Traços de Estilo - por Ana Helena Tavares

“A poesia confunde-se com a prosa da mesma maneira que o poeta confunde-se com o homem da rua e já não pode nem deseja reivindicar para si a condição de eleito dos deuses.” (o poeta Gullar) “É preciso levar em conta as palavras que você escolhe, cuidar de cada sentença. É preciso ser sensível ao sentimento das pessoas.” (o jornalista Talese)

9.4.11

Sobre a diferença entre democracia e liberdade

Texto que escrevi como apresentação pro meu novo site: “Quem tem medo da democracia?” - clique aqui para acessar

Democracia é uma praça cheia de gente.

Pessoas de todos os sexos, etnias e credos, que, dentro dos limites de uma Constituição representativa, que cria parâmetros e norteia, não têm medo de expressar suas opiniões e, ainda assim, convivem em harmonia, tolerando pacificamente o contraditório.

Seja a Cinelândia, das passeatas com milhares, seja aquela pracinha de sua cidade interiorana. Lá na velha Athenas, foi assim que a palavra democracia foi criada: para ser abrigada num púlpito público, localizado no centro da pólis (denominação dada às antigas cidades gregas que deu origem ao nome política), cujo objetivo era dar voz a todos, sendo respeitada a vontade soberana da maioria. Vale o que mais de 50 por cento acham bom.

Esta vontade, muitas vezes, pode ir contra nossa vontade. Quem mora, por exemplo, num condomínio, sabe bem o que é não ser livre para alterar a fachada de sua varanda. Mas, ao coro dos insatisfeitos, resta contentar-se e conseguir convencer os outros de suas idéias. Dá trabalho, claro. Ser déspota é imensamente mais fácil, porque prosperar numa democracia requer gasto de saliva e talento para o diálogo – palavrinha mágica.

Quanto mais vemos os outros sofrerem, mais gostaríamos que o mundo fosse assim: pessoas dialogando em paz. É, por assim dizer, um ato solidário, conflitante com o ódio (de desapego a si e à sua vontade, quando esta perde). E disto só os tiranos opressores têm medo. E como o mundo está cheio deles! Há até aqueles que querem discursar nas praças de outros países…

Liberdade é uma estrada rumo ao infinito.

Quando este rumo é roubado, tudo parece cansaço. Mas a liberdade é um raio de sol, onde nos apegamos e nos refazemos. É um oásis alucinógeno que nos faz caminhar sedentamente até ele. Mas, se acaso lá chegássemos, e nos deparássemos com muitos lagos, viria de certo a forte dúvida: em qual beber?

Liberdade não tem norte e é conflitante com o amor.

Senão vejamos… Consta que John Lennon, autor da frase – “Amo a liberdade, por isso deixo tudo o que amo livre” – morria de ciúmes de Yoko Ono. E o que é o ciúmes senão o medo de perder o que se ama? E como amar sem ter ciúmes? E o que é o amor senão um “prender-se por vontade”? Seja a alguém, a algo ou a uma terra, quem ama cuida e quem cuida cria laços, elos de uma corrente imaginária mais forte do que as físicas.

Mas liberdade é também ter o direito de escolher a quem ou a que se prender. O problema nas ditaduras é que quem escolhe isso não é nem você nem a maioria – é a minoria “iluminada” e embebida de ódio. Tiranos têm raiva da própria incompetência e temem a democracia porque sabem que não conseguiriam se destacar não fosse pela força. Seu medo é gerado pelo ódio.

E o ódio nada mais é do que uma vontade de ter “licença para matar” ou destruir. O agente secreto da rainha inglesa tinha, mas seguia ordens.

Liberdade é um faroeste sem xerife.

É, no fundo, uma utopia. Não creio que tenha havido na história da humanidade alguém totalmente livre de amarras afetivas e sociais. Até os mais libertários revolucionários não estão a salvo de influências externas. Nesse sentido, a busca pela liberdade talvez se configure numa desesperada tentativa de fuga. Às vezes, uma fuga de si mesmo.

Como se pudéssemos enganar nossas dores, a liberdade é um querer intenso, que, quanto mais sofremos, mais queremos. É, por assim dizer, um desejo solitário (de desapego ao magnetismo do que está à sua volta), pois dá asas a todas as vontades individuais, sem observar as dos outros (tantas vezes conflitantes) arcando com o caos que isto pode gerar.

E, por mais saciado que este desejo nos pareça, sempre desejaremos mais liberdade. Este é o desejo de todos os desejos: desejar mais e mais. Porque, se não houver o que desejarmos, que graça tem o mundo? Apenas tédio e inércia.

Mas o problema é: o que desejar? Muitos não sabem nem querem saber. A prisão, não a física, mas a mental é cômoda. Libertar-se é perigosíssimo. E disto todo ser humano tem medo.

Eu tenho. É o novo ao seu alcance. É o mergulho no desconhecido. É a anarquia. “Graças a Deus”, diria Zélia Gatai, uma anarquista de carteirinha que passou a vida defendendo a democracia. E que lindo era o amor dela pelo nosso Amado.

Sim, é preciso amar para ser democrata, mas a liberdade plena, como utopia que é, conflita tanto com o amor como com o ódio.

Senão vejamos… O ódio, expresso em palavras ou atos, num regime (verdadeiramente) democrático, te levará à cadeia; num mundo livre (caso existisse) te levaria a ser morto. É a (falta de) lei da selva.

O amor num mundo livre? Só quando a humanidade for reinventada.

Sugestão? Ame numa democracia.
Ana Helena Tavares

criado por Ana Helena Tavares    20:01:32 — Arquivado em: Ensaios, Ensaios monográficos — Tags:,

29.3.11

Carlos Eugênio Paz: “Aos ditadores, o julgamento histórico”

Após a entrevista, fomos ao “Vermelhinho” da Cinelândia.
“Quer que eu tire a foto com o cigarro mesmo?”, perguntei.
“Principalmente! Não sou politicamente correto”, respondeu.
Por Ana Helena Tavares

Um escritório próximo à Cinelândia, a pouquíssimos metros do Theatro que foi palco do discurso oco de Barack Obama, tem sido o local das reuniões de pauta do jornal online “Rede Democrática”. Na noite de sexta-feira, 25 de Março, tive a felicidade de participar dessa reunião e, em seguida, de entrevistar um de seus membros: Carlos Eugênio Paz, mas podem chamar de Comandante “Clemente”.

Entrou para a ALN (Ação Libertadora Nacional), quando esta ainda era o chamado “Grupo Marighela” do Partido Comunista. Era um jovem de 16 anos, o ano era 1966 e a ditadura brasileira estava no “olho do furacão”, como definiu, dizendo que talvez isso tenha contribuído pra sua sobrevivência, além de, principalmente, a lealdade de seus companheiros.

Minha intenção era entrevistá-lo sobre a Lei de Anistia, mas a conversa, saborosamente informal, e acompanhada por outros quatro integrantes da “Rede”, todos ex-guerrilheiros, aos quais dei a liberdade de intervir no papo, durou mais de uma hora. Mesmo porque ele não tem o menor problema em falar sobre seu passado. Ao contrário, acha isso importantíssimo. Tanto que já escreveu dois livros sobre o assunto – “Viagem à luta armada” e “Nas trilhas da ALN” – e ainda tem um pronto pra ser publicado.

“Se é revanchismo prestar contas com a história, sou revanchista”, disse ele ironizando. Na verdade, ele é um “humanista”, que fala do Brasil como “um país a ser reconstruído”.

A pauta não poderia ser mais variada. Conseguimos ir das reformas de Jango ao “erotismo de açougue” do BBB. Dos desaparecidos políticos ao estupro como “método de governo”. Da medalha jogada por “Clemente” num bueiro em Copacabana à jurisprudência dos “crimes conexos”, gerada por sua deserção do exército. Da ausência de nomes, como Apolônio de Carvalho, nos livros de história, à onipresença do STF na interpretação das leis de hoje. De Médici como atual patrono de novos oficiais à tradição militar de não queimar arquivos… Das mentes desperdiçadas pelo golpe ao “pacto de conciliação” que inexistiu – “Onde eu assinei?”, perguntou ele. Dos mais perversos métodos de tortura, como a “malfadada coroa de Cristo”, à importância da erradicação da fome. De Karl Marx, com a “mais-valia”, a Jean Paul Sartre, com “o inferno são os outros”. Da ditadura entendida como “opção golpista da direita brasileira” à “democracia domesticada” pelas… “antenas de TV”.

Ao final de tudo isso, saí de lá com a conclusão de que a palavra “herói” está completamente desmoralizada e de que existe uma “democracia post-mortem” para aqueles que foram tiranos em vida.

Entrevista altamente aconselhável para quem acha que luta armada, contra um regime de exceção, é terrorismo. “Eu tenho um profundo orgulho de ter participado dessa luta. Olha, eu vou morrer orgulhoso. Sou um nordestino orgulhoso. Meu pai dizia: “Orgulho besta!” E eu dizia: pois eu sou besta, pai.”, confessou “Clemente”.

Ana Helena: Você foi o comandante mais jovem da ALN e o único que não foi preso nem torturado pela ditadura. Pra você, qual foi o fator, ou os fatores decisivos pra isso?

Carlos Eugênio: É difícil definir isso. Acho que tem duas ou três coisas que contribuíram pra eu ter sobrevivido. Digo ter sobrevivido, porque, se eu tivesse sido preso, eu já era condenado à morte, tanto formalmente quanto informalmente. Porque tinha pena de morte no Brasil durante a ditadura. E eu fui uma das 4 penas de morte pedidas.

A juventude

Quanto à minha sobrevivência, acho que se deve primeiro ao fato de eu ter entrado cedo, tive mais tempo de aprender e tinha características individuais próprias pra um guerreiro. Tinha um físico avantajado, dirigia muito bem, atirava bem e tinha um fôlego muito grande, era praticamente incansável. Ou seja, eu tinha algumas facilidades para a guerrilha urbana, de rural eu nunca participei. Tem um pessoal que fica meio chocado com esse negócio de idade… Eu queria perguntar: qual foi a guerra que foi travada por velhos? As guerras são dirigidas por homens velhos, devido à sua sabedoria. Como Giap dirigiu a guerra do Vietnã e em todas as guerras você tem isso. Agora, o combatente tem que ser jovem. Lá no Vietnã mesmo você via aqueles garotos, de 14, 15 anos, lutando na frente de libertação deles.

O “olho do furacão”

Outro fator que creio ter contribuído pra minha sobrevivência é, por incrível que pareça, o fato de eu ter entrado no “olho do furacão”. Você sabe que quando o furacão passa, o momento de calmaria é justamente quando você tá no olho. Quer dizer, você tá ali no meio, o vento fica rodando em volta e você nem se despenteia. Quando eu entrei na organização, com 16 anos, eu já tava sendo apresentado ao Marighela e eu acho que isso tem a ver, porque eu mergulhei aí. Por orientação dele, em vez de ir pra Cuba naquela época, fui pro exército brasileiro pra treinar e aprender a ser um militar.

