Traços de Estilo

“A poesia confunde-se com a prosa da mesma maneira que o poeta confunde-se com o homem da rua e já não pode nem deseja reivindicar para si a condição de eleito dos deuses.” (o poeta Gullar) “É preciso levar em conta as palavras que você escolhe, cuidar de cada sentença. É preciso ser sensível ao sentimento das pessoas.” (o jornalista Talese)

6.11.09

No sol de quase Dezembro - Uma crônica para Caê

“O Globo”, além de ignorar mais um prêmio recebido por Lula, tratou de ir mais longe, dando chamada de capa e página interior inteira a Caetano Veloso que, em entrevista ao “Estadão”, “no sol de quase Dezembro”, resolveu destilar preconceito ao chamar Lula de “analfabeto”. Haja lenço para tanta amargura!

Por Ana Helena Tavares

Por dever do ofício que escolhi, recebo todos os dias de manhã alguns jornais integrantes da chamada “grande imprensa”. Mas como pode ser chamada de grande uma imprensa que, mais uma vez, ignora uma premiação internacional recebida pelo Presidente da República?

O prêmio “Chatham House” de estadista do ano, recebido ontem por Lula em Londres por sua atuação como “um motor-chave da estabilidade e da integração na América Latina”, é um prêmio jovem, porém a instituição que o concede anualmente desde 2005 goza de prestígio mundial. Não é, portanto, um premiozinho qualquer que mereça ser ignorado ao ponto de não ganhar nem mesmo uma notinha de pé-de-página.

Sim, em pelo menos dois deles, não há sequer uma notinha, por menor que seja, em nenhuma editoria. Por contrários que muitos profissionais de imprensa sejam ao governo Lula e/ou à figura dele, abster-se de dar, ao menos, uma nota de rodapé sobre vitórias internacionais que não são de Lula, como ele mesmo fez questão de frisar, mas sim do povo brasileiro, me parece, no mínimo, a negação do direito à informação e, conseqüentemente, a negação do jornalismo.

Em 1994, nos meses em que se deu a implantação do plano real, o Brasil “contou” com o jurista e diplomata Rubens Ricupero, como ministro da Fazenda. Flagrado em uma conversa secreta com o jornalista Carlos Monforte, atualmente na Globonews, Ricupero declarou: “Eu não tenho escrúpulos: o que é bom a gente fatura, o que é ruim a gente esconde.” 15 anos depois, a atuação da grande imprensa brasileira inverte a máxima: com o ruim se fatura, o bom precisa ser escondido. Bizarro gosto pela tragédia.

Lula, em discurso realizado dia 29 de Outubro, em São Paulo, feito de improviso para uma platéia repleta de catadores de lixo que, como ele bem lembrou, são tão cidadãos como qualquer outra pessoa, aconselhou aos jornalistas presentes que “esquecessem a pauta dos donos de jornal e se misturassem àquela gente que lá estava”. Sábias palavras. O problema é que a matéria produzida sofreria muito para ganhar uma única notinha de pé-de-página.

Recentemente, Lula disse que “o papel da imprensa é informar, não é investigar”. Discordo: não há informação confiável sem investigação. No entanto, para publicar ao menos uma frase sobre a premiação que ele recebeu ontem, a “nobre e grande” imprensa não precisaria sequer praticar este cansativo trabalho chamado investigação. No ambiente democrático da internet, a notícia se espalhou como pólvora, com direito a fotos de Lula segurando o diploma referente ao prêmio. Mais um para a vasta série: “todos os diplomas do presidente”.

À revelia disso, “O Globo” de hoje, além de ignorar o prêmio, tratou de ir mais longe, dando chamada de capa e página interior inteira a Caetano Veloso que, em entrevista ao “Estadão”, “no sol de quase Dezembro”, resolveu destilar preconceito ao chamar Lula de “analfabeto”. Haja lenço para tanta amargura!

Ontem em Londres, Lula, contrariando sua praxe de improvisos (nos quais ele demonstra sempre uma oratória arrasadora, diga-se), terminou um de seus discursos, o qual leu (a propósito, analfabeto lê?), citando Drummond: “temos apenas duas mãos, mas o sentimento do mundo”. Drummond é de um tempo em que “da sala de linotipos vinha a doce música mecânica”, como ele deixou registrado em seu “Poema do Jornal”. Hoje, as linotipos não existem mais e a “música” que vem das grandes redações brasileiras é de uma dureza que faria inveja ao mais pesado Heavy Metal.

A distorção que existe entre a cobertura do governo Lula dedicada pela mídia internacional e a dedicada pela mídia nativa é algo que torna flagrante a partidarização de uma imprensa de mão única, que está entregue a um punhado de clãs retrógrados. Vem aí a I Conferência Nacional de Comunicação. Antes que “o som que vem das redações” torne-se de tal maneira ensurdecedor que jogue de vez por terra a credibilidade de uma profissão que já foi doce, se fazem urgentes medidas que possam reverter este quadro.

