Traços de Estilo

“A poesia confunde-se com a prosa da mesma maneira que o poeta confunde-se com o homem da rua e já não pode nem deseja reivindicar para si a condição de eleito dos deuses.” (o poeta Gullar) “É preciso levar em conta as palavras que você escolhe, cuidar de cada sentença. É preciso ser sensível ao sentimento das pessoas.” (o jornalista Talese)

27.5.09

Falta cair a tinta do rosto dos caciques

Ninguém vive sem política, afinal, bem dizia Aristóteles que “o homem é um animal político”. Dito isso, o problema está em como você a conduz. O saudoso Ulysses Guimarães, timoneiro da democracia, trazia escrito em seu leme: “Política não se faz com ódio, pois não é função hepática.”

Mas quantos acreditam nisso? Quantos se lembram que a política está nas menores coisas do dia-dia e, mais do que isso, quantos acham importante envolver-se com ela? Quantos param para pensar que quando alunos escolhem representantes para sua turma estão fazendo política? E tantos outros exemplos poderiam ser dados. Você algum dia já foi à reunião de condomínio do seu prédio? Pronto, é política pura! E aquele voto que você deu para escolher o capitão do time em que você joga futebol aos domingos? Pois é, mas política não é só voto, ela passa pela influência do homem sobre o homem e não dá para fugir disso.

Então, como pode ir para frente um país em que a população não acredita na força da política? “Ah, são todos corruptos! Como acreditar?”, ouve-se pelas esquinas. É clara a crise de credibilidade, principalmente, do poder legislativo. Mas será que não são possíveis mudanças capazes de resgatar a crença do povo nas instituições políticas?

Nossos sistemas partidário, eleitoral e de representação precisam ser seriamente revistos. Por exemplo, a legislação que define como devem funcionar os partidos ainda é a mesma do período militar. Talvez a modificação disso pudesse colaborar nesse resgate. Mas antes é preciso que se coloque uma discussão importante como essa em pauta, em vez de ficarem inventando CPIs.

Outra coisa quase nunca questionada é a “invenção” chamada Senado. Basta fazer uma rápida pesquisa para se constatar que a esmagadora maioria dos países democráticos do mundo não tem Senado. Mas hoje em dia o congresso brasileiro é que nem coração de mãe, sempre cabe mais um.

Voltando no tempo, relembrando nossa última Constituinte, que reuniu numa mesma causa nomes como Ulysses Guimarães, Leonel Brizola e Luís Inácio Lula da Silva, creio que ela significou um grande passo à frente no que toca aos direitos, mas deixou lacunas em alguns pontos bem críticos, tais como o que se pode chamar de “profissionalização da representação”. Ou seja, acredito que seria importantíssimo haver leis que forçassem os políticos a uma rotatividade de cargos.

Assim, os candidatos a vereador, deputado estadual ou federal, e, claro, os candidatos ao famigerado Senado (já que ele existe e certamente os seus 81 senadores estão dispostos a “defendê-lo” com todas as forças) não poderiam se reeleger indefinidamente dentro do mesmo cargo, como ocorre hoje. E, dessa forma, representação não seria equiparável a um emprego, o que creio que é um câncer para o parlamento. Isso porque leva muitos políticos a mirar de tal forma no mandato e nos outros tantos que poderão se suceder, que contribui e muito para instalar-se na mente deles uma das idéias mais venais que um político pode ter: a de que é ele o dono do mandato e não o povo. Nesse caminhar, onde fica a cidadania? Como cobrar do povo integração com aqueles que não se integram a ele?

Claro que certos políticos fazem diferença, afinal todas as regras têm suas exceções. Mas no país do “jeitinho”, do “adapta aí para não termos que implodir tudo”, de vez em quando também é bom rever as regras. E, por que não, implodir tudo para, em vez de viver de remendos, ver se surge algo aprimorado para as próximas gerações.

Inúmeras questões apontam para a importância de uma reforma política profunda. Fala-se muito na controversa questão do financiamento de campanha, que tem, claro, sua importância, mas acredito que o debate maior deveria ser em torno de como é possível se respeitar mais a igualdade dos direitos democráticos conferidos pela Constituição de 1988. Um cidadão deveria equivaler a um voto. Uma matemática simples que não necessariamente é respeitada.