Todos os presentes a essa mesa lutaram contra a ditadura.
Os companheiros

Então, tem todas essas razões, tem o acaso, tem tudo, mas a razão mais importante são os meus companheiros. Apesar de eu ter sido por muitos anos a pessoa mais procurada da Ação Libertadora Nacional, eu fui umas das menos abertas. Não no sentido de ninguém dizer “ah, ele fez isso, fez aquilo”, mas me preservaram no sentido de não abrirem meus pontos de encontro. Fui agraciado pela valentia, pela dignidade dos companheiros que foram torturados pra dizerem onde eu estava – e muitas vezes eles sabiam – mas não disseram. E a minha sobrevivência eu dedico a eles.

Ana Helena: Como foi uma história de que você ganhou ganhou uma medalha do exército e a jogou fora num bueiro em Copacabana?

Carlos Eugênio: Bom, eu fui condecorado com a medalha de melhor soldado do Forte de Copacabana. Era simples ganhar essa medalha. Por quê? Porque eu era o único soldado que tava treinando realmente. Os outros soldados todinhos estavam danados da vida de estar lá. Estavam putos, a palavra certa é essa. Por quê? Porque ninguém estava querendo servir ao exército. Era um atraso de vida. Se o cara era de classe média, estava prejudicando os estudos. Um ou outro, além de mim, queriam até estar no exército, mas eles não estavam com vontade de treinar. Eram caras pobres, que moravam em favelas e o exército pra eles era uma certa proteção. Tinham ali o soldo deles, que era pequenininho, mas almoçavam, comiam e tinham a roupa lavada. Era uma fonte de sobrevivência, mas isso não queria dizer que estivessem a fim de se esforçar no treinamento. Eu não.

“Pra comandar, tem que obedecer”

Eu fui lá com uma tarefa de aprender a ser um bom militar. Então, me dediquei muito, muito. “Ah, vamos fazer uma corrida…” Opa, já ia eu lá… O Marighela dizia: “Pra comandar, tem que aprender a obedecer”. Lá fui eu obedecendo… (risos) E ele dizia mais: “Você tem que ir lá aprender o pensamento de um militar. Porque nós vamos precisar de quadros militares”… Então, eu ficava lá observando os militares, como eles pensavam, e tentando me transformar num deles… E aí foi realmente o que aconteceu. E, em Outubro de 1969, eu ganhei essa medalha. Levei ela pra casa, só que aconteceu um problema. Logo em seguida, minha irmã foi presa e torturada, barbaramente, pelo mesmo exército que havia me condecorado. Então, eu peguei essa medalha e joguei num bueiro na Av. Princesa Isabel, perto do túnel novo. Eu estava junto com dois companheiros que, infelizmente, não podem estar aqui pra contar história: Luiz Afonso Miranda Rodrigues, o “Girafa” (da ALN); e o Aldo de Sá Brito, meus amigos de infância, de começarmos a vida juntos.

Ana Helena: O Aldo de Sá Brito teve uma morte perversa. Queria que você comentasse como foi isso.

(“Um dos melhores quadros da esquerda”, disse um dos presentes) Carlos Eugênio: O Aldo era sobrinho-neto do cardeal do Rio de Janeiro. Foi preso numa ação de uma expropriação de um banco em Belo Horizonte. A polícia chegou no final do assalto e eles foram tiroteando com a polícia. Ele entrou num prédio de apartamentos, tentou pular da janela do 2º andar pra ir pra outro prédio, caiu e quebrou um osso da bacia. Daí não conseguiu fugir. Foi preso e torturado até a morte com a famosa “coroa de Cristo”.

A “coroa de Cristo”

Ele é um dos casos comprovados do uso da malfadada coroa de Cristo. Trata-se de um aro de metal, colocado em volta da cabeça, com parafusos do lado de dentro do aro. Daí eles iam regulando e comprimindo o crânio até arrebentá-lo. Outra companheira que morreu assim foi Aurora Maria Nascimento Furtado.

Ana Helena: Sobre a Lei de Anistia, como é que você vê a decisão do STF?

Carlos Eugênio: Primeiro, eu acho um absurdo o STF tratar disso. Segundo, o problema da Lei de Anistia não começa com o STF, começa com a própria Lei de Anistia. Essa lei foi fruto de um processo que foi a passagem dos governos militares pro governos civis. Não houve uma vitória de um lado. Eu costumo dizer que, no Brasil, a ditadura não caiu, ela se transformou.

A “democracia domesticada”

E, ao mesmo tempo em que se transformava, ela foi criando um novo sistema político que é esse no qual nós vivemos hoje em dia, que eu chamo de “democracia domesticada”. A expressão é do meu amigo Luiz Felipe Miguel, que tem um texto com este título. Porque nós ainda estamos muito distantes de uma democracia popular e mais distantes ainda de uma democracia direta, que é a forma que eu acho que a humanidade tem que caminhar pra ela. Primeiro a popular, depois a direta.

A lei de anistia

Agora, o problema é o seguinte… Chegou um momento em que a ditadura não conseguia mais se sustentar. Os militares estavam num desgaste muito grande, não conseguiam mais controlar a economia do país, não conseguiam mais se manter no poder enquanto ditadura, aquela que de 4 em 4 anos trocava de ditador. Então, foi havendo um movimento popular, realmente houve. Primeiro, a campanha da anistia tornou-se um clamor que foi aumentando cada vez mais na sociedade civil até que eles foram obrigados a fazer uma lei. Só que ela foi sendo reformada. Na primeira, que foi feita em 1979, quem participou dos chamados “crimes de sangue”, ações onde morreu alguém, não estava anistiado. Eu, por exemplo, que participei, tava fora, assim como um monte de gente. Naquele ano, quem saiu da cadeia, não foi pela anistia, foi por indulto de Natal. A famosa anistia “Ampla, geral e irrestrita” não aconteceu no Brasil. (“inicialmente, permaneceram restrições políticas”, lembrou um dos presentes). E, além disso, a questão é que ela anistiava tanto quem lutou pela liberdade como aqueles que solaparam a liberdade.

A jurisprudência dos “crimes conexos”

Quando eu voltei ao Brasil, dois anos depois da Lei de Anistia, eu ainda não estava anistiado. Eu tive que travar uma batalha jurídica clandestina. Eu tive que entrar, em Março de 1982, na embaixada francesa em Brasília e ir ao STF. E, lá, é que eu acabei sendo anistiado, em 06 de Maio de 1982, sendo que a lei é de 79. Quase três anos depois. E foi através de um artigo pro qual eu, infelizmente, criei jurisprudência, que é o dos crimes conexos. Eu desertei do exército. E eles diziam: “é crime militar, não é crime político”. Só que eu aleguei que desertei, porque militava na ALN e lutava contra a ditadura. E a jurisprudência é que os torturadores foram incluídos justamente nesse artigo. De que maneira? Tortura não é crime político. Tudo bem, é crime contra a humanidade. Mas foi cometido por motivações políticas. Foi esse o entendimento do parecer dado pelo STF.

Humanistas, socialistas, comunistas e democratas

E, assim, os dois lados estão anistiados no Brasil. Através de uma lei, surgida de um acordo, que foi o possível de se fazer na época. Não é que se diga: “Ah, não devíamos ter aceito aquele acordo”… Essas coisas em história não existem. Você faz o que você tem força pra fazer. Se a gente tivesse tido mais força, a gente tinha tomado o poder, instalado uma democracia popular e punido todos esses torturadores com penas de prisão. Jamais a de tortura. Porque nós nunca torturamos nem torturaríamos. Somos humanistas. Somos socialistas. Somos comunistas. Democratas. Não somos a favor da tortura. Jamais faríamos uma coisa dessas. Mas teriam sido julgados, por tribunais populares, e cumpririam suas penas de prisão. Como isso não aconteceu, é essa a questão que está se tentando resolver no Brasil.

O julgamento histórico é o principal

Mas, além dessa, há uma questão que eu acho até mais grave. Sinceramente, eu acho que o julgamento histórico é o mais importante de todos. Claro que eu não tô dizendo: “Ah, então, o cara me torturou e não vai pra cadeia?”. Primeiro que muitos deles já morreram. Segundo que havia uma “cadeia de comando” nisso tudo. O cara que ia lá torturar era o último da “cadeia alimentar”. Ele era imediatamente antes do prisioneiro. Porque era aquele que tocava no prisioneiro. Imagine se Emílio Garrastazu Médici alguma vez tocou em algum prisioneiro… Ou Costa e Silva… Ou Castello Branco… Nenhum deles. No entanto, partiu deles a instauração de um regime cuja manutenção do poder se baseava na censura, no fechamento de todas as organizações de classe nesse país, na tortura, no assassinato, no seqüestro de militantes políticos opositores, etc… Então, esses é que têm que ser primeiramente julgados. E a eles, infelizmente, só vai caber o julgamento da história. Agora, como a gente pode viver num país em que o Médici é tratado como presidente? É só pegar o seu livro de história… (“Nós vamos voltar pra casa atravessando a ponte Presidente Costa e Silva”, lembrou um dos presentes referindo-se à Rio-Niterói). Como é que pode?

O exemplo francês

Estou chegando da França. Fui passar um tempinho lá na casa de amigos. Em cada canto de Paris, você encontra uma placa: “aqui morreu um combatente da liberdade assassinado pelas forças de ocupação nazista”. Aquelas pessoas, por exemplo, que colaboraram para o regime nazista lá são todas conhecidas. Inclusive, algumas tiveram a coragem política de escrever livros e assumir essa colaboração com o regime de Vichy. E há muitas pessoas lá a favor deles.

Uma opção da direita brasileira

Como aqui, é evidente que muita gente colaborou com os militares. Não tivemos uma ditadura militar com um bando de generais de opereta que resolveram dar um golpe de Estado. Foi a direita brasileira que optou pelo caminho golpista e usou as forças armadas como ponta de lança.

Lula comemorando com Apolônio,
quando este foi anistiado.
Apolônio de Carvalho X Duque de Caxias

Por exemplo, nós temos o privilégio de sermos a pátria de nascimento de um herói de três países. Sabe lá o que é isso? E até hoje nós não o chamamos de herói… E eu vivo dizendo isso por aí: pra mim, devia ser o patrono do exército brasileiro. Apolônio de Carvalho. Ele foi resistente da guerra da Espanha, herói da resistência espanhola, coronel e herói da resistência francesa, ganhando a mais alta condecoração que é a Legião D’Honeur… Você chega na cidade de Toulouse, na França, e todos sabem quem foi Apoloniô de Carvalhô… Porque ele foi quem dirigiu as tropas da resistência que libertaram Toulouse… Eu fui agora lá e há uma placa em homenagem a ele. No Brasil, até hoje a história não o fez justiça. Aí o general Duque de Caxias, um homem que era assassino de negros e dos irmãos paraguaios, é o patrono do exército… (“Ainda passaremos pela rua Moreira César”, completou um dos presentes referindo-se ao algoz de Canudos).

