Traços de Estilo

“A poesia confunde-se com a prosa da mesma maneira que o poeta confunde-se com o homem da rua e já não pode nem deseja reivindicar para si a condição de eleito dos deuses.” (o poeta Gullar) “É preciso levar em conta as palavras que você escolhe, cuidar de cada sentença. É preciso ser sensível ao sentimento das pessoas.” (o jornalista Talese)

27.7.08

Recado de primavera

Publico hoje aqui um texto em formato de carta. Um texto ingênuo e profundamente despretensioso, afinal vai fazer 10 anos e foi escrito quando eu tinha apenas 13 anos. No entanto,  foi com este texto que ganhei meu primeiro concurso literário (ainda nos bancos escolares do meu querido CPII) e pode-se dizer que esta foi minha primeira crônica, tendo sido assim o marco inicial de toda uma história… E só por isso já deveria ter merecido espaço aqui há mais tempo… Trata-se de uma paródia a um texto homônimo de Zuenir Ventura (que naquela época ainda escrevia pro Jornal do Brasil). Algum tempo depois de escrevê-lo, cheguei a entrar de fato em contato com Zuenir, que respondeu parabenizando-me e terminou dizendo: “Espero que você continue fazendo seus exercícios de estilo”. Um dia ainda terei oportunidade de dizer pessoalmente a ele que, não só continuei, como é àquelas palavras que se deve o nome deste blog. Segue então o texto…

Vou continuar vigiando as ruas, os pássaros e os rapazes em flor

Meu caro Zuenir Ventura,

Escrevo-lhe aqui do Andaraí para lhe dar uma notícia grave: a primavera chegou. Ao ler “Recado de primavera”, que você escreveu ao cronista Rubem Braga, resolvi mandar-lhe uma carta parecida.

Sempre que posso leio suas crônicas no Jornal do Brasil, pois as acho muito criativas. Infelizmente, ainda não tive o prazer de conhecê-lo pessoalmente, mas espero que isso brevemente aconteça.

Pouca coisa mudou, cronista, nesses dois anos. As “violências primaveris” de que Rubem Braga falava na carta a Vinícius de Moraes, continuam sendo “violências mesmo”, só que, às vezes, são até piores.

Esse ano a primavera está um tanto estranha. Para se ter uma idéia, ao invés de tempo quente e estável, ultimamente tem estado frio e ocorrido muitas chuvas inesperadas. Dizem que é culpa de um tal fenômeno chamado “La Niña”.

O tempo vai passando, cronista. Chega a primavera nesse Rio de Janeiro, que apesar de tudo, continua a “Cidade Maravilhosa”, narrada em prosa e verso por tantos poetas, músicos e escritores como você.

Eu ainda vou ficando por aqui a vigiar, em nome de todos aqueles que já se foram, as ruas, os pássaros e os rapazes em flor. E estudando, como todo jovem, para um dia ser alguém. Até breve!

Ana Helena Ribeiro Tavares
Setembro de 1998.

criado por Ana Helena Tavares    18:15:27 — Arquivado em: Crônicas, Paródias poéticas — Tags:, ,

25.7.08

Pasargadeando I

Foto: Ana Helena Tavares

- “Diálogo” poético com Manuel Bandeira - aspas nele! E negrito nos trechos de minha autoria.

- Dedico esse “diálogo” à minha tia Lourdes, que alimenta o beija-flor da foto e é, ao mesmo tempo, um necessário toque de realidade nesse meu mundo de pasargadeios…

Afirmo a todos que ganharam lugar nobre em meu coração:
No início, as aparências (falso espelho que embaça verdades)
Não eram de meu agrado…

Bobagem acreditar que o que fica é a primeira impressão!
Antes de muitos relacionamentos humanos (amores, amizades)
Houve um pré-julgamento equivocado.

“A primeira vez que vi Teresa
Achei que ela tinha pernas estúpidas
Achei também que a cara parecia uma perna

Da terceira vez não vi mais nada
Os céus se misturaram com a terra
E o espírito de Deus voltou a se mover sobre a face das águas.”

