Traços de Estilo

“A poesia confunde-se com a prosa da mesma maneira que o poeta confunde-se com o homem da rua e já não pode nem deseja reivindicar para si a condição de eleito dos deuses.” (o poeta Gullar) “É preciso levar em conta as palavras que você escolhe, cuidar de cada sentença. É preciso ser sensível ao sentimento das pessoas.” (o jornalista Talese)

29.8.08

Estrada sem destino

- Para o meu amigo Eduardo Sander (o Patolino*), que não se cansa de lutar para encontrar os bons destinos dessa estrada.

Imprensa obstruída é como uma estrada que não dá a lugar nenhum – perde a razão de ser. Há diversas formas de se obstruir o trabalho jornalístico, desde agressões físicas, intimidações e todo tipo de chantagem ao silêncio bem pago e o barulho sob medida.

Várias são as formas de se pagar um silêncio e triste de quem as aceita. Incontáveis são os interesses que podem produzir e dar medida milimétrica a um barulho, digamos, cuidadosamente solicitado – e corromper também é obstruir.

Quando um veículo de comunicação omite informações provavelmente há por trás alguma história de obstrução do trabalho da imprensa. Talvez um jornalista que queria divulgar o assunto e foi impedido com a velha chantagem no maior estilo “ou se cala ou tá na rua”. Provavelmente a própria empresa que calada obteria grandes vantagens, renegando o papel primordial da mídia, que, dizem os manuais, deveria ser informar. Mas onde será mesmo que ficam os manuais naquele momento em que vale a pena ganhar de novo?

E não é só o silêncio que revela obstrução. Tumultos minuciosamente plantados de modo a distorcer a verdade dos fatos também entravam a atividade jornalística, visto que quem os “pede” contribui para o aumento da corrupção entre os profissionais de imprensa e tira espaço de temas realmente merecedores de destaque.

Vejamos um exemplo bem recente, dentre tantos que poderiam ser dados. A troco de que um jornal como “O Globo” publicaria na capa – edição de sexta-feira, 29/08/08 – que “a agenda do celular do ministro Nelson Jobim registra encontro secreto com José Dirceu”? E sob o sugestivo título “Ministro José Dirceu?” o jornal faz questão de frisar que na tal agenda do celular de Jobim, Dirceu ainda é chamado de ministro. Ora, a chamada de capa pra esse assunto de “interesse nacional” levantado pelo jornal carioca traz foto e tudo do tal celular do ministro Nelson Jobim. Como eu ia dizendo, a troco de que mesmo isso? Bem, troco talvez seja bondade minha…

Sim, está aí mais um exemplo pra vasta coleção do “jornalismo comprado”. E se quem “compra” corrompe está conseqüentemente controlando e toda forma de controle provoca também obstrução. Alguém já viu liberdade controlada? Paradoxo puro, só pode ser um eufemismo pra prisão. Perguntem aos passarinhos de viveiro…

Como falar em liberdade de imprensa quando jovens jornalistas idealistas, aqueles que saem dos bancos universitários como pássaros cheios de vida, chegam ao mercado de trabalho e logo de cara têm suas asas cortadas, se vendo dentro de verdadeiros viveiros? Obstrução de sonhos, eis a pior de todas. Raiz de todas as outras.

A humanidade sem sonhos não teria saído da idade da pedra e certamente não existiria imprensa. Por que grande parte da imprensa parou de sonhar? Obstruindo a si mesma torna cada vez mais limitado o leque de possibilidades de uma sociedade que gostaria, sim, de contar com informações relevantes, confiáveis e de qualidade.

Obstrução vai contra liberdade. Sonhar liberta.

Ana Helena Ribeiro Tavares,
29 de agosto de 2008

*Estrada sem destino no blog do Patolino

criado por Ana Helena Tavares    19:42:31 — Arquivado em: Artigos, Crônicas — Tags:, , , , , , ,

22.8.08

Realizar para realizar-se

As expectativas de um jovem para o mercado de trabalho são geralmente enormes e de todos os tipos. Há quem sonhe com estabilidade, há quem queira fazer fortuna e há quem só pense em realização.

Realizar para realizar-se. Produzir sentindo-se produtivo. Assim deveria ser o dia-a-dia de um trabalhador. De que adianta sonhar com estabilidade e chegando ao mercado de trabalho cair numa rotina indigesta? Ou pra que fazer fortuna sem fazer algo que lhe faça feliz?

