Traços de Estilo

“A poesia confunde-se com a prosa da mesma maneira que o poeta confunde-se com o homem da rua e já não pode nem deseja reivindicar para si a condição de eleito dos deuses.” (o poeta Gullar) “É preciso levar em conta as palavras que você escolhe, cuidar de cada sentença. É preciso ser sensível ao sentimento das pessoas.” (o jornalista Talese)

28.11.08

O abismo é sólido

Passa o caminhão cargueiro com sua alta velocidade avançando todos os sinais… O ano que passou não foi assim pesado, não foi assim leve, não tinha velocímetro nem sequer volante. Mas teve seus sinais vermelhos. Um vermelho esverdeado.

Passa o carnaval com o seu não-tempo…

Passa a Páscoa com o chocolate desviando a atenção do dono da festa…

Passa o Dia das Mães, que só querem “beijim”, enquanto o comércio anda atrás de “dindin”…

Passa a Festa Junina, Julina, Agostina (!), tocando (ao menos aqui no Rio) de funk a hip-hop, mas quanto ao padre pra celebrar o casório acho que vou fazer um cartaz de “procura-se”…

Passa o Dia dos Pais e a carteira dos homenageados muitas vezes se presenteia…

Passa o dia 12/10 e por dois meses o comércio vira criança…

Passa o Natal e novamente, em muitas casas, o dono da festa perde pro consumismo.

Passando por tudo isso num ritmo desenfreado, será que deu pra pensar num muro como trampolim? Ou num abismo como algo sólido? Com esta última, podem pensar: “Pronto, enlouqueceu…” Não, ainda não foi dessa vez… A questão é que, assim como aquele caminhão, a alta velocidade do mundo, bem como a necessidade cega de consumo, muitas vezes não tem permitido que as pessoas percebam os “sinais vermelho-esverdeados”. Aquele não que, na verdade, é sim.

Experimente encontrar alguém que tenha sido demitido de um alto cargo numa grande empresa, tenha passado meses no fundo do poço e, mais tarde, tenha resolvido se aventurar em outras habilidades e tenha alcançado o sucesso por conta disso. Pergunte a essa pessoa se o abismo pode ou não ser sólido.

Passa o tempo com seus ponteiros que não param… A pessoa que os via não era assim rápida, nem era assim devagar… Não tinha exatidão de números, nem era chegada a andar em círculos… Mas uma hora seus ponteiros pararam… Estavam cansados de apontar pra trás.

Um abismo não se solidifica sozinho, um muro não vira trampolim sem que se pule em cima dele. Um ano não vale as quatro estações sem que você tenha se espetado numa roseira e se extasiado com seu néctar, se queimado com o sol e brindado com a lua, se descabelado por causa de uma folha cadente e brincado com ela, se arrepiado de frio e recebido um aconchego (não necessariamente tudo isso, não necessariamente nessa ordem).

Tantas são as formas de se fazer do avesso um começo. Mas como podem os ponteiros biológicos resistirem impunemente a essa cadência insana do mundo atual?

28 de Novembro de 2008,
Ana Helena Ribeiro Tavares

O abismo é sólido no Recanto das Letras

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21.11.08

Poema limpo

“Diálogo” poético com Ferreira Gullar. A Gullar as aspas que são de Gullar (os trechos de minha autoria aparecem em negrito).

- Este “diálogo” é, claro, uma homenagem a Ferreira Gullar. Os trechos de minha autoria dedico ao meu amigo Antônio Carlos Secchin, que mergulhou recentemente na obra de Gullar e a quem devo alguns bons ensinamentos muito importantes para a minha formação poética.

“Do mesmo modo que te abriste à alegria
abre-te agora ao sofrimento
que é fruto dela
e seu avesso ardente.”

Do mesmo modo que te fechaste ao amor
fecha-te agora ao ódio
que sem o amor não vive
que não é pomba livre.

“Do mesmo modo
que da alegria foste
ao fundo
e te perdeste nela
e te achaste
nessa perda”

Do mesmo modo
que à paixão te entregavas
e só vias chamas
e te encontravas nelas
sem pensar
em dramas

“Deixa que a dor se exerça agora
sem mentiras
nem desculpas”

Deixa que a cor apareça agora
sem embace
sem demora

“e em tua carne vaporize
toda ilusão”

e no suor de sua camisa
faça brisa

“Que a vida só consome
o que a alimenta.”

Que a vida só não some
pra quem a inventa.
E as partes não se traduzem
a qualquer vento.

“Não tem a mesma velocidade o domingo
que a sexta-feira com seu azáfama de compras
fazendo aumentar o tráfego e o consumo
de caldo de cana gelado”

Não tem a mesma força o solitário
que o grupo com seus elos sem preço
fazendo diminuir a sensação de impotência
de vitrines feitas de aparência

“nem tem
a mesma velocidade
a açucena e a maré
com seu exército de borbulhas e ardentes caravelas
a penetrar soturnamente o rio”

nem tem
a mesma força
o soco e o afago
com seu casaco encorpado e caloroso cobertor
a proteger o que não vê

“Melhor se vê uma cidade
quando naquele chão
onde agora crescem carrapichos
eles efetivamente dançaram
(e quase se ouvem vozes
e gargalhadas
que se acendem e apagam nas dobras da brisa)”

Melhor se vê uma pessoa
Quando naquela mente
onde agora crescem ervas daninhas
girassóis já sorriram em coro
(e quase se sente o aroma
e o frescor
que nos belisca a lembrar do passado)

“Mas
se é espantoso pensar
como tanta coisa sumiu, tantos
guarda-roupas e camas e mucamas
tantas e tantas saias, anáguas,
sapatos dos mais variados modelos
arrastados pelo ar junto com as nuvens,
a isso
responde a manhã
que
com suas muitas e azuis velocidades
segue em frente
alegre e sem memória”

Mas
se assusta penetrar
nas profundezas de um cérebro sem eira
que não se reconhece no espelho
pro qual tanto faz o azul e o vermelho
arrastado pelo chão em eterna bananeira
a isso
responde a noite
que
com sua iludida e incolor luneta
refaz o dia
jovial e sem caneta.

21 de Novembro de 2008,
Ana Helena Ribeiro Tavares

Para ver o dia em que declamei para Gullar estes versos, clique aqui.

criado por Ana Helena Tavares    12:06:28 — Arquivado em: Diálogos poéticos — Tags:, , , , , , , , , , , , , , , , , , , , ,

15.11.08

O panfleteiro e os esclarecidos

- “Um minuto pro Senhor Jesus!”

- “Pra quem? Olha, se for negócio de religião nem adianta”, dizem os senhores apressados.

- “Só quero lhe entregar esse papel. Fala de Jesus.”

- “Ora, faça-me o favor! Acha que vamos cair nessa?! Somos esclarecidos!”, dizem e lá se vão soltando fogo por todos os poros.

- “A paz de Jesus, senhores”.

O diálogo é verdadeiro e o presenciei recentemente ao passar tarde da noite pela porta de uma igreja evangélica.

Ainda que eu acredite muito em Deus, nunca me envolvi com religião nenhuma, mas ao me deparar com a cena não pude deixar de refletir sobre o que mesmo aqueles dois senhores acham que é ser esclarecido.

Intolerância é esclarecimento? Medo de contestar as próprias certezas é esclarecimento? Quem está de fato seguro no que pensa, no que crê, precisa tratar mal o diferente?

Não, de esclarecidos não tinham nada.

15 de Novembro de 2008,
Ana Helena Ribeiro Tavares

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