E assim caminha o nosso exército…

Recentemente, a Academia Militar das Agulhas Negras escolheu Emílio Garrastazu Médici como patrono de uma turma de novos oficiais. Então, olha só isso… Nossos jovens oficiais sendo educados dentro do pensamento do general golpista. Um general que mandou matar e torturar milhares de brasileiros (“o pior governo militar”, definiu um dos presentes). Aí a gente fica pensando assim… “E a punição aos torturadores?”… Tudo bem, quanto aos que ainda estão vivos, se a gente conseguir julgá-los e levá-los a tribunal dentro das normas vigentes no país. Tudo bem, vamos lá… Mas mais importante que tudo isso é o julgamento da história. E é disso que a gente tem que correr atrás…

O Brasil não abre arquivos, mas o exército não os queima…

Porque, por exemplo, os arquivos da guerra do Paraguai… Tente você, como jornalista, acessá-los pra ver se você consegue… Não, porque nesse país há uma tradição de não se abrir arquivos. Aí se fica nessa discussão sobre a abertura dos arquivos militares e se eles existem. Existem! Se tem uma coisa que militar faz é arquivo. E se tem uma coisa que militar não faz é queimar arquivo. Ele finge que queima. Ele queima uma parte que não tem importância, mas a parte principal tá lá.

Cadê, onde, como?

Stuart Angel
E nós queremos saber… Por exemplo, onde está Paulo de Tarso Celestino? Onde está Virgílio Gomes da Silva? Onde está Heleni Telles Guariba? Onde estão todos esses companheiros que desapareceram, sumiram, as famílias não conseguem encontrá-los nem enterrá-los simplesmente pra ir lá no dia em que quiserem e colocar uma flor no túmulo? Onde estão esses corpos? Como eles morreram? Por ordem de quem? Em que circunstâncias? Como é que a coisa aconteceu? Essas pessoas vão viver o resto da vida, gerações e gerações, e vai ter um elo que nunca vai se fechar… Nunca? Onde está Stuart? Como mataram a mãe de Stuart?

Caminhar pra frente

Daí dizem… “Ah, mas vamos deixar isso pra lá pra gente caminhar daqui pra frente…” Isso não é caminhar pra frente. Caminhar pra frente é exatamente você limpar o terreno, você pegar e discutir, e se alguém tem que ser punido que seja punido… Ficam falando sobre a “Comissão Nacional da Verdade”… Que tem que olhar os dois lados… Mas o nosso lado já foi julgado e condenado e cumpriu pena. Quem não foi julgado e condenado foi o lado de lá. E estupro e tortura são crimes hediondos, inafiançáveis e imprescritíveis. O mundo inteiro reconhece isso. (“Poucas das mulheres que foram presas tiveram a sorte de não ser estupradas e isso era liberado pelos generais”, lembrou um dos presentes) O estupro não era feito por torturadorezinhos tarados. Isso era uma política, era um método de governo.

Ana Helena: Voltando à Lei de Anistia, você comentou que acha um absurdo essa discussão ter ido parar no STF. A tarefa é de quem, então? Do Congresso?

Carlos Eugênio: As leis, segundo a nossa Constituição, a nossa Carta Magna, são tarefa do Congresso. Mas agora virou mania… É o STF que interpreta a lei. Quando eles simplesmente tinham que ajudar a aplicar a lei. Eles não podem ficar dizendo: “Isso aqui é assim e não pode mudar”. Que história é essa? E, se a gente conseguir uma maioria no Congresso e resolver mudar a Lei de Anistia, não pode porque o STF diz que não pode? (“Ainda tem uma coisa… no Congresso, as pessoas são eleitas e têm mandatos por tempo determinado… no STF, não são eleitos e são vitalícios… isso é uma aberração”, frisou um dos presentes ). O sujeito comete um crime, como aquele juiz “Lalau”, e a grande punição dele é ir pra uma aposentadoria compulsória, recebendo o mesmo valor de que se ele não tivesse cometido o crime. Não vai trabalhar mais e vai poder ganhar dinheiro… Vai poder jogar na bolsa, vai ter tranquilidade…

Ana Helena: Quanto à punição aos torturadores, você comentou e todos sabemos que muitos já morreram. Ainda cabe aos vivos uma punição de prisão?

Carlos Eugênio: Primeiro, eles têm que passar pra história pela porta que entraram: a lixeira. Porque alguém que comete um atentado contra a democracia, que derruba um governo eleito pelas regras democráticas – parte de uma das Constituições mais democráticas que o Brasil já teve, a de 1946 – que era legítimo e representativo, alguém que arrebenta as portas da legalidade, instaurando um governo ditatorial, tem que passar à história como isso: como ditadores, inimigos da democracia e torturadores. Esse é o primeiro julgamento que pode ter. Agora, há uma coisa, que não é uma questão moral, nada disso, que é o seguinte: a Comissão Nacional da Verdade, aprovada ainda no governo Lula. Nós já falamos a verdade…

Até pra Globo…

Olhe só… Nossos companheiros foram torturados e muitos falaram sob tortura. Além disso, ainda escrevemos nossos livros. Eu não tenho escrito no armário… Tenho dois livros publicados (“Viagem à luta armada” e “Nas trilhas da ALN”) e um prontinho. Estão ali as ações armadas de que eu participei, polêmicas ou não, as mortes que eu cometi, tá tudo ali aberto. Além dos livros, ainda há os jornalistas que me entrevistam. Nunca me recusei a falar. Costumo brincar dizendo que até pra Globo eu falo. Já falei pro Fantástico, pra Veja, pro Estadão, pra Folha, etc… Agora que o SBT tá produzindo uma novela chamada “Amor e Revolução” (sobre a ditadura), eu fui a São Paulo dar minhas declarações pra eles… Enfim…

Ana Helena: E o que você acha da idéia dessa novela do SBT?

Carlos Eugênio: Bom, eles estão usando a palavra “revolução” em referência ao nosso lado. Muita gente entendeu errado, mas eles não estão chamando o golpe de Estado de revolução. E, sim, a nossa. Porque os personagens principais são dois guerrilheiros. É muito interessante, tô dando a maior força. Estréia em Abril.

Mas ainda falta o outro lado se manifestar…

Aí eu pergunto: Por que Jarbas Passarinho não vem a público e conta a verdade? Alguma coisa ele até já disse… Tem até aquela famosa frase: “Às favas com os escrúpulos…” Quer dizer, um homem que redigiu o AI-5 é tratado hoje em dia como um democrata. “Ah, é um ex-senador da República e tal…” Um homem que foi ministro de Médici. E, quanto ao exército, eu acho que eles têm que colocar na cabeça o seguinte: é muito melhor pro exército abrir os seus arquivos, porque não foi o conjunto do exército brasileiro que cometeu as atrocidades, gente. Isso aí quem tem que pagar historicamente são os comandantes. Quem ganha a guerra não é o comandante? É! Quem perde também é… Foram eles que instauraram a ditadura. Ou vocês acham que foi o soldado, o tenente, o capitão… Não foi! Então, o alto comando das forças armadas tem que assumir que foram cometidos esses crimes de lesa-pátria. E nós ainda nem temos condições de avaliar os prejuízos que esse país teve com aquele golpe de Estado.

Jango discursa, observado de perto…
As reformas traídas

Estamos ainda muito centrados em denunciar o que os caras fizeram, mas você já pensou, por exemplo, o atraso que foi pro Brasil a não-promulgação das reformas de base de João Goulart? O Brasil seria outro país se a reforma agrária que João Goulart enviou ao Congresso tivesse sido realizada naquela época. Um monte de camponeses não teriam morrido… Um monte de problemas de abastecimento que esse país teve, de pobreza, de miséria, de violência, tudo isso teria sido diferente. Inclusive, o êxodo rural. Outra: havia também a reforma urbana, da qual muita gente esquece. Reforma educacional, reforma do sistema financeiro, com a lei de remessa de lucros… Enfim… Por enquanto, nós só estamos falando das liberdades, mas o que mais o Brasil perdeu? É tão importante a gente abrir esses baús que estamos muito concentrados, mas um dia haveremos de ter uma idéia do prejuízo que foi o golpe de Estado. Não esquecendo, esquece tortura, esquece tudo, não… Mas pensando: se o Brasil tivesse ido por aquele caminho, quanto nós teríamos ganhado?

As mentes desperdiçadas

E mais… Ninguém há de duvidar que, entre os nossos companheiros, estavam algumas das mentes mais importantes, que mais contribuições poderiam dar à nossa pátria. Você já imaginou um homem com o poder de discernimento, de clareza que tinha Carlos Marighela, se, ao invés de usar sua energia criadora para a destruição de um sistema, ele a estivesse usando para a construção? Ele era um poeta… Tenho certeza de que teria sido muito mais importante pro Brasil dentro de um processo democrático do que dentro de um processo em que tivemos que fazer uma luta armada… E ele acabou morrendo ali, na Alameda Casa Branca, por um monte de tiros, por um monte de marginais, comandados por um marginal maior chamado Sérgio Paranhos Fleury, homem da pior estirpe, que depois acabou sendo morto como queima de arquivo. Então, vejam bem… O próprio Aldo de Sá Brito era um tremendo de um poeta, mas, infelizmente, uma pessoa bem próxima a ele, com medo da ditadura, quando ele andava na clandestinidade, queimou os poemas que ele tinha. Uma mulher como Ana Maria, que foi minha primeira companheira na vida, que era uma pianista, tocava piano de uma maneira maravilhosa. Era pintora, estudou na antiga Escola Nacional de Belas Artes. Desenhava também, era uma artista… E a mulher morre com 23 anos de idade, assassinada a tiros numa esquina no bairro da Mooca. Um menino como o Marcos Nonato, que entrou na ALN com 14 anos e o mataram com 18. Enfim…

Mas morreram em pé

Fora uma meia dúzia, ninguém se arrepende disso não. Estávamos lá pra isso mesmo. Era o que tinha que ser feito. Mas o que motivou isso? Foi o golpe de Estado de 31 de Março de 1964, que nos fez termos que sair das nossas ocupações, como brasileiros, pra podermos dizer que aqui nesse país não íamos morrer de joelho, que íamos morrer em pé. Então, se um dia essa discussão voltar ao Congresso, tem que se discutir: vai se punir ou não essas pessoas? Ora, estamos numa democracia… É crime tortura? O que a lei prevê como crime? Tem que ser uma discussão técnica, nas letras da lei. Ou será que vai ser uma troca? Quem pegou em armas contra a ditadura vai ter que fazer os anos de cadeia que faria caso não tivesse a Lei de Anistia? Fica essa questão no ar…

Ana Helena: Fala-se muito num “pacto de conciliação” e que quebrá-lo seria prejudicial. Existiu tal pacto?