Há até, claro, quem simplesmente não tenha expectativas, uma perigosa filosofia no maior estilo deixa o trabalho me levar que “o que vier é lucro”. Também não pode ser por aí. Que lucro? Lucro pra quem? Será que para o trabalhador que chega em casa de cara amarrada porque não faz nada do que gosta seu salário é lucro? Será que, caso ele seja funcionário de algum local, é de fato lucrativo para o patrão dele ter ali alguém que não produz como deveria porque não consegue se envolver com aquilo que faz? E a sociedade o que lucra com isso?

Isso se aplica a qualquer profissão. Um médico insatisfeito com sua profissão terá dificuldades de sorrir para seus pacientes, que assim certamente terão mais dificuldades de se curar. Um jornalista que só saiba usar palavras ásperas há de estar na profissão errada. Um advogado que não defenda suas causas com paixão possivelmente deixará muitos inocentes na cadeia. Um professor de qualquer idade que, ao entrar em sala, não adquira a idade de seus alunos dificilmente conseguirá trocar experiências com eles. Um engenheiro que construa por construir poderá ver muita gente soterrada na sua areia. E até um pipoqueiro que não use o ingrediente amor contribuirá para amargar a boca de seus clientes.

O olhar de quem trabalha no que ama adoça os rostos ao redor, constrói uma vida sólida e faz do dia-a-dia um surpreendente troca-troca, onde as defesas, por serem sinceras, são feitas de forma extremamente intensa e palavras ponderadas acompanhadas de um sorriso são capazes de salvar vidas.

E por que salvam vidas? Porque quem encontrou um caminho para a satisfação profissional, irradia isso, torna-se espelho, exemplo num país de tantos jovens com tantas expectativas e muitas vezes tão poucas oportunidades. Mas aquele ou aqueles espelhos - quantos mais… melhor – podem representar renovação de ânimo.

Quando o trabalho é prazeroso não deveria ser assim chamado e se a grande esperança dos jovens fosse passar a vida sendo pagos pra brincar sério, certamente os divãs estariam bem mais vazios.

É difícil não cair na rotina? Praticamente impossível, ainda que haja inúmeras formas de temperá-la e, de vez em quando, de fugir ao menos um pouco dela. E é claro que todos nós precisamos de um salário digno para nos manter. Disse digno e, se possível, que traga algum conforto, fortuna prefiro deixar para os castelos.

Toda a minha expectativa está em trabalhar sem ter que usar muitas vezes este verbo.

22/08/08,

Ana Helena Ribeiro Tavares

criado por Ana Helena Tavares    19:35:49 — Arquivado em: Crônicas — Tags:, ,

15.8.08

No Olimpo já se perdia ganhando

Midas, rei de Mushki (Frígia, norte da Ásia Menor), almejava o poder de com um simples toque transformar tudo em ouro. Certo dia conseguiu que seu desejo, supra-sumo da ambição, fosse atendido por Baco, um dos deuses do panteão olímpico, ligado ao vinho e supra-sumo da alegria.

Midas então se deitava num leito macio, sentindo-se confortável, e este logo se endurecia, causando-lhe sensação de incômodo. Mas não era ele que havia sonhado que tudo, inclusive aquele leito, transformasse-se em metal? Ah, sim, o ouro é um metal, e bem rijo em seu estado bruto. Alguém já viu metal com sentimentos? Midas também não… E esse foi seu grande desespero. Acariciava um ente querido, alguém que realmente amava, e como num passe de mágica surgia uma estátua dourada em sua frente. Estátuas não falam, não piscam o olho, nem sequer sentem cócegas… Que graça tinha aquilo? E, além disso, teve ainda outro sério problema… Pegava um pão ou qualquer outro alimento e logo se dava conta: como poderia comer ouro? Até as gotas de água em contato com seus lábios empedravam-se…

Com essa situação absolutamente insustentável, o rei Midas não demorou a procurar novamente Baco e, conta o mito, que o Olimpo poucas vezes presenciou um rei tão transtornado, implorando para que lhe fosse tirado um dom que se mostrava uma maldição. Ao ser novamente atendido, Midas abandonou seu palácio, passando a conviver modestamente em meio a camponeses e, reza a lenda, que a partir daí teria se transformado num dos reis mais alegres da região, pois só com essa perda havia conseguido obter a maior vitória de sua existência: a valorização do outro. Baco foi bacana com ele.

