Traços de Estilo

“A poesia confunde-se com a prosa da mesma maneira que o poeta confunde-se com o homem da rua e já não pode nem deseja reivindicar para si a condição de eleito dos deuses.” (o poeta Gullar) “É preciso levar em conta as palavras que você escolhe, cuidar de cada sentença. É preciso ser sensível ao sentimento das pessoas.” (o jornalista Talese)

27.6.08

No meio do caminho uma conversa

Foto: Ana Helena Tavares

Encontrei Drummond num banquinho à beira mar e…

- Dedico este “diálogo” ao meu amigo Luís Maurício, um belo presente que a vida me colocou no meio do caminho.

(Aspas nos trechos de Drummond)

“Hoje somos mais vivos do que nunca.
Mentira, estarmos sós”.

É sempre bom estar junto…
Mas tantas redomas não se quebram.
E o que é mesmo estar e ser hoje nesse mundo?
Por que mais mãos não se apertam?

“O presente é tão grande, não nos afastemos.
Vamos de mãos dadas.”

Tijolo por tijolo, cada qual desunido…
É assim que o futuro vai ser construído?

“Não, ninguém morreu, ninguém foi infeliz.”

Felicidade, tá aí um sentimento indeciso…
Às vezes traz lágrima, às vezes sorriso…

“Eu não devia te dizer
mas essa lua
mas esse conhaque
botam a gente comovido como o diabo.”

Acho bonito demais o poder de comoção…
Pena que às vezes não traga efeito prático.
De que adianta ter a oportunidade na mão
E, de tão comovido, se manter estático?

“Nunca me esquecerei que no meio do caminho
tinha uma pedra.”

Sorte de quem encontra pedras na estrada
Pedras mesmo, grandes, duras
Aprendizado sem elas? Que nada…
A vida só é plena com aventuras

“Sem cavalo preto
que fuja do galope,
você marcha, José!”

Pano vermelho, fecha-se o tablado
Pertences em um punho, todos em retirada
Mas batem corações num palco iluminado.
E o ator reaparece – êta pessoa inconformada! –

“O fato ainda não acabou de acontecer
e já a mão nervosa do repórter
o transforma em notícia.”

Acho que o jornalista tem que ser um pouco ator
Não para fingir, mas para se inconformar com a dor

“A bomba
não destruirá a vida
O homem
(tenho esperança) liquidará a bomba.”

Será a História um relógio cíclico de ponteiros distraídos?
Será que a humanidade alterna períodos, de variadas durações,
Que de tempos em tempos se fazem parecidos?
Teríamos aí uma lei de ações e reações

“Joaquim suicidou-se e Lili casou com J. Pinto
Fernandes
que não tinha entrado na história.”

– Prefiro negar-te a viver sem motivo!
Talvez quem se suicida diga isso à vida
Mas será que essa pessoa viveu num mundo incompreensivo
Ou será que foi ela que nunca deu a ele outra saída?

“Como acordar sem sofrimento?
Recomeçar sem horror?”

Se houver amor, te juro,
Há também o apesar de tudo.

Ana Helena Ribeiro Tavares
27/06/08

criado por Ana Helena Tavares    15:09:32 — Arquivado em: Diálogos poéticos — Tags:, , , , , , ,

22.6.08

O mar - água que vai, vida que dura

Foto: Ana Helena Tavares

Água que volta, água que bate

Pegadas desconhecidas na areia
O mar as apaga… Eterno empate!
Lá vem novas pegadas em cadeia.

Vida que vai, vida que traz
Rostos dispersos na multidão
O tempo os mistura… E faz mais!
Deixa as marcas de uma lição.

Um grupo seria igual
Sem um de seus integrantes?
O mar se manteria original
Sem uma gota que estava lá antes?

Água que vai, vida que dura
Gotas que já não são mais do mar…
Rostos dispostos numa moldura
Vida que segue seu renovar.

- Livremente inspirado numa aula de sociologia… Eterno empate!

Ana Helena Ribeiro Tavares
21 de junho de 2008

criado por Ana Helena Tavares    13:06:24 — Arquivado em: Todos os poemas — Tags:, , , , , , , , , ,

15.6.08

Poema empírico

- Para o meu irmão, Daniel. Homem de coração livre como as folhas que voam em uma floresta.

