Traços de Estilo

“A poesia confunde-se com a prosa da mesma maneira que o poeta confunde-se com o homem da rua e já não pode nem deseja reivindicar para si a condição de eleito dos deuses.” (o poeta Gullar) “É preciso levar em conta as palavras que você escolhe, cuidar de cada sentença. É preciso ser sensível ao sentimento das pessoas.” (o jornalista Talese)

7.2.10

A Venezuela, os EUA e os Lobos sorridentes


Sem nada que se compare a uma convulsão social e gozando de uma Constituição, que Chávez busca cumprir ao tentar descentralizar o poder dos monopólios de mídia, a Venezuela não pode de modo algum ser caracterizada como uma ditadura militar.

Por Ana Helena Tavares

Muito se fala em Hugo Chávez. Mais uma vez, jornalistas do mundo inteiro decretam que é a pior crise de seu governo. Tenho, às vezes, a nítida sensação de que se uma creche lotada explodir nos EUA a grande imprensa mundial nem se lembrará de Bin Laden, arrumará logo um jeito de pôr a culpa no Chávez. E, se os conglomerados midiáticos o acham tão exageradamente ruim, sou tentada a concluir que algo de muito bom – e de democrático – ele tem.

A Venezuela atual é progressista, ainda que uma análise fria nos leve a concluir que não há uma conjuntura de revolução. Na tentativa de desmascarar alguns mitos midiáticos, começo me perguntando: por que tanto taxam Chávez de ditador?

Não há análises precisas sem contextualizações necessárias. O contexto latino-americano sempre possuiu um valor largamente geoestratégico para os EUA. É uma relação de dependência de tal modo que se pode afirmar que sem o controle da América Latina os EUA perderiam seu quintal, veriam sumir os frutos de sua horta e perderiam boa parte de seu poder.

Historicamente, nas décadas de 50, 60 e 70, fervilharam na América Latina processos progressistas e revolucionários que se compuseram de tendências várias, movimentos sindicais fortes, e ainda uma igreja que germinava a futura teologia da libertação. Tais processos levaram a que os EUA elaborassem e apoiassem planos ditatoriais de extrema-direita para os países rebeldes, enforcando (muitas vezes, literalmente) a possibilidade de mudanças sociais. Se pudessem, teriam matado Fidel, tal como se pudessem já teriam dado um sumiço em Chávez para pôr no lugar um Lobo em pele de cordeiro.

Ora vejamos… Nem João Goulart nem Salvador Allende eram comunistas, tão somente conduziram leves alterações nos mecanismos econômicos de maneira a atenuar distorções sociais e a promover ações afirmativas com a população. Mas para os EUA e suas multinacionais essa é a senha para que a banda troque a música… Fuzilamentos, torturas, repressão e o cerceamento das liberdades civis e individuais foi o que se viu…

“Chávez isto, Chávez ditador, Chávez comunista, Chávez militarista” é o que se ouve. Só que nem Hugo Chávez, nem Evo Morales, nem Rafael Correa cometem o tipo de prática que as elites burguesas legitimaram melancolicamente no passado e, em certos casos, como o de Honduras, também no presente.

Sem nada que se compare a uma convulsão social e gozando de uma Constituição, que Chávez busca cumprir ao tentar descentralizar o poder dos monopólios de mídia, a Venezuela não pode de modo algum ser caracterizada como uma ditadura militar.

Se Chávez é ditador, por que, depois de ter sido preso, este quando chegou ao poder, por voto popular, não exerceu nenhum tipo de repressão sobre seus algozes? Chávez limitou-se a prendê-los, sem qualquer tipo de violência. E por quê? Para mim, não há outro nome senão coerência. Era por uma Venezuela livre que o tenente-coronel Hugo Chávez lutava na intentona de 1992; é por uma Venezuela livre que o presidente Hugo Chávez luta. Numa luta como esta, tanto lá como aqui, não cabem revanches. Cabe que se assegure ao povo a liberdade de expressão e a liberdade ir e vir; cabe a punição dos que merecem ser punidos, dentro do cumprimento das leis que devem reger um país democrático. É isso o que Chávez faz e é isso o que apavora o mundo.

A melhoria da qualidade de vida dos pobres e sua conseqüente ascensão social, a erradicação do analfabetismo e os programas de saúde em parceria com médicos cubanos são fatores vitoriosos de seu governo. A isto a mídia faz vista grossa, mas chamá-lo de ditador é capa de jornal. Atitude não muito diferente com relação ao nosso presidente.

É claro que a Venezuela ainda tem muitas lacunas a preencher, mas ditador Chávez não é. Bem como também não é nenhum Bin Laden e nem sorri para qualquer um como o fazem Obama e o Lobo de seu quintal.

Ana Helena Tavares é escritora e poeta eternamente aprendiz. Jornalista por paixão e futura jornalista com diploma, é colunista da “Revista Médio Paraíba” e editora/administradora do blog “Quem tem medo do Lula?”.

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17.1.10

Uma página infeliz de nossa história

O Brasil tem que fazer justiça e oferecer um mínimo de paz a todos os sobreviventes dos porões da ditadura, aos seus familiares e aos familiares dos mortos. Enterrados embaixo de imponentes quartéis ou sabe-se lá onde…

Por Ana Helena Tavares

A ditadura foi aqui. A dita branda que povoa a fantasia dos que hoje têm medo da verdade. Daqueles que hoje têm medo de que seus netos e bisnetos saibam letra por letra o que eles fizeram no milênio passado.

Aristóteles dizia que “o homem é um animal político”, mas até que ponto pode chegar o ser humano em nome de uma ideologia, acho que nem Freud em seus maiores delírios seria capaz de entender. E as atrocidades de determinados militares na época da ditadura foram, certamente, documentadas de forma bastante vasta. Dentro da caserna, havia pessoas com a única função de registrar aquela horrenda realidade em sabe-se lá quantas laudas. Muitos destes arquivos foram, provavelmente, destruídos ou pela ação do tempo ou pela ação humana, ambas implacáveis. Mas, seja nas mãos de militares ou de civis, não tenho dúvidas de que ainda hoje esta “página infeliz de nossa história”, que Chico e outros tantos narraram em prosa, verso e música, permanece também legível em anotações das mais diversas e documentos oficiais.

Vale lembrar também que a grande imprensa da época não publicou só versos de Camões e receitas de bolo. É claro que houve ainda os que preferiram emprestar seus carros de reportagem para os torturadores, mas, seja em jornalões ou publicações alternativas, é também considerável o número de jornalistas que conseguiu driblar bravamente a censura noticiando os fatos e opinando sobre eles de forma corajosa e competente.

Além disso, outra coisa que ainda nos resta - e isto para ser apagado precisaria muita gente morrer - é a memória de quem viveu o horror e resistiu a ele, a memória de seus familiares e dos familiares dos mortos.

Será que alguém poderá ser capaz de me dizer que é justo que, por exemplo, um sujeito que era conhecido como “Tenente Mata Rindo” continue rindo por aí, sabe-se lá rindo de que, mas solto – livre, leve e solto? É este tipo de gente que os comandantes militares de hoje defendem contra a “Comissão da Verdade”?

Eu tive parente torturado brutalmente e quase morto. O ano era 1969, AI-5 vigorando a pleno vapor e meu parente era um jovem como sou hoje. Naquele ano a caça aos comunistas, indiscriminadamente chamados de “terroristas”, estava a mil por hora. Luta armada, num regime de exceção, contra uma ditadura (que de branda nada teve), não pode de modo algum ser classificada como terrorismo. Seria quase como dizer que Tiradentes e os inconfidentes eram terroristas porque pegaram em armas para lutar contra a monarquia portuguesa. Mas obviamente que o militarismo imperialista não pensa assim.

Meu parente havia ido ao cinema e os militares - aqueles que, há quem diga, “não queriam o golpe” – provavelmente assistiram à sessão junto com ele, de tocaia. Ao sair, enquanto esperava o ônibus para voltar para casa, foi abordado e começaram a perguntar-lhe sobre questões políticas. Do alto de sua inocência, sem sequer imaginar o que se passava naquele momento, limitou-se a balançar a cabeça afirmativamente. Assim, lhe mostraram a carteira do DOPS (“Departamento de Ordem Política e Social”, nome pomposo para repressão) e lhe “convidaram” a entrar em um carro.