Transpondo isso para os dias atuais é possível se fazer inúmeros paralelos. No entanto, gostaria de relacionar a idéia de maneira específica aos Jogos Olímpicos ou, melhor dizendo, ao chamado espírito olímpico, nomes que afinal têm sua origem lá na Grécia antiga.

O que é mesmo vencer e perder numa Olimpíada? Será que naquela que tantas vezes se define como uma confraternização mundial através do esporte vencer se resume a uma medalha de ouro no peito? Não posso crer. E o judoca brasileiro João Schlittler que em plena quarta-de-final olímpica, com alto grau de miopia e na ausência de suas lentes, lutou quase cego, perdeu a luta e se despediu sem medalhas? Mas estava lá lutando mesmo tendo perda de visão. Onde ele fica nessa história? É um perdedor ou um vencedor? Por que será que provavelmente ele não vai ser recebido com um monte de bandeiras do Brasil no aeroporto? Porque o mundo em que vivemos sofre de um grau bem mais elevado de miopia…

Mesmo uma medalha de bronze pode fazer um atleta ser “olhado diferente” na Vila Olímpica, como o nadador brasileiro César Cielo diz ter acontecido com ele. Será que isso é bom? O que significaria mesmo esse “olhar diferente”? Admiração? Pode ser. Inveja? Em muitos casos. E se há inveja há derrota, de quem a sente. E essa é derrota mesmo.

E o que dizer do lutador sueco Ara que em vez de entender o bronze como uma vitória chegou ao ponto de tacar a medalha raivosamente no chão e retirar-se? Perdeu a luta e mesmo assim ganhou premiação. Perdeu a cabeça e não ganhou nada com isso.

Mas há quem já chegue às Olimpíadas tendo a certeza de que estar lá já é um momento de esplendor e que qualquer resultado alcançado já será uma grande vitória. É o caso da nadadora camaronesa Antoinette Guedia, de apenas 12 anos, que, ainda que extremamente longe de qualquer possibilidade de medalha e a anos-luz de qualquer recorde mundial, compete entre conhecidas atletas e é chamada de “campeã” pela delegação de seu país. “Estar aqui com a minha idade é incrível. É um pouco impressionante pra mim. Eu sou pequena.”, diz ela. Pequena, Antoinette? Pequena é a imprensa mundial que não dá o merecido destaque a estes grandes exemplos.

Exemplo de superação, determinação, garra, amor… De quem, apesar da pouca idade, talvez já tenha passado por muitas perdas, assistido a muitas perdas e com todas elas parece ter ganho mais vontade de viver. Ocorre que na maior parte das vezes em que levamos um baque isso nos traz sofrimento profundo naquele momento, mas em certos casos percebemos mais tarde que daquela forma foi melhor pra gente.

Não nego que a ambição quando dosada é importantíssima pra vida, é fundamental ter objetivos. O que não se pode é querer alcançá-los a qualquer custo, de forma inconseqüente e revoltando-se com o mundo a qualquer revés. Claro está, portanto, que não estou defendendo aqui que um atleta não deva almejar a conquista da medalha dourada, longe disso. Ele deve desejá-la sim, mas não deve, não pode, fazer desse anseio uma religião e da medalha um deus.

Se não corre o risco de, numa ironia de Baco, ser contemplado com o toque de Midas e, se for um nadador, quando pular na piscina baterá de cabeça no ouro.

Ana Helena Ribeiro Tavares
15 de agosto de 2008

criado por Ana Helena Tavares    18:31:09 — Arquivado em: Crônicas — Tags:, , , ,

5.8.08

O som que vem das calçadas

Vila Isabel: um bairro em que se caminha sobre música

Numa sociedade de passo cada vez mais apressado, todos os dias milhares de pedestres passam distraídos pela Boulevard 28 de Setembro, centro financeiro de Vila Isabel e tradicionalíssimo reduto da boemia carioca. Muitos deles podem ainda não ter percebido, mas sob seus pés está contada, com todas as notas, uma parte fundamental da história da Música Popular Brasileira.

O projeto das famosas “Calçadas Musicais” é de 1964 e consistia em fazer o calçamento da Avenida 28 de Setembro em pedras Portuguesas brancas e pretas, e decorar com notas musicais do melhor do nosso cancioneiro das primeiras décadas do século XX, além do nome de seus autores e instrumentos musicais. A brilhante idéia foi tão aplaudida que não demorou a sair do papel.