A manipulação que permite a compra de votos é uma facada para a democracia. E nisso entram tantos interesses que temos aí uma aberração que ninguém parece interessado em criar dispositivos para controlar e, obviamente, punir.

O peso do poder econômico sobre o poder político e anomalias como as causadas pelas oligarquias partidárias não parecem ser pauta atraente para os pretensos reformistas de 2009.

Por que nossa última Constituinte foi um movimento tão progressista? Porque é preciso reconhecer-se derrotado para que seja possível começar de novo. E quando nossos parlamentares reconhecerão que estão derrotados? Quando terão tamanho gesto de grandeza em meio à miudeza de pensamento que ronda nosso Congresso? Quando cairá a tinta do rosto dos caciques?

Com essa visão medíocre e provinciana de olhos voltados para o bolso, que nos apresentam todos os dias a maioria de nossos parlamentares, fica muito difícil sonhar com uma reforma justa.

Mas se, ao menos, eles reconhecessem que a sociedade não pode ficar de fora dessa discussão, certamente já seria um grande passo. Se os políticos ouvissem um pouco mais o silêncio das ruas, seria certamente um bom ponto de partida. Sim, o silêncio fala e esse aí é o pior de todos: o da indiferença.

Por isso mesmo, passo maior ainda seria se a sociedade reconhecesse que essa discussão é sua. Um Congresso só quando de fato pressionado pelo clamor social é que toma decisões realmente elevadas. Assim foi em 88. E, além do mais, por que eles têm que deliberar sozinhos a forma como vão nos representar? Não tem muita lógica isso.

Só uma sociedade decidida a promover mudanças é capaz de lavar o rosto daqueles que escolheu para representá-la. Em outras palavras, ou legitima-se uma nova Constituinte, não nos mesmos moldes da última, mas, dessa vez, originária, formada por cidadãos do povo eleitos de forma exclusiva para isso, ou não parece haver saída. Cumprida sua missão, a Constituinte se autodissolveria, permitindo ao presidente convocar novas eleições, já com as instituições do Estado mais revigoradas.

Nunca é demais lembrar que “quem não se interessa por política, não se interessa pela vida”, concluiria o saudoso timoneiro.

27 de Maio de 2009,
Ana Helena Tavares

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23.5.09

O aflorar do ser - um ensaio para teatro

Livremente inspirado no texto “Apelo aos homens”, de Charles Chaplin.

ROTEIRO: Ana Helena Tavares e Maria Cecília Sousa.

A cena inicia-se com a personagem Carlitos entrando e sentando-se no banco de praça. Sua expressão é triste, pois ele demonstra estar completamente desgostoso da vida. Nitidamente, percebe-se em seu rosto um profundo descontentamento. (Seu pensamento então, é transmitido para o público em off)

Voz em off: – Não entendo. Não consigo e acho que nunca irei compreender o que se passa na cabeça da humanidade. Tenho pena, é verdade. Tenho muita pena do rumo que estamos tomando e me preocupo se haverá tempo para mudá-lo. Sabe, não nasci para governar nem dirigir nada! Este nunca foi um dos meus pedidos. Mas também não nasci para ser adestrado ou domesticado por ninguém. E talvez seja esse o meu grande erro… Ficar sempre com meias palavras, não querer prejudicar ninguém. Ganhei fama! Mas para quê? Não me respeitam como sou e, aliás, nem a si próprios respeitam. Se fosse só comigo… Ah! Não seria o grande problema, essa vida até já me foi generosa. O que me decepciona é ver os homens calarem-se diante de tanta incompreensão! E olha que nem estamos na época do cinema mudo! Se bem que naquela época ainda havia mais expressão. Esses olhos que outrora sonhavam sorrindo, hoje choram diante da triste realidade do mundo.