Era tão ingênuo que, perguntado a que grupo pertencia, disse pertencer a um grupo folclórico – e era verdade. Obviamente, acharam que era deboche. Mas não era. Ele não tinha envolvimento político com direita, esquerda, centro, nada! Tinha, sim, a infelicidade do destino de ser parecido com um comunista muito procurado e foi isso o que o fez ser seguido até o cinema.

Sem nada entender, antes de entrar no carro, disse ainda que precisava falar com sua mãe. Na cabeça, ele já trazia uma cicatriz profunda que os militares certamente fingiram não ver. A cicatriz se deve a uma lesão cerebral por atropelamento na infância, o que o levava a tomar remédios para controlar a epilepsia. Ele trazia estes medicamentos no bolso, sendo este mais um “motivo” para aqueles que buscavam “motivos” a qualquer preço. Em suma, resolveram “entender” que, além de comunista, ele era viciado.

Ele ficou cinco dias desaparecido. Encontrava-se nu, trancafiado numa cela com luz constante. Apanhou muito e conta que implorava para que não batessem em sua cabeça. Vão apelo de um inocente que recebeu choque elétrico e lavagem cerebral, agravando os problemas neurológicos que já tinha.

A família moveu céus e terras e conseguiu encontrá-lo graças, primeiramente, à intuição de sua mãe que pediu para que o procurassem no DOPS. Os militares negaram que ele estivesse lá, mas ela sabia que ele estava. Ela tanto bateu nesta tecla que um tio dele e um amigo da família conseguiram chegar a um alto funcionário do DOPS. Tio, amigo e alto funcionário, os três eram maçons e, naquele momento, foi o que os uniu. Não tenho conhecimento suficiente para fazer juízo de valor sobre a maçonaria, mas tenho a quase certeza de que sem ela jamais a inocência de meu parente teria sido provada e ele seria mais um para a larga estatística de mortos daquele período.

Ele sobreviveu sabe-se lá como. Mas ficaram seqüelas traumáticas visíveis. Por exemplo, quando ele hoje se depara com uma blitz, a primeira coisa que faz é pegar os documentos, se desespera sempre achando que vai ser preso e viver aquilo tudo de novo. Talvez esta preocupação se explique porque, naquela época, os militares, quando o libertaram, queriam a todo custo ficar com os documentos dele. Coisa que o trio também conseguiu impedir. Mas talvez ele ache que ainda ficou por aí algum registro. E vai convencê-lo… Só quem viveu o inferno e tem até hoje a sensação de impunidade sabe as razões pelas quais ainda não consegue se sentir seguro nas ruas deste país.

Quem agora é capaz de me convencer que aqueles militares que em nenhum momento deram chance de defesa a um inocente e fizeram com ele tudo o que fizeram merecem ser hoje vovôs que levam impunemente os seus netos à pracinha?!?!?! Pelo amor de Deus, algum dia o Brasil tem que fazer justiça e oferecer um mínimo de paz a todos os sobreviventes dos porões da ditadura, aos seus familiares e aos familiares dos mortos. Enterrados embaixo de imponentes quartéis ou sabe-se lá onde…

Tenho certeza de que quem estivesse no meu lugar também iria morrer pedindo justiça. E este sentimento é ainda maior por eu saber que não foi só com ele.

Se tem algo que salta aos olhos neste país é que nós ainda vivemos numa ditadura, uma ditadura disfarçada de democracia. Ainda há, sim, torturas. Torturas no campo, por exemplo, que a grande mídia sempre esconde. E isso talvez seja até mais complicado, pois não se vêem os capuzes e isso engana aos desavisados. Os desavisados que acreditam piamente numa grande mídia suja, os desavisados que acreditam cegamente num poder judiciário que de cego não tem nada, sabe muito bem para onde olha e continua restringindo-se à visão limitada.

No entanto, ainda que tenhamos que todo dia lutar contra isso tudo, em busca de uma democracia plena, o presente não é mais importante do que o passado neste caso. Enquanto nosso país não acertar contas com sua história, tal como já fizeram outros países da América Latina, não poderá se dizer um país democrático.

Hoje percebo que Lula já deveria ter feito isso há bem mais tempo. Agora que começou não dá pra deixar pro próximo milênio.

Ana Helena Tavares é escritora e poeta eternamente aprendiz. Jornalista por paixão e futura jornalista com diploma, é colunista da “Revista Médio Paraíba” e editora/administradora do blog “Quem tem medo do Lula?”.

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9.1.10

Sobre Casoy e os “xerifes da nação”

Diante das câmeras, a maioria dos apresentadores de telejornal vira um produto que precisa vender uma imagem de paladino da moral e dos bons costumes. Muitos confundem estúdio com delegacia e fazem uma cara de “xerifes da nação”. Tudo é uma vergonha menos eles.

Por Ana Helena Tavares

Afinal de contas quem é Boris Casoy? Não costumo ver a Band, praticamente não consigo mais ver televisão, mas é espantoso ver como um pequeno erro de áudio desmascara um jornalista. A ética não está em agirmos como pensamos somente quando estamos diante de um grande público. Ao contrário, ela está principalmente em agirmos como pensamos quando estamos sozinhos.

Diante das câmeras, a maioria dos apresentadores de telejornal vira um produto que precisa vender uma imagem de paladino da moral e dos bons costumes. Muitos confundem estúdio com delegacia e fazem uma cara de “xerifes da nação”. Tudo é uma vergonha menos eles. Resta saber o que é uma vergonha num mundo de tantas.

Nada justifica a falta de vergonha na cara. Mas que cara? Se é verdade que, em nome de linhas editoriais e até mesmo de padrões estéticos e comportamentais (de parcela da sociedade que dá IBOPE aos “xerifes”, pois sente-se amparada por eles), diante das câmeras, nenhum jornalista pode agir como pensa, parece-me translúcido o fato de que a declaração de Casoy sobre os garis demonstra o que ele verdadeiramente é. Dito isso, parece-me que ela é totalmente passível de processo por crime de intolerância de classes.

Boris Casoy falou quando pensava estar “às escondidas”, mas, em nome do pior dos tipos de corporativismo, há quem o defenda publicamente. Com os argumentos que eles têm apresentado, eu se fizesse parte da direção da Band começaria a ficar verdadeiramente preocupada com a dimensão do caso. Demitiria todos. A Band, porém, provavelmente os manterá lá, pois pensa igual a eles. E, nós brasileiros que pensamos diferente, temos nas mãos o controle remoto e uma chance única de repararmos, ao menos um pouco, o erro que é colocar uma classe fundamental como a dos garis à margem da sociedade.

Um dos artigos do abandonado Código de ética dos Jornalistas diz que “O jornalista não pode usar o jornalismo para incitar a violência, a intolerância, o arbítrio e o crime.” Não é o que pensa Barbara Gancia que assinou hoje (08/01/2010) artigo na Folha de S. Paulo (local ideal para tal espetáculo) tentando defender o colega de emissora. No entanto, enganou-se absurdamente ao tentar confirmar as palavras de Casoy, de que os lixeiros são “o mais baixo na escala de trabalho”. Quem lê o artigo conclui que, para ela, isso se confirma porque, por exemplo, não há médicos entre eles.

Eu gostaria muito de entender o que é uma “escala do trabalho” para a tão afinada dupla de jornalistas. Partindo do artigo dela, em que, sem conseguir explicar onde está a piada, ela garante que “dois lixeiros desejando dinheiro para o novo ano é mesmo motivo de riso” (coisa que ela certamente não ousaria falar se eles ganhassem o que de fato o suor deles vale), então, conclui-se que estão no topo os que ganham mais. Ora, vejamos… Ronaldo “Fenômeno” está então no topo da escala do trabalho? Pensemos com cuidado de quem o mundo depende mais: dos jogadores de futebol ou dos lixeiros?

