Traços de Estilo

“A poesia confunde-se com a prosa da mesma maneira que o poeta confunde-se com o homem da rua e já não pode nem deseja reivindicar para si a condição de eleito dos deuses.” (o poeta Gullar) “É preciso levar em conta as palavras que você escolhe, cuidar de cada sentença. É preciso ser sensível ao sentimento das pessoas.” (o jornalista Talese)

25.9.08

O obrigada e as convenções lingüístico-sociais

Ou do porquê, nos momentos mais especiais, eu não digo obrigada

É fato que a língua é um fenômeno social. Não conheço a forma como nasceu a palavra obrigado, menos ainda quem primeiro a proferiu. No entanto, sabendo seu significado original, é possível se imaginar o contexto que talvez tenha sido seu berço: uma sociedade pautada pela troca de vantagens.

Ora, vejamos. Obrigado nada mais é do que o particípio do verbo obrigar, estando diretamente ligado, portanto, ao substantivo obrigação. Em outras palavras, quando se diz obrigado a alguém, está se dizendo, com uma única palavra, exatamente isso: “Sinto-me obrigado a retribuir o (favor) que você me fez.”

Esse significado fica claro quando vem o professor de língua portuguesa com a “D. Norma” debaixo do braço, lembrando que “homens dizem obrigado, mulheres obrigada”. Pronto, se a palavra precisa fazer concordância de gênero é porque ela não tem sentido solta; pertence a uma frase com sujeito, verbo e predicado, como manda o figurino. Frase essa que, com o evoluir da língua, ao longo da história, se reduziu a uma única palavra que traz todo aquele significado, mas hoje a grande maioria dos falantes já não mais se dá conta disso. Dizem obrigado(a) no automático, tantas vezes sem saber que estão dizendo: “Eu me sinto obrigado(a) a retribuí-lo.” Quase um fardo…

Como dizer obrigado(a) para quem lhe salvou a vida? Você se sente na obrigação de retribuir a essa pessoa ou fará isso com gosto? E o seu “salvador”, será que quer que você se sinta obrigado a retribuí-lo ou retribuição pra ele é a sua felicidade? Como dizer obrigado(a) pra quem lhe abriu caminhos? Quando você vir essa pessoa caída na estrada você vai levantá-la por obrigação ou por prazer?

É fundamental e bem interessante analisar também o outro lado da questão: o de quem presta determinado favor a alguém. Etimologicamente a palavra favor tem origem nobre. Favoris em latim significa apoio. Curioso que, ao contrário do obrigado – palavra que, com o passar do tempo, ganhou, na boca do povo, um significado de certa maneira diferente e até certo ponto melhor do que o original – a palavra favor parece ter se desvalorizado ao longo da história, adquirindo um sentido muitas vezes pejorativo, totalmente distanciado de sua idéia original. Quando se fala em “troca de favores” hoje em dia, logo se lembra do “tapinha nas costas” com terceiras, quartas e quintas intenções; do “levar vantagem em tudo”. E, quantas vezes, se ouve alguém dizer, com certo desdém: “Ele me fez isso por favor.” Ah, se fosse em Roma…

A grande questão, porém, não está em usar ou não a palavra favor, usar ou não a palavra obrigado(a). Se nossas palavras forem a expressão de nosso pensamento, deveríamos fazer com que nossos atos fossem a concretização de ambos. Uma coerência difícil, mas possível de ser buscada. Ou seja, muito além do uso que se faça dessas duas palavras, ajudar e ser ajudado é, a meu ver, conseqüência natural de uma vida pautada pela troca espontânea de favores (no sentido etimológico da palavra).

A língua, por ser fenômeno social, é mutável; e é extremamente difícil se desprender de convenções tão enraizadas. Entretanto, levando-se em conta o conhecido poder que qualquer palavra traz consigo, é sempre bom estar atento às suas origens.

Alguém já disse que “um sorriso vale mais que mil palavras”. Assino embaixo e arrisco-me a dizer que, para quem faz um favor – ou melhor, oferece apoio – sorrindo, o sorriso do outro vale muito mais que mil obrigados.

25/09/2008,

Ana Helena Ribeiro Tavares

O obrigada e as convenções lingüístico-sociais no Recanto das Letras

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18.9.08

A falta inspira, a abundância limita

- Para o meu tio Carlos Alberto, por tudo que a falta o inspirou.