(CARLITOS PRESENCIA CENAS DE VIOLÊNCIA E DESCASO, QUE OCORREM NA PRAÇA NO MOMENTO EM QUE ELE ESTÁ SENTADO NO BANCO: UM ÔNIBUS QUE NÃO PÁRA AO VER UMA VELHINHA FAZER SINAL; UM ASSALTO; E UMA MENINA QUE VEM LHE PEDIR ESMOLA)

Voz em off (CARLITOS LEVANTA-SE E DIRIGE-SE AO PÚBLICO):
– Chega! Não suporto tamanha dor!
(EM SEGUIDA, DESABA ESMORECIDO SOBRE O BANCO. ENTÃO, SUBITAMENTE A SUA ALMA SE MATERIALIZA EM DUAS PERSONAGENS, QUE EMERGEM POR DETRÁS DO BANCO)

1ª voz: – Veja só, sua malvadeza, o que fez com este homem! Quase o levou ao desvario! Não fosse eu a conduzi-lo pelo caminho certo e você, com certeza, já o teria consumido.

2ª voz: – Não. Não mesmo! Para falar a verdade, boa samaritana, não tenho pressa em dominá-lo. Aliás, qual o prazer que teria uma criança em brincar com todos os brinquedos tão rapidamente? Antes o seu prazer está em desfrutar e se deliciar com a verdadeira alegria que cada brinquedo lhe proporciona. Assim sou eu! Divirto-me muito mais aos pouquinhos, deliciando-me com o efeito de meu veneno. Recebo o meu galardão quando vejo aflorar no pensamento das pessoas a ira e o descaso. Por que esta cara? Não sou tão má assim… Já me cansei dessa vida, agora sou apenas negligente!

1ª voz: – Sinto-me perdida ao dividir o mesmo corpo com você. Mais ainda, em ser a sua outra face. Mas não vou desistir! Aquele que pega no arado e olha para trás, retrocede para a perdição. Não a desprezo, nem a odeio. Todos temos o desejo de nos ajudarmos uns aos outros. E eu quero ajudá-la a livrar-se de tanto ressentimento.

2ª voz: – Pensa que sou maluca? Que estou deitada diante de algum analista?!! Não preciso da sua compreensão. Rejeito seu sentimento de pena! Este mundo não é digno de misericórdia. Pelo contrário, nunca houve melhor momento para as minhas bem-aventuranças. Nunca encontrei em coração humano tamanha liberdade para me expandir como agora. Basta apenas um pequeno descuido seu e então, a vingança, a desconfiança, os maus olhos surgem nas mentes humanas.

1ª voz: – Agora entendo o porquê de tanta violência nesse mundo, o porquê de tanta corrupção e imoralidade. Você governa a mente dessas autoridades que se deixaram corromper pela sua amargura. Não sou como você, que invade a vida dessas pessoas, entrando sem ser convidada. Eu bato à porta e se houver espaço, entro e faço morada proveitosa.

2ª voz (BATENDO PALMAS DE FORMA IRÔNICA): – Vejo que é bem dotada de inteligência! Mas não soube louvar-me como mereço! Não apenas sondo o pensamento dos poderosos, como também a mente de seus dependentes, fazendo com que se voltem uns contra os outros. Ou então, que aceitem passivamente suas imposições, como verdadeiras marionetes!

1ª voz: – Não. Isto nunca! Jamais serei passiva diante de suas atrocidades. (DIRIGE-SE AO PÚBLICO) “Soldados, não vos entregueis a esses brutos… Homens que vos desprezam e vos tratam como escravos, arregimentam as vossas vidas, impondo-vos atos, sentimentos e pensamentos; são eles que vos adestram, obrigam-vos a jejuar, tratam-vos como gado e servem-se de vós como de carne para canhão! Vós não sois carne! Sois homens com alma e matéria.”

2ª voz: – Vão apelo. Tarde demais. Se pelo menos tivesse ensaiado esse textinho na época da bomba atômica, talvez houvesse maior repercussão. Despertar agora com o mundo assolado pelo neoliberalismo, já não tem mais graça. Até a essência da maldade eles conseguiram desmoralizar. Já falei qual é a boa… Não é lucro pra mim criar uma nova bomba como as de Hiroshima e Nagasaki. Essas grandes coisas levam o povo a refletir. Minha glória se desencadeia nas pequenas raposinhas, como por exemplo, nos generosos desfalques cometidos pelas autoridades, nas guerras em alguns países, na fome e deixa-me ver… Ah! A nova diversão agora são os chamados “homens-bomba” ou, melhor, “guerreiros suicidas”! Explodir pizzarias, tacar avião em prédio e ver a coisa pegar fogo… Humm… Isso sim é divertido!!

