, teria chegado aonde chegou. Mas sei que o idealismo sozinho não basta. Por conta de idealismos ocos, sem estruturas, interna e externa, fortes o suficiente para fazê-los vingar, o mundo já viu muitas mentes jovens e brilhantes se perderem das piores formas. Sei, portanto, que há um algo mais. Um ingrediente que faz com que a pessoa possa romper a barreira entre o idealismo da juventude e uma velhice que lhe confira respeito. Algum palpite?

Monteiro Lobato: Crescer e aparecer. Esta é uma condição essencial. Antes que este jovem cresça e apareça, ele não poderá ser nada. Crescendo ele alcançará a maturidade, alcançando a maturidade ele dará tudo de si, ele porá em relevo todas as qualidades latentes que possua. E, se de fato ele tem qualidades, esse jovem aparecerá. Se ele não tem qualidade, a maturidade servirá para revelar isso, e ele não aparecerá. De maneira que o aparecimento de um jovem, em especial no mundo das letras, é uma coisa que depende exclusivamente das qualidades naturais desse jovem. Se ele tiver qualidades boas, ele vencerá. Se ele não tiver qualidades boas, ele fracassará e com muita justiça. É isso o que pensa o velho Lobato com sua vasta experiência acumulada.

Experiência. Uma bela palavra. Acho que estou no mundo para isso mesmo: para experimentar! E, ainda jovem, do que eu mais me arrependo não são daquelas experiências que explodiram na minha frente, mas daquelas que eu não vi explodir pelo medo de tentar. Penso que quem muito quer mudar o passado não deve gostar muito da pessoa que é. Afinal, foi o passado que nos fez como somos, ele é irreversível, e precisamos conviver com o espelho. Gosto de quem sou, por isso eu sou grata a cada tijolo quebrado que ajudou a me construir. Voltaria à adolescência e levaria a mesma falta bem na hora que eu ia chutar ao gol na pelada dos times do CPII. Meu joelho não seria o mesmo sem aquilo. Voltaria à infância e tropeçaria com minha bicicleta naquela mesma pedra que deixou esta marca, quase invisível, logo abaixo do meu nariz. Mas eu sei que ela está lá. E gosto de lembrar o dia em que meus amigos saíram correndo para avisar minha avó que eu estava desacordada na calçada. E o sorriso deles depois ao ver que eu estava bem? E se eu não tivesse caído, como teria a lembrança daqueles olhares? Voltaria a engatinhar só para dar com a testa na mesma quina de porta. Uso franja pra esconder a pequena cicatriz. Pensam que é charme… É, definitivamente, eu faria tudo de novo sem medo de ser feliz, porque tudo foi como tinha que ser. E as coisas boas então? Ahhhhhhh!!!!! Faria tudo de novo!

Monteiro Lobato: Bem, eu talvez voltasse à mesma profissão. Porque há nela uma coisa que me seduz muito: o interesse que as crianças revelaram por uma parte da minha obra, a parte infantil. O grande número de cartas de crianças que eu recebo, a sinceridade do que elas dizem, e o fato de virem não só do Brasil como de outros países, sobretudo dos países de língua espanhola, me fazem crer que se eu voltasse, se eu fosse viver de novo a minha vida, eu ia entrar pelo mesmo caminho. Porque não creio que em qualquer outro setor fosse possível eu ter as mesmas compensações que tenho com as crianças. Ainda agora recebi aqui a mãe da Lilidet. Essa Lilidet é uma menina encantadora, que prometeu me visitar. Eu estou ansiosamente à espera da visita da Lilidet. Eu considero uma visitinha da Lilidet um prêmio. Ora, são inúmeras as crianças que me visitam. Eu considero cada uma delas um prêmio. De maneira que eu sou um sujeito muito premiado. E um sujeito que se acostumou a ser muito premiado numa vida, se voltar outra vez ao mundo ele quer continuar a ser.

Sabe que, às vezes, eu desejo voltar a ser criança? Ainda que eu nunca tenha deixado de ser… Mas era só para voltar a ouvir as histórias de um certo “Sítio do Pica-pau Amarelo” antes de dormir…

Monteiro Lobato (rindo): O meu maior desejo neste momento seria ver este locutor pelas costas e eu já lá em cima no meu apartamento – e na cama – para descansar dessa sova que levei hoje!

07 de Julho de 2009,
Ana Helena Tavares

criado por Ana Helena Tavares    21:43:23 — Arquivado em: Diálogos, Proseando — Tags:,

3.7.09

Sobre abusos e leviandades



Impressiona-me a facilidade com que FHC atribui a Lula adjetivos como “leviano”, “imprudente”, “irresponsável”.Um ex-governante que nega seus oito anos de neoliberalismo, um partido que não sabe onde está a democracia, muito menos a social e que, se dependesse deles, tinham vendido a Petrobras, convenhamos, não podem falar de irresponsabilidade ou imprudência. A um ex-presidente que fala sem pensar ao ponto de soltar uma das declarações mais levianas que já ouvi – “Ai, que saudade do governo militar, onde eu podia falar”? - o que resta?