O maestro “Carioca” simplificou as partituras e o arquiteto Hugo Ribeiro adaptou a decoração. O músico Almirante foi procurado para escolher os compositores e impôs: “Não pode ter interferência política”. Mauro de Magalhães, que era deputado em 64, disse a ele: “Tem condição política sim: “Feitiço da Vila” ficará na porta da Quadra da Vila Isabel.” Ele concordou, mas depois só queria músicos cariocas. Isso causou polêmica e Almirante mudou de idéia.

Ao todo vinte músicas, de repertório variado, foram reproduzidas, sendo elas: “Cidade Maravilhosa” (André Filho), no largo do Maracanã; “Abre Alas” (Chiquinha Gonzaga), literalmente abrindo a Boulevard 28 de Setembro; e, ao longo da Boulevard, foram gravados nas calçadas violões e cavaquinhos e, pela ordem, as músicas “Pelo Telefone” (Donga e Mano de Almeida); “Mal-me-quer” (Cristóvão Alencar, Armando Reis e Newton Ferreira); “Feitiço da Vila” (Noel Rosa e Vadico); “Ave Maria” (Erotildes Campos e Jonas Neves); “Aquarela do Brasil” (Ary Barroso); “Jura” (Sinhô); “Carinhoso” (Pixinguinha e João de Barro); “Linda Flor” (Henrique Vogeler e Luís Peixoto); “A conquista do ar” (Eduardo das Neves); “Luar do Sertão” (Catulo da Paixão Cearense e João Pernambuco); “Chão de estrelas” (Orestes Barbosa e Sílvio Caldas); “Linda Morena” (Lamartine Babo); “A voz do violão” (Francisco Alves e Horácio Campos); “Na Pavuna” (Homero Dornelas e Almirante); “Primavera do Rio” (João de Barro); “Apanhei-te cavaquinho”, (Ernesto Nazareth); e “Florisbela”, (Nássara e Frazão).

Patrimônio que virou samba… “Hoje a calçada é a glória”, diz a letra. Mas se nossa história fosse tratada com respeito, a glória seria maior. Essa riqueza cultural chega aos 44 anos com péssima conservação. Talvez fosse o caso de mudar o subtítulo… Há quem garanta viver num bairro em que se tropeça sobre música. Se fosse vivo, quem sabe agora Almirante quisesse interferência política.

Quando passarem pelo bairro de Noel, pedindo licença a Orestes Barbosa e Sílvio Caldas, não deixem de contemplar, mas também de preservar esse verdadeiro chão de estrelas.

Ana Helena Ribeiro Tavares

Matéria publicada na edição de agosto/2008 do jornal “Correio Carioca”.

Para ver a edição completa do jornal, clique aqui

Obs: Algumas das músicas gravadas nas calçadas de Vila Isabel estão disponíveis em clipes no youtube. Para ver e ouvir basta clicar em alguns dos títulos que  marquei como links, que vocês serão então direcionados para algumas das interpretações que selecionei.

criado por Ana Helena Tavares    20:09:59 — Arquivado em: Jornalista é contador de Histórias!, Reportagens — Tags:, , , , , , , ,

Porto - modernidade que canta o fado

Foto: Ana Helena Tavares
Bairro da Ribeira e detalhe da Ponte D. Lu�s I

Bairro da Ribeira e detalhe da Ponte D. Luís I

Aliar o antigo e o novo com maestria é o segredo da cidade para encantar olhares.

O Porto tem origem num povoado pré-romano, o qual era denominado Portus Cale, vindo daí o nome Portugal. Devido a feitos valorosos de seus filhos, dentre eles o Infante D. Henrique, navegador destemido, a cidade ficou conhecida como “a invicta” (título que ostenta em seu brasão).

Como local turístico, é um dos mais tradicionais da Europa. A riqueza do seu patrimônio artístico, os locais para degustação do mundialmente aclamado Vinho do Porto e os vastos espaços dedicados ao lazer e à vida cultural são apenas alguns dos motivos que convidam a visitar a Cidade do Porto.

Localizando-se na margem direita do rio Douro e junto à sua foz, é a segunda maior cidade de Portugal. Nela se entrelaçam diversas estradas e ferrovias, o que contribuiu de forma decisiva para tornar a cidade o coração econômico de toda a região norte do país. Como se vê, é extremamente fácil chegar à cidade, seja de automóvel, trem, ônibus, metrô, barco ou avião. No caso dos turistas estrangeiros que lá chegarem de avião encontrarão no aeroporto Francisco Sá Carneiro uma moderna estrutura que se encontra preparada para responder à grande demanda de tráfego aéreo.