Ah, mas esperem, talvez “estar no topo da escala do trabalho” seja ter um diploma de médico. Ainda que fosse, como jornalista bem-informada, ela deveria estar ciente da quantidade de lixeiros com curso superior. Não possuo números, mas dou minha cara a tapa como existem médicos. Seria bonito, inclusive, se ao “lembrar” que “não há médicos entre os garis”, Barbara lembrasse também que o próprio Casoy não tem diploma de curso superior algum. Com a experiência adquirida que ele tem, isso não desqualifica nem a ele nem aos garis. O que desqualifica é o preconceito e nisso Barbara se superou, posto que tentou dar à declaração dele uma inacreditável sustentação.

Fico imaginando a felicidade, a sinceridade – e, mais do que isso, a provável ingenuidade – com que aqueles dois lixeiros fizeram aqueles votos de boas festas e não tenho como deixar de imaginar a decepção deles. Fico imaginando o que muitos âncoras televisivos devem ter comentado por detrás das câmeras sobre os recentes encontros de Lula com catadores de lixo e não tenho como deixar de imaginar que, perto do que ocorre diariamente nos bastidores da grande imprensa, o que Boris disse foi apenas uma gota num mar de lama.

Mas é melhor que eu fique só imaginando… Há coisas que não se publica onde crianças possam ler.

Ana Helena Tavares é escritora e poeta eternamente aprendiz. Jornalista por paixão e futura jornalista com diploma, é colunista da “Revista Médio Paraíba” e editora/administradora do blog “Quem tem medo do Lula?”.

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Ousar lutar!! Ousar vencer!!

criado por Ana Helena Tavares    08:46:16 — Arquivado em: Artigos, O dia-a-dia — Tags:, , ,

4.1.10

No bico de um companheiro

Meu mensageiro

Vejo que por aí, neste Brasil que tanto amo, jornalista anda querendo ser mais do que gari. Já imagino o lixo pensando: e daí?

Para o lixo não faz diferença. Quando uma encosta soterra um hotel chique, morre a camareira e o prefeito de Munique.

Por Ana Helena Tavares (escrito para a minha coluna na Revista Médio Paraíba)

Já estou aqui neste céu há algum tempo. Tudo pacato, nada do que era aí embaixo.

Tento desculpar-me com minha família por não mais poderem me ver, tento fazer sentirem minha presença no dia-a-dia. Numa música, numa brisa, numa flor. Sim, as flores, vivas – e visíveis – nas varandas e jardins, são melhores, bem melhores, que os porta-retratos.

Mas não adianta… Insistem em levar-me rosas no cemitério, para que morram sem eu estar lá – sem ninguém as ver viver nem morrer.

Aqui no céu todos os dias o sol nos brilha majestoso, não sabemos mais o que é chover. Isso para um paulista, como eu, já é muita coisa.

Aqui no céu todos falam com a cara limpa, sem hipocrisias, por isso não conseguimos montar comícios. Até temos política, mas nosso esquema é muito diferente. Andamos nus, sem cuecas nem meias. Talvez, por isso, não vejo muitos políticos por aqui.

Aqui no céu temos o tão falado livre-arbítrio. O cigarro é liberado. Não há problema. Já não temos mais pulmões. A cachaça também rola nos barzinhos. Não se espantem. Não nos sobe à cabeça. Há até roleta para quem quiser se divertir. Dinheiro já não nos serve para nada.

Aqui no céu trabalhamos no que queremos, não mendigamos a nossa chance. Sonhos aqui têm cheiro de jasmim. Cada nuvem é para nós um trampolim.

Mas quero também lhes contar o que vejo aqui de cima. Sou tímido e não quero que esta conversa pare no Youtube. Do Twitter então não posso nem ouvir falar. Tem um pessoal aqui que não larga aquilo… Eu até pensei telefonar, mas vai que eu fosse grampeado? Vejo-me aflito pra poder lhes alertar o quanto o mundo anda virado.

Mandar carta eu preferia. Na minha época, era em cartas que se trocava confidências. Não havia risco de spam. É que já estou aqui há muito tempo. Daí pensei: que coisa démodé! E ainda corro risco de enfrentar greve de carteiro… Então, resolvi traçar estas linhas e colocá-las no bico de um companheiro

Sim, hoje meus companheiros são os pássaros. Nem pensem em tucanos, sim? Escolhi um diamante mandarim.

Não quero com isso motivar nem aumentar recordações, quero apenas compartilhar minhas visões.

Aí na Terra o clima anda meio esquisito… Há quem brinque aqui dizendo que virou o Planeta Fogo. Procurem dar mais atenção à natureza. Do jeito que tem morrido gente em desastres ambientais, a cada dia, está tendo que ser aumentado drasticamente o número de nuvens. É nelas que dormimos, ou melhor flutuamos. Vocês não sabiam? Depois reclamam das chuvas…

Vejo que por aí, neste Brasil que tanto amo, jornalista anda querendo ser mais do que gari. Já imagino o lixo pensando: e daí?

Para o lixo não faz diferença. Quando uma encosta soterra um hotel chique, morre a camareira e o prefeito de Munique.

Na Casa Branca, andam dizendo que a paz gosta de canhão. Esse mundo tá de um jeito que sei não… Tudo o que disseram Madre Teresa, Gandhi, e Gentileza, hoje parece ser em vão, mas continuem acreditando na amizade e em todas as formas de amor. Porque sem cafuné, é bem mais difícil superar a dor.

Sei que vão andando, por coragem e insistência, mas façam sua parte, porque sem alguma arte este mundo logo acaba.

Vejo inocentes serem perseguidos, vejo que o século XXI não erradicou os oprimidos, mas não se esqueçam de refletir, porque sem sensibilidade aí é que esse mundo está perdido.

04 de Janeiro de 2010,

Ana Helena Tavares

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27.12.09

Passarinhando

“Diálogo” poético com Mário Quintana. Aspas nele!

“Se tu me amas, ama-me baixinho

Não o grites de cima dos telhados

Deixe em paz os passarinhos”

Se tu odeia-me, odeia-me bem alto

Grita do topo de um morro

Para que ecoe no asfalto

“Eu queria trazer-te uns versos muito lindos

Trago-te estas mãos vazias…”

Mas minhas mãos estão cheias de esperança

Esperança de não ter que falar para que me entendam

“Se o poeta não falar nada

E disser simplesmente tralalá… Que importa?

Todos os poemas são de amor!”

Falar que ama é amar?

“Ah, o teu ingênuo sonho de branquidão…”

Sonhos são sempre ingênuos.

Mas o que é o mundo sem a ingenuidade?

Nada. Apenas vaidade.

“Mas se levares apenas as visões deste lado

Nada te será confiscado

Todo o mundo respeita os sonhos de um ceguinho”

O respeito hipócrita é o pior véu

Cumprimento com fel

Olhos que não vêem o céu

“A mata ocultando o xixi das fontes…”

Multidão sufoca

É preciso ar

“Mas todos estes que aí estão

Atravancando meu caminho

Eles passarão

Eu passarinho”

“E que fique tudo muito mal explicado

Não faço força para ser entendido

Quem faz sentido é soldado”.

Queria as asas de um beija-flor

Rápidas e belas

Ninguém é capaz de as ler

Ana Helena Tavares

26 de Dezembro de 2009

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A dança das estações

Chega o inverno. Logo se quer aconchego, mas se tem medo do sossego. Será assim o ser humano? Notoriamente contraditório?

Mas que o contraditório não o vença! Chegar ao outono e entregar-se por causa das quedas é o mesmo se deixar morrer por um beliscão. E quantos beliscões a vida nos quer dar? Sim, ela quer! Há que se permitir! E por que quer? Por que permitir? Porque a primavera só vem para quem a espera.

Esperar é sofrer, porque sofrimento é vida. Porque o sorriso depois da lágrima é sempre mais molhado. Um pingo de orvalho, em qualquer semente, é sempre sinal de alegria. Por que seria diferente com o choro?

E o verão virá? Virá e também passará. Virão passos, que verão asas. Uma eterna mutação.