Deus é a única perfeição.
E eu, criatura, já quis reunir:
O carisma de minha mãe
A honestidade de meu pai
A paciência de meu irmão
A memória avantajada de um de meus tios
O pragmatismo do outro
A sagacidade de uma de minhas tias
A sensatez da outra
A perseverança de minha avó materna
A vitalidade da outra avó
A alegria contagiante de meu avô materno
E o empreendedorismo do outro avô…
Ufa, hoje quero ser quem eu sou!

“Não quero o êxtase nem os tormentos.

— Quero a delícia de poder sentir as coisas mais simples.”

Garganta inflamada, vômito, diarréia e congestão nasal.
O corpo mais mole que uma maria-mole.
– (Atchim) Doutor, estou (atchim) mal (atchim)!
– Sente-se aqui. Abra a boca. Abra mais.
– Ahhhhhhhhh…
Caleidoscópio em punho, medidor de pressão, exames rápidos.
– É uma virose!
– Mas, doutor, minha cabeça lateja e estou explodindo de febre…
– É uma virose, já lhe disse! Vá à farmácia e compre isso e isso. Ah, e também isso.
……………………………………………………………………………………………………………………………
Conheço gente que foge de médico como gato de água.

“Febre, hemoptise, dispnéia e suores noturnos.
Tosse, tosse, tosse.

Mandou chamar o médico:
— Diga trinta e três.
— Trinta e três . . . trinta e três . . . trinta e três . . .
…………………………………………………………………………………………………

— O senhor tem uma escavação no pulmão esquerdo e o pulmão direito infiltrado.
— Então, doutor, não é possível tentar o pneumotórax?
— Não. A única coisa a fazer é tocar um tango argentino.”

Assim como tango lembra nostalgia
Nostalgia me lembra a pureza da infância

E foi das lembranças dessa fase
Que tive hoje a prova do passar do tempo
Ao observar brincando na calçada
A filha de uma amiga minha de infância
Pensei:
É a cara da mãe!
Corrigi:
É a cara da mãe
Quando a mãe era criança…
Óh, Deus, se a tal mãe tem a minha idade
(conclusão óbvia)
O meu rosto também mudou!
Pausa…
Em frente ao espelho a verdade me saltou aos olhos.

Uma mudança natural, que não me entristece.
Minha infância foi de grande alegria
E recordá-la me fez ganhar o dia.

“Andorinha lá fora está dizendo:
— “Passei o dia à toa, à toa!”

Andorinha, andorinha, minha cantiga é mais triste!
Passei a vida à toa, à toa . . .”

Vida num sítio retirado:
Na auto-estrada carros vêm e vão
Sabe-se lá de onde, pra onde
Na varanda, moradores conversam alto
Cachorros brigam por ciúmes
O beija-flor, indiferente a tudo, vem se refrescar…
Dos lados o verde que tão bem cheira,
Por cima o azul sem fronteira,
Pela frente o mundo, pra quem o queira.

“Jardim da pensãozinha burguesa.

Um gatinho faz pipi.
Com gestos de garçom de restaurant-Palace
Encobre cuidadosamente a mijadinha.
Sai vibrando com elegância a patinha direita:
— É a única criatura fina na pensãozinha burguesa.”

Sociedade cheia de rapapés!
Pra que?
Dentro nada, fora dez?

“Irene preta
Irene boa
Irene sempre de bom humor.

Imagino Irene entrando no céu:
— Licença, meu branco!
E São Pedro bonachão:
— Entra, Irene. Você não precisa pedir licença.”

Branco
Prepotente
Mau-caráter
Querendo sempre levar vantagem
Se mostra a fineza em pessoa…
Sobrinho-neto de sardinheira, só pensa em caviar.

Imagino-o tentando entrar no céu:
– Sai da frente que eu cheguei!
E São Pedro sem meias palavras:
– Soldados!!!!!