Carlos Eugênio: Onde é que eu assinei? Eu era comandante da Ação Libertadora Nacional. Sou o único que ficou vivo, porque todos foram presos, torturados e mortos. Você assinou? Você assinou? (pergunta ele aos companheiros presentes, recebendo a negativa de todos) Então, eu quero saber onde é que tá esse pacto. Isso foi feito lá em cima, dentro da classe dominante. (“Acho que foi feito entre o Sarney e o Jarbas Passarinho, eles se acertaram por lá e fizeram isso”, brinca um dos presentes). Mas o povo brasileiro não participou. Por acaso, foi feito algum referendo? Eles disseram ao povo: ‘vem cá, como é que a gente vai acabar com essa merda? Fizemos um golpe de Estado, ficamos 20 anos no poder e queremos sair, porque agora não tá dando mais. O Jimi Carter já disse que não vai dar mais dinheiro pro Brasil se continuar essa ditadura.’ Disseram isso? Foram logo convocadas eleições gerais livres? Ora, a primeira só viria a ocorrer em 89, 10 anos depois da Lei de Anistia. E esse foi o tempo necessário pra que os caras montassem um sistema que é o que aí está. E pra montar esse país, que a gente tá tentando, com muita vontade, com muita garra, reconstruir. Quando o Brasil saiu da ditadura, era um país a ser reconstruído, porque ele foi dizimado, acabado política, econômica e socialmente falando.

Ana Helena: O que você acha da expressão “revanchismo”?

Carlos Eugênio: Eu sou revanchista. Porque o problema é que os caras criam umas categorias e dão uma conotação, inclusive, moral a elas, que não existe. Ou seja, se é revanchismo prestar contas com a história, então eu sou revanchista. Eu prestei minhas contas. Fui condenado à revelia, entrei na clandestinidade, lutei e não me arrependo. Se eu precisasse dar mais 10 anos, daria mais 20. Não importa. Não precisou, tudo bem. Tô aqui, tô vivo. Se tivesse morto, seria mais um nome na lista. Agora, minhas contas estão prestadas em livros, reportagens e teses acadêmicas escritas sobre mim. Por exemplo, tem uma na Unicamp, que é: “A importância dos livros do Carlos Eugênio Paz para reconstrução da história da luta armada no Brasil”. Pronto, tá lá. São 400 páginas explicando a importância que tem eu ter falado.

O orgulho

Quando ninguém falava nada aqui nesse país, em 87, quando nem havia a nova Constituição, tava na época da Constituinte, veio à tona um caso polêmico ligado à ALN, o JB me procurou e eu contei a história todinha. Saiu na 1ª página num domingo. Até o meu padeiro ficou sabendo quem eu era. Aí me perguntaram: “Por que você contou?” E eu respondi: porque me perguntaram. E por que isso? Porque eu não tenho problema com a minha história, com o meu passado. Tudo o que eu fiz na luta armada eu assumo e, se tiver algum caso que eu ainda não contei, é simplesmente porque não me perguntaram… (risos) Se perguntar, eu conto! Sabe por quê? Porque eu tenho um profundo orgulho de ter participado dessa luta. Olha, eu vou morrer orgulhoso. Sou um nordestino orgulhoso. Meu pai dizia: “Orgulho besta!” E eu dizia: pois eu sou besta, pai.

Presidente? Não! DITADOR!
Ana Helena: Então, por tudo o que você disse, fica entendido que o que você acha fundamental nessa discussão, fundamental pra que nos tornemos de fato uma democracia, é a localização dos dois lados na história, certo?

Carlos Eugênio: Exatamente. Marighela = herói do povo brasileiro. Médici = ditador. Brecht dizia “pobre do povo que precisa de heróis”.

Heróis

Mas hoje chamam de heróis os participantes do BBB!!!!! Aquele ex-jornalista… (“Pedro Bial”, disse alguém, no que Carlos Eugênio rebateu: você falou, mas eu não falo nem o nome) Ele era jornalista quando cobriu a queda do Muro de Berlim. Agora deveria pensar três, cinco, dez vezes… Será que ele já se deu conta do desserviço que faz à sua própria biografia? Será que a queda do Muro de Berlim é igual a um BBB? Então, eu já vou começar a achar que não tinha que ter caído o muro… (risos) Mas veja… Chamam os participantes de um jogo de televisão, pra ganhar dinheiro, de heróis. Jogo de onde só se tira porcaria, coisas que nossas famílias e crianças não precisam aprender, que é como se faz alianças pra dar golpe.

Erotismo

E a erotização… Olha que quem tá falando é uma pessoa que assume profundamente a sua própria erotização. Eu não tenho problemas com o erotismo. Nenhum. Sou leitor de Anaïs Nin e Henry Miller. Fui formado na escola do erotismo. Agora, o problema é transformar isso numa mercadoria de mau gosto, como é o BBB. Hoje em dia, tem gente que até vota pras meninas saírem mais rápido da casa, nos tais dos paredões, pra posarem no “Paparazzo”, na “Playboy”, “Sexy” etc… Isso eu tô falando porque ouço caras dizendo: “Vou votar em fulana, porque tô louco pra vê-la no ‘Paparazzo’”… Incentivando uma coisa que eu chamo de “erotismo de açougue”. Como se o erotismo fosse essa coisa de baixo calão que é pregada no BBB…

O Juquinha precisa saber

Mas, voltando à questão da localização dos sujeitos históricos, eu só vou morrer feliz quando Juquinha chegar na escola, abrir seu livro e estudar sobre João Cândido (o almirante negro, líder da Revolta da Chibata). Apolônio de Carvalho, Joaquim Câmara Ferreira (Comandante “Toledo” da ALN)… Agora na posse da companheira Dilma eu fiquei horrorizado, mais uma vez, porque me horrorizo a cada 3 segundos nesse país… É que deram o número total de presidentes… E eu pensei: não eram todos presidentes. Como podem até hoje chamar os caras que tomaram o poder pelas armas de presidentes? (“É tradição”, comentou um dos presentes) E eles ainda tentaram colocar nas costas da esquerda brasileira um rompimento com a democracia… Que é que é isso? Quem rompeu com a democracia nesse país?

Ana Helena: Como você vê a atuação da mídia nesse processo?
Carlos Eugênio: Bom, a Folha de S. Paulo emprestava os carros da redação pra transportar companheiros presos e torturados. E ainda ajudava a montar emboscadas. Porque alguns companheiros, sob tortura, fraquejavam e diziam: “eu vou encontrar com fulano na rua tal”. (“Até pra tentar fugir”, comentou um dos presentes) Aí, eles usavam os carros da Folha pra que a gente não desconfiasse. A UltraGaz também fazia isso com seus caminhões. “O Globo” e o “Estadão” pediam o golpe em seus editoriais. É impressionante como essas pessoas não foram presas na época… Porque você tá num país democrático, a pessoa chega e diz claramente: “precisamos derrubar esse governo”… Isso é sedição (levante, motim). Eles é que praticaram isso. Então, essa mídia foi construída assim. Ela já era uma mídia de classe, concentrada. A gente sabe que 5 ou 6 famílias dominam a grande mídia. Mas agora, felizmente, a coisa já tá se abrindo pra uma mídia alternativa, que já tá sendo uma outra história. A gente já tá vendo lá no fundo uma certa luz, porque tem um monte de gente que tá trabalhando, batalhando, pra construção dessa nova mídia e lutando, inclusive, pra democratização das informações e das comunicações. São duas coisas diferentes, né, informação e comunicação. E a gente tem que lutar pela democratização das duas.

Na ponta do fuzil e nas antenas de TV

Por exemplo, quando saiu o PNDH-3, essa mídia oficial todinha meteu o pau. Por quê? Porque eles estão defendendo os interesses deles. Mao Tsé-Tung dizia que “o poder está na ponta do fuzil”. Pois é, hoje o poder está na ponta do fuzil e nas antenas de TV. (um dos presentes lembrou o caso Proconsult, em que a Globo tentou fraudar a eleição de Brizola para o governo do RJ).

Ana Helena: Qual sua expectativa com relação ao papel da Dilma, uma ex-torturada, nessa questão?

Carlos Eugênio: Eu acho que são passos adiante. Por exemplo, o governo Lula. Foi o governo dos meus sonhos? Não. Mas foi um passo adiante? Foi. Um tremendo! Por que não foi o governo dos meus sonhos? Porque foi um governo que, ao mesmo tempo que… Sabe o que é? Vamos falar informalmente… Eu não mudo pra incluir ninguém no mercado. A minha luta não é pra isso. É pra acabar com mais-valia, com a exploração do homem pelo homem. Então, é uma luta muito mais profunda, mas que tá muito mais lá na frente… Aí, quando dizem o seguinte: “15% dos miseráveis passaram a ser pobres, 32% dos pobres passaram a ser classe média, tantos % passaram a ser ricos…” Isso, pra mim, só é passo adiante porque, se você tem um homem que tá passando fome, é importante que ele passe a comer. Porque, se ele não passar a comer, ele entra num estado de degenerescência humana e que se transforma em degenerescência social. (“Não podemos deixar ninguém morrer de fome na sociedade”, diz um dos presentes) Porque nós somos humanistas e queremos que todo mundo coma.

O governo Lula: um passo adiante

Então, são passos adiante por isso. Agora, o governo Lula deu esse passo à frente, mas os bancos nunca ganharam tanto… Outro dia, em Janeiro, eu fui a São Paulo, e participei de uma discussão em que alguns companheiros afirmaram: “O governo Lula diminuiu as desigualdades”. E eu disse: Não! Se você me falar que o governo Lula distribuiu renda, distribuiu. Mas aumentou a renda debaixo, deixando que a de cima aumentasse também. Então, a desigualdade continuou a mesma. Só que todo mundo subiu um pouco, não é isso? Mas pra que você acabe com a exploração do homem pelo homem ainda há muito a fazer. E se você me perguntar: “será que 2, 3, 4 governos desse tipo não vão no levar à democracia que você quer?” E eu vou dizer: Não! Ainda vai faltar outro estágio, que é mudar a estrutura das relações dos meios de produção no nosso país. Aí a gente vai chegar num Brasil fraterno em que ninguém explora ninguém, todo mundo respeita a opinião de todo mundo.

A fraternidade: o diferente não é o inferno

Porque cadê a fraternidade? É simplesmente uma campanha da CNBB uma vez por ano? É doar um quilo de alimento não perecível? Isso é caridade! Cristã. Fraternidade é você encarar que o seu diferente não é o seu inferno. Sartre é que dizia isso: “o inferno são os outros”. Quer dizer, tudo que não sou eu é o inferno pra mim. Então, temos que conseguir que o ser humano, especificamente o brasileiro, encare o seu diferente como seu igual. Falta muito? Falta! Mas são passos adiante…

Dilma: duas questões a atacar

A Dilma? A gente sabe que, no atual sistema, pra governar você precisa de maiorias e de um monte de coisas, senão você faz um governo horroroso que não anda pra lugar nenhum. Então, ela, na verdade, vai tentar, e espero que consiga, gerenciar da melhor maneira possível dentro do capitalismo brasileiro. Agora, espero que ela dê mais passos à frente com relação ao governo Lula. E duas das questões que eu acho que ela pode atacar são: 1- essa da Comissão Nacional da Verdade; 2- a democratização da informação, porque aí essa mídia, que só fala segundo seus interesses de classe, vai ter menos poder do que ela tem hoje (um dos presentes lembrou sobre a importância dos Pontos de Cultura e do Fórum Nacional de Banda Larga).

