Traços de Estilo

“A poesia confunde-se com a prosa da mesma maneira que o poeta confunde-se com o homem da rua e já não pode nem deseja reivindicar para si a condição de eleito dos deuses.” (o poeta Gullar) “É preciso levar em conta as palavras que você escolhe, cuidar de cada sentença. É preciso ser sensível ao sentimento das pessoas.” (o jornalista Talese)

20.2.09

Quando o poeta se lê

- Dedico este pequeno ensaio a Affonso Romano de Sant’Anna, porque “escrever é formular nossos sentimentos”.

Quando o poeta se lê descobre que não quer ser super homem, não quer ser limitado por nenhum tipo de perfeição. Cada defeito, em cada letra, é o que o constrói. É o que o faz querer continuar.

Poesia não nasceu pra ser perfeita. Tal qual uma pintura que o pintor veja e… “Óh, caramba, faltou ali um passarinho”. Belo motivo pra fazer um quadro só com ninhos.

É que quando o poeta se lê recobre a si mesmo com o que veio de si. Seja alegria, seja tristeza, está tudo ali diante daquelas retinas. Umas mais fatigadas que as outras.

Quem é o poeta? Ele pode escrever em prosa e ter a poesia na alma. Ele pode escrever em verso e passar a vida proseando. Poetar é verbo, é carne, é o poder que todos nós temos de alcançar as nuvens. E, ao mesmo tempo, nos faz engatinhar como crianças pra dentro de nosso próprio interior.

E quando o poeta se lê, ele também vê ao redor. Vê muito. Vê quantos poetas há por perto, ou longe. Mas a geografia não entra nessa. Corações de poeta se atraem. Vocês têm dúvida?

De uma palavra escrita pode surgir um sorriso. Um sorriso que já se viu, já se sentiu em outros. E não me digam que sorriso não é poesia. Risadas? Sonetos puros. Com direito a verso alexandrino.

O choro então? Dali pode vir um hino. Hinos são poesia. Se cantados com a mão no peito nem se fala. Verdadeiras odes gregas. Ou troianas.

Na poesia até a guerra pode apaziguar.

Mas e a rima, e a métrica? Não, não é isso que faz um poema. Alexandrinos, haicais, versos brancos, o que importa é o sentimento. O olhar descomplicado.

O poeta escreve porque precisa se ler. Precisa beber do vinho que seus próprios pés pisaram. E não há nada como uma leitura bem direta que o diga: Tá lendo, né? Olha aí, você é isso!

16 de Fevereiro de 2009,

Ana Helena Tavares

Quando o poeta se lê no Recanto das Letras

criado por Ana Helena Tavares    22:10:40 — Arquivado em: Algum lugar entre a prosa e a poesia, Ensaios, Ensaios monográficos — Tags:, ,

8.2.09

Dialogando numa senzala

“Diálogo” com Castro Alves (trechos dele entre aspas e os meus em negrito).

“Donde vem? onde vai? Das naus errantes
Quem sabe o rumo se é tão grande o espaço?
Neste saara os corcéis o pó levantam,
Galopam, voam, mas não deixam traço.”

Venho de perto. Daqui mesmo. Aqui nasci.
Roubaram-me o rumo. Tudo é cansaço.
Mas naquele raio de sol,
Me apego e me refaço

”Bem feliz quem ali pode nest’hora
Sentir deste painel a majestade!”

Aquele raio é minha única vontade
O quero tanto e tanto
na mesma medida em que morro
tanto e tanto
Por isso o quero.

“Esperai! esperai! deixai que eu beba
Esta selvagem, livre poesia”

Como esperar, nobre poeta?
Donde venho é desse chão
Onde vou? Beijá-lo, claro!

“Por que foges assim, barco ligeiro?
Por que foges do pávido poeta?
Oh! quem me dera acompanhar-te a esteira
Que semelha no mar — doudo cometa!”

Não fujo de ti, ilustre trovador!
Nem sei bem de que fujo, talvez de mim.
Como se eu pudesse enganar minha dor
Como se desejo tivesse fim
Sabes o que meu desejo quer, ilustríssimo?
Desejar mais e mais!

“Sacode as penas, Leviathan do espaço,
Albatroz! Albatroz! dá-me estas asas.”

Bem queria eu ser uma gaivota
Dividiria, sim, as minhas asas e voaria contigo lado a lado.
Que graça tem voar numa só nota?
A mesma graça de um desejo saciado…

“Donde é filho, qual seu lar?”