“Vi ontem um bicho
Na imundície do pátio
Catando comida entre os detritos.

Quando achava alguma coisa,
Não examinava nem cheirava:
Engolia com voracidade.

O bicho não era um cão,

O bicho, meu Deus, era um homem.”

Crianças esquecidas em carros
Atiradas pela varanda
Arrastadas pelas ruas
Baleadas por quem as tinha que defender
Abandonadas em rios
Jogadas no lixo

Há homens, meu Deus, piores que bicho!

“Que importa a paisagem, a Glória, a baía, a linha do horizonte?
— O que eu vejo é o beco”

Por que tanto noticiam becos, trevas, desgraças, escuridão, a morte?
– O que eu vejo é a vida!

“João Gostoso era carregador de feira livre
Uma noite ele chegou no bar Vinte de Novembro
Bebeu
Cantou
Dançou
Depois se atirou na lagoa Rodrigo de Freitas e morreu afogado.”

Maria tinha cinco filhos
E era esposa de um trabalhador
Uma manhã acordou sem ser chamada
Cozinhou
Lavou
Passou
Depois se ajoelhou na igreja da favela
E chorou o inexplicável…

“Assim eu quereria o meu último poema.
Que tivesse a beleza das flores quase sem perfume
A paixão dos suicidas que se matam sem explicação.”

Pasargadeando II - continuação

- “Diálogo” com Manuel Bandeira - 2ª parte

Quando eu escrever meu último poema
Dificilmente saberei que é o último
Mas, Deus, tenho alguns pedidos a fazer:
Que nele eu diga algo que nunca disse
E de uma forma direta
Como sempre foi difícil pra mim.
Sabes bem, meu Deus, que…
Quando eu escrever meu último poema
Pouco tempo depois terei morrido.
Por isso, peço pra ele o encanto
Que há no olhar de um recém-nascido.

“Estou farto do lirismo comedido
Do lirismo funcionário público com livro de ponto expediente
protocolo e manifestações de apreço ao Sr. diretor.
Estou farto do lirismo que pára e vai averiguar no dicionário
Político
Raquítico
Sifilítico
De todo lirismo que capitula ao que quer que seja
fora de si mesmo
De resto não é lirismo
Será contabilidade tabela de co-senos
Quero antes o lirismo dos loucos
O lirismo difícil e pungente dos bêbedos

— Não quero mais saber do lirismo que não é libertação.”

A mão que escreve
É indecisa
Detalhista
Pensa demais
Titubeia

– A mente queria ser a mão…

“Café com pão
Café com pão
Café com pão

Que vontade
De cantar!
Oô…
(café com pão é muito bom)”

Bigode de leite condensado
Sorriso de lado a lado

Há tantas coisas simples e boas
À espera de quem as valorize
Mas antes é preciso
Valorizar a si mesmo

“Provinciano que nunca soube
Escolher bem uma gravata;
Poeta ruim que na arte da prosa
Envelheceu na infância da arte,
Arquiteto falhado, músico
Falhado (engoliu um dia
Um piano, mas o teclado
Ficou de fora); sem família,
Religião ou filosofia;”

Suburbana que nunca gostou
De cerveja
E deve ser péssima sujeita:
Além de ruim da cabeça
É também doente do pé
Carioca que vai à praia
No inverno
Pra andar pelo calçadão
De preferência pela contramão
Poeta amadora que na arte da prosa
Ainda engatinha
E em mensagens
É chegada a uma ladainha
Pintora que entorta
O sete
Tecladista de uma só mão
Um ser sem coordenação
A família é pequena
E bem complicada
Mas sempre a apoiou
Tem suas vãs filosofias e crê
Em Deus
Mas religião não é algo
Que lhe atraia
Uma alma sonhadora e idealista,
Um olhar observador
Que inquieta o coração
Uma mente em turbilhão.
Alguém que tem saudades
De quando ainda não existia
E sente uma estranha falta
Do que ainda está por vir
Gosta de explicar e adora esclarecer
Algum mistério
Sonhou ser professora, mas não nasceu
Pro magistério
Passou anos e anos
Nadando
Até que teve um burn out
(se afogou e se queimou com água)
Nadava sem definição de raia
Até que chegou ao jornalismo
Andando
(se encontrou)
E, feliz, definiu sua praia.