Por Ana Helena Tavares

“O presidente Lula, às vezes, abusa das palavras. Sabe que, se o presidente do Senado eventualmente renunciasse, haveria uma nova eleição. Eu lamento que o presidente diga coisas tão levianas”. Essa foi uma das últimas declarações públicas de nosso falastrão ex-presidente FHC na última quinta-feira, 02 de Julho. Nem pra comédia pastelão serve.
FHC é de tão triste figura que nem sequer percebe que há muito já perdeu a graça. Até para “abusar das palavras” é preciso coerência, é preciso classe. Uma classe que muitos desfilam pelos quadros da Sorbonne, mas raros são os que saem de lá para aplicá-la nas ruas. Deve ter sido lindo para os alunos de “Monsieur FHCÊ, o príncipe dos sociólogos”, aprenderem nas cadeiras da sacrossanta universidade parisiense os ensinamentos de Marx e, anos mais tarde, em 2002, ao final do governo neoliberal de FHC aqui no Brasil, ouvirem dele: “Nunca houve nenhuma chance de neoliberalismo aqui. Este é um país muito pobre e o Estado sempre terá um papel importante na atenuação de diferenças sociais.” (declaração dada ao “Financial Times”). Acho que ele queria que a gente risse, mas nem por isso.
Aí vem FHC criticar Lula pela defesa de Sarney. Curioso. Durante bom tempo do governo FHC, Sarney servia para ser aliado. Unha e carne. Tenho certeza que, quanto a Sarney, se já não prestava naquela época, pouco mudou de lá pra cá. É absolutamente o mesmo. Ah, só que o jogo político se inverteu. Sarney já não serve mais para FHC e para seus abusos. E, caso a saída dele sirva para desestabilizar o atual governo, ótimo. A que papel FHC tem se prestado nos últimos anos senão a tentativas vãs de criar um descrédito sobre a figura de Lula para ver se alcança uma nesga de esperança de voltar a ter alguma importância na cena política brasileira? Isso é o que eu chamo de pensar no país.
No jogo pesado da política reforçado pela numerosa parcela medíocre da imprensa que se vende a ele, não há altares de pureza, há palanques até embaixo de tapetes. É um jogo de causar inveja ao mais maquiavélico jogador de pôquer. Roberto Marinho entendia dos dois jogos. FHC lecionou sobre Maquiavel. Conhece bem os tortuosos túneis da política (ou seriam “passagens secretas”?), aqueles da “arte” do bem encobrir, dos “alguéns” a proteger. Por tudo isso, desconfio sempre muito de “demonizações” exacerbadas, qualquer que sejam elas, ainda que, como é o caso de Sarney, a pessoa não seja flor que se cheire. Isso porque, aqueles que hoje levantam a voz contra ele fazem parte do mesmo jardim.
Ah, como eu queria que o problema se resumisse à queda do presidente do Senado! Seria muito mais fácil, só que, para a coisa ser justa, muitos precisariam cair com ele.
Senão vejamos… Por que será que ninguém ainda parou para assumir de onde se origina a alçada das irregularidades encontradas em contratos, atos administrativos e passagens aéreas no Senado? Tudo isso está (ou deveria estar) sob os olhares atentos da primeira-secretaria que, historicamente, é comandada pelo DEM. A atual gestão está aí para não me deixar mentir. O primeiro-secretário da Mesa Diretora do Senado é Heráclito Fortes (DEM-PI). Ou seja, parece claro que, se há contas a prestar, o DEM também tem que prestá-las. Mas isso não é falado pela imprensa, não é? Pra que?
Leviandades por leviandades… Impressiona-me a facilidade com que FHC atribui a Lula adjetivos como “leviano”, “imprudente”, “irresponsável”. Ora, a declaração de FHC sobre Lula, dada ontem e que aparece no início deste texto, refere-se à fala de Lula de que “o PSDB tenta ganhar no tapetão ao pedir o afastamento de Sarney”. Há alguma mentira aí, “Monsieur FHCÊ”? Aliás, de tapetão o senhor entende, não é? Conte aqui só para a gente… Como foi mesmo que o senhor conseguiu o apoio da maioria dos deputados para a aprovação da sua reeleição em 98, sem uma consultazinha popular sequer? Ah, já sei, é que o senhor sempre distribuía balas no Congresso no dia de São Cosme e Damião, não é?
Um ex-governante que nega seus oito anos de neoliberalismo, um partido que não sabe onde está a democracia, muito menos a social e que, se dependesse deles, tinham vendido a Petrobras, convenhamos, não podem falar de irresponsabilidade ou imprudência. A um ex-presidente que fala sem pensar ao ponto de soltar uma das declarações mais levianas que já ouvi – “Ai, que saudade do governo militar, onde eu podia falar”? - o que resta?
Só merecia mesmo retornar à Sorbonne e perceber que, hoje em dia, os alunos de lá preferem ouvir o Lula.

03 de Julho de 2009,
Ana Helena Tavares

criado por Ana Helena Tavares    17:02:10 — Arquivado em: Artigos — Tags:, ,

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