Quanto à hospedagem, a cidade dispõe de incontáveis hotéis e, se preferir, o visitante poderá ainda passar sua temporada numa pensão, num apartamento alugado, num alojamento para jovens (albergue) ou, então, num parque de campismo, caso queira o contato direto com a natureza.

Local privilegiado para se fazer compras, o Porto reúne tanto lojas de artesanato português e todo tipo de lojas típicas, distribuídas em seus tradicionais mercados e feiras, como também shoppings moderníssimos. Conta ainda com uma variada gastronomia de fazer sorrir o estômago.

Passeios de barco, salas de espetáculo, cinemas, teatro, muita música, uma animada vida noturna, e até locais com acesso gratuito à internet são algumas das opções de lazer. E para quem pretenda desbravar a cidade, em seus recantos, diversos percursos estão disponíveis (o do Azulejo, o Barroco, o Neoclássico). Se a preferência for pelo ar livre poderá surpreender-se com o percurso Garretiano. E o turista não pode deixar de conhecer a área da Sé, que tem destaques como a igreja renascentista de Santa Clara e o superlotado bairro do Barredo, que parece não ter mudado desde tempos medievais. O bairro da Ribeira é igualmente fascinante com suas ruas estreitíssimas e casas típicas.

Para quem é apaixonado por esportes, ir ao Porto e não conhecer o ultramoderno complexo esportivo do Estádio dos Dragões, pertencente ao seu famoso time de futebol, é o mesmo que ir a Roma e não ver o Papa. E, se não bastasse tudo isso, para quem busca sossego a cidade oferece ainda um sem número de parques e jardins, que tem conservação ímpar e são de encantar qualquer olhar.

A Cidade do Porto pode, enfim, orgulhar-se de seu impressionante ecletismo e da riqueza que construiu: rede de transportes públicos considerada das mais modernas da Europa, sistema eficiente de saúde, cultura em cada esquina e gestão de turismo competente, entre outros fatores fundamentais para a prosperidade de qualquer cidade que se autodenomine metrópole no mundo contemporâneo.

E que o turista não se espante caso esteja num cyber-café e, ao olhar pela janela, ache que as calçadas parecem cantar o fado. Quantas histórias já passaram por elas? Trata-se de uma cidade que se modernizou respeitando suas origens. Não deixe de conhecer, é uma visita inesquecível.

Ana Helena Ribeiro Tavares

Matéria publicada na edição de agosto/2008 do jornal “Correio Carioca”.

Para ver a edição completa do jornal, clique aqui

criado por Ana Helena Tavares    19:43:42 — Arquivado em: Jornalista é contador de Histórias!, Reportagens — Tags:, , , , , , , , , , ,

1.8.08

Quando o privilégio é privilegiar

Fotos: Arquivo pessoal / Álbum de família
Na foto de cima, meu irmão, Daniel, com pose e uniforme de He-man, aos 6 anos e eu aos 2, entre nós, nosso pai, Manuel. Na foto de baixo, quando eu tinha 6 meses, as mãos de meu pai me levantam no ar.

Na foto de cima, meu irmão, Daniel, com pose e uniforme de He-man, aos 6 anos e eu aos 2, entre nós, nosso pai, Manuel. Na foto de baixo, quando eu tinha 6 meses, as mãos de meu pai me levantam no ar.

- Dedico esta crônica ao meu pai Manuel, esperando que todos os verdadeiros pais do mundo sintam-se homenageados.

Um herói sem fantasia, que jamais foge à luta, batalhando de forma incansável com todas as armas de que consegue dispor. Um herói que, se pudesse, requereria o privilégio de morrer antes dos filhos só para não ter que vê-los perder o privilégio da vida. E, se preciso fosse, não titubearia em morrer por eles, mas sonha mesmo é em poder viver para, com bandeirinha em punho, vê-los alcançar vitórias mais privilegiadas que as dele.

Todo pai a quem se possa chamar pai é herói. Os termos são quase sinônimos e isso não tem nada a ver com biologia. Assim como para ser mãe não basta colocar no mundo, um pai também não é simplesmente aquele que tem seu nome em nosso DNA. Certas vezes, esse é sim pai, mas há casos em que, infelizmente, não merece em nada o título. No entanto, ao nascer, todos mereceriam ter um pai. E há quem opte por criar os filhos renegados, são os pais adotivos. Mas adotar, paradoxalmente, também nem sempre significa dar amor. E um pai ama.