Ao outro falta um braço, a quem critica falta consciência. Se você diz ao seu igual que ele não ouve – diz na sua língua e ele lê seus lábios – ele o ouviu e você o negou. Quem age assim só pode estar renegando a beleza da variedade de sons.

Fernando Pessoa dizia-se “farto de semideuses”. Faço coro. Andam alguns pelo mundo – acham que andam – e deveriam aprender a ser felizes com quem chamam de “defeituosos”. Quem é “tudo de bom” como vai se superar? E que graça tem mesmo a vida sem superação?

Se eu não tivesse um braço talvez tivesse mais garra de aprender o que muitos não fazem com os dois. A falta inspira, a abundância limita. É curioso observar o número de intelectuais, artistas, empresários, políticos que fizeram sucesso em sua área e nasceram pobres. Será que isso não nos quer dizer alguma coisa? Quem sabe a vontade de se superar não os tenha movido? Tenho impressão que muitos dos que nascem em “berço de ouro” passam a vida achando que o mundo se limita ao “berço”. É mais cômodo, né? Sim, a fartura acomoda.

Voltando à questão da deficiência física. A questão da fala, por exemplo, é algo a se citar. Há diversas formas de calar-se diante do mundo e havemos de convir que ser mudo por deficiência está bem longe de ser a mais grave delas. “Olha o mudinho!” A sociedade logo rotula. Mas quem é o “mudinho”? O que perdeu o privilégio da fala, mas consegue se expressar de infindáveis outras maneiras, ou tantas e tantas pessoas que falam demais quando não é preciso e se omitem na famosa hora do “vamos ver”?

É mais limitado aquele que não tem as duas pernas e, ainda assim, sacode o mundo ou aquele que, mesmo as tendo, o mundo parece ter sempre que sacudi-lo? Pois é, super-homens também ficam paraplégicos e, ainda assim, morrem lutando.

Já pararam pra pensar em quantos dos gênios da humanidade tinham algum tipo daquilo que se costuma chamar de deficiência? Camões não tinha um olho e Drummond era míope. Através de versos geniais, não é difícil se dar conta do quão profundamente eles enxergaram o mundo. Beethoven foi gradativamente perdendo a audição ao longo da vida e já estava completamente surdo quando compôs sua famosíssima “9ª sinfonia”. Estava definitivamente provado que não é só com o ouvido que se ouve. Um dos maiores escultores que o Brasil já conheceu perdeu, devido a uma grave doença degenerativa, praticamente todos os dedos dos pés e das mãos. Parou de trabalhar? Negativo. Produziu mais e mais, amarrando, pra isso, os instrumentos de trabalho aos membros que lhe restavam. Seu nome? Antônio Francisco Lisboa. Mais conhecido como Aleijadinho. Parece um apelido pejorativo, não parece? E é. Imaginem o preconceito que ele sofreu na sociedade brasileira de 200 anos atrás. Imagino, triste, o preconceito que ele ainda sofreria. E não consigo imaginar Minas Gerais sem as esculturas, os desenhos e a arquitetura de alguém que não tinha mãos.

Para que mãos se não para apertar outras mãos?

Ana Helena Ribeiro Tavares,
18 de setembro de 2008

A falta inspira, a abundância limita no Recanto das Letras

criado por Ana Helena Tavares    14:25:34 — Arquivado em: Crônicas — Tags:, , , ,

8.9.08

Nosso pedaço de vento

Em média, passamos dormindo um terço de nossas vidas. São milhares de horas passadas de olhos fechados. Como seria bom se todos conseguissem preencher os outros dois terços sem fechar os olhos para a vida.

Ouvir uma música bem baixinha – do tipo “trilha sonora do relacionamento” – naquela hora a dois, ouvir música alta compartilhada com o pulsar de inúmeros corações. Fazer uma leitura que abra a mente, ler livros que nos façam mergulhar dentro deles. Sentir o sossego de uma rede balançando no meio do nada, sentir o burburinho das grandes cidades. Ouvir o cantarolar harmônico e maravilhoso de pássaros em revoada, ouvir o assobio desafinado e maravilhoso de quem nos vê passar. Paradoxos que reunidos fazem a vida mais colorida.

Cores… Todos deveriam ter cores pra defender, sejam elas ligadas ao esporte ou à política, mas principalmente as cores de um país, de uma terra natal. Uma pátria para amar, uma cidade para adorar, de certa maneira tudo isso faz com que não nos sintamos à deriva. Não há quem não tenha raízes e mesmo os que se autodenominam “cidadãos do mundo” sentem algo diferente no peito ao retornar às suas origens.

