Traços de Estilo

“A poesia confunde-se com a prosa da mesma maneira que o poeta confunde-se com o homem da rua e já não pode nem deseja reivindicar para si a condição de eleito dos deuses.” (o poeta Gullar) “É preciso levar em conta as palavras que você escolhe, cuidar de cada sentença. É preciso ser sensível ao sentimento das pessoas.” (o jornalista Talese)

18.4.08

TV - As duas faces dessa moeda

O processo de vulgarização da TV em contraste com sua contribuição ao progresso da humanidade

A luta por altos níveis de IBOPE tem levado muitos canais de TV a conseguir níveis estratosféricos de vulgaridade e sensacionalismo. Gastam-se horas e horas com uma programação apoiada na máxima de que o povo adora uma boa baixaria e muitos programas, inclusive na área jornalística, parecem apostar insistentemente na violência como sinônimo de audiência.

Os poderosos da televisão não podem, porém, se esquecer de que o povo, principalmente o brasileiro, é extremamente inconstante e boa parte dele parece já estar se cansando de tanta apelação.

Não fosse o forte poder persuasivo que a mídia televisiva ainda exerce sobre as mais diversas camadas sociais, os legítimos representantes do que se pode chamar de “cultura da apelação sexual” dificilmente teriam grande ascensão, tão meteórica quanto infundada. Para comprovar o quanto a falta de talento e originalidade cansa, basta observar o que costuma acontecer a homens e mulheres que têm sua fama sustentada apenas por seus corpos “sarados” ou seu rebolado sensual: já surgem condenados ao esquecimento sem sequer terem chegado a sentir o real sabor do sucesso.

Ganhar fama é uma das coisas mais fáceis da vida, ter sucesso é conseguir mantê-la.

No entanto, para além de servir a essa eterna busca pela fama, o sensacionalismo pode também ser cruel… No que diz respeito a programas jornalísticos, não há momento em que fique mais evidente a perversidade sensacionalística do que na cobertura de crimes hediondos. A pobreza criativa e o desrespeito às vidas envolvidas no caso geralmente são de tal ordem que cabe perguntar para que se gasta tanto papel e tinta com manuais de ética. Até porque se na emissora líder há muitos anos eles já viraram peça de museu fica difícil convencer as outras de que ética e audiência podem caminhar juntas.

Mas, se a ética estiver junto a ilustres companheiros, como a criatividade e o talento, ela pode sim atrair o gosto popular. Quem diz que para agradar ao povo só basta mesmo uma boa baixaria nada mais faz do que se esconder atrás da falta de habilidade para produzir coisas melhores. Pois é, comodismo também produz sensacionalismo.

Por outro lado, analisemos a face positiva dessa moeda.

Aquela que já recebeu apelidos como “babá eletrônica” e “janela para o mundo” é, antes de tudo, um poderoso veículo de comunicação, que há muito tempo faz parte de nossa vida e não se pode negar que seja de alguma forma benéfica ao povo. Contribui para o progresso humano a partir do momento em que inúmeras pessoas que não têm acesso a outros meios de comunicação (e mesmo as que têm), são beneficiadas pelas informações e pelos bons programas que ainda conseguem sobreviver. Pena que, apesar e por causa de conhecerem todo esse poder que têm em mãos, as atenções da maioria dos profissionais da área parecem estar voltadas para incentivar ainda mais o consumismo…

Contudo, como todo bom brasileiro, não desisto nunca de ter esperança e insisto em acreditar que um dia toda essa vasta gama de informação e cultura que a TV tem o potencial de levar ao povo, ao invés de nos fazer perder valores, poderá servir para nos tornar um pouco mais cultos e informados. Talvez assim compreendamos que muitos dos problemas de que nos queixamos não são nada se comparados a tantas mazelas espalhadas pelo mundo e aí, quem sabe, possamos também dar o devido valor ao nosso país.

Mas isso, amigos, é apenas um sonho de uma jovem idealista… E tenho minhas dúvidas se sonhos dão IBOPE…

18 de abril de 2008,

Ana Helena Ribeiro Tavares

criado por Ana Helena Tavares    14:36:45 — Arquivado em: Artigos — Tags:, , , , , , , ,

5.4.08

Minha 1ª reportagem - O charme dos carros antigos

- Para o meu avô Antônio Ribeiro, in memorian. Se vivo fosse quando este texto saiu, tenho certeza que esgotaria o jornal em todos os pontos de distribuição que encontrasse pela frente e sairia pelas casas portuguesas e luso-brasileiras gritando: “É da minha neta!”

Um hobby, um esporte, uma paixão e até mesmo uma lição de história. Colecionar automóveis pode ser fascinante.

