Traços de Estilo

“A poesia confunde-se com a prosa da mesma maneira que o poeta confunde-se com o homem da rua e já não pode nem deseja reivindicar para si a condição de eleito dos deuses.” (o poeta Gullar) “É preciso levar em conta as palavras que você escolhe, cuidar de cada sentença. É preciso ser sensível ao sentimento das pessoas.” (o jornalista Talese)

11.10.08

Gênios nem sempre são tudo isso

Dedicatória: Em um de seus poemas mais auto-biográficos, Drummond declara que, quando nasceu, um anjo torto lhe disse:

“Vai, Carlos, ser gauche na vida”.

Este texto é uma homenagem a todos os verdadeiros mestres e, por ser livremente inspirado num conjunto de aulas de sociologia, é totalmente dedicado ao maestro que as conduziu: Gilson Caroni Filho, que, quando nasceu, ouviu daquele mesmo anjo:

“Vai, Gilson, ser mestre na vida”.

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Onde está a genialidade de um mestre? Títulos acadêmicos? Não! “Sou doutor, PhD, Honoris Causa”, falou o professor na primeira aula. “O que disse mesmo o professor?”, perguntam-se os alunos ao final do curso.

Mestres não precisam de apresentações. Se é que possuem títulos, ótimo, mas que os deixem nas molduras de suas paredes. O maior cartão de visita de um professor é sua aula e é ela que o tornará ou não mestre para seus alunos. Só ela: a aula. Sabe para que servem os certificados nessa hora? Soam como um recado para os alunos: “Atenção, eu sou o professor e sou maior que vocês”. Tudo bem que há uma inegável hierarquia, mas o “sou maior que vocês” não faz parte dela e não combina com mestres. Uma coisa é admirar um trabalho que se acompanha de perto e outra, bem diferente, é ser coagido a reverenciar certificados. Ah, sim, e para se acompanhar algo de perto, para que o aprendizado seja realmente de trocas, para que a relação de professor/aluno passe a ser mestre/discípulo, há que se haver a quebra de barreiras, há que se evitar com todas as forças os estrelismos. Não dá pra imaginar Sócrates dizendo pra seus discípulos “Sou doutor em ciências humanas, PhD em conhecimento do mundo e Honoris Causa em filosofia”. Meu Deus, ora vejamos, Sócrates era aquele que “só sabia que nada sabia” e, tantos anos depois, sua linha de pensamento ainda desfila pelo mundo, sendo a filosofia separada em antes e depois dele. Conclui-se que a genialidade não precisa ser alardeada. E mestres não precisam ser gênios.

Ah, a humildade… Só ela é capaz de fazer qualquer relação verdadeira. E ela também cabe aos alunos. Imaginem Aristóteles dizendo pra Platão: “Já sei tudo, não preciso mais de seus ensinamentos”. Imaginaram? Acho bom que não. Consta que Aristóteles bateu muito de frente com seu mestre, muito mesmo, fundando novas teorias, mas não tendo nunca renegado a importância de quem o precedeu. Até que ponto Platão foi legal com seus discípulos? Até o ponto em que lhes deu liberdade. Um ponto infinito. E por que foi tão legal isso? Porque lhes deu liberdade sem os perder de vista. E mestres são legais.

Sejamos sinceros… Quando a frase começa assim é bom sinal. É sinal de uma cumplicidade sem a qual não deveria se sustentar nenhuma sala de aula – ou pátio de aula, rua de aula, trem de aula (aula que é aula, convenhamos, pode ocorrer em qualquer lugar). Por esse raciocínio, fica até engraçado pensar nas provas tradicionais e suas notas burocráticas. Está lá o professor com seu grupo de alunos andando pela rua, ouvindo o cantar dos pássaros, cada um com uma prancheta na mão escrevendo sua análise sobre aqueles cânticos. Daqui a pouco vai o professor: fulano tirou 8,0 porque ignorou os bem-te-vis e sicrano tirou 9,9 porque não se lembrou dos rouxinóis. A primeira coisa que averiguamos é que essa situação é quase impossível. Ainda bem. A segunda coisa que se percebe é que esse professor devia ter uma clara preferência pelos bem-te-vis… Uma pequena metáfora para exemplificar o tendencionismo que, de certa forma, no âmbito do discurso é inevitável até para os verdadeiros mestres, mas que, em muitos casos, se faz cruelmente visível na aplicação de provas e distribuição de notas. Por isso mestres não precisam delas.