Já ouvi dizerem: “Ah, os jornalistas do exterior nem sabem onde fica o Brasil”. Engano: acabou este tempo. O Brasil tem causado tanto interesse no mundo que, cada vez mais, correspondentes internacionais vêm fazer a vida aqui. Quem lê a maior parte das matérias que estes correspondentes enviam para seus países e quem lê os dados de uma pesquisa feita este mês pela empresa “Imagem Corporativa”, é levado a crer que, para jornais que vão do “The Washington Post” ao “Clarín”, do “Le Monde” ao “China Daily”, nós vivemos num país que reflete com fidelidade as palavras de Lula em um de seus discursos de ontem: “o Brasil cansou de ser o país do futuro”. Um país que nossas capas de jornal não conhecem e pelas páginas internas ele passa correndo.

Voltando às declarações de Caetano ao “Estadão”, repercutidas euforicamente pelo jornal “O Globo” de hoje, ele declarou ainda acreditar que “Marina é Lula mais Obama”. Marina, por sua vez, aproveitou a contestável matemática do baiano, e disse: “Isso (o que Caetano falou) mais do que agrega, congrega. Vai criando uma força de pensamento e de debate político que vai além de quaisquer candidaturas ou de acordos da política tradicional e coloca em cena a sensibilidade das pessoas.” Será que, depois de toda a sua história política, ela realmente acha que alguém que chama publicamente Lula de analfabeto tem a intenção de fazer algo parecido com “congregar” e de “colocar em cena a sensibilidade das pessoas”? Não posso crer.

E Marina ainda fez questão de frisar que se sentia muito honrada, pois Lula e Obama são dois grandes estadistas. Apesar de a eleição de Obama ter representado um avanço inegável, o frisson que se tem feito em torno dele é bem maior do que o que de fato lhe cabe. E Marina também não está com esta bola toda, mas, ao que parece, é o que ela acha. Respeito muito a trajetória dela, mas é lamentável que ela esteja tão nitidamente fazendo o jogo da imprensa golpista e que, com o claro intuito de se promover, tenha se pronunciado tão oportunistamente.

Mas quem disse que a fatídica “Folha de S. Paulo” não noticiou o tal prêmio? Noticiou ontem mesmo, no próprio dia, um verdadeiro furo de reportagem. Tão falso quanto a ficha da Dilma e o câncer do Fidel. “Estatais patrocinam prêmio concedido a Lula em Londres”, era o título. E a matéria dizia: “A lista de empresas que patrocinaram ou apoiaram o prêmio que o presidente Luiz Inácio Lula da Silva recebe hoje em Londres inclui três estatais (Petrobras, BB e BNDES), três empresas privadas brasileiras (Bradesco, Itaú e TAM) e várias companhias estrangeiras com interesses comerciais no país.” Mentira deslavada de um jornal invejoso com o claro intuito de desmoralizar o prêmio e diminuir sua importância. A Petrobras ainda se deu ao trabalho de apresentar em seu blog “Fatos e Dados” provas de que não patrocina o prêmio. Não sei se as outras empresas se pronunciaram de alguma forma, mas nem seria preciso: basta fazer uma pesquisa na extensa lista de membros e parceiros da “Chatham House”, disponível no site da instituição, para se constatar o tipo de prática da Folha.

Eu pergunto: isto é Jornalismo? Ou “jornaleirismo”?

A Serra S.A. (patrocinada por Globo, Folha, Estadão e Veja, entre outros) não engole, de jeito nenhum, que um presidente com a origem humilde de Lula ostente 81% de avaliação positiva, tenha conseguido trazer as olimpíadas de 2016 para o Rio de Janeiro e, agora, ainda ganhe mais um entre tantos prêmios. Quando Lula ganhou, em Julho, o Prêmio da Paz da UNESCO, a notícia até foi dada, com muito esforço, em páginas internas da grande imprensa. Isso porque era da UNESCO. Sabe como é, são muitos prêmios num mesmo ano, isso incomoda. É grande a dor-de-cotovelo de determinados setores que não se conformam com o fim da ditadura. Imaginem o tamanho do baque que levarão se, confirmando-se a expectativa de muitos, a grande imprensa for obrigada a noticiar que Lula ganhou o Nobel da Paz?

Sinceramente, nem quero imaginar o que farão (ou deixarão de fazer). Mas uma coisa eu sei, por dever do ofício que escolhi, talvez chegue o dia em que, estando numa redação de jornal, já irritada com o calor de Dezembro, eu ainda tenha que ouvir: “Pessoal, o FHC foi eleito síndico do Empire State! Vamos dar primeira página”.