“Vou-me embora pra Pasárgada
Aqui eu não sou feliz

Em Pasárgada tem tudo
É outra civilização

E quando eu estiver mais triste
Mas triste de não ter jeito
Quando de noite me der
Vontade de me matar
— Lá sou amigo do rei —
Terei a mulher que eu quero
Na cama que escolherei
Vou-me embora pra Pasárgada”

A quem muito busca riqueza
Felicidade não costuma dar atenção

Quando eu aterrissar numa terra distante
Tão longe que nem se imagine
E quando lá eu me sentir
Sozinha e desnorteada
– Farei amizade com um mendigo –
Sem a burocracia dos palácios
Pelas ruas encontrarei o meu amigo
Sem os afazeres de um rei
Ele terá tempo pra estar comigo
E conhecerá melhor a cidade
Pois não viverá preso a seu castelo
Terá a rua como abrigo
E sem o fardo da superexposição
Poderemos nos divertir à vontade
Quanto a ouro… Nem ligo!

“Belo, belo!
Mas basta de lero-lero
Vida noves fora zero.”

Julho de 2008
(escrito à mão, entre os dias 20 e 25, numa Pasárgada),

Ana Helena Ribeiro Tavares

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15.7.08

Coisas impossíveis

- Para o meu amigo Marcelo Nogueira, que se já não bastasse ser ele próprio um verdadeiro carnaval fora de época ainda insiste em dizer que já viu alguém dançando freneticamente o fado… : )

Tocar saxofone em Marte
O mundo sem arte

Bandeiras paradas na ventania
Morcego morder de dia

Uma cobra andar de lado
Dançar freneticamente o fado

Correr numa bicicleta a 300 por hora
Chupar cana comendo amora

Passear livre e solto pela parede
Ficar dois dias sem água e sem ter sede

Construir um país em dois meses
A humanidade sem interesses

O bem trapaceando o mal
Pepinos formando um grupo social

Líder sem seguidor
Sacrifício indolor

Lágrima que brota colorida
Uma guerra mundial ser vencida

Paz com muro
O sol raiar escuro

Uma vida assim, assim
Banqueiro sem din-din

Venda sem produto
Palmeira dar fruto

Saci sem cachimbo
Fim-de-semana sem domingo

Beta sem alfa antes
Quixote sem Cervantes

Julieta sem Romeu
Um padre ateu

O céu virar chão
Homem sem coração

Sangue azul
Estar no norte e no sul

Jornal sem notícia
Verdade fictícia

Bebê que fale ao nascer
Sem versos um poeta viver

A Terra sem o mar
A poesia acabar…
Ana Helena Ribeiro Tavares,

14/07/08

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10.7.08

Rotinas e retinas

Foto: Ana Helena Tavares

A moça pobre estirada no chão
Adormece na cama de cimento
O senhor com o cigarro na mão
Sorri em meio ao fumo cinzento

A moça que não larga o celular
Se sente na moda, se sente chique
A trabalhadora cheia de bolsas pra carregar
Se vê a ponto de um chilique

O mauricinho rói unhas… Velho vício
Música e buzina a se misturar
Os aposentados seguram cartões de benefício
Benefício de que? Parecem pensar…

O soldador se arrisca sem segurança
Talvez seja o sustento de sua casa
O motoqueiro na calçada esbanja confiança
Até parece que sua moto tem asa

E o sono de quem segura cartazes?
Opa! Cuidado, assim a placa cai…
Mas o pior são os que já perderam as bases
É triste não se saber pra onde vai…

Mas sempre há quem tente clarear a estrada
A maravilha da cidade é seu povo camarada.