O que os mestres precisam ter é um bom papo… Isso mesmo, um bom papo. A coisa mais maravilhosa é quando a aula se torna um bate-papo. Você entra em sala com vontade de ouvir seu professor, de conversar com ele? Ainda que naquele dia só ele tenha falado, você sai de sala com a sensação de que aquele papo te abriu a mente? Sim? Então seu professor é um mestre. E, nesse contexto, pra que o academicismo de se adotar um livro base pro curso? Pra que quadros brancos, negros ou esverdeados? O mestre é a aula.

E quando esse mestre consegue fazer rir ensinando? Aí a maestria é completa. Periga os nomes na pauta serem trocados por apelidos. A chamada se faz desnecessária. Seja a aula de manhã, de tarde ou à noite, difícil não ter disposição pra uma aula em ritmo de mestre, em que se ri e se aprende. E não se vai lá pra dizer “presente!”. A aula é o presente.

Um presente que vem provar aos alunos que no outono há sempre uma primavera escondida. Isso porque a convivência com um verdadeiro mestre, essa troca de experiências, é um aprendizado de tal maneira proveitoso que abre um leque de possibilidades na mente daquele que se torna discípulo – aquele aluno que não necessariamente seguirá o mestre em sua área de atuação, mas valoriza-o profundamente. Um leque formado pelas possibilidades que já existiam dentro de cada discípulo e que o mestre só fez trazer à tona, mostrando a eles as primaveras que existem por trás do outono que, muitas vezes, eles próprios pintam em suas vidas. Mestres fazem isso.

Mestres são isso. Gênios nem sempre são tudo isso.

11 de Outubro de 2008,
Ana Helena Ribeiro Tavares

Gênios nem sempre são tudo isso no Recanto das Letras

Gênios nem sempre são tudo isso no blog do Patolino

Gênios nem sempre são tudo isso no blog do radialista mineiro Carlos Ferreira

5.10.08

D. Pedro e água gelada

Foto: Ana Helena Tavares

A história do Colégio João Alfredo, um dos mais antigos do Brasil

O Instituto João Alfredo teve origem com reforma do ensino primário regulamentada pelo Imperador D. Pedro II, em 1854. A partir dessa data, o ensino primário passou a ter conotação profissionalizante, especialmente para crianças carentes.

Em 1873, o Conselheiro João Alfredo Corrêa de Oliveira, ministro do império, em nome do Estado, adquiriu as propriedades de números 1 e 3 situadas à Rua do Macaco (atual Boulevard 28 de Setembro). No local foi inaugurado o Asilo dos Meninos Desvalidos (que hoje dá lugar ao Colégio Estadual João Alfredo). Quando de sua fundação, foi elaborado para o Asilo um regulamento próprio, considerado pioneiro para a época. O asilo receberia meninos do sexo masculino, entre seis e doze anos, e a eles seria ministrada instrução de 1º e 2º graus e profissionalizante.

A inauguração oficial ocorreu em 14 de Março de 1875, com a presença do Imperador D. Pedro II, que, de acordo com os costumes da época, convidou os presentes a beberam, com toda a pompa e circunstância, um copo d’água gelada. Na ocasião, Emílio Simonse ofereceu grande sortimento de roupas para o estabelecimento.

A construção do Asilo pode ser considerada, mesmo em nossos dias, de extremo bom gosto, não só no estilo, como na sua funcionalidade. Os dormitórios, as salas, as oficinas de treinamento, as lavanderias e demais dependências, muito amplas e iluminadas, eram dotadas de sistema de arejamento até então inédito, pois possibilitavam baixar a temperatura nos dias quentes e elevá-la nos dias frios.

A instituição, durante muito tempo, recebeu apoio das autoridades e os meninos dispunham de assistência médica gratuita, prestada pelo Dr. João Joaquim Pizarro.

Em decorrência dos graves problemas sociais, o número de vagas aumentou rapidamente para 200 e a idade limite foi elevada para 21 anos. Em 1892, o Asilo foi acrescido da Casa São José, sendo o ensino profissionalizante transferido para o Palácio da Quinta da Boa Vista. O ensino de 1º e 2º graus, no entanto, permanecia sob a responsabilidade daquela casa. Pode-se dizer que os trabalhos desenvolvidos no Asilo foram extraordinários, tendo alguns chegado a conquistar prêmios no exterior. Muitos de seus alunos se destacaram em vários eventos internacionais, conquistando as medalhas de ouro de 1900 e 1904, além do Grande Prêmio da Exposição do Centenário da Independência do Brasil, em 1922.