06 de Novembro de 2009,
Ana Helena Tavares

No sol de quase Dezembro - Uma crônica para Caê no “Quem tem medo do Lula?”

No sol de quase Dezembro - Uma crônica para Caê no “Recanto das Letras”

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25.10.09

Os “traficantes”, os “cobradores” e a banalização da amizade

“Amizade não se anuncia, amizade se sente. Quem vive anunciando amizade, não é amigo, é traficante.” (Machado de Assis)

Além dos “traficantes” e dos “cobradores”, a pós-modernidade trouxe a banalização da amizade. Pelas ruas não é difícil se constatar que o termo anda sendo usado no automático. Pessoas que nem se conhecem se cumprimentam com um “oi, amigo”, e conhecidos há 2 minutos viram “amigos de infância”. Eu não teria nada contra se não soubesse que 90% destas “amizades” são fugazes, não se solidificam. E sabem porquê? Porque algo me diz que o ser humano vive uma crise de convivência em sociedade. No universo virtual, então, a ilusão de se ter “um milhão de amigos” tira o brilho da letra de Roberto Carlos. Conectar-se é a fuga perfeita para se fugir da convivência.

Por Ana Helena Tavares (publicado também na minha coluna na revista “Médio Paraíba” e no “Recanto das Letras”)

Valorizo demais a palavra amizade e não consigo concordar com certos clichês que a sociedade insiste em usar para definir um termo tão nobre.

É certo que esse é um significado que anda perdido no mundo de hoje. Em muitos casos, é a velha busca pelo “levar vantagem em tudo”: quantos não gostam de curtir o status de dizer que são “amigos do rei”? Do rei da bola, do rei da música e até do rei do tráfico. Claro, há gosto pra tudo, mas isso ocorre desde que o mundo é mundo.

Machado, por exemplo, fazia uma analogia interessante que, a princípio, choca, justamente por ser tão real: “Amizade não se anuncia, amizade se sente. Quem vive anunciando amizade, não é amigo, é traficante.” É o “Bruxo do Cosme Velho” resumindo o tráfico de influência.

É engraçado que aquele que entrou para a história como “o amigo do rei” quase não versou sobre a amizade, ao contrário de muitos poetas de sua geração. No entanto, Bandeira, em seu poema mais famoso, parece usar de ironia para dizer exatamente o mesmo que Machado. Afinal, em Pasárgada, por ser “amigo do rei”, ele gozaria de inúmeros privilégios. Não me perguntem se foi intencional. Textos são feitos para que o próprio autor se entenda e para que seus leitores o interpretem, ao bel prazer. Ora, vejamos…

Peguemos o caso da família como exemplo: todos os familiares que moram com você são verdadeiramente seus amigos? Se forem, “que maravilha viver”. Mas não é regra. Amizade verdadeira é laço mais forte que o sangüíneo. Parente é uma coisa, amigo é outra, a sorte é quando se misturam. Há um clichê muito comum que afirma: “ser amigo é estar sempre ao lado”. Por esse prisma, como é possível ser “amigo do rei”? Se você for de fato amigo de um “rei”, de uma pessoa extremamente importante, repleta de afazeres, como vocês estarão sempre ao lado? Aí poderão dizer: “Ora, você está pegando a expressão ao pé da letra”. Negativo. Nem que seu amigo seja um mendigo e que você vá morar debaixo da ponte ao lado dele você estará sempre ao lado. Nem sequer morar na mesma casa é estar sempre ao lado e ser amigo também não é estar sempre ao lado nem em pensamento, tampouco, travar todas as batalhas lado a lado. Talvez isso soe quase como uma heresia, mas é fato.

Amigos de verdade se respeitam nas divergências e podem até passar décadas sem se ver, lembrando-se do outro de vez enquanto e, portanto, estando obviamente distantes fisicamente e na maior parte do tempo também em pensamento, mas isso não significa que deixaram de ser amigos e que um ainda não poderá dar o colo pro outro ou alegrar-se com suas conquistas. Cobrar afeto não é papel de um amigo, o único nome disso é carência. Amigos sabem do afeto do outro e aí está o grande pulo do gato para se compreender que é absolutamente impossível se viver sempre rodeado por todos os amigos. Afinal, ainda que você more com alguns amigos, eles têm suas vidas individuais.

Além dos “traficantes” e dos “cobradores”, a pós-modernidade trouxe a banalização da amizade. Pelas ruas não é difícil se constatar que o termo anda sendo usado no automático. Pessoas que nem se conhecem se cumprimentam com um “oi, amigo”, e conhecidos há 2 minutos viram “amigos de infância”. Eu não teria nada contra se não soubesse que 90% destas “amizades” são fugazes, não se solidificam. E sabem porquê? Porque algo me diz que o ser humano vive uma crise de convivência em sociedade. No universo virtual, então, a ilusão de se ter “um milhão de amigos” tira o brilho da letra de Roberto Carlos. Conectar-se é a fuga perfeita para se fugir da convivência.