Gostoso também é se dar ao direito de ser uma eterna criança. Sabendo-se a hora certa de fazê-lo, como é maravilhoso brincar em qualquer idade e, claro, receber brincadeiras sadias. E naquele momento em que se pode voltar a ser criança o tempo até parece parar. Ah, o tempo… O grande Santos Dumont, pai da aviação, que me perdoe, mas há certas horas em que o relógio é bom mesmo fora do pulso.

Quando um filme é bom ou qualquer tipo de espetáculo que encante olhares, pra que mesmo que serve um relógio no pulso nessas horas? Geralmente as pessoas nem lembram dele e se lembrarem terão sua atenção desviada. A preocupação exagerada com o tempo é uma das maiores pragas da sociedade atual. Sociedade tão pragmática, tão preocupada com o concreto que acaba por tantas vezes se esquecendo que para se concretizar os computadores um dia precisou existir um sonhador que cismou com a luz elétrica. Seu nome era Thomas Edison e não consta que se importasse muito com relógios.

Edison errou muito antes de acertar, muito mesmo, milhares de vezes… A ele o mundo deve sua insistência, como a Santos Dumont e a tantos outros. Com eles deveríamos aprender ao menos uma coisa, e como é boa essa lição: sim, a vida pode valer à pena. Não precisamos ser geniais como eles, mas se não pecarmos por falta de vontade de viver certamente já estaremos no caminho certo.

A vida é uma eterna lição e não é delicioso quando numa aula se aprende que a aula é a vida? Afinal, de nada adianta ter aula sobre sociopolítica, quando naquele exato momento estão ocorrendo, em local próximo, passeatas, protestos e todo tipo de manifestações de fundamental importância para a história. Onde está a aula? Entre quatro paredes ou na rua?

O ser humano tem cinco sentidos, fora o famoso sexto, que dá um texto à parte. Dos cinco, quantos mais possamos usar em determinada situação certamente maior será nossa percepção dos fatos. Parece claro que estar numa aula sobre um fato é uma coisa, estar no fato é outra. Talvez seja a velha guerra da teoria com a prática. Há momentos em que a teoria é fundamental, não há dúvida, mas em muitos casos a prática ganha de lavada. Diria que é a união da ação com a sensação.

E o que dizer da inenarrável sensação de ombros entrelaçados trazida por uma verdadeira amizade? Fotos e momentos, mais momentos do que fotos. Acha mesmo que a vida vale a pena sem essa sensação, sem essa certeza? Sem aquelas piscadas de olho que só você e seu amigo entendem? Não, por favor, não vivam sem isso. E pra quem ainda tem o privilégio de tê-los ao lado, e mais do que isso – de tê-los como amigos – como descrever um beijo do irmão, um carinho da mãe ou o orgulho estampado nos olhos do pai? Impossível não frisar aqui que o amor em todas as suas formas é o melhor que a vida nos tem a oferecer e, conseqüentemente, é o mais perfeito presente que podemos oferecer aos outros, basta nos entregarmos de verdade a ele.

Para tudo na vida é preciso entrega… Quem é incapaz de se entregar a uma disputa de bolinha de gude, será mesmo capaz de ir até o fim nas disputas tão maiores que a vida nos apresenta? Se cair uma folha em seu cabelo, você pode pensar: “Que chateação, deixa jogar isso fora logo” Quem sabe se aquela pequenina folha só queria alegrar seu dia? Quem ao alto sobe sem valorizar o pequeno, nem sequer sabe onde vai cair. E aquele que encontra a felicidade nas pequenas coisas tem o caminho encurtado para ser feliz nas grandes. Terá mais facilidade, por exemplo, de encontrar uma profissão que o faça livre… Livre de muitas coisas, principalmente de arrependimentos e desgostos, os quais costumam embaçar os olhares diante da vida.

Se você nunca fizer nada que justifique como poderá pegar alguém falando bem de você de surpresa? Uma das mais agradáveis surpresas que se pode ter. E quando seus companheiros lhe surpreendem com uma vitória que alcançaram você explode de alegria ou a alegria alheia o explode? Quanta luz emana um sorriso despreocupado! Deixar-se contagiar por sorrisos, eis uma das melhores coisas da vida.