Deves estar achando que não digo coisa com coisa, acertei?
Afinal quero ou não a liberdade?
Sabe, é que essa cachaça, esse luar…
Abalam a pessoa que é uma loucura…
Mas é que a liberdade, de tanto que se a procura
Quando se acha ela se parece com o mar…
Bela, vasta e de dar medo…

07 de Fevereiro de 2009,

Ana Helena Ribeiro Tavares

Dialogando numa senzala no Recanto das Letras

criado por Ana Helena Tavares    07:23:51 — Arquivado em: Diálogos poéticos — Tags:, , , , , , , , , , , , , , , , , , , , ,

5.2.09

Para derrubar o presidente que eu nunca quis ser

- Dedicado ao meu amigo Abílio Mendes, por ser um doido que acha que eu mereço fazer meus rascunhos “em bloquinhos à la Picasso”.

Acordo e abro os jornais ainda a meio olho. De repente, o céu se queda escuro sobre meu único olho aberto e me dá uma vontade incontrolável de voltar ao travesseiro em busca de uma época mais minha.

Quero ser Hélio Fernandes para me libertar pelas grades e não me prender a cifrões. Quero ser Ben Bradlee para proteger rascunhos num bloquinho e ajudar a derrubar o presidente que eu nunca quis ser. Quero ser Robert Fisk para guerrear pela paz tendo como arma o microfone. Quero ser Fausto Wolff, Barbosa Lima, tanta gente, mas, antes, preciso me construir…

Abro o outro olho, pego novamente o jornal e, como que de longe, pareço ouvir citarem Millôr: “Jornalismo é oposição, o resto é armazém de secos e molhados”. Adoram isso, como é cômodo… Logo depois cospem ao mundo previsões catastróficas achando que isso é oferecer algo de útil para a construção da sociedade. Por que não fazer antes uma oposição a si mesmo? Qual a bandeira de quem faz sempre oposição a tudo? Podem dizer: jornalista não tem que ter bandeira… É lindo isso, mas ele tem, ainda que não deva hasteá-la no terraço do seu prédio.

Com os olhos ainda relutantes, o que vejo? O cifrão é o guru que liberta. A expressão “atrás das grades” virou chacota. O prender e o soltar se tornam, de forma cada vez mais visível, lados do ioiô que serve ao sórdido jogo político.

Um jogo regado a muito champagne – fajuto – daqueles para fazer vista… E uma boa dose de microfones e bloquinhos comprados a 1,99 (porque senão quebra a empresa) e vendidos a preço de ouro.

O mesmo jogo para o qual não interessa um presidente como o nosso. Bem que muitos deles queriam ser ele – o admiram – mas, afinal, precisam garantir o sustento. Emprego fixo está difícil, ainda mais para jornalista.

Quem sabe na cobertura de guerra? Mas antes é preciso ver qual lado dá mais… Ou seria qual lado vai explodir primeiro? Que tipo de torcida midiática é essa que em busca de inflar os próprios egos não vê a hora de um verdadeiro apocalipse para dizer: “Nós avisamos!”?

É triste, mas a lei é da oferta e procura. Se o trágico é tão oferecido é porque vende. E muito. Em toda a história da humanidade uma casa em ruínas sempre parou mais olhares do que um campo de girassóis.

O problema todo está em como se oferece o trágico. Para uma cobertura jornalística bem-intencionada, pode ter havido, digamos, uma explosão no botijão de gás da casa e os proprietários, gente humilde, já estão se reestruturando na casa de parentes. Para outro jornalista, pode ter havido um curto circuito na rede elétrica e os proprietários, gente humilde, estão desabrigados sem a devida assistência do governo.

Não é difícil um suicídio se tornar assassinato nas mãos de um editor. Como é fácil jogar números soltos pelas colunas de economia e dizer que aquilo aponta o fim do mundo. Que fim? De que mundo?

São tantas as perguntas que me vêm à mente, mais do que perguntas, inquietações. Por que Ben Bradlee seria demitido da Folha? Podem-se imaginar várias razões, mas a maior delas seria, sem dúvida, a feia mania de seguir seus instintos… Para que jornalista vai ter vontades se o mercado já as tem?

E Robert Fisk, por que não conseguiria trabalhar para a Globo em coberturas de guerra? Talvez porque um belo dia ele fosse preferir não voltar para a redação…

E Hélio Fernandes, por que não seria preso caso escrevesse algum artigo subversivo? Ah, estamos num país democrático… Diz-se de tudo e ouve-se de tudo.

Só falta se lembrarem de fazer oposição a um velho ditado. Notícias também podem ser boas.

05 de Fevereiro de 2009,
Ana Helena Ribeiro Tavares

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P.S. Inquietação final: Por que este texto dificilmente seria publicado na grande imprensa? Porque, além de ser um tanto desconfortável, não dá lucro fazer oposição a si mesmo…

Para derrubar o presidente que eu nunca quis ser no Observatório da Imprensa

Para derrubar o presidente que eu nunca quis ser no Fazendo Media

Para derrubar o presidente que eu nunca quis ser no Recanto das Letras

Para derrubar o presidente que eu nunca quis ser no blog do Patolino


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