1ª voz: – Diverte-me, sabia? Nunca me tirará do sério. Chateei-me apenas quando falamos sobre os homens, pois sei que não são de má índole e que são influenciados por você. Mas alegro-me quando vejo que este homem luta contra o seu próprio ego. (REFERINDO-SE AO CARLITOS) Porque se minha causa estivesse perdida, ele não teria chegado ao ponto de nos pôr para fora. E ainda que você tente corromper sua natureza física, estarei a cada dia renovando o seu interior.

2ª voz: – Doce ingenuidade! Vejo que sua vida acadêmica não anda nada bem. Eu falei: decoreba não é mesmo o caminho! Tudo muito bem ensaiadinho, comovente mesmo… (PEGA O JORNAL QUE ESTÁ EM CIMA DO BANCO E ABRE, MOSTRANDO AO PÚBLICO) Extra! Extra! O mundo já não se comove mais como antigamente! (ATIRA O JORNAL PARA TRÁS) Vejo que seus contatos andam mesmo dormindo no ponto… (ENCOSTA-SE NO PONTO DE ÔNIBUS E, IRONICAMENTE, FINGE DORMIR)

1ª voz: – Sua ironia chega a me dar voltas no estômago. Tenho pena de você, muita pena. Mas não posso ajudar quem não quer ser ajudado…

2ª voz: – Fique sabendo que estou muito bem assim! Já disse que se tem algo que não preciso é de sua compaixão. Não me venha novamente com essa!

1ª voz: – O que lamento é esse ódio que a consome. Tire isso de você! Você tem raiva, e somente os que não são amados cultivam esse sentimento. Sim, os que não são amados e os infelizes.

2ª voz: – Acredita que no mundo há mesmo lugar para todos? Eu faço de tudo para que o homem se deleite dos prazeres da vida e o que recebo em troca? A ingratidão humana!!! Desista de querer conscientizar os outros! Só o que se recebe é um pé nas costas…

1ª voz: – Você não sabe o que diz. Se insisto é porque tenho esperança! E não penso em perdê-la! Faço meus os ideais de Policarpo Quaresma: “Luto e até morro pela causa, mas jamais viverei sem razão!” E minhas únicas armas (COMEÇA A RODAR EM VOLTA DA 2ª VOZ) são o amor, a fraternidade, a compreensão, a igualdade, a amizade, o respeito e a paz.

2ª voz: (ENQUANTO A 1ª VOZ RODA EM TORNO DELA, ESTA VAI ENTRANDO EM DESESPERO E, GRADATIVAMENTE, VAI CAINDO AO CHÃO) Não! Não! Nãooooooo!!!!!!!!

(A PERSONAGEM CARLITOS LEVANTA-SE, DIRIGINDO-SE À FRENTE DO PALCO, FORMANDO UMA RODA COM AS DUAS VOZES. INICIA-SE, ENTÃO, A COREOGRAFIA)

Para não dizer que não falei das flores
(Geraldo Vandré)

Caminhando e cantando e seguindo a canção
Somos todos iguais, braços dados ou não
Nas escolas, nas ruas, campos, construções
Caminhando e cantando e seguindo a canção

Vem, vamos embora,
Que esperar não é saber
Quem sabe faz a hora,
Não espera acontecer

Pelos campos, a fome, em grandes plantações
Pelas ruas, marchando, indecisos cordões
Ainda fazem da flor seu mais forte refrão
E acreditam nas flores vencendo o canhão

Vem, vamos embora,…

Há soldados armados, amados ou não
Quase todos perdidos de armas na mão
Nos quartéis, leis ensinam antiga lição
De morrer pela pátria e viver sem razão

Vem, vamos embora,…

Nas escolas, nas ruas, campos, construções
Somos todos soldados, armados ou não
Caminhando e cantando e seguindo a canção,
Somos todos iguais, braços dados ou não

Os amores na mente, as flores no chão
A certeza na frente, a história na mão
Caminhando e cantando e seguindo a canção,
Aprendendo e ensinando uma nova lição