Floresta em coração urbano
O verde frescor a te envolver
É festa! A natureza toca piano…
Com o ardor da cachoeira a descer

O sol ilumina as nuvens em seu passeio
Os namorados riem das folhas a cair
E nessas horas se entende esse mundo a que veio
Ele diz: vivam! Não se furtem a existir

E as folhas do chão?
Quanto nos tem a ensinar…
Chamá-las de mortas?! Não!
Já viram o arco-íris que estão a formar?

Sim, quantos as pisam e não vêem suas cores?
Nem dá tempo de olhar pra baixo, tanta pressa…
Mas aquelas folhas que já viram cair tantos amores
Sabem que a vida sempre recomeça.

15 de Junho de 2008,
Ana Helena Ribeiro Tavares

criado por Ana Helena Tavares    16:54:41 — Arquivado em: Todos os poemas — Tags:, , , , , , , , ,

14.6.08

O raro ensejo da hora

Foto: Ana Helena Tavares

- Para o meu amigo Sérgio Grigoletto, que há muitos anos insiste em me chamar de poeta.

Morte: ausência de vida?
É certo que não só…
Dentro da própria vida
Também se pode virar pó!
Virar pó, morrer vivendo –
Andar vivo sem viver –
Dar um nó nas leis do tempo,
Ser nocivo ao próprio ser.

Deixar nuas, a cair,
As vestes do agora.
Cruzar ruas a fugir
Àquele beijo que aflora.
Em suas mãos ver sumir
O raro ensejo da hora.
Passar luas sem sorrir
Ao lampejo da aurora.

E só quando vestir novamente
O que despiu por vergonha
Aquele agir no presente
E com que hoje só sonha
Fará surgir realmente
Uma manhã mais risonha.

14 de Junho de 2008,
Ana Helena Ribeiro Tavares

criado por Ana Helena Tavares    12:42:17 — Arquivado em: Todos os poemas — Tags:, , , , , ,

11.6.08

Diálogo poético

Ana Helena

Como seria se meus humildes versos pudessem conversar com a poesia do gênio dos heterônimos? Imaginei como poderia ser esse diálogo inusitado, intercalando versos meus com os de Fernando Pessoa de modo que realmente parecessem conversar (os dele aparecem entre aspas). Segue abaixo o resultado em três postagens diferentes, divididas por temas.
criado por Ana Helena Tavares    21:56:23 — Arquivado em: Algum lugar entre a prosa e a poesia

Dialogar vale a pena

Foto: Ana Helena Tavares

Como seria se meus humildes versos pudessem conversar com a poesia do gênio dos heterônimos? Imaginei como poderia ser esse diálogo inusitado, intercalando versos meus com os de Fernando Pessoa de modo que realmente parecessem conversar (os dele aparecem entre aspas). Segue abaixo o resultado em três postagens diferentes, divididas por temas.

- Cerca de meio ano após tê-lo escrito, dedico este “diálogo” à minha amiga Gaby Mendes, por sua coragem de ir dialogar com o “poeta fingidor” em solo lusitano.

criado por Ana Helena Tavares    21:56:23 — Arquivado em: Diálogos poéticos — Tags:

Vida

-”Diálogo” com Fernando Pessoa - 1ª parte

Vida. O soar de um coração
Doce magia e também sofrimento
A verdade feita de ilusão
Numa alegria banhada a lamento

“Ninguém sabe que coisa quer.
Ninguém conhece que alma tem,
Nem o que é mal nem o que é bem.
(Que ânsia distante perto chora?)
Tudo é incerto e derradeiro.
Tudo é disperso nada é inteiro.”

Tal como o acordar de um vulcão
Ou a forte rajada do vento
As voltas da vida, meu irmão
Vêm à sorte, não dizem momento

“Chove. Que fiz eu da vida?
Fiz o que ela fez de mim
De pensada, mal vivida…
Triste de quem é assim!”

“Quem eu pudera ter sido
Que é dele? Entre ódios pequenos
De mim, estou de mim partido
Se ao menos chovesse menos!”