Enquanto a vida dura, a dança das estações só se traduz a quem as sente. Contraditoriamente.

Ana Helena Tavares,
26 de Dezembro de 2009

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7.12.09

Seguranças da Uerj são acusados de omissão de socorro a cidadãos

Por Ana Helena Tavares

Enchentes têm sido freqüentes no rio Maracanã, zona norte do Rio de Janeiro. O que não é freqüente – e causa estranheza – é a falta de solidariedade num povo como o carioca, mundialmente conhecido pelo jeito alegre e acolhedor.

Perto das 21h do dia 11 de Novembro de 2009, chovia intensamente no bairro do Maracanã e, devido à cheia do rio, muitas ruas encontravam-se alagadas. Era o caso da Rua Radialista Valdir Amaral, em frente a um dos portões da Universidade Estadual do Rio de Janeiro (Uerj). De acordo com o que denunciou o biólogo Alberto Nunes, naquele momento, alguns seguranças da universidade fugiram à regra da boa cordialidade carioca, ao serem negligentes com o sofrimento alheio.
Alberto contou que estava em seu carro e que este estava sendo arrastado pela força das águas.

– A água subiu muito rápido inundando o veículo, tornando necessária a nossa saída pelas janelas laterais. Uma vez fora do carro fomos socorridos por populares que estavam no local, que ajudaram a arrastar o carro para o referido portão da Uerj, para que este não fosse em direção ao canal do Maracanã. Neste momento, pedimos socorro aos seguranças da “Dinâmica Segurança Patrimonial”, que estavam na guarita interna ao portão, sendo isto negado sob a justificativa de que não havia ordens para abrir o mesmo. A chuva continuava muito forte e o volume de água aumentava, deixando as pessoas que estavam do lado de fora dos portões da Uerj vulneráveis e assustadas. Movidos pelo risco da situação insistimos em sermos atendidos na solicitação de abertura do portão, para sermos socorridos da calamidade pública em andamento. Entretanto, os seguranças tanto da “Dinâmica Segurança Patrimonial”, quanto da “COSEG” (segurança interna institucional) continuaram a omitir socorro. Naquele momento, não corríamos risco de afogamento, mas não poderíamos prever se a água iria continuar subindo. Então, estávamos numa situação de perigo, devido à correnteza, e não custaria nada àqueles seguranças permitir que nos abrigássemos em local seguro. Neste instante, um caminhão que também estava do lado de fora do muro foi autorizado a entrar, mas continuamos a ser impedidos de entrar na instituição com nosso veículo. – acusou ele.

Além da acusação de omissão de socorro, Alberto disse também que, ao insistir em ser acolhido junto a seu veículo e aos outros ocupantes, foi vítima da truculência de um dos seguranças da COSEG, chamado Genivaldo, que teria vociferado irritadamente palavras insultuosas reforçando o bloqueio à assistência pedida naquele caso. Alberto definiu o que presenciou como “um exercício irresponsável de poder” por parte do segurança e disse que, com medo, sua esposa, Raquel, adentrou a pé pelas dependências da Uerj, pedindo aos funcionários, alunos e professores, que se encontravam no hall, que a socorressem diante do que se passava.

- Minha esposa foi atendida por uma segurança da COSEG, chamada Andréia, e um Prof. da Instituição, chamado Carlos, que a acompanharam até o portão BV 04 e ordenaram a autorização de socorro naquela situação de risco e constrangimento sofrido por mim, por ela e meninos de rua que nos ajudavam naquele momento. Neste contexto, a funcionária Andréia, que nos socorreu, foi pressionada por seus colegas de trabalho por ter prestado aquele socorro, através da justificativa de que, tanto nós como ela, estávamos praticando desacato à autoridade. A mesma, entretanto, não voltou atrás nas suas decisões. Foi aberto um processo administrativo junto a Uerj, ainda na madrugada do dia 12/11/09, sendo que no decorrer da manhã fomos procurar a reitoria da Uerj para denunciar a omissão de socorro de alguns de seus funcionários, como também a atitude digna e solidária da funcionária Andréia, que exigiu a abertura do portão e nos tirou daquela situação de negligência. – contou Alberto.

Segundo Alberto, além de não ter sido possível ser atendido pelo reitor, o assessor da reitoria teria lhe dito que “o reitor não atende a qualquer um”. A assessoria solicitou que a reclamação fosse feita por e-mail de modo a que a instituição pudesse verificar o que havia acontecido. Impedido de falar pessoalmente com as autoridades da universidade, a solução encontrada por Alberto foi protocolar na reitoria uma cópia de um Boletim de Ocorrência (BO), que ele registrou junto à 18ª Delegacia de Polícia da Cidade do Rio de Janeiro.

- Pretendo processar a instituição por omissão de socorro, mas quero esclarecer que não se trata de uma situação de reparação de dano material, mas essencialmente de negligência por uma instituição pública estadual com seus cidadãos. Vivemos num país de omissões e impunidades, entretanto, na qualidade de cidadãos, feridos em nossos direitos de segurança e respeito, temos a obrigação de cobrar respeito e dignidade com a vida humana, e não podemos ficar calados frente a uma situação desta. Ficar calados é legitimar injustiças e não queremos estar no lugar de vítimas caladas, acuadas e omissas com injustiças praticadas cotidianamente. Queremos reconhecimento do erro institucional e que este fato sirva de lição para que não se repita. – disse ele indignado.

A Uerj disse que investigará o caso.

08 de Dezembro de 2009,
Ana Helena Tavares

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4.12.09

Sobre constrangimentos e ousadias

Foto: AFP

Hoje o mundo nos ouve

Chegar à Alemanha “dando a honra de sua visita”, como saiu na imprensa alemã, e depois fazer declarações que vão contra os interesses imperialistas dos EUA seria “causar constrangimento” ou incomodar? Incomodar aos acomodados é, sem dúvida, uma das maiores ousadias do ser humano.

Por Ana Helena Tavares (publicado também no Observatório da Imprensa e na minha coluna na Revista Médio Paraíba)

Um líder mundial foi recebido esta semana na Alemanha como superstar. Não foram os “sins” que o levaram a tal nível – foram os “nãos”. Os nãos que deu à vida, quando esta tantas vezes parecia querer fadar-lhe ao fracasso. Os nãos que tem dado aos outros, quando estes tentam ganhar no grito. Os nãos que nunca imaginou que precisaria impor a si mesmo, provando que a política é a arte da flexibilidade – e apanhando por isso. Para quem não se deixa constranger pela vida, ousadia é o caminho natural.

Esse líder não é um negro com duas faculdades. Nem tampouco é branco. Tem a cor – e a dor – da miscigenação de seu país.

Luís Inácio Lula da Silva é o nome do cara. O mesmo que avisou que no Congresso há “300 picaretas com anel de doutor” é o mesmo que hoje diz que “imagens não falam por si”. “Uma mudança inaceitável”, alegam muitos. Só que dizer que “imagens não falam por si” não significa defender ninguém. Será que é possível governar considerando-os todos “picaretas” sem lhes conceder o benefício da dúvida? Não seria este benefício parte da democracia? Será que é possível governar sem o apoio de pelo menos uma parcela deles? Talvez tenha sido isso que Lula quis dizer quando afirmou que “Jesus teria que fazer aliança com Judas para governar este país”. A diferença é que Jesus sabia quem era seu Judas e nenhum de nós tem como prever com precisão quem serão os nossos.

A mudança é a lei da vida. “Eu mudo para continuar o mesmo”, dizia Sartre. Se hoje “a estrela vermelha na lapela está menor”, como afirma a matéria alemã “Lula superstar”, não quer dizer que – naquele que, um dia, inflamou multidões de metalúrgicos – os ideais progressistas tenham morrido (e a matéria deixa isso claro). Às vezes penso que, quem o via naquela época, imaginava que, quando eleito presidente, Lula transformaria Brasília em Sierra Maestra. Duvido que algum dia tenha tido este objetivo e, nem que tivesse, num contexto social como o nosso, jamais conseguiria governar sem o mercado internacional. O que não significa governar para o mercado, menos ainda por ele. Visitando-se alguns dos grotões mais pobres deste país é fácil se constatar para e por quem Lula governa.

