Traços de Estilo

“A poesia confunde-se com a prosa da mesma maneira que o poeta confunde-se com o homem da rua e já não pode nem deseja reivindicar para si a condição de eleito dos deuses.” (o poeta Gullar) “É preciso levar em conta as palavras que você escolhe, cuidar de cada sentença. É preciso ser sensível ao sentimento das pessoas.” (o jornalista Talese)

25.4.09

Os óculos quebrados

Foto: Ana Helena Tavares, em 23 de Abril de 2009

Para minha amiga Isabela Guedes que, passeando comigo pelo calçadão de Copacabana, reparou que mais uma vez os óculos de Drummond estavam quebrados e me disse: “Você devia escrever algo…”

Eu vejo tudo desregrado
Numa sociedade tão cheia de louça
Veja que incoerência, meu caro…
Fazem exigência e têm os pés na poça

Mas vejo por um prisma distorcido
O meio me deu óculos e ele mesmo os quebrou
É tanta informação passando em meu tecido
Que há dias em que não sei nem quem sou

Vejo o povo colocar as leis e quem as aplica numa margem, ou seria um pedestal?
E mandar o espaço urbano, seio das causas sociais, pra outro rio…
Quem me dera que isso fosse só uma miragem hibernal!
Daqui a uns anos, eu não quero ver meu país chorando em lugar frio

A moda é ser hipócrita, virou sonho de consumo
Hipocrisia resolve tudo, dá status, virou troféu
Pro meu olhar qual pode ser o melhor rumo
Senão ficar querendo admirar o céu?

Mas poetas gostam de observar a sociedade
Por isso Drummond sentava-se de costas pro mar
Só me resta uma grande curiosidade:
Quantos juízes ele terá visto passar?

25 de Abril de 2009,
Ana Helena Tavares

Os óculos quebrados no Recanto das Letras

Os óculos quebrados no site “O melhor da web”

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10.4.09

O Pasquim e a oposição à objetividade

“Como era a reunião de pauta no Pasquim?”, perguntaram certa vez ao jornalista Luiz Carlos Maciel. “Reunião de Pauta?!?! No Pasquim?!?!”, foi a resposta.

A revelação foi feita durante palestra sobre Jornalismo Cultural no Centro Cultural Banco do Brasil, Rio de Janeiro, na quarta-feira, 08/04/2009. “Cada um enviava suas matérias, o Tarso (de Castro, editor do Pasquim) juntava tudo e transformava aquilo num jornal. Pronto!”, completou Maciel.

Pronto? Como “pronto”? Não faltava algo àquele jornal? Uma falta que proporcionou o seu sucesso. Algo que sobra à grande imprensa de hoje… O que seria? Objetividade!

Não falo de objetividade na linguagem. Aquela que – de forma totalmente imparcial – se apega exclusivamente ao objeto de análise. Isso é mito do jornalismo. “Conversa fiada”, como definiu o próprio Maciel.

Não, caros leitores, o jornalista, por mais neutro que tente ser, nunca consegue se desprender por completo do sujeito que é. Portanto, todo o relato já é – por natureza – subjetivo. E como seria bom se milhões de leitores e telespectadores entendessem isso…

Então temos aí que a objetividade à qual o Pasquim se opunha com todas as suas forças e à qual vemos a grande imprensa de hoje totalmente rendida é uma objetividade de outro tipo. É uma objetividade que vem de escolhas, interesses e, como não poderia deixar de ser, objetivos.

Nada tem a ver com o objeto a ser apresentado, ou em outras palavras, sua excelência: o fato. Esse, aliás, muitas vezes fica mesmo é relegado a décimo plano. Quem sabe ele aparecerá numa notinha de pé de página. Se der sorte.

E essa objetividade tem dono, sua santidade: o mercado. A ele, sim, o jornalismo deveria fazer oposição sempre…

Mas, aquele pra quem os donos de jornais rezam todas as noites, é capaz de tolher qualquer idealista numa reunião de pauta.

10 de Abril de 2009,

Ana Helena Ribeiro Tavares

O Pasquim e a oposição à objetividade no Recanto das Letras

O Pasquim e a oposição à objetividade na Revista Púlpito

Link pra este texto no Observatório da Imprensa

criado por Ana Helena Tavares    15:02:49 — Arquivado em: Artigos, Crônicas — Tags:, , , , , , ,

4.4.09

Sim, nós podemos!

Sim, nós podemos. E por que nós podemos? Podemos porque o mundo é um emaranhado de olhos que juntos não têm cor.

Cor, brilho, voz, palavra. Hoje ouvi uma senhora de 92 anos, D. Adozinda, esbanjando vitalidade, dizer que a palavra sempre foi sua maior arma. Foi com ela que sempre lutou e – mesmo nas derrotas – venceu.

Há 75 anos dando aulas de português, já passaram pelas mãos dela pessoas de todos os credos – de todas as cores. Contou rindo que já foi alfabetizada quatro vezes por quatro reformas ortográficas. Pelo entusiasmo demonstrado, certamente ainda passaria por mais quatro.

Seu brilho arrebatador no olhar acusa: ela nunca deixou de sonhar. Sim, ela tem um sonho. Faço idéia do sorriso que Luther King abriria ao saber qual. Ela sonha com um mundo em que as pessoas não nasçam para viver – mas para conviver.

Também hoje, eu soube que uma jornalista da revista inglesa “The Time” pediu a palavra em coletiva de imprensa para “desculpar-se” com Lula por ter olhos azuis. Não creio que colocar um presidente numa saia justa, fazendo esse tipo de ironia tendenciosa, seja papel de um repórter.

Tomando por base o ensinamento de D. Adozinda, o que dizer de Lula quanto à convivência? Olhos castanhos, azuis, verdes ou negros, para ele todos foram sempre dignos do mesmo respeito.

Foi assim que, depois de tantas lutas, ele se fez respeitar. Foi assim que chegou a 2009 vendo os olhos negros do chefe da Casa Branca apontarem para ele e dizerem: “Esse é o cara!”.

Sim, nós podemos. E quando nós podemos? Podemos quando percebemos que aos olhos do mundo só teremos cor se lutarmos.

03 de Abril de 2009,
Ana Helena Tavares

Sim, nós podemos! no Recanto das Letras

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