Ana Helena Ribeiro Tavares,

10/07/08

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Não Faça listas

Foto: Ana Helena Tavares

Não faça listas, faça amigos

Que você terá muitos anos mais…
Mesmo que não os veja todo dia
Se precisar, eles estarão no cais

Não faça listas, sonhe bem alto!
Quem sabe os anjos poderão acordar…
Quem sabe um deles não te reconhece
E faz sua estrela mais forte brilhar…

Onde você está pensando que vai?
Sem um ombro ao lado quando seu peito chora…
Se a vida não está como achou que seria
Não espere o amanhã pra mudar o agora.

Tenha segredos, mas não guarde todos
Compartilhar faz bem ao viver
Como é possível seguir em frente
Sem alguém por perto pra nos entender?

Defeitos todo ser humano tem
Nossos amigos têm que aprender a lidar
Mas mentiras são como facadas
Que fazem uma amizade aos poucos sangrar

A maior mentira é pra si mesmo
Quantos cantam pra mágoas esquecer?
Digo: continue cantando, mas lute por assobios
De uma platéia que ame você…

- Livremente inspirado na letra da música “A lista”, de Oswaldo Montenegro.

Ana Helena Ribeiro Tavares,

8/07/08

Para ver um clipe com a música “A Lista”, de Oswaldo Montenegro, interpretada pelo próprio, clique aqui

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5.7.08

O apito que moldou vidas - 3ª e última parte (”trilogia da fábrica”)

Foto: Ana Helena Tavares
Fachada da Casa de Vila Isabel e detalhe da torre da antiga fábrica com a inscrição CCI (Companhia Confiança Industrial) 1894.

Fachada da Casa de Vila Isabel e detalhe da torre da antiga fábrica com a inscrição CCI (Companhia Confiança Industrial) 1894.

Casa de Vila Isabel: herança promissora deixada pela Fábrica Confiança

Quem observa a estrutura arquitetônica externa já percebe a antigüidade. Assim como ocorre no prédio da antiga fábrica, a fachada da Casa de Vila Isabel, que fica ao lado, também teve mantida toda sua arquitetura original.

A construção que hoje abriga a chamada Casa de Vila Isabel é conhecida pela maioria dos moradores da região como Casa do Barão, devido a uma lenda de que o Barão de Drummond teria morado ali na época em que fundou o bairro de Vila Isabel, anos antes da construção da fábrica. No período em que a fábrica funcionou, o prédio era conhecido como Palacete da Fábrica, servindo como moradia para o chefe da tecelagem e seus familiares. Desde que a fábrica fechou, em 1945, o antigo Palacete estava sendo mantido sem otimização do espaço, com instalações precárias e sem nenhum investimento. No entanto, em 2001, o Instituto Pão de Açúcar visitou o espaço e, considerando o bairro estratégico, resolveu restaurá-lo.

Hoje em dia o local é um centro cultural fervilhante. “Sempre desenvolvemos projetos próprios na Casa: Acordes da Vila , Culturarte, Futuro@eu, Nossa Língua Digital, Um passo a mais , Escola de Varejo e Esporte. E o desafio para 2008 foi transformar a casa num ativo da comunidade e dar continuidade aos projetos de música.”, é o que diz Rosana Vilarinho, da área de responsabilidade sócio-ambiental do Instituto. Dentre as iniciativas da Casa de Vila Isabel que mais beneficiam a comunidade local está a de promover parcerias para que ONGs utilizem as sala de aula e áreas de convivência com projetos sociais. “Também fazemos parcerias para a concessão do espaço para seminários, fóruns e formação de profissionais. Atualmente temos a parceria efetiva de duas ONGs (Instituto Primeiros Traços e Ong Abraçar) e Secretaria Municipal de Educação para formação de professores. Também realizamos toda última sexta de cada mês, o evento “Orquestra GPA convida…” no qual recebemos músicos para apresentações conjuntas e entendemos que este espaço oferecido à população em geral de forma gratuita seja um legado cultural que também vale a pena citar.”, palavras de Renata Gomide, gerente de desenvolvimento comunitário do Instituto.