Nas últimas décadas do século XX, o Brasil acostumou-se a governos totalmente submissos não só aos interesses do mercado como aos interesses das grandes potências. Durante anos, os “vira-latas”, de que falava o grande dramaturgo Nelson Rodrigues, não passaram de gatinhos assustados aceitando migalhas de Washington. Assim nos via a Alemanha, assim nos via o resto do mundo. Curiosamente, para a grande imprensa brasileira foram anos de festa. Freud há de explicar o amor pela submissão.

Dias Gomes, outro saudoso dramaturgo brasileiro que de vira-lata nada tinha, dizia: “Quem não nasceu para incomodar não merecia ter nascido”. Chegar à Alemanha “dando a honra de sua visita”, como saiu na imprensa alemã na matéria citada, e depois fazer declarações que vão contra os interesses imperialistas dos EUA seria “causar constrangimento” ou incomodar? Incomodar aos acomodados é, sem dúvida, uma das maiores ousadias do ser humano.

Que moral têm aqueles que recriminam Lula por ele manter relações diplomáticas com Ahmadinejad, que nega o Holocausto e precisa sim ser repudiado por isso, mas não o recriminam por manter relações semelhantes com o Estado de Israel, que há vários anos promove uma limpeza étnica entre os Palestinos? Não trata-se de uma pergunta anti-semita, mas sim anti-sionista, em repúdio àquela parcela de Israel que parece também ter se esquecido do Holocausto, utilizando as mesmas práticas que quase dizimaram seu povo.

O fato é: um país que se quer em destaque na cena mundial precisa e deve dialogar com todos. Dialogar é uma coisa, concordar é outra bem diferente. Submeter-se é outra mais diferente ainda. Lula é pessoa que não vive sem o diálogo. Foi o diálogo – sem submissão – o que fez dele um líder admirado por Bush, Clinton, Obama e All Gore; por Shimon Peres e Mahmoud Abbas; pelo banqueiro do ar condicionado e pelo trabalhador de sol e suor. Foi a arte do diálogo que fez com que hoje o Brasil seja ouvido pelo mundo.

Por que será que, como mostram os 80% de aprovação popular, grande parte dos trabalhadores deste país continua admirando tanto Lula? Porque é possível fazer política internacional sem se esquecer da interna.

É tênue a linha entre constrangimento e ousadia. Ousar é correr o risco de constranger a quem quer tudo como sempre esteve. Mas, por mais que parte da mídia nativa continue querendo impor rótulos ao presidente Lula, como aquele que “nos constrange frente ao mundo”, a arrebatadora aprovação interna e externa teima em querer provar que para quem ousa nessa vida, o sucesso é o caminho natural.

04 de Dezembro de 2009,
Ana Helena Tavares

Confira abaixo outros locais onde você também pode encontrar este texto:

No Portal Luís Nassif

No Recanto das Letras

No blog “Quem tem medo do Lula?”

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13.11.09

Será que todas as bruxas gostam de praia?

Por que será que a mídia tem tanta dificuldade em dar voz aos otimistas?

Por Ana Helena Tavares (publicado também na minha coluna na Revista Médio Paraíba)

Dizem que não há “fumaça sem fogo”. De fato não há. A violência no Rio existe e é grande. O problema é que o fumo que é feito é bem maior do que a fogueira que de fato existe.

O Rio de Janeiro é uma cidade mundialmente visada, por isso a imprensa mundial vira demais os olhos pra cá. Às vezes, penso que é inveja de certos jornalistas estrangeiros e até de brasileiros de outros estados, sinceramente. Afinal, nós somos mundialmente conhecidos não só pela beleza, daí a cidade maravilhosa, mas agora também recentemente a revista americana Forbes nos colocou como “a cidade que tem o povo mais feliz do mundo” e, para aumentar o frisson, o canal internacional de TV MTV tratou de nos colocar como “o melhor destino gay do mundo” (olha que os gays são exigentes). Além de tudo, ainda ganhamos as Olimpíadas.

A conseqüência disso é clara: o mundo volta os olhos para nós e, muitas vezes, esquece-se de olhar o próprio umbigo. Há muita violência também em outras grandes cidades brasileiras e no mundo que quase não se fala ou, quando se fala, se fala pouco. Quando é aqui, já chamam de guerra.

Muitos dos que moram em locais considerados perigosíssimos não parecem, porém, ver a situação com esses olhos. Já andei entrevistando jovens do Morro dos Macacos e eles dizem que acham um absurdo a cobertura da imprensa, a qual é chamada de “exagerada” por todas as cinco pessoas que ouvi. Curioso observar que a própria imprensa carioca também contribui para isto.

Por que será que a opinião de jovens como estes raramente é mostrada? Por que será que a mídia tem tanta dificuldade em dar voz aos otimistas? Ou talvez a pergunta seja: por que será que a sociedade prefere ouvir os pessimistas, já que continuam alimentando todo tipo de manchete/tragédia? Será inerente ao ser humano, como apontam certos estudiosos, e será a mídia tão somente um reflexo disso?

As bruxas existem, e até são feias (ainda mais numa sexta-feira 13, diriam alguns), mas não são tão monstruosas como se pinta nos jornais. E nem todas elas gostam de praia.

13 de Novembro de 2009,
Ana Helena Tavares

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6.11.09

No sol de quase Dezembro - Uma crônica para Caê

“O Globo”, além de ignorar mais um prêmio recebido por Lula, tratou de ir mais longe, dando chamada de capa e página interior inteira a Caetano Veloso que, em entrevista ao “Estadão”, “no sol de quase Dezembro”, resolveu destilar preconceito ao chamar Lula de “analfabeto”. Haja lenço para tanta amargura!

Por Ana Helena Tavares (publicado também no Observatório da Imprensa e na minha coluna na Revista Médio Paraíba)

Por dever do ofício que escolhi, recebo todos os dias de manhã alguns jornais integrantes da chamada “grande imprensa”. Mas como pode ser chamada de grande uma imprensa que, mais uma vez, ignora uma premiação internacional recebida pelo Presidente da República?

O prêmio “Chatham House” de estadista do ano, recebido ontem por Lula em Londres por sua atuação como “um motor-chave da estabilidade e da integração na América Latina”, é um prêmio jovem, porém a instituição que o concede anualmente desde 2005 goza de prestígio mundial. Não é, portanto, um premiozinho qualquer que mereça ser ignorado ao ponto de não ganhar nem mesmo uma notinha de pé-de-página.

Sim, em pelo menos dois deles, não há sequer uma notinha, por menor que seja, em nenhuma editoria. Por contrários que muitos profissionais de imprensa sejam ao governo Lula e/ou à figura dele, abster-se de dar, ao menos, uma nota de rodapé sobre vitórias internacionais que não são de Lula, como ele mesmo fez questão de frisar, mas sim do povo brasileiro, me parece, no mínimo, a negação do direito à informação e, conseqüentemente, a negação do jornalismo.

Em 1994, nos meses em que se deu a implantação do plano real, o Brasil “contou” com o jurista e diplomata Rubens Ricupero, como ministro da Fazenda. Flagrado em uma conversa secreta com o jornalista Carlos Monforte, atualmente na Globonews, Ricupero declarou: “Eu não tenho escrúpulos: o que é bom a gente fatura, o que é ruim a gente esconde.” 15 anos depois, a atuação da grande imprensa brasileira inverte a máxima: com o ruim se fatura, o bom precisa ser escondido. Bizarro gosto pela tragédia.

Lula, em discurso realizado dia 29 de Outubro, em São Paulo, feito de improviso para uma platéia repleta de catadores de lixo que, como ele bem lembrou, são tão cidadãos como qualquer outra pessoa, aconselhou aos jornalistas presentes que “esquecessem a pauta dos donos de jornal e se misturassem àquela gente que lá estava”. Sábias palavras. O problema é que a matéria produzida sofreria muito para ganhar uma única notinha de pé-de-página.