As imagens não mentem e são a prova de que os
“democratas” se atraem… E mais do que isso:
gostam de andar de braços dados!
Democracia post-mortem

Você veja o que é o conceito de “democracia”… Quando morreu o Frias pai, saiu em todos os órgãos de imprensa que morreu um democrata. Quando morreu o Roberto Marinho, também disseram que morreu um democrata. E as pessoas dos governos de centro-esquerda têm comparecido aos enterros… (vide Lula e Brizola que foram ao enterro do “Dr. Roberto”)

(“As pessoas, na política, não são pessoas, elas são o que elas representam e são um conjunto de forças em movimento… então, um presidente da República tem que administrar as pressões dentro do governo… e cada um faz isso de uma maneira… então, não se pode julgar ninguém como pessoa”, resumiu um dos presentes).

———- // ———-

Os outros ex-guerrilheiros presentes eram:

Affonso Henriques, ex-PCBR (Partido Comunista Brasileiro Revolucionário)
Colombo Vieira, ex-ALN
Paulo Gomes, ex-ALN
Pedro Alves, ex-MR-8 (Movimento Revolucionário 8 de Outubro)

16.3.11

Saúde tem preço

Saúde tem preço
O preço da lágrima
A lágrima que não vale
O preço da dor

Saúde tem preço
O preço da fila
A fila que espera
O consolo que não vem

Saúde tem preço
Do recomeço distante
Da distante saída
De uma porta fechada

Saúde tem preço
Do remédio negado
Do imposto jogado
Nas mãos da corrupção

Saúde tem preço
Tanto aqui como lá
Porque eles, um dia
Pagarão algum preço

16 de Março de 2011,

Ana Helena Tavares

Para entender o porquê do poema, clique aqui. Nada mudou.

criado por Ana Helena Tavares    00:53:15 — Arquivado em: Brincando com os versos, Todos os poemas — Tags:

25.2.11

Sem oposição, sem remédio

Eles dão as mãos e o povo fica a ver navios
Quando o governador e o prefeito eram outros, e faziam oposição entre si, as coisas funcionavam. A partir do momento em que o Palácio Laranjeiras se aliou à Prefeitura do Rio, tudo desandou.
Por Ana Helena Tavares (*)
Anteontem, quarta-feira, 23 de Fevereiro de 2011, acompanhei minha mãe à Defensoria Pública para entregar um documento que comprova que os postos de distribuição alegam não ter o medicamento Anastrozol, que deveria ser fornecido gratuitamente a ela e a outras pessoas para o tratamento do câncer de mama. Chegando lá, me deparei com o sofrimento de muitos outros cidadãos que têm seus direitos essenciais negados por razões das mais diversas.
Só para fazermos a entrega do tal documento, tivemos que esperar mais de duas horas. Imaginem casos mais complicados, como as varas de família – maioria lá. O povo mofa esperando e muitos passam mal, pois chegam lá cedo, não conseguem fazer refeições adequadas e ainda se desidratam com o forte calor.
Sérgio Cabral, governador do Rio de Janeiro, e Eduardo Paes, prefeito da capital, são mais odiados por aquelas pessoas do que Judas em quarta-feira de cinzas. Mas todos lá estão tão desiludidos que acabam incluindo as três esferas no mesmo saco.
Uma senhora, chamada Arlete Colis, me contou em detalhes sua triste história de luta por seus direitos. Clique aqui para ouvir o indignado desabafo dela.
Aposentada por invalidez, necessita de dois medicamentos básicos. Nenhum deles, nem mesmo o mais barato, ela consegue receber gratuitamente. Chegou a contar que, certa vez, lhe indicaram que ela fosse a uma favela, onde haveria um local em que ela conseguiria seus remédios. Ela foi, sofreu um assalto na porta e não conseguiu o que buscava.
Cobrou “solução pra ontem e vergonha na cara”, em especial do “Seu” Sérgio Cabral. Falava dele com tal raiva que apontava para o gravador como que querendo que ele estivesse em sua frente. Sorte dele que não estava, porque, certamente, levaria umas boas bolsadas e não seria só dela. Logo ele que fez fama por “defender” os idosos…
Com toda a razão, Colis reclamou do atendimento na Defensoria.
Estagiários atolados de serviço e completamente tontos em meio a tanta gente, chegam à beira do desespero e não dão conta de toda a demanda. Além disso, a maioria das pessoas é atendida em pé, no próprio salão. Os estagiários escrevem com uma prancheta na mão e, desta maneira, os problemas de cada um ficam expostos para todos. Os defensores, ditos públicos, ficam confortavelmente instalados em seus gabinetes privados e, como pude comprovar, os cidadãos que eles defendem não sabem nem o nome deles.No que diz respeito à área de saúde, o Município e o Estado recebem verba do Governo Federal para comprar remédios como o de minha mãe e muitos outros, desde hipertensão à diabetes. Tais medicamentos devem ser repassados gratuitamente a quem necessita. No caso de minha mãe, como não está havendo o repasse, a verba destinada à compra do remédio deverá ser cortada e o dinheiro entregue diretamente a ela.
Segundo um homem, que não quis se identificar, quando o governador e o prefeito eram outros, e faziam oposição entre si, as coisas funcionavam. A partir do momento em que o Palácio Laranjeiras se aliou à Prefeitura do Rio, tudo desandou.
Tem lógica. Não que os governantes anteriores fossem melhores – não eram –, mas é óbvio que, quando as esferas municipal, estadual e também a federal não trocavam sorrisos mútuos, se uma pisasse na bola e não distribuísse um determinado remédio, a outra tratava de fazê-lo para mostrar serviço.
Vai daí que é sempre sadio haver oposição organizada, pois evita acomodamentos. Não tê-la não é saudável em lugar nenhum do mundo, como provam os países árabes que padecem da falta dela.
*Ana Helena Tavares, jornalista, escritora e poeta eternamente aprendiz.
Outros locais onde esta matéria está:

20.2.11

Um mundo em rota de colisão com a liberdade

Voar é ser livre? Foto tirada da janela de uma barca com a câmera do celular (Ana Helena Tavares)

Voar é ser livre? Foto tirada da janela de uma barca com a câmera do celular (Ana Helena Tavares)

Um mundo em rota de colisão com a liberdade

Por Ana Helena Tavares* em 20 de Fevereiro de 2011

Rui Barbosa dizia que “um povo cuja fé se petrificou é um povo cuja liberdade se perdeu”. Substituamos o conceito de fé pelo de esperança…

Hoje, quando caminho pelas ruas das grandes cidades, vejo que o bicho homem deixou sua esperança se petrificar e vive preso dentro de sua própria casa. Seja por opção, seja por medo. Pra quê se a vida, por si só, é perigosa? Como viver, em plenitude, sem a coragem que nos cobrava Guimarães Rosa?

Antigamente, costumava haver placas nas portas com a inscrição: “bem-vindo”. Agora há placas, espalhadas ao longo de arames eletrizados, onde se lê “perigo”… Foi pra isso que a humanidade “evoluiu”?

E como o passarinho pousará no telhado? E como o vizinho se aventurará a pedir açúcar? E como as crianças terão um sorriso doce?

Por que o trauma tem que vencer a vida? Por que o medo tem que esconder os rostos? Por que o luto tem que tolher a paz?

O mundo árabe vive uma fase de luta por direitos essenciais, o maior deles: a liberdade. Mas, ao redor do planeta, essa palavra – esse conceito, essa utopia – ainda é o objeto de desejo mais caro e mais mal usado.

Tão logo se chega “lá”, tão logo se lambuza com o novo “brinquedo”, de tal forma que ele fica fora de controle. De tal forma que o desejo saciado desorienta.

A pergunta é: será que o homem quer a liberdade? Hoje, há empresas, como a “Ten” da Inglaterra, que oferecem um serviço chamado “Gestão de estilo de vida”. Milhares de pessoas, “sem tempo”, afundadas nos incontáveis afazeres inúteis que a pós-modernidade criou, pagam rios de dinheiro para os funcionários destas empresas, em ritmo de robôs, fazerem por elas desde coisas triviais, como escolher pãezinhos na padaria, a decisões de vida, como para qual cidade se mudar.

Liberdade não combina com comodismo e, neste sentido, a tecnologia caminha em rota de colisão com a musa de Castro Alves.

A internet que liberta, que dá asas à imaginação, que organiza revoluções, é a mesma que escraviza, que paralisa o corpo e, de forma paradoxal, também a mente. É, em número cada vez mais crescente de casos, uma prisão que atinge muito mais gente e poderá ter conseqüências bem mais profundas do que as senzalas que causavam horror ao “cantor dos escravos”.

No século XIX, as correntes eram símbolo de escravidão. No século XXI, são as redes. Ditas “sociais”, são, sim, muito benéficas, permitindo a interação entre pessoas do mundo inteiro. Mas viciam e proporcionam a ilusão de que, através dali, é possível saber de tudo, fazer tudo.

No entanto, o canto do passarinho jamais será o mesmo ouvido através de uma tela. E o que dizer das “fazendas” virtuais, com vacas que dão um leite que ninguém bebe e com uma grama que ninguém pisa?

O bicho homem, desorientado pelo próprio livre-arbítrio, foge da violência urbana e acaba se matando lentamente, em doses homeopáticas. Um tiro no peito é mais indolor.

Mas, para que Rui Barbosa não ache que também eu perdi a fé, vale registrar que, talvez, a esperança esteja na juventude que, nascida no computador, e cheia dele, poderá se interessar em reinventar a vida.

*Ana Helena Tavares, jornalista, escritora e poeta eternamente aprendiz.

criado por Ana Helena Tavares    20:53:03 — Arquivado em: Crônicas, Os dias lindos*

10.2.11

O gosto do difícil

Por Ana Helena Tavares

Eu devia estar triste
Porque não tenho emprego
Sou a dita cidadã contestadora
E só ganho a satisfação de ser do contra

Eu devia reclamar com Deus
Por ser tão difícil o sucesso
Na vida como honesta

Eu devia estar fervendo
Porque comprei um ventilador made in China
Que ainda por cima deu defeito

Eu devia estar abatida e revoltada
Por morar longe da praia
Sem ter o mar por perto
Pra me consolar

Eu devia estar chorando e cabisbaixa
Por tudo o que muitos chamam de derrota
Mas eu acho isso uma grande mentira
Que só parte de invejosos

Eu devia estar triste
Por não ter ainda tudo o que quero
Mas confesso embasbacada
Que estou esperançosa

Com fé e humildade
Ando por aí pegando vento no rosto
Porque se é tão difícil chegar lá
A vitória terá mais gosto.

10 de fevereiro de 2011,

Ana Helena Tavares

=> Livremente inspirado na música “Ouro de tolo“, de Raul Seixas

criado por Ana Helena Tavares    18:02:15 — Arquivado em: Brincando com os versos, Paródias poéticas

5.2.11

Dialogando por querer

Renato Russo (1960-1996) e Leila Pinheiro em foto de 1988, quando ela mostrou ao roqueiro a versão que fizera para Tempo perdido (foto/Ana Regina Nogueira)

Renato Russo e Leila Pinheiro em foto de 1988, quando ela mostrou ao roqueiro a versão que fizera para Tempo perdido (Foto: Ana Regina Nogueira)

Diálogo com a poesia do “Legião Urbana” (itálico e aspas nos trechos referentes à letra da música “Quase sem querer”, intercalada com trechos meus em negrito)

Por Ana Helena Tavares em 04 de Fevereiro de 2011

“Tenho andado distraído,
Impaciente e indeciso
E ainda estou confuso…”

Que tal o mar pra voar?