Mas todo o sempre haverá de ser
Grande exemplo de jornada
Aquele que lutando morrer
Sem deixar vazia a estrada

“Valeu a pena? Tudo vale a pena
Se a alma não é pequena.
Quem quer passar além do bojador
Tem que passar além da dor
Deus ao mar o perigo e o abismo deu
Mas nele é que espelhou o céu.”

E nessa vida, sem ter um segundo,
Vagamos à procura de um prumo
Envolto no mistério profundo
Daquilo que só tem um resumo:
Nós somos feito um nada no mundo
Pobre barco sem leme e sem rumo!

“E a única vida que temos
É essa que é dividida
Entre a verdadeira e a errada”

“Qual porém é a verdadeira?
E qual errada, ninguém
Nos saberá explicar;
E vivemos de maneira
Que a vida que a gente tem
É a que tem que pensar”

Pois a arte de saber viver
Que nos leva a ser feliz
É viver para o saber
Como eterno aprendiz!

“Mas triste de quem é feliz!
Vive porque a vida dura.
Nada na alma lhe diz
Mais que a lição da raiz –
Ter por vida a sepultura.”

“Eras sobre eras se somem
No tempo que em era vem.
Ser descontente é ser homem.”

Se para uns a luta é prazer
Em nossa vida tão desejada
Quem só deseja mesmo viver
Ganha forças surgidas do nada

criado por Ana Helena Tavares    21:45:33 — Arquivado em: Diálogos poéticos — Tags:,

Lua

-”Diálogo” com Fernando Pessoa - 2ª parte

“A lua (dizem os ingleses),
É feita de queijo verde.
Por mais que pense mil vezes
Sempre uma idéia se perde.”

Afinal, numa noite luminosa
Essa lua ensolarada
É a coisa mais formosa
É dama consagrada

“E era essa, era, era essa,
Que haveria de salvar
Minha alma da dor da pressa
De… não sei se é desejar.”

Sei que dos mágicos poderes
Dessa lua de marfim
Indecifráveis prazeres
Brotam em mim

“Sim, todos os meus desejos
São de estar sentir pensando…
A lua (dizem os ingleses)
É azul de quando em quando.”

criado por Ana Helena Tavares    21:44:31 — Arquivado em: Diálogos poéticos — Tags:,

Saudade

-”Diálogo” com Fernando Pessoa - 3ª parte

O que dizer da saudade?
Sentimento que chega de mansinho
E de repente dá uma forte vontade
Vontade de voltar ao ninho

Sem nos pedir licença
Chega para nos fazer
Sentir falta da presença
De alguém que nos faz viver

“E isto lembra uma tristeza
E lembrança é que entristece
Dou à saudade riqueza
Da emoção que a hora tece”

“Mas, em verdade, o que chora
Na minha amarga ansiedade
Mais alto que a nuvem mora
Está para além da saudade”

É sensação de peito apertado
Que não fere o corpo mas sim a alma
E só tornando-se a ver o ente amado
É que então o coração se acalma

“Tenho saudade, entre o tédio,
Só do que nunca quis ter
Eu amo tudo o que foi,
Tudo o que já não é,
A dor que já me não dói,
A antiga e errônea fé,
O ontem que dor deixou,
O que deixou alegria
Só porque foi, e voou
E hoje é já outro dia”

Por isso a saudade tão difícil de ser entendida
Parece nos fazer entender:
Não se pode dar valor a algo na vida
Só quando sua falta nos faz sofrer.

11 de Junho de 2008,

Ana Helena Ribeiro Tavares

criado por Ana Helena Tavares    21:43:47 — Arquivado em: Diálogos poéticos — Tags:,

10.6.08

A água é dona da água?

Foto: Ana Helena Tavares

Na água a vida foi criada
É o elemento que purifica.
Desde que seja preservada
Com ela uma nação é rica

Para alguns povos é algo sagrado
A idolatram e elevam a mito,
Mas como sem ela nada é lavrado
Não a vejamos como um bem infinito.

Não a criamos, mas é nossa mais doce sina.
Foi o homem que lhe deu documento.
A lágrima o que é, senão água cristalina?
Sutil explosão corporal de um sentimento.

Para algo ser um mito não é preciso que de fato exista
Mas sem água o homem some, morre com ele a palavra viver…
Num mundo desértico, sem ninguém à vista…
Quem sobraria para esse mito manter?