Recentemente, Lula disse que “o papel da imprensa é informar, não é investigar”. Discordo: não há informação confiável sem investigação. No entanto, para publicar ao menos uma frase sobre a premiação que ele recebeu ontem, a “nobre e grande” imprensa não precisaria sequer praticar este cansativo trabalho chamado investigação. No ambiente democrático da internet, a notícia se espalhou como pólvora, com direito a fotos de Lula segurando o diploma referente ao prêmio. Mais um para a vasta série: “todos os diplomas do presidente”.

À revelia disso, “O Globo” de hoje, além de ignorar o prêmio, tratou de ir mais longe, dando chamada de capa e página interior inteira a Caetano Veloso que, em entrevista ao “Estadão”, “no sol de quase Dezembro”, resolveu destilar preconceito ao chamar Lula de “analfabeto”. Haja lenço para tanta amargura!

Ontem em Londres, Lula, contrariando sua praxe de improvisos (nos quais ele demonstra sempre uma oratória arrasadora, diga-se), terminou um de seus discursos, o qual leu (a propósito, analfabeto lê?), citando Drummond: “temos apenas duas mãos, mas o sentimento do mundo”. Drummond é de um tempo em que “da sala de linotipos vinha a doce música mecânica”, como ele deixou registrado em seu “Poema do Jornal”. Hoje, as linotipos já quase não existem e a “música” que vem das grandes redações brasileiras é de uma dureza que faria inveja ao mais pesado Heavy Metal.

A distorção que existe entre a cobertura do governo Lula dedicada pela mídia internacional e a dedicada pela mídia nativa é algo que torna flagrante a partidarização de uma imprensa de mão única, que está entregue a um punhado de clãs retrógrados. Vem aí a I Conferência Nacional de Comunicação. Antes que “o som que vem das redações” torne-se de tal maneira ensurdecedor que jogue de vez por terra a credibilidade de uma profissão que já foi doce, se fazem urgentes medidas que possam reverter este quadro.

Já ouvi dizerem: “Ah, os jornalistas do exterior nem sabem onde fica o Brasil”. Engano: acabou este tempo. O Brasil tem causado tanto interesse no mundo que, cada vez mais, correspondentes internacionais vêm fazer a vida aqui. Quem lê a maior parte das matérias que estes correspondentes enviam para seus países e quem lê os dados de uma pesquisa feita este mês pela empresa “Imagem Corporativa”, é levado a crer que, para jornais que vão do “The Washington Post” ao “Clarín”, do “Le Monde” ao “China Daily”, nós vivemos num país que reflete com fidelidade as palavras de Lula em um de seus discursos de ontem: “o Brasil cansou de ser o país do futuro”. Um país que nossas capas de jornal não conhecem e pelas páginas internas ele passa correndo.

Voltando às declarações de Caetano ao “Estadão”, repercutidas euforicamente pelo jornal “O Globo” de hoje, ele declarou ainda acreditar que “Marina é Lula mais Obama”. Marina, por sua vez, aproveitou a contestável matemática do baiano, e disse: “Isso (o que Caetano falou) mais do que agrega, congrega. Vai criando uma força de pensamento e de debate político que vai além de quaisquer candidaturas ou de acordos da política tradicional e coloca em cena a sensibilidade das pessoas.” Será que, depois de toda a sua história política, ela realmente acha que alguém que chama publicamente Lula de analfabeto tem a intenção de fazer algo parecido com “congregar” e de “colocar em cena a sensibilidade das pessoas”? Não posso crer.

E Marina ainda fez questão de frisar que se sentia muito honrada, pois Lula e Obama são dois grandes estadistas. Apesar de a eleição de Obama ter representado um avanço inegável, o frisson que se tem feito em torno dele é bem maior do que o que de fato lhe cabe. E Marina também não está com esta bola toda, mas, ao que parece, é o que ela acha. Respeito muito a trajetória dela, mas é lamentável que ela esteja tão nitidamente fazendo o jogo da imprensa golpista e que, com o claro intuito de se promover, tenha se pronunciado tão oportunistamente.

Mas quem disse que a fatídica “Folha de S. Paulo” não noticiou o tal prêmio? Noticiou ontem mesmo, no próprio dia, um verdadeiro furo de reportagem. Tão falso quanto a ficha da Dilma e o câncer do Fidel. “Estatais patrocinam prêmio concedido a Lula em Londres”, era o título. E a matéria dizia: “A lista de empresas que patrocinaram ou apoiaram o prêmio que o presidente Luiz Inácio Lula da Silva recebe hoje em Londres inclui três estatais (Petrobras, BB e BNDES), três empresas privadas brasileiras (Bradesco, Itaú e TAM) e várias companhias estrangeiras com interesses comerciais no país.” Mentira deslavada de um jornal invejoso com o claro intuito de desmoralizar o prêmio e diminuir sua importância. A Petrobras ainda se deu ao trabalho de apresentar em seu blog “Fatos e Dados” provas de que não patrocina o prêmio. Não sei se as outras empresas se pronunciaram de alguma forma, mas nem seria preciso: basta fazer uma pesquisa na extensa lista de membros e parceiros da “Chatham House”, disponível no site da instituição, para se constatar o tipo de prática da Folha.

Eu pergunto: isto é Jornalismo? Ou “jornaleirismo”?

A Serra S.A. (patrocinada por Globo, Folha, Estadão e Veja, entre outros) não engole, de jeito nenhum, que um presidente com a origem humilde de Lula ostente 81% de avaliação positiva, tenha conseguido trazer as olimpíadas de 2016 para o Rio de Janeiro e, agora, ainda ganhe mais um entre tantos prêmios. Quando Lula ganhou, em Julho, o Prêmio da Paz da UNESCO, a notícia até foi dada, com muito esforço, em páginas internas da grande imprensa. Isso porque era da UNESCO. Sabe como é, são muitos prêmios num mesmo ano, isso incomoda. É grande a dor-de-cotovelo de determinados setores que não se conformam com o fim da ditadura. Imaginem o tamanho do baque que levarão se, confirmando-se a expectativa de muitos, a grande imprensa for obrigada a noticiar que Lula ganhou o Nobel da Paz?

Sinceramente, nem quero imaginar o que farão (ou deixarão de fazer). Mas uma coisa eu sei, por dever do ofício que escolhi, talvez chegue o dia em que, estando numa redação de jornal, já irritada com o calor de Dezembro, eu ainda tenha que ouvir: “Pessoal, o FHC foi eleito síndico do Empire State! Vamos dar primeira página”.

06 de Novembro de 2009,
Ana Helena Tavares

Outros locais onde este texto está:

No sol de quase Dezembro - Uma crônica para Caê no “youPode”

No sol de quase Dezembro - Uma crônica para Caê no “Quem tem medo do Lula?”

No sol de quase Dezembro - Uma crônica para Caê no “Recanto das Letras”

No sol de quase Dezembro - Uma crônica para Caê no blog “Você passa por aqui”

No sol de quase Dezembro - Uma crônica para Caê no blog da Adriana Tasca

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25.10.09

Os “traficantes”, os “cobradores” e a banalização da amizade

“Amizade não se anuncia, amizade se sente. Quem vive anunciando amizade, não é amigo, é traficante.” (Machado de Assis)

Além dos “traficantes” e dos “cobradores”, a pós-modernidade trouxe a banalização da amizade. Pelas ruas não é difícil se constatar que o termo anda sendo usado no automático. Pessoas que nem se conhecem se cumprimentam com um “oi, amigo”, e conhecidos há 2 minutos viram “amigos de infância”. Eu não teria nada contra se não soubesse que 90% destas “amizades” são fugazes, não se solidificam. E sabem porquê? Porque algo me diz que o ser humano vive uma crise de convivência em sociedade. No universo virtual, então, a ilusão de se ter “um milhão de amigos” tira o brilho da letra de Roberto Carlos. Conectar-se é a fuga perfeita para se fugir da convivência.

Por Ana Helena Tavares (publicado também na minha coluna na revista “Médio Paraíba” e no “Recanto das Letras”)

Valorizo demais a palavra amizade e não consigo concordar com certos clichês que a sociedade insiste em usar para definir um termo tão nobre.