Aí dirão: “Pronto, ela não crê em amizade virtual”. Engano. Ela é rara, mas existe, tal como antigamente havia as amizades por meio de cartas. Amizade é algo construído: amizade à primeira vista pode ser várias coisas e pode ou não se transformar em amizade, tal como amor à primeira vista é paixão que pode ou não virar amor.

Amizade é, acima de tudo, um sentimento, construído não pela troca de vantagens, como temia Machado, nem mesmo pela troca diária de afeto, como muita gente parece pensar e como Bandeira jamais teria com seu “rei”. Eu diria que é um sentimento construído pela troca de respeito, pela admiração mútua e, enfim, pela valorização do outro do jeito como ele é e da forma como ele sabe oferecer afeto.

Essa troca pode ou não ser presencial e, ainda que não seja possível que ocorra sempre, amigo zela e tem sim ciúmes, ainda que muitos não assumam. Afinal, amizade é uma forma de amor, creio que a mais singela e singular. Esses ciúmes são naturais, não podem se converter em cobrança e precisam ser saudáveis. Mesmo porque é bom lembrar que, tal como você, eles também têm o direito de ter outros amigos. Mas que há ciúmes, isso há.

Vinícius de Moraes dizia que “a amizade é um sentimento mais nobre do que o amor, porque o amor traz intrínseco o ciúme”. Eu duvido que ele não tivesse ciúmes dos amigos e amigas dele.

25 de Outubro de 2009,
Ana Helena Tavares

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22.10.09

Fordosofando - As raízes de uma mentalidade

No que ele estaria pensando hoje?

No que ele estaria pensando hoje?

“Pensar é o trabalho mais pesado que há, e talvez seja essa a razão para tão poucos se dedicarem a isso.” (Henry Ford)

“Gosto bastante de trabalhar aqui”, diz o empregado a seus companheiros. “Tenho que rever o sistema, ele é pago para produzir, não para gostar”, imaginem quantos patrões ainda pensam assim por trás do vidro.

Por Ana Helena Tavares (publicado também na minha coluna na revista “Médio Paraíba”)

Henri Ford é um exemplo de como um ser pensante usou de sua aparente benesse de aumentar salários com o único objetivo de tornar seus empregados cada vez mais dependentes do emprego de “sua” fábrica e vendendo seu trabalho a “seu” dono, como ele mesmo dependia de empregá-los e usar seu trabalho para sua própria riqueza e poder.

Em sua época, serviu de exemplo para outros donos de fábrica que buscavam unir capital a trabalho fortificado pela mutualidade de sua dependência. Trancados em uma fábrica que era ao mesmo tempo um campo de batalha e um lar natural para esperanças e sonhos.

A dependência de capital e trabalho fazia com que cada parte fizesse de tudo para manter a ordem que estava instalada. Uns compravam e vendiam, e os trabalhadores tinham que se manter saudáveis, fortes e capacitados. Cada lado tinha “interesses investidos” em manter o outro lado em forma.

Deste modo, a “remercantilização” do capital e do trabalho torna-se a principal função e ocupação da política e da suprema agência política, o Estado, que estava “além da esquerda e da direita”, esteio sem o qual nem capital nem trabalho poderiam manter-se vivos e saudáveis, quanto mais crescer (estado de bem-estar).

Os trabalhadores se aprisionavam na idéia de trabalho por toda a vida – “estabilidade”. Já os capitalistas se concentravam no intuito de preservar “fortuna familiar”, que duraria para todos, não só os atuais como também os descendentes da família. Esta era a mentalidade de “longo prazo” e de “interesse de todos”.

Após a Segunda Guerra, com o surgimento de sindicatos fortes, garantidores do estado de bem-estar, e corporações de larga escala, produz-se uma era de “estabilidade relativa”, em que continua a idéia de dependência mútua, mas agora através do confronto e teste de força entre as partes. Nenhuma delas podia continuar sozinha e ambos os lados sabiam que sua sobrevivência dependia de encontrar soluções que todos considerassem aceitáveis.

Essa situação mudou a mentalidade de “longo prazo” para a nova mentalidade de “curto prazo”. “Flexibilidade” tornou-se um imperativo, trabalhadores agora sabem que nada é certo e devem estar capacitados para novos desafios.

Muitos patrões, porém, parecem manter ainda uma mentalidade pré-Segunda Guerra. No comando de grandes empresas e fábricas, ainda há muitos seguidores daquilo que poderíamos chamar de “fordosofia”: quando o empregado é enxergado como um produto que produz com prazo de validade pra isso.