Não deixe de buscar a parte boa que a vida lhe reserva, o seu pedaço de vento. Ou se olha pro relógio ou se vive. A vida é feita de escolhas… E, enquanto isso, parafraseando Cazuza, o vento não pára.

08 de Setembro de 2008,
Ana Helena Ribeiro Tavares

Nosso pedaço de vento no Recanto das Letras

criado por Ana Helena Tavares    20:32:47 — Arquivado em: Crônicas — Tags:, , ,

5.9.08

Lisboa - o Porto de Ulisses

Foto: Ana Helena Tavares
Lisboa - Monumento aos Descobrimentos

Lisboa - Monumento aos Descobrimentos

- Para meu amigo Antônio Baptista, lisboeta duro na queda.

Um pequeno roteiro para se aproveitar a capital portuguesa

Diz a lenda popular e romântica que Lisboa foi fundada pelo herói grego Ulisses e que, tal como Roma, o seu povoado original era rodeado por sete colinas. O nome da cidade deriva de “Olissipo”, termo que tem origem nas palavras fenícias “Allis Ubbo’, que significam “porto encantador”.

Lisboa é uma capital histórica com um caráter e um encanto fora do comum, onde 800 anos de influências culturais diversificadas se misturam com as mais modernas tendências e estilos de vida, criando contrastes verdadeiramente espetaculares.

Situados na sua maioria no centro, os bairros históricos são destino imprescindível para quem se desloque à capital portuguesa. Pela cultura, pela história, pelas pessoas ou simplesmente para passear descontraidamente, é imperativo descobri-los. Fazendo parte estrutural da identidade lisboeta, estes bairros proporcionam traçar um verdadeiro mapa pessoal da cidade. As possibilidades são imensas.

O Bairro Alto é um dos mais emblemáticos e atraentes para viver a cidade. Bons restaurantes lado a lado com livrarias intimistas, que sempre guardam boas surpresas, convivem com casas de chá acopladas a lojas de roupas desenhadas por alguns dos mais conceituados artistas portugueses. É um bairro apaixonante, cheio de atrações, combinando ousadia e sofisticação com tradição e antiguidade. Passear no Bairro Alto é um ato irrepetível em qualquer outro ponto da cidade.

A zona do Carmo tem alguns pontos históricos fascinantes, como o Convento e a Igreja do Carmo, que mantém elegância e imponência. Aí poderá visitar as ruínas, mas também o Museu Arqueológico do Carmo, que inclui um numeroso legado de peças pré-históricas, romanas, medievais, manuelinas, renascentistas e barrocas. O Largo do Carmo é também um local emblemático da história nacional recente, tendo sido palco privilegiado da Revolução dos Cravos, em 25 de Abril de 1974. A ligação entre o Carmo e a Baixa é feita através de outro monumento fundamental da cidade, o irresistível Elevador de Santa Justa.

No topo deparamo-nos com uma belíssima vista sobre a Baixa Pombalina. Não perca a oportunidade de utilizar este elevador vertical centenário, único deste tipo no mundo a prestar um serviço público e que, tendo sido concebido por um discípulo de Gustave Eiffel, mantém um estilo bem peculiar.

Vale visitar ainda a Sé de Lisboa, datada de 1150 e mandada construir por D. Afonso Henriques. Próximo à Sé, a subida para o encantador Castelo de São Jorge proporciona aos visitantes uma bela vista da cidade. A colina onde se localiza o Castelo é uma das que envolve o tradicionalíssimo bairro de Alfama que, com seus mundialmente conhecidos bares e restaurantes onde se toca o mais puro fado, é parada obrigatória para quem queira respirar por alguns momentos a alma portuguesa.

Já na zona de Belém não se pode deixar de conhecer o lindíssimo Mosteiro dos Jerônimos, onde se acredita que foram sepultados Vasco da Gama e Luís de Camões. É também nessa zona da cidade que se encontra o Padrão dos Descobrimentos. O monumento, de 1960, celebra o quinto centenário da morte do Infante D. Henrique, homenageando este impulsionador dos Descobrimentos, mas também os principais desbravadores portugueses.

De lá os navegadores partiram para descobrir o mundo. Lisboa hoje convida o mundo a descobri-la.

Ana Helena Ribeiro Tavares

Matéria publicada na edição de setembro/2008 do jornal “Correio Carioca”.

criado por Ana Helena Tavares    14:43:16 — Arquivado em: Jornalista é contador de Histórias!, Reportagens — Tags:, , , , , , , ,

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