(FORMA-SE NOVAMENTE UMA RODA, DE FORMA QUE A 3ª VOZ, QUE ATÉ ESSE MOMENTO ESTAVA ESCONDIDA ATRÁS DO BANCO, ESTEJA EM SEU INTERIOR E SURJA DE DENTRO DELA)

3ª voz: – “Aos que podem compreender-me, direi: Não desespereis. A infelicidade que caiu sobre nós não é mais do que o resultado de um apetite feroz, o azedume de homens que temem a via do progresso humano. O ódio dos homens passará e os ditadores morrerão; o poder que usurparam ao povo, voltará ao povo. E quanto mais os homens souberem morrer, souberem ser humildes, menos a liberdade desaparecerá! Trazeis o amor e a humanidade em vossos corações!” Paz no mundo!!!

(DECLAMAÇÃO EM DIFERENTES LÍNGUAS DA SEGUINTE FRASE: “PAZ NO MUNDO!”)

Somos todos iguais nesta noite
(Ivan Lins)

Somos todos iguais nesta noite
Na frieza de um riso pintado
Na certeza de um sonho acabado
É o circo de novo
Nós vivemos debaixo do pano
Entre espadas e rodas de fogo
Entre luzes e a dança das cores
Onde estão os atores?

Pede à banda pra tocar um dobrado
Olha nós outra vez no picadeiro
Pede à banda pra tocar um dobrado
Vamos dançar mais uma vez

Pede à banda pra tocar um dobrado
Olha nós outra vez no picadeira
Pede à banda pra tocar um dobrado
Vamos entrar mais uma vez

Somos todos iguais nesta noite
Pelo ensaio diário de um drama
Pelo medo da chuva e da lama
É o circo de novo
Nós vivemos debaixo do pano
Pelo truque malfeito dos magos
Pelo chicote dos domadores
E o rufar dos tambores

Roteiro escrito em 2001.

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18.5.09

Uma pergunta para Platão - crônica

Há muitas pessoas querendo abandonar a condição humana, achando possível serem confundidas com Deus.
Vejo isso, olho aos céus, e fico me perguntando se será um engano meu. Mas, quando olho à minha volta, vejo que realmente tem gente que não se importa em nada com as leis da natureza e parece querer ocupar definitivamente o lugar divino.
Esse tipo de pessoa deve pensar que ninguém vê seus erros, que é sempre possível escondê-los do mundo, querendo passar constantemente a imagem de que são melhores que as outras pessoas. Será que eles não vêem as câmeras atrás do muro?
Há até quem ache que ser imortal pode fazer alguém feliz. Não sou capaz de concordar com isso. Afinal, a morte faz parte da vida tanto quanto não há tristeza sem alegria. Tudo o que existe está interligado.
Difícil falar sobre o futuro de uma sociedade plural em que vejo gente sonhando em se coisificar. Em todo o mundo, o ser humano está, cada vez mais, querendo manipular sua própria condição. Não são muitos os que aplaudem o diferente. Muitos são os que se rebelam por acharem-se limitados e, então, querem limitar-se de vez ao tornarem-se perfeitos. Vai entender…
Será que preferem ser bijuteria em vez de pérola? A pérola é uma ferida que a ostra curou, trata-se de uma dor superada. O resumo da história é assim: se corpos estranhos – diferentes – não provocassem machucados nas ostras, jamais se formariam pérolas. Tropeçar na infância, quebrar a cara na juventude e colecionar erros na estrada produz pérolas. Elas têm brilho intenso, são absolutamente lindas e cada uma delas é única. Bijuterias são produzidas em massa, que nem as linhas de produção nas fábricas de Henry Ford.
Aliás, a linha de manipulação genética que visa criar uma geração de “super-bebês” guarda mesmo muita relação com a robótica linha de montagem de uma fábrica. Errar é o oitavo pecado capital. Todos os parafusos têm que estar em seus lugares numa velocidade jamais imaginada por Chaplin. Isso se é que são precisos parafusos.
E, nisso, será que não se permitem a grande magia do baile da vida: perder o passo, sacudir a poeira e retornar ao salão? Nunca conseguirão me convencer de que viver tem alguma graça sem isso.
Então, para que eu iria querer já nascer um robô com o meu código genético todo manuseado pelas mãos da ciência, sabe-se lá com que intenções – imaginem todos os interesses econômicos que esses projetos envolvem – correndo o risco de eu passar a vida sem conseguir dançar? Não, eu não ia querer isso para mim, não quero para meus descendentes e espero que a humanidade perceba a tempo o quanto pode estar indo longe demais em seus anseios insanos.
Nem, tampouco, vejo sentido algum em sair por aí me dizendo perfeita, me achando a tal, quando a graça toda está em ser de carne e osso, e errar. Será possível que a humanidade não enxerga que todos os maiores acertos da história foram erros antes?
Olhe um pouco para o passado. De vez em quando, é bom para tentar entender o presente, ou ao menos para enxergá-lo por outro prisma. Sua vida teria sido a mesma sem toda a dança de emoções, que deixou tantas seqüelas? Você realmente acha que deveria ter sido diferente? E todos os sonhos? É ou não especial suspirá-los na varanda? Como tê-los se o quebra-cabeça já viesse completo?
Ah, meu Deus, muito obrigada por me fazer errônea! Vou vivendo assim até quando o Senhor quiser. Sei que morrer é algo natural e da morte não escapo.
Meu Deus, Platão está aí por perto? Eu adoraria saber se hoje ele queria ser vivo.