É certo que esse é um significado que anda perdido no mundo de hoje. Em muitos casos, é a velha busca pelo “levar vantagem em tudo”: quantos não gostam de curtir o status de dizer que são “amigos do rei”? Do rei da bola, do rei da música e até do rei do tráfico. Claro, há gosto pra tudo, mas isso ocorre desde que o mundo é mundo.

Machado, por exemplo, fazia uma analogia interessante que, a princípio, choca, justamente por ser tão real: “Amizade não se anuncia, amizade se sente. Quem vive anunciando amizade, não é amigo, é traficante.” É o “Bruxo do Cosme Velho” resumindo o tráfico de influência.

É engraçado que aquele que entrou para a história como “o amigo do rei” quase não versou sobre a amizade, ao contrário de muitos poetas de sua geração. No entanto, Bandeira, em seu poema mais famoso, parece usar de ironia para dizer exatamente o mesmo que Machado. Afinal, em Pasárgada, por ser “amigo do rei”, ele gozaria de inúmeros privilégios. Não me perguntem se foi intencional. Textos são feitos para que o próprio autor se entenda e para que seus leitores o interpretem, ao bel prazer. Ora, vejamos…

Peguemos o caso da família como exemplo: todos os familiares que moram com você são verdadeiramente seus amigos? Se forem, “que maravilha viver”. Mas não é regra. Amizade verdadeira é laço mais forte que o sangüíneo. Parente é uma coisa, amigo é outra, a sorte é quando se misturam. Há um clichê muito comum que afirma: “ser amigo é estar sempre ao lado”. Por esse prisma, como é possível ser “amigo do rei”? Se você for de fato amigo de um “rei”, de uma pessoa extremamente importante, repleta de afazeres, como vocês estarão sempre ao lado? Aí poderão dizer: “Ora, você está pegando a expressão ao pé da letra”. Negativo. Nem que seu amigo seja um mendigo e que você vá morar debaixo da ponte ao lado dele você estará sempre ao lado. Nem sequer morar na mesma casa é estar sempre ao lado e ser amigo também não é estar sempre ao lado nem em pensamento, tampouco, travar todas as batalhas lado a lado. Talvez isso soe quase como uma heresia, mas é fato.

Amigos de verdade se respeitam nas divergências e podem até passar décadas sem se ver, lembrando-se do outro de vez enquanto e, portanto, estando obviamente distantes fisicamente e na maior parte do tempo também em pensamento, mas isso não significa que deixaram de ser amigos e que um ainda não poderá dar o colo pro outro ou alegrar-se com suas conquistas. Cobrar afeto não é papel de um amigo, o único nome disso é carência. Amigos sabem do afeto do outro e aí está o grande pulo do gato para se compreender que é absolutamente impossível se viver sempre rodeado por todos os amigos. Afinal, ainda que você more com alguns amigos, eles têm suas vidas individuais.

Além dos “traficantes” e dos “cobradores”, a pós-modernidade trouxe a banalização da amizade. Pelas ruas não é difícil se constatar que o termo anda sendo usado no automático. Pessoas que nem se conhecem se cumprimentam com um “oi, amigo”, e conhecidos há 2 minutos viram “amigos de infância”. Eu não teria nada contra se não soubesse que 90% destas “amizades” são fugazes, não se solidificam. E sabem porquê? Porque algo me diz que o ser humano vive uma crise de convivência em sociedade. No universo virtual, então, a ilusão de se ter “um milhão de amigos” tira o brilho da letra de Roberto Carlos. Conectar-se é a fuga perfeita para se fugir da convivência.

Aí dirão: “Pronto, ela não crê em amizade virtual”. Engano. Ela é rara, mas existe, tal como antigamente havia as amizades por meio de cartas. Amizade é algo construído: amizade à primeira vista pode ser várias coisas e pode ou não se transformar em amizade, tal como amor à primeira vista é paixão que pode ou não virar amor.

Amizade é, acima de tudo, um sentimento, construído não pela troca de vantagens, como temia Machado, nem mesmo pela troca diária de afeto, como muita gente parece pensar e como Bandeira jamais teria com seu “rei”. Eu diria que é um sentimento construído pela troca de respeito, pela admiração mútua e, enfim, pela valorização do outro do jeito como ele é e da forma como ele sabe oferecer afeto.

Essa troca pode ou não ser presencial e, ainda que não seja possível que ocorra sempre, amigo zela e tem sim ciúmes, ainda que muitos não assumam. Afinal, amizade é uma forma de amor, creio que a mais singela e singular. Esses ciúmes são naturais, não podem se converter em cobrança e precisam ser saudáveis. Mesmo porque é bom lembrar que, tal como você, eles também têm o direito de ter outros amigos. Mas que há ciúmes, isso há.

Vinícius de Moraes dizia que “a amizade é um sentimento mais nobre do que o amor, porque o amor traz intrínseco o ciúme”. Eu duvido que ele não tivesse ciúmes dos amigos e amigas dele.

25 de Outubro de 2009,
Ana Helena Tavares

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22.10.09

Fordosofando - As raízes de uma mentalidade

No que ele estaria pensando hoje?

No que ele estaria pensando hoje?

“Pensar é o trabalho mais pesado que há, e talvez seja essa a razão para tão poucos se dedicarem a isso.” (Henry Ford)

“Gosto bastante de trabalhar aqui”, diz o empregado a seus companheiros. “Tenho que rever o sistema, ele é pago para produzir, não para gostar”, imaginem quantos patrões ainda pensam assim por trás do vidro.

Por Ana Helena Tavares (publicado também na minha coluna na revista “Médio Paraíba”)

Henri Ford é um exemplo de como um ser pensante usou de sua aparente benesse de aumentar salários com o único objetivo de tornar seus empregados cada vez mais dependentes do emprego de “sua” fábrica e vendendo seu trabalho a “seu” dono, como ele mesmo dependia de empregá-los e usar seu trabalho para sua própria riqueza e poder.

Em sua época, serviu de exemplo para outros donos de fábrica que buscavam unir capital a trabalho fortificado pela mutualidade de sua dependência. Trancados em uma fábrica que era ao mesmo tempo um campo de batalha e um lar natural para esperanças e sonhos.

A dependência de capital e trabalho fazia com que cada parte fizesse de tudo para manter a ordem que estava instalada. Uns compravam e vendiam, e os trabalhadores tinham que se manter saudáveis, fortes e capacitados. Cada lado tinha “interesses investidos” em manter o outro lado em forma.

Deste modo, a “remercantilização” do capital e do trabalho torna-se a principal função e ocupação da política e da suprema agência política, o Estado, que estava “além da esquerda e da direita”, esteio sem o qual nem capital nem trabalho poderiam manter-se vivos e saudáveis, quanto mais crescer (estado de bem-estar).

Os trabalhadores se aprisionavam na idéia de trabalho por toda a vida – “estabilidade”. Já os capitalistas se concentravam no intuito de preservar “fortuna familiar”, que duraria para todos, não só os atuais como também os descendentes da família. Esta era a mentalidade de “longo prazo” e de “interesse de todos”.

Após a Segunda Guerra, com o surgimento de sindicatos fortes, garantidores do estado de bem-estar, e corporações de larga escala, produz-se uma era de “estabilidade relativa”, em que continua a idéia de dependência mútua, mas agora através do confronto e teste de força entre as partes. Nenhuma delas podia continuar sozinha e ambos os lados sabiam que sua sobrevivência dependia de encontrar soluções que todos considerassem aceitáveis.

Essa situação mudou a mentalidade de “longo prazo” para a nova mentalidade de “curto prazo”. “Flexibilidade” tornou-se um imperativo, trabalhadores agora sabem que nada é certo e devem estar capacitados para novos desafios.

Muitos patrões, porém, parecem manter ainda uma mentalidade pré-Segunda Guerra. No comando de grandes empresas e fábricas, ainda há muitos seguidores daquilo que poderíamos chamar de “fordosofia”: quando o empregado é enxergado como um produto que produz com prazo de validade pra isso.