Falando em legado, é importante dar ênfase ao fato de o apito ter voltado a soar há cerca de um mês, sendo também uma belíssima herança da fábrica. Enquanto Noel dizia que ele vinha lhe “ferir os ouvidos”, para os operários ele servia como guia. E hoje ainda se faz capaz de guiar, só que todos os moradores de uma região que sua centenária chaminé cor de barro viu crescer.

Quando a chaminé foi erguida, o jovem Thiago Rocha, integrante da orquestra da Casa de Vila Isabel, nem sonhava em nascer. Hoje ele afirma: “a música educa”. E diz mais: “Participar dos projetos da Casa deu uma guinada em minha vida, tanto familiar, como pessoal e profissional. O contato que temos aqui com a música é importantíssimo e hoje tenho uma educação que não tive oportunidade antes. Ter vindo para cá foi algo divino e no futuro isso será lembrado com carinho.”

Lenda ou não, Barão de Drummond ficaria orgulhoso e Noel talvez redimisse o apito.

Ana Helena Ribeiro Tavares

Matéria publicada na edição de Julho/08 do jornal de bairro “Correio Carioca”.

Esta matéria foi também reproduzida pelo site “Sou da Vila“.

Para ver a edição completa do jornal, clique aqui

E para ver um clipe com a música “Três apitos”, de Noel Rosa, interpretada pelo grupo “Sonora Madeira”, clique aqui

PORQUE O APITO AINDA APITA…

criado por Ana Helena Tavares    15:29:03 — Arquivado em: Jornalista é contador de Histórias!, Reportagens — Tags:, , , , , , , , , , , ,

O apito que moldou vidas - 2ª parte (”trilogia da fábrica”)

Foto: Ana Helena Tavares
2008 - a antiga Fábrica Confiança ainda com sua imponente chaminé "de barro", o desenvolvimento de seu entorno e o arco-iris que Deus deu à foto.

2008 - o prédio da antiga Fábrica Confiança ainda com sua imponente chaminé "de barro", as transformações de seu entorno e o arco-íris que Deus deu à foto.

As transformações sócio-geográficas motivadas pela Fábrica Confiança

Quando de sua fundação, no final do séc. XIX, a Fábrica Confiança, que já nasceu dotada de 400 teares, utilizava caldeiras abastecidas pelas águas do Rio Joana represadas num açude onde hoje é a rua Artidoro da Costa, em Vila Isabel. Dez anos mais tarde, a fábrica já computaria 1600 teares, ocupando uma área total de 93.000m².

Em 1872, poucos anos antes da fundação da fábrica, nascia o bairro de Vila Isabel. Em 1873 foi construída uma linha de ferro-carril, ligando o bairro à cidade, o que possibilitou que o bairro prosperasse, tendo sido urbanizado segundo os modernos moldes franceses da época e tendo como destaque sua rua principal: o Boulevard 28 de Setembro (data da Lei do Ventre Livre). Antes disso os bairros de Vila Isabel, do Andaraí e do Grajaú ocupavam uma área conhecida como Fazenda do Macaco, a qual pertencia aos jesuítas, até que em 1858 foi incorporada à Coroa. Com a ida da família real para Portugal, o local ficou abandonado. A parte que hoje abrange Vila Isabel foi comprada então em 1872 por Viana Drummond, que a batizou assim em homenagem à princesa.