17 de Maio de 2009,
Ana Helena Tavares

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16.5.09

Uma pergunta para Platão - poema

Há quem queira ser Deus e abandonar o humano
Vejo isso, meu Deus, será engano?
Tem gente querendo ocupar o Seu lugar, e de vez!
Não se importam com Suas leis!
Pensam que ninguém vê quando erram, que fica tudo no escuro
Será que não vêem as câmeras atrás do muro?
Há até, veja só, quem ache que imortalidade traz felicidade
Nessa hora minha cabeça dá nó, isso não pode ser verdade
A morte faz parte da vida tanto quanto a tristeza não existe sem a alegria
Estão querendo manipular tudo, meu Deus, onde vai parar tanta rebeldia?
Não conheço coisa mais maravilhosa que o tropeço de uma criança
Pra que eu iria querer nascer um robô que não sabe o que é dança?
Dança de emoções, que doem e deixam seqüela
Dança de sonhos, suspirados na janela
Sou errônea, meu Deus, e sei que da morte não me esquivo
Será que Platão hoje queria ser vivo?

16 de Maio de 2009,
Ana Helena Tavares

Uma pergunta para Platão no site O melhor da web

Uma pergunta para Platão - poema no Recanto das Letras

criado por Ana Helena Tavares    21:23:08 — Arquivado em: Algum lugar entre a prosa e a poesia, Todos os poemas — Tags:, , , , ,

14.5.09

Sábado de Aleluia

-> Para o meu amigo Anderson de Souza, que adora me dizer: “Tá vendo aquele assunto ali? Mete a caneta, menina!!! Cria polêmica!!!”

Um povoado pobre da Baviera alemã, uma família sem ambições. Era Sábado de Aleluia, quando nasceu o menino. Na Páscoa foi batizado.

A mãe era uma bela cozinheira de vastos olhos claros, o pai um comissário de polícia do Reich. E aquele abençoado menino tinha também um priminho, que sofria de síndrome de down e foi morto aos quartoze anos pelo regime nazista.

Aqueles pais muito lutaram para, em tempos de fome, prover estudo ao menino e à sua irmã mais velha, Maria. Aquele pai muito lutou para, em tempos de guerra, ensinar aos filhos que o nazismo só trazia sangue.

Ainda assim, o menino, já jovem, ao invés de lutar contra aquele regime assassino que havia matado seu primo, alistou-se num movimento hitleriano. Foi compulsório?

Talvez esteja aí a mostra de todo o senso de justiça que o permitiu se tornar padre. A importância de pronunciar constantemente a palavra perdão também deve vir de lá.

Uma praça nobre no coração de Roma, muitas famílias, muita esperança. É Sábado de Aleluia. Na Páscoa, o menino estará na sacada.

13 de Maio de 2009,

Ana Helena Tavares

Obs. importante: Este é um conto de não-ficção. Todos os personagens são reais e todas as informações sobre a história de vida deles constam em registros biográficos.