“Gosto bastante de trabalhar aqui”, diz o empregado a seus companheiros. “Tenho que rever o sistema, ele é pago para produzir, não para gostar”, imaginem quantos patrões ainda pensam assim por trás do vidro.

Daí a importância de os trabalhadores reconhecerem cada vez mais sua impotência individual, sabendo da necessidade de juntos poder barganhar melhores benefícios para todos, transformando regulamentos em direitos, reformulando-os como limitações impostas à liberdade de manobra dos empregadores.

Hoje em dia os trabalhadores não podem mais se sentir presos àquilo que “seu Ford mandar”.

22 de Outubro de 2009,

Ana Helena Tavares

criado por Ana Helena Tavares    20:39:04 — Arquivado em: Ensaios, Ensaios monográficos — Tags:, ,

21.10.09

Mente minha?

A minha mente é como se não fosse, flutua…
Leveza e vontade de voar, uma criança brincando.

É minha mente.

Distraída do mundo, compenetrada a detalhes,
Cadê minha mente?

Se me perguntarem o que habita em minha mente, direi:
- Descubra, só você o pode.

Nos atos,
Nos gestos,
Nas palavras que dela saem.

Só sei que minha mente brinca comigo
Enquanto meu coração fala sério.
Meu coração é meu abrigo.
Minha mente é mistério.

21 de Outubro de 2009,

Ana Helena Tavares

criado por Ana Helena Tavares    20:55:55 — Arquivado em: Brincando com os versos, Todos os poemas — Tags:

8.10.09

Por que o menino é o pai do homem?

Gravando o depoimento de Zuenir Ventura.

Gravando o depoimento de Zuenir Ventura.

Esta reportagem é um presente para o meu eterno mestre, meu amigo e incentivador, Gilson Caroni Filho. Ele dá aula para jovens e diz que tem “a idade dos alunos”, mas eu ainda acho que ele é mais novo. Por isso, parabéns por mais uma primavera, mas parabéns, principalmente, por ser um menino.

Por Ana Helena Tavares (publicado também na minha coluna na “Revista Médio Paraíba”)

William Wordsworth, um poeta romântico e naturalista inglês, certa vez escreveu um pequeno poema, chamado “My heart leaps up when I behold”, em que deixou registrado que “o menino é o pai do homem”. Wordsworth fazia, com isso, uma afirmação e tanto: Todo o homem traz em si um pouco do menino(a) que foi. O poema era pequeno em tamanho, porém grande, imenso, em significado. Tanto é que daquelas palavras fizeram uso inúmeros escritores que viriam bem depois dele.

Foi o caso, por exemplo, de Machado de Assis, que viria a apoiá-lo de forma veemente intitulando de “O menino é o pai do homem” um capítulo inteiro de seu “Memórias Póstumas de Brás Cubas”. Inversamente ao tamanho do poema de Wordsworth, este é um dos capítulos mais extensos do livro “Memórias Póstumas”, um livro marcado por capítulos curtíssimos. Não só pela diferença de tamanho com os outros, mas, principalmente, pelo conteúdo visceral de memórias específicas da infância, é engraçado, inclusive, notar como aquele capítulo parece solto no livro, verdadeiramente livre e desimpedido dentro do romance, ao contrário da maioria dos demais, que parecem uma costura. Talvez por conta desta aparente independência, há inúmeros sites que, equivocadamente, reproduzem aquele texto como “uma crônica machadiana”, sem procurarem saber ou sem se interessarem em citar que é capítulo integrante de “Memórias Póstumas” (mais precisamente o 11º). Já vi até gente dizendo, em comentário num site: “não encontrei este texto na coletânea de crônicas do Machado”. Nem vai encontrar.

Machado parece ter querido aproveitar que escrevia suas memórias póstumas, codinome Brás Cubas, para jogar ali toda a sua argumentação do porquê de o menino(a) que fomos ser o nosso “pai/mãe”, ou seja, do porquê de todos nós sermos fruto da criança que fomos e, enfim, do porquê de o homem ser fruto do meio.

Este assunto vem me chamando atenção já há algum tempo, então quero deixar aqui minha humilde contribuição. Estive recentemente no Centro Cultural Banco do Brasil para um evento sobre Jornalismo Literário e aproveitei para fazer uma pequena reportagem sobre “a influência da infância na fase adulta”, gravando cinco depoimentos em exclusivo sobre o assunto. Todas essas cinco pessoas, dentre elas o jornalista e escritor Zuenir Ventura, têm mais de 50 anos e a pergunta que fiz foi: Você considera que traz um menino(a) dentro de si? Por quê? Seguem abaixo as respostas:

Georgina, professora primária:

“Graças a Deus eu trago. Porque trazendo essa menina dentro de mim eu tenho esperança, eu tenho alegria. Se eu não trouxesse essa menina dentro de mim, eu já estaria morta. Até por tudo o que a gente vive hoje em dia, de violência, desrespeito, eu tenho que trazer essa menina dentro de mim pra poder acreditar que ainda existe esperança e alegria. Ainda mais trabalhando com criança pequena, eu tenho sempre que ter essa menina presente”

Curtis, engenheiro:

“Eu acho que você tem que considerar dois fatores. Primeiro se a pessoa teve uma infância muito boa, se ela foi muito feliz. Eu acho que isso no futuro, quando a pessoa for adulta, sempre vai remeter a uma fase boa. E também isso tem uma função muito boa na formação do caráter e de como a pessoa vai ser no futuro.”

Júlio Amaral, historiador:

“Eu acho que todo ser humano, quando adulto, é conseqüência das vivências dele, inclusive, de momentos da infância também. Então, nós somos hoje o resultado disso tudo, essa mistura que se reflete em muitas atitudes nossas. Não, logicamente, de forma infantilizada, mas muitos pensamentos daquele período nós usaremos em atitudes. De uma forma mais adulta, mas sem dúvida vai ser utilizado sim.”

Marlúcia, atriz:

“Eu acredito sim que todos temos uma parte do que fomos na infância, ou seja, a menina que eu fui eu ainda trago um pedaço dela em mim, percebendo a questão da humildade, da pureza, da simplicidade que essa criança tinha. Também as dificuldades, os defeitos, as virtudes, enquanto criança. Então, eu me vejo assim, principalmente em termos de sentimento. Em relação ao meu sentimento, às minhas atitudes comigo mesma. Em relação à sociedade não, mas em relação a mim mesma eu sinto que existe sim, porque todo mundo mantém um pouco do que é criança. Até mesmo porque a infância faz parte da formação da nossa personalidade de adulto. É impossível você deixar, contribui muito, como, infelizmente, também os traumas e as coisas desagradáveis. Por tudo isso, eu acho que todo mundo traz sim. E, inclusive, quando a gente conversa com crianças, a gente aprende muito com elas. São pequenas professorinhas.”

Zuenir Ventura, jornalista e escritor:

“Eu não só tenho um menino dentro de mim, como não quero perdê-lo. Às vezes ele aflora tanto, ele tá tão presente, que as pessoas dizem: ‘Pô, você parece criança!”. E eu recebo isso como um elogio. Porque eu acho que essa é uma das permanências que a gente tem que cultivar. Não há nada mais saudável para alguém do que essa presença desse estágio da vida. Porque a criança é tudo o que simboliza de inocência, de olhar pra realidade com os olhos lavados, novos. Então, não só concordo, como faço disso, de uma certa maneira, um objetivo de vida.”

Depois de tantas opiniões tão gabaritadas, me deu até vontade de pesquisar mais a fundo o assunto, quem sabe. Por agora, a quem quiser entender melhor este imbróglio, aconselho fortemente que comecem buscando o poema inglês e, depois, busquem o tal capítulo machadiano.

De minha parte, o que posso dizer é que minha mãe sempre se disse uma eterna criança e ela tem de fato uma admirável alma de menina. Além dela, ao longo de meus quase 25 anos, a vida já me presenteou com alguns adultos/meninos. E nisso é que a vida me foi generosa. É por causa deles que gosto tanto da menina que vive em mim e quero mantê-la viva sempre. Acima de tudo, é por causa deles que continuo acreditando no mundo.

08 de Outubro de 2009,

Ana Helena Tavares

criado por Ana Helena Tavares    14:19:36 — Arquivado em: Jornalista é contador de Histórias!, Reportagens — Tags:, ,

5.10.09

O orvalho e a semente

Foto: Cristal Garner

No inverno, o aconchego

O medo do sossego

No outono, as quedas

E algumas entregas

Mas é primavera

Depois da espera

E o verão virá

E também passará

Um pingo de orvalho

Naquela semente,

Parece dizer: essa primavera tá diferente

Engano: tudo se mistura

Enquanto a vida dura

E a dança das estações

Só se traduz a quem as sente.

05 de Outubro de 2009,
Ana Helena Tavares

criado por Ana Helena Tavares    17:16:15 — Arquivado em: Brincando com os versos, Todos os poemas — Tags:, , , ,

30.9.09

Sobre jornalistas e designações

O Jornalista Carlos Alberto Sardenberg, da rádio CBN, teve, no último dia 28 de Setembro, a brilhante idéia de entrevistar Marco Aurélio Garcia, assessor da presidência para assuntos internacionais, a respeito da situação em Honduras. Sardenberg disse o que foi adestrado a dizer, teve que ouvir o que não quis.