A partir de 1919, o “Palacete da Fábrica”, que hoje respira cultura abrigando a Casa de Vila Isabel, foi habitado por Jerônimo Braga, que por ter assumido a direção da tecelagem mudou-se para lá. No andar de baixo ficava o escritório da fábrica e o consultório médico que atendia aos operários. A família ocupava os dois andares superiores. Filho primogênito do Sr. Jerônimo, Carlos Alberto Ferreira Braga, o Braguinha ou João de Barro, mudou-se para o “Palacete” aos 12 anos de idade. Lá floresceu seu dom de compor e tocar. Seus amigos freqüentavam a casa em visitas e saraus. Eram, com ele, integrantes do Grupo Flor do Tempo e mais tarde do Bando dos Tangarás: Noel Rosa, Henrique Brito Alvinho e Almirante. Foi também na escadaria do “Palacete” que Braguinha iniciou o namoro com Astréa Rabelo Cantolinho. A família ficou na casa até 1927. Desde então acredita-se que tenha servido apenas como escritório. Hoje, funcionando lá a Casa de Vila Isabel traz-se de volta as alegrias e parte da “alma” do bairro.

A partir de 1980, tem início no bairro o resgate de sua história e da qualidade de vida região. A Associação de Moradores e Amigos da Vila Operária Confiança começou a ser extremamente atuante na preservação do patrimônio da fábrica e arredores.

Além de todo o movimento cultural presente na Casa de Vila Isabel e da mobilização social impulsionada pela Associação de Moradores da Vila Operária, há ainda as transformações geográficas causadas pela fábrica. Dois bons exemplos disso são: o numeroso complexo de casas que até hoje forma a Vila Operária, o qual é bastante fragmentado e estende-se por uma vasta área; e ainda o local onde atualmente fica a quadra da Escola de Samba Acadêmicos do Salgueiro, pois, pouca gente sabe, mas ali era o campo de futebol onde jogava o time de funcionários da fábrica.

Como se vê, Vila Isabel cresceu, juntamente com os bairros vizinhos, mas a intensa transformação não inibiu o lazer e a cultura. Afinal, falamos de um lugar em que apito de fábrica vira música…

Ana Helena Ribeiro Tavares

Matéria publicada na edição de Junho/08 do jornal de bairro “Correio Carioca”.

Para ver a edição completa do jornal, clique aqui

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O apito que moldou vidas - 1ª parte (”trilogia da fábrica”)

Foto: Ana Helena Tavares
Seu Mathias Costa
Seu Mathias Costa

- Dedico toda a “trilogia da fábrica” ao meu ilustre vizinho, Seu Mathias Costa, que aos 100 anos esbanja saúde e simpatia… E até os 97 andava de bicicleta pelas ruas do Andaraí.

A história de quem chega aos 100 anos, 15 dedicados à Fábrica Confiança

Companhia Confiança Industrial, esse era o nome da fábrica para a qual, em janeiro de 1930, Seu Mathias João da Costa, foi contratado para trabalhar de pedreiro. No prédio tombado da Av. Maxwell 300/344, onde hoje funciona um hipermercado, conhecido por muitos pelo nome de Boulevard, ainda é possível observar em letras brancas no alto de sua imponente torre a inscrição C. C. I. que representa as iniciais do nome da fábrica. Logo abaixo dessas três letras pode-se confirmar a antigüidade da construção através da data em que foi erguida: 1894.

Era dessa torre que saiam os famosos três apitos que, tocando sempre às 8hs, meio-dia e 17hs, nos tempos da fábrica marcavam o início do expediente, a hora de almoço e o final do dia de trabalho dos operários. Tais apitos se consagraram no imaginário dos moradores da região, pois mesmo depois do fechamento da fábrica permaneceram sendo tocados por muitos e muitos anos, fazendo com que muita gente marcasse as horas através deles. Além disso, o grande poeta da Vila Noel Rosa contribuiu para imortalizá-los de vez ao escrever a música “Três apitos”, em que há os seguintes trechos: “Quando o apito da fábrica de tecidos/ vem ferir os meus ouvidos/ (…)/ Você que atende ao apito/ de uma chaminé de barro/ por que não atende ao grito tão aflito/ da buzina do meu carro?”.