- Livremente inspirado numa aula de sociologia (e escrito logo depois dela…). Porque mestres inspiram. Mesmo!

09/06/2008 – 22h30min
Ana Helena Ribeiro Tavares

criado por Ana Helena Tavares    10:13:08 — Arquivado em: Todos os poemas — Tags:, , ,

9.6.08

Poema em linha curva

Foto: Ana Helena Tavares

Jamais encontrei quem fosse perfeito
Quem há neste mundo que não tenha um defeito?!

E aquele que tantas vezes se acha demais.
Tantas vezes tão garboso… de nada…
Preocupando-se com detalhes banais.
E enquanto isso perdendo a estrada.

Numa estrada sinuosa e esburacada.
Cada curva com seus interesses
Tantas vezes tão mal sinalizada!
Não há tempo pra contar os meses.

Pra que meses em busca da perfeição?
Defeitos nos diferenciam, e seriam mesmo defeitos?
São eles que tornam humana nossa condição
Desfazê-los? É criar um mundo desfeito.

“Sou perfeito!” Já tiveram a cara de pau de garantir.
Mas também quem há nesse mundo que não saiba mentir?

- Livremente inspirado no “Poema em linha reta”, de Fernando Pessoa (Álvaro de Campos).

7 de Junho de 2008
Ana Helena Ribeiro Tavares

Para ouvir o “Poema em linha reta”, de Fernando Pessoa, maravilhosamente declamado pelo grande Paulo Autran, clique aqui

criado por Ana Helena Tavares    11:41:18 — Arquivado em: Paródias poéticas — Tags:, , , , , ,

O tempo e o caçador de borboletas

Ana Helena

Lutar contra o tempo
É como caçar borboletas
Aprisiona-lo parece belo
Mas nada como admirar seu vôo…

Vôo de pássaros sem espingarda
É como vida a rumar sem medo
Um tiro… Todo um bando se dipersa…
Uma pausa… Toda uma vida olha pra trás…

Olhar pra trás no reino animal
É como dar chance ao caçador
Olhar pra trás em nossa vida
Pode ser dar uma chance ao tempo

E assim aquele caçador de borboletas
Que num descuido de uma a aprisionou
Percebeu que não queria dela a beleza
Queria mesmo era saber voar como ela…

5 de junho 2008
Ana Helena Ribeiro Tavares

criado por Ana Helena Tavares    11:40:47 — Arquivado em: Algum lugar entre a prosa e a poesia

Por que escrevo?

Foto: Ana Helena Tavares

O escritor é um observador.
Observa tão atentamente
Que na escrita tem que expor
Tudo o que percebe à frente.

E ainda sabe ele que ao escrever
De fugir da timidez é capaz…
Se cara a cara não consegue deixar ver
Tudo o que seu coração traz…

E, enfim, nos textos que cria
(Com gosto doce, salgado ou azedo)
Está a sua mais profunda fantasia,

Toda sua emoção, todo seu medo.
Brincar com as letras é, com magia,
Levar seu mundo à ponta do dedo.

- Livremente inspirado no poema “Autopsicografia“, de Fernando Pessoa.

Ana Helena Ribeiro Tavares

criado por Ana Helena Tavares    11:40:15 — Arquivado em: Paródias poéticas, Sonetos, Todos os poemas — Tags:, ,

O dom do amor

Foto: Ana Helena Tavares

Julguei ser um corriqueiro assunto…
Para versar o amor fiquei comedida.
Sem harmonia ficou o conjunto.
Neguei o pintor da vida.

Fiz de mim branca barreira pomposa,
Ao invés de cercar-me com muros de cor.
Uma aparência que se queria formosa
Sentiu falta da leveza do amor.

Não sei se ele age da melhor forma,
Talvez não precise mesmo saber.
Se é o amor algo puro e sem norma,

Se é ele quem nos ensina a viver,
Com sua tão recortada plataforma
Nos bem cabe amar… Pra que entender?

Ana Helena Ribeiro Tavares

criado por Ana Helena Tavares    11:39:29 — Arquivado em: Sonetos, Todos os poemas — Tags:,

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