Teve que ouvir, por exemplo, que agora o mundo resolveu colocar a culpa de tudo no Hugo Chávez, teve que ouvir que a imprensa está transformando o mocinho em vilão, ao condenar Zelaya, teve que ouvir que ele próprio, Sardenberg, não tem credibilidade para falar de Honduras e por aí¬ vai. Um papelão daqueles para um Jornalista tarimbado. Simplesmente tragicômico.

Encurralado, Sardenberg titubeou em vários momentos e, quando Marco Aurélio Garcia reclamou dos jornalistas que estão usando o termo “interino” para Micheletti, aí Sardenberg conseguiu o feito de produzir uma das falas mais hipócritas que eu já ouvi de um Jornalista. Disse que “não é uma questão de nome, de designação, a questão é que eles estão lá, estão governando”. Ora, ora, será que tantos anos de Jornalismo não ensinaram a Sardenberg o poder manipulador da palavra? Como pode chegar a cara-de-pau de dizer que nomes e designações não são importantes?

Se for assim, da próxima vez que me assaltarem, vou ligar pra CBN e dizer: podem noticiar que meu dinheiro está com um proprietário interino. Se a pessoa me perguntar o porquê, nem titubeio, digo logo: pergunte ao Sardenberg, provavelmente ele vai dizer que a expressão é válida, afinal as designações não fazem diferença alguma e a questão toda é quem está gerenciando as minhas finanças naquele momento, não é?

30 de Setembro de 2009,
Ana Helena Tavares

Obs: Para ouvir a tal entrevista, clique aqui.

criado por Ana Helena Tavares    20:48:59 — Arquivado em: Artigos, O dia-a-dia — Tags:

22.9.09

Honduras: a posição firme do Brasil e a ousadia dos golpistas

É humanizar e ser livre ou autodestruir-se

Por Ana Helena Tavares

Segundo informações do Ministério das Relações Exteriores, a situação hoje, 22 de Setembro de 2009, é crítica em Honduras. A Embaixada do Brasil teve a água, a eletricidade e as linhas de telefone fixo cortadas. Segundo a agência de notícias AFP, “a eletricidade está sendo mantida com gerador”. O Ministério informou, ainda, que o Brasil solicitou apoio à Embaixada dos EUA para que, “em caso de necessidade, ofereçam segurança e diesel para o gerador”. No entanto, ainda não há notícia de que tenham obtido retorno.

Segundo informações do site Uol, “militares de Honduras cercaram na manhã desta terça-feira (22) a embaixada brasileira em Tegucigalpa, onde permanece o presidente deposto, Manuel Zelaya, e obrigaram a retirada dos manifestantes que passaram a noite em frente ao edifício.”

Em Nova York, onde se encontra para participar da Assembléia Geral da ONU, Lula declarou à imprensa que, para ele, “o normal que deveria acontecer é que os golpistas deveriam dar um lugar a quem tem direito de estar nesse lugar, que é o presidente eleito democraticamente pelo povo”. Lula disse ainda: “Nós esperamos que os golpístas não entrem na Embaixada do Brasil”.

Em nota, os golpistas disseram que pretendem responsabilizar o Brasil por possíveis atos de violência: “A tolerância e a provocação que se realiza desde o local dessa representação do Brasil são contrárias às normas do direito diplomático e transformam a mesma e seu governo nos responsáveis diretos dos atos violentos que possam suscitar dentro e fora dela”, disseram.

Daí, cá com meus humildes botões, eu fico pensando… É sempre assim… A ambição desenfreada dos que nasceram para o despotismo não aceita que o povo, que pra eles só presta manipulado, enxergue com seus próprios olhos. Quando a democracia procura fortalecer-se por meio de consulta popular, a elite conservadora sente-se ameaçada e, tendo chance, tira o pó dos canhões. E não duvido que na caserna ainda repouse o sonho dourado da extrema direita brasileira. Os que ontem apoiaram o chumbo e que hoje continuam no poder, espalhados pelo Congresso, até podem fingir apoiar a paz, mas essa máscara não lhes segura no rosto.

Contar com a ignorância do povo sempre foi ferramenta fundamental de opressão política. Júlio César já sabia disso. Tanto aqui como em Honduras, as elites conservadoras mantém isso em comum: a voz deles é a voz de Deus, portanto povo não tem voz.

Reclamar seus direitos, cobrar deveres daqueles em quem bem mais que um voto, se depositou confiança. Quantos no mundo podem fazer isso e não fazem? Quantos não podem e nem sabem o porquê?

Os homens nascem com total liberdade de pensamento. Podem e devem valer-se dela ao longo da vida. É natural que quem tem um pensamento conservador chie com a possibilidade do progresso; é natural e vital que os progressistas da esquerda chiem junto para defender as idéias em que acreditam; o que não é natural, ou não deveria ser, é o comodismo, a apatia, a inércia.