Sábado de Aleluia no Recanto das Letras

criado por Ana Helena Tavares    09:23:27 — Arquivado em: Contando Histórias, Contos — Tags:, , , , , , , , ,

12.5.09

Os políticos, o mar e a “cronometria jornalística”

O aperto de mão na política guarda inúmeros simbolismos e ao mesmo tempo nada vale. Pode significar acordos de paz firmados entre quatro paredes enquanto inocentes morrem nas ruas. Pode ser facilmente trocado entre dois risonhos inimigos que amanhã se insultarão. Pode ser “moeda de troca” pra interesses de todo tipo. Até de vitrine ele serve, com acabamento de óleo de peroba.

Observem que até na China os políticos conseguiram desmoralizar o aperto de mão. Recentemente, estive lendo uma matéria veiculada por um dos inúmeros blogs do serviço “WordPress” que falava sobre a visita do vice-presidente chinês, Xi Jinping, a Macau por causa de eleições para o cargo de chefe executivo da chamada RAEM (Região Administrativa Especial de Macau) e dizia: “a duração dos apertos de mão enquanto “medidor das bênçãos” não funcionou, especialmente em relação aos “quatro favoritos”. Xi trocou apertos de mãos pelo menos duas vezes com todos eles e, salienta o matutino, tiveram todos duração semelhante: entre dois a três segundos,de acordo com a cronometria jornalística.”

Vamos por partes… Vejam que curioso… A duração de um aperto de mão cria a expectativa de funcionar como “medidor das bençãos”, ou seja, a quem o vice-presidente chegasse lá e apertasse a mão por mais tempo é porque era o favorito dele para o cargo.

Taí uma das maiores asneiras que eu já li em toda imprensa, brasileira e internacional: “cronometria jornalística” para os apertos de mão! Era mesmo o que faltava. Só que Xi Jinping tratou de frustrar isso. Saiu apertando a mão de todos os candidatos. E o pior: apertou duas vezes a mão de todos e em apertos com duração semelhante! Apertos e cronômetros devidamente desmoralizados.

Entretanto, no aperto de mão, ainda pode-se dizer que há uma “troca”, pelo menos duas mãos se tocam, ainda que nem sempre se apertem mutuamente… Mas o que dizer do tapa nas costas? Tapinha, para os íntimos. Coitado desse. Tenho até pena. Tornou-se algo totalmente vicioso no meio político.

Há uma fala, cujo autor é desconhecido, mas que circula há muitos anos pela internet e que exemplifica bem isso: “Se você receber um tapinha nas costas de alguém na rua, provavelmente será um candidato. Agora, se ele começar a criticar o prefeito ou os vereadores, pode ter certeza.”

Um gesto que, entre duas pessoas que nutrem verdadeira amizade, significa carinho, afeição, e que se tornou símbolo-mor da hipocrisia na política e na sociedade de um modo geral. É aquele “tapinha” debochado que diz: “Tô aqui te cumprimentando, mas, óh, tô levando vantagem em tudo, viu?”.

É nessa gana do “levar vantagem em tudo” que político brasileiro troca de partido como quem troca de roupa. Fidelidade partidária deve ser considerada uma coisa muito atrasada. A ordem do dia é experimentar…

Experiências no melhor estilo “quem dá mais”. Quem dá mais dinheiro, quem dá mais cargos e até quem dá mais mídia. Ou vocês não sabiam? Político é um bicho carente.

Um ser carente e incoerente. Pois é, são complexos mesmo. Claro que não são todos. Mas a maioria consegue oscilar de opinião mais do que uma mulher escolhendo o vestido de noiva.

O triste é saber que, em muitos dos casos, não foi a opinião deles que mudou. Foi o poder que chegou de mansinho e, sem nem apertar a mão, só lhes deu um tapinha nas costas.

Mas a sede de poder é tamanha que não duvido até de um dia ver apertarem as mãos os ministros da marinha de dois países sem praias. Afinal, protocolos são protocolos e, se aquele acerto der lucro, se trouxer vantagens, pra que mesmo é preciso o mar? Bem, talvez a “cronometria jornalística” tenha a resposta.

12 de Maio de 2009,
Ana Helena Tavares

criado por Ana Helena Tavares    16:21:48 — Arquivado em: Artigos — Tags:,

5.5.09

O doce maior da vida

- Para minha mãe, Maria do Céu, o meu maior doce, e para todas as verdadeiras mães do mundo.