O céu pra ser um peixe?

A fome pra ter sede?


“Só que agora é diferente:
Estou tão tranqüilo e tão contente.”

Já achou o pássaro que da água brota?

A impossível prova na escuridão?

“Quantas chances desperdicei,
Quando o que eu mais queria
Era provar pra todo o mundo
Que eu não precisava
Provar nada pra ninguém”

Quantas chances eu ganhei

Quando o que em mim sorria

Era um doar no mais profundo

Um doar que se alastrava

Num eterno vai e vem


“Como um anjo caído
Fiz questão de esquecer
Que mentir pra si mesmo
É sempre a pior mentira”

Verdade. Ou seria mentira?

Verdade. É como conter a ferida.

É ser o que controla.

É não brincar com o próprio ser.


“Mas não sou mais
Tão criança a ponto de saber tudo.

Já não me preocupo se eu não sei por que.
Às vezes, o que eu vejo, quase ninguém vê.”

Vejo um caminho

Sem fim nem início

Vejo a vida

Sem vício

Talvez sejam olhos

De criança intrusa

Que, ansiosa,

Se lambuza.

“Tão correto e tão bonito;
O infinito é realmente
Um dos deuses mais lindos!”

Tão honesta, tão sensata

A certeza é realmente

Um dos diabos

Mais feios.


“Sei que, às vezes, uso
Palavras repetidas,
Mas quais são as palavras
Que nunca são ditas?”

Sei que tantas vezes

Cometo muitos erros

Mas quem se leva a sério

Rodeia-se por medos.

04 de fevereiro de 2011,

Ana Helena Tavares

criado por Ana Helena Tavares    11:51:15 — Arquivado em: Diálogos, Diálogos poéticos

18.1.11

Cel. Cerqueira: um homem que tinha um sonho

Ana Helena Tavares

Da esquerda para a direita: Prof. Hélio Alonso, Prof. Oswaldo Munteal e Prof.ª Ana Beatriz Leal. Foto: Ana Helena Tavares

Um homem cidadão não é uma redundância, como certamente idealizava o Cel. Cerqueira e outro famoso sonhador negro, mas pessoas como eles são a prova de que também não é uma contradição.

Por Ana Helena Tavares, em 18 de Janeiro de 2011

O sonho de um ser humano cidadão. Foi exatamente com esta ânsia que fiquei após sair nesta segunda-feira à noite da OAB-RJ, onde fui para a conferência de lançamento do livro “O sonho de uma polícia cidadã”, que homenageia o Coronel Carlos Magno Nazareth Cerqueira, assassinado no saguão do Edifício Magnus, no Centro do Rio, em 1999, quando tinha 59 anos. Morto com um tiro vingativo disparado pelo Sargento Sydney Rodrigues, sua morte revelou o drama de um conflito de mentalidades: a polícia com que Cerqueira sonhava era outra.

O livro, distribuído gratuitamente durante o evento, traz textos inéditos, e com uma atualidade impressionante, o que deixa claro o caráter visionário do Cel. Cerqueira, que, em 1975, já sonhava com idéias que só hoje estão em voga. É aí que se faz notar a importância dele não só para a polícia, mas também para os gestores públicos. Quando se fala hoje em UPP e em diversos projetos que estão acontecendo no Brasil, como o PRONACI (Programa Nacional de Segurança Pública com Cidadania), há que se lembrar que isso tudo é pensamento dele.

Os textos foram cedidos pelo Instituto Carioca de Criminologia e organizados pelos pesquisadores Oswaldo Munteal, professor da UERJ e da FACHA; Ana Beatriz Leal, Coordenadora do Núcleo de Assuntos Estratégicos da Polícia Civil do Estado do Rio de Janeiro; e Cel. Íbis Silva Pereira, Comandante do Batalhão de Petrópolis. Este último não pôde comparecer devido à sobrecarga de serviço causada pela tragédia que matou centenas de pessoas na região serrana do RJ.

A idéia de registrar o pensamento do Cel. Cerqueira nasceu do livro sobre os 200 anos da Polícia Militar, como me explicou a Prof.ª Ana Beatriz Leal:

– Eu estava trabalhando na PMERJ, em desenvolvimento de projetos, e estávamos produzindo o livro sobre os 200 anos da Polícia Militar. Foi aí que a gente viu que tinha que apresentar um exemplo. Porque uma coisa é falar da história da corporação, outra é você ter um tema atual e trabalhar ele. O Coronel Cerqueira surgiu naturalmente, porque ele foi o precursor de Direitos Humanos na polícia, um grande intelectual. Foi Comandante Geral duas vezes durante o governo Brizola. Logo após a ditadura militar, era visto como um revolucionário. Imagina, ele falava que os quartéis tinham que ser abertos pra sociedade e ninguém o entendia. Claro que isso era visto como loucura. Para mim, foi o maior intelectual de teoria de polícia do Brasil. Não superado até hoje. Só que, como negro, talvez ele não tenha tido tanta voz na academia, onde não é muito pesquisado -, disse a professora.

Tendo sido o primeiro Comandante Geral negro na história da Polícia Militar, o Cel. Cerqueira escreveu muito sobre a questão da inclusão dos negros na sociedade:

– É um marco e um exemplo para a tropa. Ele é, por uns, adorado; por outros, incompreendido -, completou Ana Beatriz.

“Foi uma queda de braço muito dura”, como me definiu o prof. Oswaldo Munteal, também organizador do livro:

– Interessante que, dentro dos 200 anos da Polícia Militar (1809/2009) apareceu um foco novo que é o dos direitos humanos, como pauta, como agenda da polícia. A PMERJ, através do Coronel Cerqueira, apresentou pela 1ª vez essa novidade: a presença do embate político pelos direitos humanos. De dentro de uma corporação monolítica, extremamente blindada, aparece um quadro que modifica totalmente o cenário. Esse aspecto eu acho muito rico -, disse o professor.

Munteal me falou também sobre os apoios recebidos e o funcionamento da pesquisa, que durou dois anos:

– Acho importante ressaltar que nós fomos apoiados pela Petrobras e pelo Ministério da Cultura, tanto que temos hoje aqui um representante da ministra Ana de Hollanda. E outra coisa muito importante de ser dita: nós não tivemos nenhum tipo de dificuldade de acesso aos arquivos da polícia. Isso, pra mim, foi um ponto exemplar. Muita gente fantasia sobre se houve censura. Não. A polícia não blindou, não vetou nenhum documento. Não houve nenhuma aresta nesse sentido. Tivemos oito assistentes de pesquisa, todos da FACHA. E pesquisadores da UERJ e da PUC. Então, foi um trabalho que me deu a felicidade de integrar várias instituições -, afirmou.

Perguntei-lhe ainda sobre como via a PM hoje em dia e ouvi duras críticas a filmes como “Tropa de Elite”:

– É curioso, porque eu vejo a polícia muito mais interessada em discutir o tema da paz do que propriamente o que é apresentado em filmes como “Tropa de Elite”, onde, a meu ver, há uma inversão. Eu vejo isso talvez com excesso de otimismo, mas eu vejo a polícia mais voltada pro cenário da paz do que da guerra. Ou seja, enquanto está se discutindo UPP, o que se vê no filme é o inverso disso. Acredito ser um desserviço à sociedade. É um ponto fora da curva. É outro sinal, que, ao invés de dar ênfase à paz, dá à guerra. Faz muito mal à cidadania, porque eles não estão contando a verdade – há muito mais fantasia do que realidade ali. Há do meu ponto de vista, uma apologia da violência. E a pesquisa me ajudou muito a ver esse ângulo. Digo isso porque um pesquisador, tendo acesso a várias fontes, terá simpatia ou não por determinados objetos. Não existe uma visão sem pré-noções. Quem acha que isso é possível, não faz história. A gente sempre leva uma carga de opinião. E nós tivemos uma empatia com o Coronel Cerqueira -, concluiu Munteal.

Também estava presente ao evento o Prof. Hélio Alonso, fundador e dono da faculdade que leva seu nome. O Cel. Cerqueira foi seu aluno, como ele me contou orgulhoso:

– Falar sobre o Coronel Cerqueira pra mim é sempre agradável. Embora eu tenha tido pouco contato com ele, deu para fazer um juízo dele. O 1º contato que tivemos foi num evento numa associação de chineses. Eu estava conversando com um tenente, quando chegou o Coronel Cerqueira, que era o Comandante da PMERJ. O tenente disse que iria cumprimentar o Coronel e eu disse: “Ah, me apresenta ele. Eu gostaria de conhecê-lo”. Porque eu já vinha acompanhando o trabalho dele há muito tempo. Isso foi na década de 90, pouco tempo antes de ele morrer. Eu o disse que era uma honra muito grande conhecê-lo, no que ele respondeu: “Pra mim, é uma honra muito maior, porque venho acompanhando o seu trabalho há mais tempo. Eu fui seu aluno num curso pré-vestibular no Méier”. Mais tarde, eu assisti a uma palestra dele no Conselho de Turismo da Confederação Nacional do Comércio, onde sou conselheiro lá. Foi uma palestra maravilhosa, onde eu vi que ele tinha um conhecimento muito grande de coisas fora da polícia. Foi mais um momento agradável que tive com ele. Depois eu me afastei um pouco. Estava viajando quando ele morreu e só soube depois. Realmente, era uma pessoa de um vasto conhecimento, incomum a um militar. Perceba: não é que seja estranho, mas não é comum. Ele tinha uma visão humanística muito grande. Então, esse livro e toda essa homenagem só vêm fazer justiça.

A Polícia Militar também marcou presença. Um jovem policial negro foi o mestre de cerimônias. Tive oportunidade de conversar com o Coronel Antonio Carlos Carballo Blanco, Comandante da Escola Superior da PMERJ, visivelmente emocionado por ter convivido de perto com o Cel. Cerqueira:

– O livro representa um justo reconhecimento pelo homem e pelo profissional. Ele foi um divisor de águas. Há o antes e o depois dele. Será pra mim um eterno ídolo, que me abriu horizontes –, disse Carballo Blanco.

A cerimônia foi concorrida, auditório cheio e mesa de honra lotada, contando com nove nomes do mais alto gabarito. Dentre eles, além dos já citados, estava ainda o prof. Adair Rocha, que assina a apresentação do livro e foi professor de Munteal. Rocha definiu o título da obra como “contraditório” aos olhos de parte da sociedade, que crê que polícia não é para ser cidadã.

Um homem cidadão não é uma redundância, como certamente idealizava o Cel. Cerqueira e outro famoso sonhador negro, mas pessoas como eles são a prova de que também não é uma contradição.