Recordar um tempo que traz boas lembranças sempre nos traz à mente imagens daquela época. É muitas vezes assim que começa o interesse das pessoas por colecionar e se dedicar a peças antigas, afinal muitas coleções nascem da vontade que se tem de poder guardar consigo partes de uma época, pedaços de uma história – com os carros não é diferente. E quais os critérios que um colecionador usa para definir se um determinado carro é ou não importante para sua coleção? Todos são unânimes em dizer que o principal é a raridade. Mas o que define a raridade de um carro? Provavelmente uma junção de fatores. Seriam eles: a antigüidade; a originalidade (se existem ou não outros iguais); o nome da empresa que desenvolveu sua mecânica ou da pessoa responsável pelo seu designer; país de origem; ou até alguém famoso a quem tenha pertencido o carro. E aonde esses colecionadores descobrem esses carros? Há quem garanta que se a pessoa olhar com cuidado um grande achado pode ser feito no ferro-velho perto de casa… Mas quem gosta e tem condições viaja o mundo à procura daquele carro que lhe chame atenção, que lhe encha os olhos, pode ser em pequenas feiras, mega-exposições, ou, quem sabe, fazendas escondidas. Para quem entende de carros e valoriza raridades, só para citar um exemplo, imaginem o fascínio que é ter em mãos um automóvel de carroceria assinada por Malzoni e mecânica Alfa Romeo de modelo único no mundo. Agora imaginem um ambiente onde se reúnam várias raridades semelhantes a essa, um momento de encontro e confraternização para seus respectivos donos conversarem à vontade sobre esse hobby em comum a todos, trocando experiências e debatendo sobre tudo que possa ter relação com sua paixão. Esses são os clubes de colecionadores de carros antigos. Quem faz parte deles com dedicação separa boa parte de seu orçamento e tempo para essa atividade. Há quem diga que é um hobby, há quem chame de esporte e há muitos que afirmam que a história desses carros se confunde com a de sua própria vida, mas o fato é que seja qual for a maneira como for entendida essa é uma atividade das mais caras. É claro que é preciso dispor de muito capital para investir na compra dos carros e mais ainda para providenciar local adequado para tê-los guardados, mas o que encarece mesmo é a soma incalculável necessária para manter em bom estado mecânicas e carrocerias cujas peças em muitos casos precisam ser importadas ou até feitas sob encomenda. Para se ter uma idéia da dificuldade, um detalhe interessante é que as peças feitas sob encomenda são às vezes feitas à mão pela inexistência de máquinas adequadas. Há ainda outro problema que é a falta de mão-de-obra especializada. “É um trabalho caro e demorado numa área que na cidade do Rio falta gente qualificada. Em São Paulo e no Sul do país, por exemplo, as pessoas parecem se interessar mais por automóveis.” É o que afirma um dos donos de uma oficina mecânica na grande Tijuca, que na juventude queria ser médico e hoje trata seus carros com todo o cuidado e carinho que trataria os pacientes. Ele disse acreditar que se aprende muito lidando com carros antigos e automóveis de uma forma geral: “A indústria no Brasil se desenvolveu a partir da vinda do automóvel para cá. É de certa maneira uma lição de história da industrialização brasileira.” Além disso, ele faz questão de defender o produto nacional: “Dizem por aí que o que é feito aqui é uma porcaria… Não! Nosso produto é muito bom, nosso material é muito bom!” Ele aconselha ainda a quem pretenda entrar para esse seleto grupo dos colecionadores de automóveis a só entrar se tiver de fato certeza que é isso que quer e gosta, caso contrário é melhor nem dar o primeiro passo. Diz ainda que se a pessoa entrar com a esperança de ter lucro nessa atividade também vai se decepcionar logo no início. Segundo esse apaixonado por carros antigos, “uma das coisas que essa atividade pode te dar é a satisfação de ter um carro antigo e passear com ele. É muito mais fácil você ser admirado se chegar num lugar com um carro 1950 em perfeito estado do que com um carro 2008. O 2008 todo mundo está acostumado a ver, o 1950 não.” Ou seja, uma pessoa pode passear pela cidade com seu importado novinho praticamente sem despertar curiosidade, mas se estiver dirigindo uma raridade certamente atrairá olhares de admiração. Pelo que parece há setores em que ser moderno está longe de trazer status.

Ana Helena Ribeiro Tavares

Matéria publicada na edição de abril/08 do jornal de bairro “Correio Carioca”, onde fiz estágio.

Para ver a edição completa do jornal, clique aqui

criado por Ana Helena Tavares    15:01:33 — Arquivado em: Jornalista é contador de Histórias!, Reportagens — Tags:, , , , ,

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