“Gosto bastante de trabalhar aqui”, diz o empregado a seus companheiros. “Tenho que rever o sistema, ele é pago para produzir, não para gostar”, imaginem quantos patrões ainda pensam assim por trás do vidro.

Daí a importância de os trabalhadores reconhecerem cada vez mais sua impotência individual, sabendo da necessidade de juntos poder barganhar melhores benefícios para todos, transformando regulamentos em direitos, reformulando-os como limitações impostas à liberdade de manobra dos empregadores.

Hoje em dia os trabalhadores não podem mais se sentir presos àquilo que “seu Ford mandar”.

22 de Outubro de 2009,

Ana Helena Tavares

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21.10.09

Mente minha?

A minha mente é como se não fosse, flutua…
Leveza e vontade de voar, uma criança brincando.

É minha mente.

Distraída do mundo, compenetrada a detalhes,
Cadê minha mente?

Se me perguntarem o que habita em minha mente, direi:
- Descubra, só você o pode.

Nos atos,
Nos gestos,
Nas palavras que dela saem.

Só sei que minha mente brinca comigo
Enquanto meu coração fala sério.
Meu coração é meu abrigo.
Minha mente é mistério.

21 de Outubro de 2009,

Ana Helena Tavares

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8.10.09

Por que o menino é o pai do homem?

Gravando o depoimento de Zuenir Ventura.

Gravando o depoimento de Zuenir Ventura.

Esta reportagem é um presente para o meu eterno mestre, meu amigo e incentivador, Gilson Caroni Filho. Ele dá aula para jovens e diz que tem “a idade dos alunos”, mas eu ainda acho que ele é mais novo. Por isso, parabéns por mais uma primavera, mas parabéns, principalmente, por ser um menino.

Por Ana Helena Tavares (publicado também na minha coluna na “Revista Médio Paraíba”)

William Wordsworth, um poeta romântico e naturalista inglês, certa vez escreveu um pequeno poema, chamado “My heart leaps up when I behold”, em que deixou registrado que “o menino é o pai do homem”. Wordsworth fazia, com isso, uma afirmação e tanto: Todo o homem traz em si um pouco do menino(a) que foi. O poema era pequeno em tamanho, porém grande, imenso, em significado. Tanto é que daquelas palavras fizeram uso inúmeros escritores que viriam bem depois dele.

Foi o caso, por exemplo, de Machado de Assis, que viria a apoiá-lo de forma veemente intitulando de “O menino é o pai do homem” um capítulo inteiro de seu “Memórias Póstumas de Brás Cubas”. Inversamente ao tamanho do poema de Wordsworth, este é um dos capítulos mais extensos do livro “Memórias Póstumas”, um livro marcado por capítulos curtíssimos. Não só pela diferença de tamanho com os outros, mas, principalmente, pelo conteúdo visceral de memórias específicas da infância, é engraçado, inclusive, notar como aquele capítulo parece solto no livro, verdadeiramente livre e desimpedido dentro do romance, ao contrário da maioria dos demais, que parecem uma costura. Talvez por conta desta aparente independência, há inúmeros sites que, equivocadamente, reproduzem aquele texto como “uma crônica machadiana”, sem procurarem saber ou sem se interessarem em citar que é capítulo integrante de “Memórias Póstumas” (mais precisamente o 11º). Já vi até gente dizendo, em comentário num site: “não encontrei este texto na coletânea de crônicas do Machado”. Nem vai encontrar.

Machado parece ter querido aproveitar que escrevia suas memórias póstumas, codinome Brás Cubas, para jogar ali toda a sua argumentação do porquê de o menino(a) que fomos ser o nosso “pai/mãe”, ou seja, do porquê de todos nós sermos fruto da criança que fomos e, enfim, do porquê de o homem ser fruto do meio.

Este assunto vem me chamando atenção já há algum tempo, então quero deixar aqui minha humilde contribuição. Estive recentemente no Centro Cultural Banco do Brasil para um evento sobre Jornalismo Literário e aproveitei para fazer uma pequena reportagem sobre “a influência da infância na fase adulta”, gravando cinco depoimentos em exclusivo sobre o assunto. Todas essas cinco pessoas, dentre elas o jornalista e escritor Zuenir Ventura, têm mais de 50 anos e a pergunta que fiz foi: Você considera que traz um menino(a) dentro de si? Por quê? Seguem abaixo as respostas:

Georgina, professora primária:

“Graças a Deus eu trago. Porque trazendo essa menina dentro de mim eu tenho esperança, eu tenho alegria. Se eu não trouxesse essa menina dentro de mim, eu já estaria morta. Até por tudo o que a gente vive hoje em dia, de violência, desrespeito, eu tenho que trazer essa menina dentro de mim pra poder acreditar que ainda existe esperança e alegria. Ainda mais trabalhando com criança pequena, eu tenho sempre que ter essa menina presente”

Curtis, engenheiro:

“Eu acho que você tem que considerar dois fatores. Primeiro se a pessoa teve uma infância muito boa, se ela foi muito feliz. Eu acho que isso no futuro, quando a pessoa for adulta, sempre vai remeter a uma fase boa. E também isso tem uma função muito boa na formação do caráter e de como a pessoa vai ser no futuro.”

Júlio Amaral, historiador:

“Eu acho que todo ser humano, quando adulto, é conseqüência das vivências dele, inclusive, de momentos da infância também. Então, nós somos hoje o resultado disso tudo, essa mistura que se reflete em muitas atitudes nossas. Não, logicamente, de forma infantilizada, mas muitos pensamentos daquele período nós usaremos em atitudes. De uma forma mais adulta, mas sem dúvida vai ser utilizado sim.”

Marlúcia, atriz:

“Eu acredito sim que todos temos uma parte do que fomos na infância, ou seja, a menina que eu fui eu ainda trago um pedaço dela em mim, percebendo a questão da humildade, da pureza, da simplicidade que essa criança tinha. Também as dificuldades, os defeitos, as virtudes, enquanto criança. Então, eu me vejo assim, principalmente em termos de sentimento. Em relação ao meu sentimento, às minhas atitudes comigo mesma. Em relação à sociedade não, mas em relação a mim mesma eu sinto que existe sim, porque todo mundo mantém um pouco do que é criança. Até mesmo porque a infância faz parte da formação da nossa personalidade de adulto. É impossível você deixar, contribui muito, como, infelizmente, também os traumas e as coisas desagradáveis. Por tudo isso, eu acho que todo mundo traz sim. E, inclusive, quando a gente conversa com crianças, a gente aprende muito com elas. São pequenas professorinhas.”

Zuenir Ventura, jornalista e escritor:

“Eu não só tenho um menino dentro de mim, como não quero perdê-lo. Às vezes ele aflora tanto, ele tá tão presente, que as pessoas dizem: ‘Pô, você parece criança!”. E eu recebo isso como um elogio. Porque eu acho que essa é uma das permanências que a gente tem que cultivar. Não há nada mais saudável para alguém do que essa presença desse estágio da vida. Porque a criança é tudo o que simboliza de inocência, de olhar pra realidade com os olhos lavados, novos. Então, não só concordo, como faço disso, de uma certa maneira, um objetivo de vida.”

Depois de tantas opiniões tão gabaritadas, me deu até vontade de pesquisar mais a fundo o assunto, quem sabe. Por agora, a quem quiser entender melhor este imbróglio, aconselho fortemente que comecem buscando o poema inglês e, depois, busquem o tal capítulo machadiano.

De minha parte, o que posso dizer é que minha mãe sempre se disse uma eterna criança e ela tem de fato uma admirável alma de menina. Além dela, ao longo de meus quase 25 anos, a vida já me presenteou com alguns adultos/meninos. E nisso é que a vida me foi generosa. É por causa deles que gosto tanto da menina que vive em mim e quero mantê-la viva sempre. Acima de tudo, é por causa deles que continuo acreditando no mundo.

08 de Outubro de 2009,

Ana Helena Tavares

criado por Ana Helena Tavares    14:19:36 — Arquivado em: Jornalista é contador de Histórias!, Reportagens — Tags:, ,

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