Ana Helena Tavares é jornalista, escritora e poeta eternamente aprendiz.

criado por Ana Helena Tavares    22:39:45 — Arquivado em: Jornalista é contador de Histórias!, Reportagens — Tags:

16.1.11

São Pedro jura inocência (uma carta do céu)

Ana Helena Tavares

Foto: Ana Helena Tavares

Há momentos em que tudo parece estar perdido, mas pensem que a derrota é uma ilusão.

Sejam solidários, porque, se todos forem solitários, esse mundo aí… Sei não…

Por Ana Helena Tavares em 16 de Janeiro de 2011

Estou no céu já há muitos anos. Percebo que aí na Terra o clima anda muito esquisito, mas São Pedro jura inocência. Corre um boato de que o filho do patrão tá pensando em voltar para ver se lhes ensina a ter com a natureza mais sapiência.

É que esse descaso tem efeito dominó. Basta ver que, do jeito que tem morrido gente em desastres ambientais, está tendo que ser ampliado drasticamente o estoque de algodão, para almofadar as nuvens, pois é nelas que dormimos. Depois as chuvas aumentam e não venham culpá-las. Até rimos.

Soube que nas cidades de Pedro e de Teresa, e também no “burgo livre”, tem chovido muito, e a serra foi duramente visitada pela morte. Nessa hora, observo os governantes se mobilizando. Só nessa hora, por má sorte.

Aqui no céu todos falamos com a cara limpa, sem hipocrisias. É que, tão logo chegamos aqui, perdemos o dom humano de mentir, esse vício. Por isso, não conseguimos montar nenhum showmício.

Aqui no céu temos o tão falado livre-arbítrio. A camisinha sempre foi liberada pela chefia. Ele sabe que não precisamos dela. Há um pessoal da antiga que até desfila por aqui com seus charutões. Não há problema: já não temos mais pulmões.

E nada de Lei Seca por aqui. Não se espantem: nosso forte é o vinho. Há até cassino. Só para passarmos o tempo. Dinheiro nos vale menos que o vento.

Ah, sim… as crianças… Todas ganham asas na chegada. Não ficam sempre aqui e têm seus mini-tronos. São elas os famosos “anjos da guarda”, que embalam os bons sonos.

Sou tímido, hein, não quero que estas minhas confidências vão parar no Facebook. Eu até pensei em ir aí… O problema é que a autorização é difícil e olha o susto que eu ia dar? Mas, do jeito que esse mundo anda do avesso, eu tinha que lhes alertar.

Na Casa Branca, devassada por um australiano, andam pedindo orações por uma deputada baleada no Arizona. Abram o olho… Ali é que é a zona.

Há momentos em que tudo parece estar perdido, mas pensem que a derrota é uma ilusão. Sejam solidários, porque, se todos forem solitários, esse mundo aí… Sei não…

Ana Helena Tavares, jornalista, escritora e poeta eternamente aprendiz.

criado por Ana Helena Tavares    19:03:44 — Arquivado em: Algum lugar entre a prosa e a poesia, Crônicas, Os dias lindos* — Tags:

6.1.11

Teu sorriso largo

Para o meu avô, Antonio Ribeiro, in memorian. Onde quer que você esteja, vô, estou certa de que está junto aos olhos castanhos de minha avó.

Teu sorriso largo
Sem valor nem encargo
É colírio pra mim
Sem chão sem teto
É cheio de afeto
É o meu quindim

Teu sorriso sincero
É tudo o que quero
É o meu troféu
Teu sorriso largo
Sem valor nem encargo
É meu pedaço de céu

Sorrisos falsos são facada
A mim não servem de nada
Sorrisos fracos não têm lume
Nem justificam um ciúme

Sorriso fechado é tapa na cara
De quem não quer ser feliz
Sorriso de beleza rara
Só o teu, meu chafariz.

06 de Janeiro de 2011,
Ana Helena Ribeiro Tavares

=> Livremente inspirado no fado “Foi Deus“, de Francisco José

criado por Ana Helena Tavares    20:52:00 — Arquivado em: Brincando com os versos, Todos os poemas

4.1.11

Versos em safra

Estafa…

De ver o que já foi visto

De sentir um imprevisto

Ops, será que arrisco?

Então… Nem pisco!

É safra…

De colher o que não plantou

De sofrer o que não calou

De viver o que não sobrou

De só ser o que não mudou

É garra…

De lutar por todo o grão

De mirar o gavião

De amar com paixão

De juntar mão com mão.

É farra…

Da cor que se mistura

Da dor que vence a surra

Da flor que se aventura

Do amor que é loucura.

04 de Janeiro de 2011,

Ana Helena Tavares

criado por Ana Helena Tavares    21:36:54 — Arquivado em: Brincando com os versos, Todos os poemas

3.1.11

Versificando ao vento

Vontade de mergulhar na chuva
Flutuar como gota
Cristalina e turva
Uma sanidade louca

Vontade de abrir o berreiro
Fechar-me em lembranças
De um pedaço de Janeiro
De quando eu era criança

Era, sou ou sempre serei?
O sol que atrás das nuvens surpreende
É como o riso que escapa sem lei
Revelando a infância eternamente

Mas adultos? São contraditórios
Dormem

Prefiro versificar
Ao vento
Ao relento
Prefiro amar
Sem tempo
A contento

02 de Janeiro de 2011,
Ana Helena Tavares

criado por Ana Helena Tavares    15:42:04 — Arquivado em: Brincando com os versos, Todos os poemas

22.12.10

“Condenação da OEA é o cumpra-se”, diz Pressburger

Margarida Pressburger em sua sala na OAB-RJ
Margarida Pressburger em sua sala na OAB-RJ
Por Ana Helena Tavares (*)

Quem chega à sala da Comissão de Direitos Humanos da OAB - Rio é recebido por uma senhora que esbanja vigor e simpatia. A jurista Margarida Pressburger, além de ser a atual presidente da Comissão, foi também sua fundadora, em 1981. Entre 1992 e 1995 manteve programa na rádio Tupi sobre os direitos das mulheres. Em 2005 trabalhou na Fundação São Martinho, que atende crianças em situação de rua. E, recentemente, em 28 de Outubro de 2010, foi escolhida para integrar o Subcomitê de Prevenção à Tortura do Alto Comissariado de Direitos Humanos da ONU. O mandato é de dois anos e pela primeira vez o Brasil faz parte do Subcomitê, que é composto por 25 pessoas de todo o mundo, imbuídas da missão de periciar locais de privação de liberdade para verificar denúncias de tortura e maus tratos.

Foi com a Dra. Pressburger que conversei na última sexta-feira, dia 17 de Dezembro de 2010, sobre a recente decisão da Corte Interamericana de Direitos Humanos da OEA de que o Brasil deve investigar e punir os crimes cometidos durante a Guerrilha do Araguaia. A sentença, segundo ela, não deixa margem à dúvida: “traz páginas muito bem fundamentadas e representa uma condenação não só ao STF, pelo esdrúxulo entendimento de que a Lei de Anistia abrange os torturadores, como também à PGR (Procuradoria Geral da República), por sua postura passiva, ao exército brasileiro, claro, e conseqüentemente condena o Brasil inteiro”.

Alô, mídia, cadê você?

Pressburger demonstrou imenso estranhamento com relação à cobertura da mídia sobre esta condenação: “Ninguém noticiou praticamente nada com o devido destaque. Até jornais que normalmente dariam algo falaram muito pouco ou se omitiram.”

A bobagem de Nelson Jobim

“O jornal O Globo deu lá umas poucas linhas”, afirmou. E lamentou a declaração dada ao Globo pelo Ministro da Defesa Nelson Jobim, que disse que o Brasil não é obrigado a obedecer à sentença da OEA: “Tudo o que se ouviu falar foi essa bobagem do Jobim. Totalmente equivocado. Evidente que o Brasil é obrigado, sim. Senão nem faria sentido ficarmos recorrendo às cortes internacionais.”

Ganho de causa

No caso, as famílias dos mortos no Araguaia recorreram, através de processo que se arrasta dede de 1982, e, quase três décadas depois, estão tendo ganho de causa.
Não cabem mais questionamentos

Dada a morosidade da justiça brasileira, essa condenação certamente ainda vai passar por várias instâncias até voltar ao STF, mas Pressburger frisou: “a este não caberá mais questionar. O entendimento atual vai frontalmente contra a convenção da Corte Interamericana de Direitos Humanos, convenção da qual o governo brasileiro é signatário. Ou seja, não há mais o que discutir. É o ‘cumpra-se’”.

De Nuremberg ao MST

Citou o Tribunal de Nuremberg, quando os nazistas foram julgados, como o mais importante caso da atuação de uma jurisdição internacional e recordou que a Corte Interamericana já atuou no Brasil, responsabilizando o Estado por grampos telefônicos feitos por policiais militares para escutar ilegalmente conversas entre integrantes do MST. Isso porque o crime foi cometido por servidores públicos, agentes do Estado, tal como eram os torturadores durante a ditadura. O caso ocorreu em 1999, no Paraná, e a sentença saiu ano passado levando ao julgamento dos acusados.
Uma nova etapa

Para ela, agora começa uma nova etapa, em que se terá que se pensar mais seriamente na abertura dos arquivos e também na punição aos torturadores: “Coisa que a América Latina praticamente todas já fez e ficou faltando o Brasil”, lembrou.
Um misto de decepção e esperança

Ao comentar que essa decisão da OEA relativa à ditadura era muito esperada e que foi muito festejada pelos militantes de direitos humanos, Pressburger exteriorizou certa decepção com o presidente Lula porque, segundo ela, “ele se esquivou e não tomou nenhuma decisão nesse sentido”. No entanto, disse que renova suas esperanças com a chegada de Dilma à presidência: “Espero que ela olhe por aqueles que ficaram no caminho. Aqueles que não tiveram a mesma ‘sorte’, dentro dos azares, claro. Digo de ser libertada e estar viva até hoje. O fato é que foi uma presa política, torturada, e acho que ela não vai deixar que essa história passe em branco”.

O tal do “revanchismo”

Nesse momento, a indaguei sobre se isto não poderia soar como “revanchismo”, termo controverso, no que ela respondeu: “Revanchismo seria sair por aí punindo todo mundo, sem querer saber se tiveram culpa ou não, porque naquela ocasião estavam do lado dos torturadores, então puna-se… Não é isso. Eu acho a abertura dos arquivos a coisa mais importante. Acho que o Brasil deve aos ex-presos e aos familiares dos mortos e, principalmente, dos desaparecidos, uma satisfação.”, resumiu.
A dolorosa espera de uma mãe

E revelou um caso que disse lhe ter sido muito marcante: “Há uns cinco anos, eu fui a uma reunião e conheci uma senhora que beirava seus 90 anos. Ela morava na periferia numa casa praticamente em ruínas, num local perigoso, que tinha sido dominado pelo tráfico. Ela tinha filhos e netos bem situados e que pretendiam que ela se mudasse pra um lugar melhor, mais confortável. E ela se negava a sair dali pela esperança de que um dos filhos, desaparecido no Araguaia, pudesse estar vivo ainda e voltasse pra casa. Se ela aceitasse se mudar, achava que ele iria perder as referências e  não iria mais encontrá-la”, contou.
O “Alemão” torturado

A situação da senhora citada é, sem dúvida, inimaginável para aqueles que não a vivem. E, como se não bastasse, sabemos que a prática de tortura ainda perdura no Brasil. “Impunidade gera impunidade”, martelou várias vezes a Dra. Pressburger. E como exemplo flagrante dessa permanência colocou a entrada da polícia no Complexo do Alemão, que definiu como tortura para os moradores: “Depois da invasão, agora os agressores são os policiais. Há relatos fidedignos de que assaltaram casas e bateram em inocentes. Isso reflete uma prática policialesca comum que vem de antes da ditadura militar. Ou das ditaduras.”