Mas voltemos ao Seu Mathias. Ele contou que os principais setores da fábrica eram: fiação, tecelagem, engomação, oficina mecânica e carpintaria. Lá dentro havia ainda uma grande loja, um espaço dedicado à venda dos tecidos produzidos, ou seja, era uma área industrial que funcionava também como comércio. É possível imaginar que trabalhasse muita gente num local assim, pelas contas de Seu Mathias, algo em torno de cinco mil pessoas. No início ele foi contratado como pedreiro, mas logo foi transferido para o cargo de soldador elétrico, no qual permaneceu até o final. Sobre o que achava do salário ele não fez rodeios: “Era pouco, mas era certo!”, disse com ar saudosista. Segundo ele, todos os operários tinham sempre a carteira assinada e os donos faziam questão de garantir sempre todos os direitos trabalhistas, tais como férias, transporte e moradia.

É interessante frisar a questão da moradia, pois a casa em que ele mora até hoje e onde concedeu essa entrevista é a mesma em que morava no seu tempo de operário. Ela faz parte da chamada vila operária, a qual está tombada e existe até hoje nos arredores da antiga fábrica e naquela época servia para abrigar os operários e suas famílias. De acordo com Seu Mathias, quando a fábrica fechou, em 1945, foram dadas aos trabalhadores duas opções: “Quem quiser ficar com a casa, pode, mas só vai ter direito a uma indenização de 10 milhões de cruzeiros. Quem abrir mão da casa ganhará 20 milhões.” Disse que viu muita gente pegar os 20 milhões e anos depois ficar sem casa nem dinheiro. Ele foi um dos que preferiram ficar com a casa e afirma ter sido o melhor negócio de sua vida.

Fábrica Confiança - nome como ficou conhecido um local tão importante na vida de tanta gente. E, claro, na de Seu Mathias, que conta sorrindo que lá conseguiu até casamento. Sem ter que buzinar…

Ana Helena Ribeiro Tavares

Matéria publicada na edição de Maio/08 do jornal de bairro “Correio Carioca”.

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4.7.08

Dois banquinhos, um bate-papo

Foto: Ana Helena Tavares

- Hoje o bate-papo é sobre amizade… Vinicius e eu, eu e Vinicius… E aspas nele!

- Dedico esse “diálogo” a todos os meus verdadeiros amigos, impossível e desnecessário citar nomes.

“Enquanto passando, enquanto esperando,
de que mais precisa um homem senão
de suas mãos para apertar as mãos do amigo
depois das ausências, e pra bater nas costas do amigo,
e pra discutir com o amigo…?”

Mão amiga,
Afaga-nos com a canção,
Entoada pelo coração,
Nosso ícone.
Liberta-nos do impossível,
Assusta a solidão…
Rei de todos que
Amigos têm!

“Suportaria, embora não sem dor,
se morressem todos os meus amores,
mas enlouqueceria se morressem
todos os meus amigos”.

É naqueles amigos
De raridade impagável,
Tão ávidos por liberdade,
Imbuídos de amizade,
Que algo faz nascer-me a vontade
De sair cantando, ter identidade
E, sem maldade,
Existir. Não parar,
Tentar!
Ombros fiéis poder encontrar…
Para com eles remar,
Regar minha esperança.
E, com carinho no peito,
Semear amizades…

“Fez-se do amigo próximo o distante
Fez-se da vida uma aventura errante
De repente, não mais que de repente.”

No impulso desse riso da vida,
Dessa sincera fonte de paz
O iminente sorriso
Que um amigo nos traz.

“De que mais precisa um homem senão
de um amigo pra ele gostar,
um amigo bem seco, bem simples,
desses que nem precisa falar — basta olhar –
um desses que desmereça um pouco da amizade,
de um amigo pra paz e pra briga?”

Amizade sem superação de diferenças
É como uma roseira que se fere com seu espinho.
É como uma estrada que se perde em seu caminho.
Ou já imaginaram a videira embebedando-se com o vinho?

Ana Helena Ribeiro Tavares

criado por Ana Helena Tavares    18:46:37 — Arquivado em: Diálogos poéticos — Tags:, , , , , , , , ,

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