A história do local, no entanto, remonta a tempos anteriores ao Asilo. Entre os séculos XVIII e XIX, havia ali uma senzala. Um local que funcionava, portanto, como instrumento opressor dentro de uma sociedade escravocrata e que viria a se colocar, mais tarde, a serviço da educação pública.

O primeiro diretor do Asilo foi o Dr. Rufino Augusto de Almeida, que exerceu sua função durante dois períodos. O nome de Instituto Profissional João Alfredo foi dado pelo prefeito do Rio de Janeiro, então Distrito Federal, Dr. Inocêncio Serzedo Correia, em 26 de Agosto de 1910.

A parte destinada aos antigos dormitórios hoje abriga o Instituto de Geriatria e Gerontologia e no restante do prédio, localizado ao lado do Hospital Pedro Ernesto, no coração de Vila Isabel, atualmente funciona o Colégio Estadual João Alfredo, onde é ministrado o Ensino Médio.

Na terra da boemia, com água gelada também se brinda.

Ana Helena Ribeiro Tavares

Matéria publicada na edição de outubro 2008 do jornal “Correio Carioca”.

Fotolog do Instituto João Alfredo

criado por Ana Helena Tavares    16:04:33 — Arquivado em: Jornalista é contador de Histórias!, Reportagens — Tags:, , , , , ,

3.10.08

Cochicho e cochilo

- Para o “assaltante de mão trêmula”.

No vagão mais sossegado do trem, senta-se alguém insuspeito ao lado do menino franzino. As poucas pessoas ao redor parecem perceber algo diferente naquele banco ao fundo, mas estão por demais ocupadas por suas próprias preocupações e temem que suas suspeitas se confirmem. O maquinista segue indiferente a tudo.

“Poderia ser comigo, é melhor fingir que não vi, vai que ele está armado?”, pensam alguns. Sim, ele estava armado, mas o menino franzino saiu de lá com a impressão de que a arma tinha mais coragem que o dono.

“Minha mãe morreu ontem”, dizia o assaltante de mão trêmula. “Que maneira de chorar as mágoas”, pensava o menino, enquanto se via obrigado a entregar bens materiais (que, para o menino, guardavam mesmo eram sentimentos). Dinheiro? Curioso… O que o menino tinha o assaltante achou pouco e não quis. Será que, depois da morte da mãe, (se é que um dia ele teve uma) aquele insuspeito assaltante não precisava comprar pão?

Não, ele não parecia ter fome de pão. Na verdade, ele não sabia de que tinha fome. Estava de tal maneira atordoado que, ao que tudo indicava, seu alimento era outro. Bem mais caro que qualquer pãozinho e com propriedades bem mais alucinógenas que qualquer produto de padaria. Caro pelo preço e exageradamente caro porque não o alimentava: o fornecia apenas uma ilusão momentânea e o matava aos poucos. Mas ele era dele dependente.

Chegou naquele assalto mais morto do que sua mãe – onde quer que ela esteja – e, ainda que levasse uma arma consigo, não parecia querer ferir ninguém, o que parecia mesmo era querer conseguir um pouco mais do vil metal pra sair dali e continuar se matando.

Ao mesmo tempo em que o mundo não fazia mais sentido pra ele, ele também havia se tornado quase invisível aos olhos da sociedade.

Antes de deixar a “companhia” do menino franzino (que se manteve sentado paralisado por uma espécie de “estado de choque”) o assaltante ainda se deu ao luxo de arrancar um aparelho eletrônico da mão de outro passageiro, que inesperadamente começou a chorar. Cochicho – e cochilo – geral no vagão. Inércia.

Próxima estação, o maquinista abre as portas. Sob olhares atentos, lá se vai um homem em desespero procurar o lugar mais próximo para se matar com conta-gotas.

Ana Helena Ribeiro Tavares,
03 de Outubro de 2008

Cochicho e cochilo no Recanto das Letras

criado por Ana Helena Tavares    14:28:31 — Arquivado em: Contando Histórias, Contos — Tags:, , , , , , , , , , , ,

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