Dos índios aos negros

Então, perguntei-lhe o que ela queria dizer com “ditaduras”. “Eu incluiria Vargas, incluiria a opressão aos negros e aos índios.”, respondeu. E prosseguiu explicando que a prática de tortura tem raízes históricas antigas: “A brutalidade é algo que nasceu junto com o homem. Aqui no Brasil, isto se evidenciou mais com a exploração implacável dos portugueses sobre os índios, os quais, por serem frágeis, sem anticorpos, iam morrendo; e com a escravização dos negros que migraram da África, sendo espancados nos navios e aqui”.
Prática que não ocorre até hoje só no Brasil

Agora mesmo o George Bush lançou um livro de memórias em que faz apologia à tortura, dizendo que ele teria salvo a vida de um grande número de americanos se tivesse torturado, ainda mais, os prisioneiros de Guantánamo”, relatou Pressburger.

*Ana Helena Tavares é jornalista, escritora e poeta eternamente aprendiz. Editora-chefe do blog “Quem tem medo do Lula?” e repórter do jornal “Correio do Brasil”.

criado por Ana Helena Tavares    15:53:25 — Arquivado em: Jornalista é contador de Histórias! — Tags:,

21.12.10

“Devolvemos o debate político à juventude”, diz Lula no Rio

"Aqui no Brasil o Golpe de 64 tirou de algumas gerações o direito ao debate pol�tico. Hoje, devolvemos isso”, disse Lula.
“Aqui no Brasil o Golpe de 64 tirou de algumas gerações o direito ao debate político. Hoje, devolvemos isso”, disse Lula. Foto: Ana Helena Tavares.
Por Ana Helena Tavares (*)
Chico Buarque foi profético. Talvez nunca imaginasse que o seu grito “Apesar de você” serviria para embalar o evento de lançamento da pedra fundamental do novo prédio da UNE e da UBES, que será reerguido no mesmo local daquele que foi incendiado pela ditadura. O amanhã chegou à Praia do Flamengo – 132 nesta segunda-feira.
Aos gritos de “Lula: guerreiro do povo brasileiro!” e “Olê, olá, Lulá”, subiu ao palco o presidente da república que termina dois mandatos com o mais alto nível de popularidade já registrado. Com ele, compondo as diversas cadeiras distribuídas pelo tablado que foi montado para a ocasião, estavam: o prefeito da cidade do Rio de Janeiro, Eduardo Paes, o governador do estado, Sérgio Cabral, além de diversos ministros, senadores, deputados e líderes de movimentos sociais.
Niemeyer ao chegar ao evento. Foto: Ana Helena Tavares
Oscar Niemeyer, com sua centenária jovialidade, também ocupou uma das cadeiras. Niemeyer doou aos estudantes o seu talento com o lápis. Desenhou as retas e curvas do novo prédio, fazendo questão de não cobrar nada por isso. Sabe bem que a ditadura já havia cobrado um preço alto demais.
Preço que muitos dos presentes ali pagaram. E os ausentes, então, muitos destes pagaram com a vida. Logo no início da solenidade, foi passado um filme contando a história das duas entidades estudantis, onde apareceram diversas fotos de estudantes mortos ou desaparecidos durante a ditadura. A cada foto, uma calorosa salva de palmas. Com ênfase para Honestino Guimarães, ex-presidente da UNE, chamado pelo atual presidente, Augusto Chagas, de “desaparecido-símbolo”:
A UNE é Honestino e Honestino é a UNE, resumiu.
Chagas frisou “o direito legítimo de a UNE voltar à sua casa”, lembrando que o valor de 44 milhões de reais, trinta deles já depositados na conta da entidade, oferecido pelo governo brasileiro para a reconstrução do prédio foi aprovado por unanimidade pelos parlamentares. Agradeceu a Lula pelo “empenho na causa estudantil”, mas pediu-lhe licença para citar Itamar Franco, que, segundo ele, também se empenhou bastante nesta causa.
Irun Santana, fundador da UNE em 1937, estava na platéia, o que fez Chagas chamá-lo a levantar-se, comentando: “o nacionalismo, nossa marca, vem de nossa fundação”.
Dentre os ex-líderes estudantis presentes no palco, Chagas destacou Lindberg Farias, prefeito de Nova Iguaçu, e Orlando Silva, ministro dos esportes. Ambos beirando os 40 anos de idade, eles são representantes da geração da década de 90 que, segundo Chagas, ”simboliza a resistência ao neoliberalismo”. Aldo Rebelo, ministro-chefe da Secretaria de Coordenação Política e Relações Institucionais, não estava presente, mas também foi lembrado:
Ele era um de nós quando o antigo prédio foi derrubado, disse.
Augusto Chagas terminou seu discurso decretando: “A UNE é a entidade estudantil mais importante do planeta”.
Como o evento estava atrasado e Lula ainda teria dois compromissos em seguida – a entrega do prêmio “Brasil Olímpico”, no MAM (Museu de Arte Moderna), em que seria um dos premiados por sua contribuição aos esportes; e uma cerimônia no sambódromo, em que  receberia o diploma Cristo Redentor e o título de Benemérito do Rio de Janeiro – Cabral e Paes abriram mão de discursar. E Lula disse que seria breve – e foi.
Bem humorado, começou dizendo que “a UNE tem que tomar cuidado com a UBES, pois todo dirigente da UBES é um potencial dirigente da UNE, mas o contrário é mais difícil”.
Já sério, disse que, durante seu governo:
As entidades não tiveram um papel de complacência nem de subserviência. Não perderam sua identidade para apoiar o governo. O que acontece é que tivemos, enquanto governo, uma postura de provocar uma revolução na educação brasileira. Que está longe de terminar, mas que já começou.
Quando da criação do PROUNE, houve a acusação de que o governo estava capitulando diante da iniciativa privada, negociando a redução de impostos, quando, na verdade, estes impostos foram transformados em 750 mil vagas universitárias para jovens da periferia, oriundos de escolas públicas, 40% deles negros, detalhou.
E frisou que nunca tomou nenhuma decisão sem antes dialogar com “todo o movimento social, incluindo os estudantes, os trabalhadores, os sem-teto e as Margaridas” (em referência à Marcha homônima que, em 2007, parou Brasília, reunindo cerca de 50 mil trabalhadoras rurais vindas de todo o País).
Prosseguiu dizendo que uma das críticas que tinha à UNE era a de os estudantes reivindicarem ensino público gritando na porta de universidades públicas:
Era cômodo. Agora, pela primeira vez na história do Brasil, a UNE conquistou – não foi dádiva do governo – o direito de fazer discurso na rede privada de educação, garantiu o presidente.
Sobre o REUNE afirmou:
Muita gente não queria, porque nossa intenção era aumentar de 12 para 18 alunos em média por sala de aula. Disseram que a gente ia inchar as salas. Na verdade, era meia-dúzia de pequenos burgueses que não queriam que mais estudantes entrassem para a universidade.
E vocês podem registrar que, este cara aqui, que só fez até o 4º ano primário, é hoje o presidente que mais construiu universidades, disse.
Quanto às escolas técnicas, Lula lembrou que fez 214 e que quem chegou mais perto dele, tendo feito 27, foi Itamar Franco (citado pela 2ª vez no evento):
Os outros acharam que não era necessário, completou.
Lembrando que Dilma foi estudante “pouco tempo atrás”, disse estar querendo conversar com ela para decidir se ele deposita o restante do valor a ser dado à UNE, 14 milhões de reais, ainda este ano, através de medida provisória, ou “se ela quer ter o prazer de fazer isto ano que vem”. Para ele, o que estava acontecendo ali era “mais que a retomada de um espaço, mas sim a consolidação da democracia, com debate político e proporcionando a formação da nossa juventude”.
Comparou a morte de cerca de 20 milhões de jovens russos durante a 2ª guerra mundial às perdas causadas pela ditadura militar brasileira, dizendo que “a Rússia perdeu praticamente uma geração, já aqui no Brasil o Golpe de 64 tirou de algumas gerações o direito ao debate político. Hoje, devolvemos isso”.
Lula ao lado dos presidentes da UNE e da UBES: vitória. Foto: Ana Helena Tavares
E terminou com um alerta às duas entidades estudantis:
Não criem pautas impossíveis. Estas são boas para o discurso eminentemente ideológico. Se vocês quiserem continuar crescendo, façam sempre uma pauta de reivindicações que vocês acreditem que, num determinado tempo, vocês possam conquistar, porque é isto o que atrairá aqueles alunos mais incrédulos, que não se sentem representados por vocês, que acham que a UNE só sabe cobrar carteirinha.
É preciso que a gente ganhe a maioria e hoje há credibilidade para isto. Quando vocês sentarem com um ministro, devem pensar o seguinte: ‘Ou eu levo uma coisa que eu saia de lá com uma vitória, ou levo uma coisa que eu saia com o discurso’. Neste caso, o tempo é mais curto. Já se sair com vitória, o tempo é mais prolongado, pois uma vitória traz a outra, concluiu Lula.
Antes dele, também haviam discursado: Yann Evanovich, presidente da UBES (segundo Lula, seu nome “parece mais de jogador do Real Madrid”) e Aldo Arantes, representante dos ex-presidentes da UNE (ou, como definiu Lula, representante da “3ª idade da UNE”). Este lembrou que João Goulart havia sido o primeiro e, até hoje, o único presidente da república a pisar naquele espaço (em 1962). Assim como Lula fez, Jango também foi lá acompanhado de grande parte de seu ministério, incluindo os ministros militares.
Quarenta e oito anos depois, era outro dia. E isto pôde ser confirmado através de um dos gritos de guerra, certamente o mais emblemático e marcante: “Tarda, mas não falha; aqui está presente a juventude do Araguaia”.
*Ana Helena Tavares é jornalista, escritora e poeta eternamente aprendiz. Editora-chefe do blog “Quem tem medo do Lula?” e repórter do jornal “Correio do Brasil”.
criado por Ana Helena Tavares    18:56:48 — Arquivado em: Jornalista é contador de Histórias!, Reportagens — Tags:, , ,

Posts mais antigos »
Report abuse Close
Am I a spambot? yes definately
http://ahrt84.blog.terra.com.br
 
 
 
Thank you Close

Sua denúncia foi enviada.

Em breve estaremos processando seu chamado para tomar as providências necessárias. Esperamos que continue aproveitando o servio e siga participando do Terra Blog.