Dentro do instinto biológico ideal, toda mulher deveria nascer mãe. Afinal, todas deveriam nascer para reproduzir. Só que algumas conseguem, outras não. E, além disso, quem disse que reproduzir é ser mãe?

Sinceramente, não acredito que o famoso “instinto maternal” seja comum a todas as mulheres. Não creio que toda mulher nasça com o instinto social (se é que cabe este termo) de ser mãe. Se assim fosse, como seriam possíveis todos os casos de mães que renegam, maltratam e até matam seus filhos? Como chamar aqueles seres de mães? Como é possível dizer que aquelas pessoas nasceram mães? A sociedade pode ter corrompido algumas, mas há aquelas que parecem já ter nascido com raiva de bonecas…

Dizem que o ato de brincar de boneca é o maior ensaio para as futuras mães. Mas há meninas que só gostam de brincar de carrinho e nem por isso significa que vão torna-se péssimas mães. Para muitas mulheres o seu maior sonho é vir a ser mãe. Outras, porém, preferem ter como ambição uma carreira de sucesso ou um amante insaciável - sem jamais pensar em ter filhos. Nem todas as mulheres, fazem uma festa a uma criança ou brincam com elas. Como todos nós sabemos, não é difícil encontrar muitas que repudiam crianças, quase como se as mesmas fossem um estorvo a evitar a todo o custo.

A sociedade mudou, é claro, mas isso não quer dizer que antes todas nasciam mães e agora não. Desde sempre houve desvios. O fato é que o termo mãe é grande demais para que se possa afirmar que toda mulher já nasce com ele. Não, não nasce. Mãe é uma das menores palavras da língua portuguesa e é a que talvez tenha um dos significados mais complexos. Não há mãe sem sonhos construídos em conjunto.

Sendo assim, não posso dizer que toda mulher já nasce podendo ser considerada mãe. Pois, quando olho pro mundo à minha volta, não posso crer que todo ser humano, homem ou mulher, já nasça amando. Na verdade, não nasce amando nem odiando. Sentimentos são edificados tal como castelos. E só o real amor pelos filhos torna uma mulher mãe.

Sendo biológica ou adotiva, quando a mãe é mãe, atribui todo o amor que tem dentro de si àquela criatura condicionada ao seu encanto – e a relação com seus filhos depende tanto do toque carinhoso na cria como da capacidade de uma “troca de olhares” a léguas de distância.

Não, eu não posso dizer que sou mãe. Sequer que sei o que significa ser. Posso no máximo fazer recortes da realidade que observo. Uma mãe, creio eu, está desde o simples gesto do pedaço de doce levado no quarto do filho até a crença inabalável que seus filhos são seu maior doce.

Tantas e tantas definições já foram dadas para as mães. Nenhuma delas alcança o que se passa no coração das verdadeiras mães ao perder um filho. Mário Lago, autor daquela conhecida música que tenta definir o que é uma “mulher de verdade”, disse certa vez num desconhecido poema: “É um fruto de sua vida / Um fruto que Deus lhe deu / Quem perde mãe já perdeu / o doce maior da vida”. Não resta dúvida que nossas mães são um doce inigualável. Mas arrisco-me a dizer que a dor da perda de uma mãe em nada supera a dor da perda de um filho. É uma questão de ordem natural das coisas. Como o próprio Mário Lago disse: o filho “é um fruto de sua vida”. É exatamente isso. E, nesse sentido, eu acrescentaria que as verdadeiras mães projetam em seus filhos um sentimento de imortalidade. O que gera uma sensação de perda de continuidade terrível a cada filho que morre.

Mãe é isso. É se doar de forma incondicional, vibrando mais com as vitórias dos filhos do que com as próprias, não se importando em até matar por eles, ou em deixar de respirar se for para o filho continuar perdendo o fôlego.

E isso não se vê em qualquer esquina.

05 de Maio de 2009,
Ana Helena Tavares

O doce maior da vida no Recanto das Letras

O doce maior da vida no blog do Patolino

criado por Ana Helena Tavares    22:31:38 — Arquivado em: Algum lugar entre a prosa e a poesia, Ampla homenagem, Crônicas — Tags:, , ,

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