Há o caso do padrinho, que, escolhido para ser um segundo-pai, às vezes some do mapa, mas também acontece de se tornar o primeiro. E há ainda aqueles que com o tempo percebemos que podemos chamar de pai, mesmo que não seja padrinho, não haja certidão de adoção e nem compartilhem de nosso sangue, mas que compartilham conosco suas mais incríveis aventuras e tudo que a vida os deu de melhor. E um pai compartilha sua luz.

Vai daí que há muitos tipos de pais. Todos, por definição, igualmente heróis.

Aqueles que, além de pais biológicos, são também verdadeiros pais, ainda que sejam os mais completos, não são tão facilmente identificáveis. Numa praça que reúna os diversos tipos de pai interagindo com seus filhos, não pense que é assim tão fácil identificar quem tem laços sangüíneos com quem. As semelhanças físicas podem até ajudar, mas não se leve pelo jeito de ser – isso pode confundir bastante. Acredite, a convivência é capaz de tornar duas pessoas extremamente parecidas, há quem diga que até fisicamente. E um pai convive. Pode não ser uma presença diária, pode nem sequer ser mensal, mas, de longe ou de perto, um pai acompanha.

É fácil perceber dentre os vários pais a vontade de oferecer ao filho o privilégio de ir mais longe do que eles foram. Isso porque, dentro do espírito paternal, o maior privilégio é privilegiar. Ao pai biológico, porém, único capaz de ver crescer levando o seu nome um fruto de seu sangue (e quiçá de seu amor), reserva-se uma sensação de continuidade ímpar. Qualquer pai pode em muitos momentos olhar pro filho com esperança de que ele dê continuidade à determinada causa ou até, como tantas vezes acontece, sonhando com que ele siga a carreira que é tradição na família… Mas, se for mesmo um pai, certamente não fará disso uma imposição incondicional… Caso o filho não queira continuar nada, queira ir longe da sua maneira, criando tudo novo, esse pai, elogiando ou criticando, estará de alguma forma demonstrando apoio. Porque um pai sempre escolhe apoiar.

Escolha difícil e inusitada têm alguns pais adotivos. Um berçário repleto, um jardim cheio de crianças: – “E, agora, quem vou chamar de filho?”. Mas a vida, com sua sabedoria maternal, trata de indicar quem o vai chamar de pai.

Mais do que fazer escolhas, ser pai é renunciar às próprias escolhas. É escolher privilegiar e sentir-se privilegiado com isso. Não se trata de ser escravo, nem é isso que um bom filho quer do pai. Mas qualquer relacionamento sincero passa por saber ceder, passa por querer ceder, se isso for o melhor para o ente querido. E pais não poderiam agir diferente disso com seus filhos. Todo pai precisa se manter firme em algumas posições que lhe são caras, até por uma questão de coerência, mas também percebe a hora certa de ceder e ao fazê-lo por seguir seus sentimentos não fracassa, ao contrário, dá uma das mais altas e sublimes demonstrações de carinho, ao abrir mão de si mesmo para cuidar dos filhos. Sim, um pai cuida, e como cuida, e para fazê-lo bem, muitas vezes, é preciso deixar de lado antigas idéias e, em algumas situações, esquecer-se das próprias vontades. Na certeza de que, em certa altura da vida, os bons filhos se tornam pais de seus pais e acabam por fazer o mesmo.

Tá aí colocado um novo tipo: os filhos que se tornam pais de seus pais. Isso sem falar no avô-pai, tio-pai, irmão-pai, etc., aqueles outros familiares que às vezes também se tornam nossos pais. E há ainda o amigo-pai, a que fiz referência no início da crônica. Aquele que, sem nos ser ligado nem pelo sangue nem pela lei, nos olha com brilho paternal, sonhando com nossos vôos e voando com a gente.

Voar é sonho antigo do ser humano. Mas se você é um pai de verdade (de qualquer um dos tipos, ou até mais do que um, ou todos) suas asas, ainda que não apareçam, estão aí prontas para aconchegar e defender os filhos em qualquer perigo. Quer mais super-poderes do que isso? É melhor parar de esconder a fantasia, o mundo já sabe que você é um herói.

Ana Helena Ribeiro Tavares
01/08/2008

criado por Ana Helena Tavares    18:25:56 — Arquivado em: Ampla homenagem, Crônicas — Tags:, , , , , , , , , , , , , ,

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