Só plantando paz é possível colhê-la. É humanizar e ser livre, ou autodestruir-se. Parabéns à diplomacia brasileira pela posição firme de abrigar e apoiar aquele que é o presidente legítimo de Honduras.

22 de Setembro de 2009,
Ana Helena Tavares

Obs: Este texto foi escrito originalmente para a minha coluna na “Revista Médio Paraíba” e para o blog “Quem tem medo do Lula?“. Trata-se de uma atualização do meu artigo “Honduras e os pacotinhos vazios“.

criado por Ana Helena Tavares    19:49:46 — Arquivado em: Releituras — Tags:, ,

Sobre a sabatina da Folha de S. Paulo com seu Ombudsman

Carlos Eduardo Lins da SilvaEntre importantes erros assumidos, uma grande ausência e uma comparação que só pode ser piada

Por Ana Helena Tavares

A Folha de S. Paulo, para marcar os 20 anos da criação de seu cargo de Ombudsman, aquele cargo que serve para o jornal tentar passar a idéia de que há lá dentro uma democracia que não há, promoveu ontem, 21 de Setembro de 2009, uma sabatina com seu atual Ombudsman, Carlos Eduardo Lins da Silva, que resiste bravamente há 18 meses no cargo. Não, ele não é dos piores, muito longe disso. Quem conhece toda a dificuldade e a pressão do seu cargo, sabe que faz um trabalho digno de respeito.

Um dos importantes erros da Folha que ele corajosamente assumiu desde o início, refere-se ao lastimável episódio da ficha falsa de Dilma, a que ontem ele se referiu exatamente com essas palavras:

No caso do dossiê da Ministra Dilma Roussef, fiz sugestões muito concretas. Foi um caso polêmico, muito controvertido e nenhuma delas foi atendida. Foi a situação da reprodução de uma suposta ficha da ministra Dilma do período em que ela era militante de um movimento revolucionário no regime militar. Essa foto foi publicada em primeira página da Folha como se fosse verdadeira. Depois a Folha disse que não tinha como provar que era verdadeira, mas também não tinha como provar que era falsa. Na minha opinião, é um dos dois erros mais graves que a Folha cometeu ao longo destes 18 meses”.

O outro erro a que ele se refere certamente também foi grave, mas este não foi só dos Frias, foi dos Mesquita, dos Marinhos e de outros. Sedentos por plantar o terror na velha ânsia de vender mais e mais. Pois é, infelizmente o terror vende. E o erro em questão foi a fatídica gripe suína. Ontem, assim Carlos Eduardo Lins da Silva se referiu à cobertura da Folha sobre o assunto:

Há exatamente dois meses a Folha, em chamada de 1ª página, disse: Em dois meses, trinta e tanto milhões de brasileiros devem estar infectados e 4,4 milhões devem estar internados. Isso baseado em um modelo matemático que não era alimentado por dados a respeito desta gripe, mas sim de outras gripes do passado. Esse acho que foi o erro mais grave que a Folha cometeu nesse meu período como Ombusdman”.

Parabéns ao Ombusdman pelos importantes erros apontados, mas e a “Ditabranda”? Pergunto eu… Por que ela ficou de fora de tão nobre evento? A sabatina foi enorme, as perguntas foram inúmeras e por que os nobres entrevistadores (Marcelo Coelho, Eleonora Gosman, Verônica Goyzueta e Eugênio Bucci) não colocaram a “Ditabranda” em pauta ou por que o entrevistado não tratou de lembrá-los? Esquecimento, concordância ou submissão?

Bem, mas como é véspera de ano eleitoral, nada mais oportuno do que comparar a cobertura dada pela Folha ao governo FHC com a dada ao governo Lula. E aí… Lins da Silva produziu uma pérola:

Muitos leitores acham que a Folha foi mais condescendente com o governo FHC do que com o governo Lula. Essa é uma resposta que só pode ser dada por meio de um trabalho acadêmico, científico, metodologicamente e comprovadamente constatado. Fica-se muito no terreno das impressões… Na minha impressão, a Folha era muito dura com o presidente Fernando Henrique também.”

Prefiro acreditar que essa foi pra descontrair o ambiente, só pode…

Ana Helena Tavares

Obs: Matéria escrita originalmente para o blog “Quem tem medo do Lula?

criado por Ana Helena Tavares    17:30:44 — Arquivado em: Jornalista é contador de Histórias!, Reportagens — Tags:, ,

20.9.09

Só vibra o pulso de quem sonha - ou o porquê de eu acreditar no Lula

Lulaaaa

Por Ana Helena Tavares

Cor, brilho, voz, vibração, palavra. Certa vez ouvi uma senhora de 92 anos, esbanjando vitalidade, dizer que a palavra sempre foi sua maior arma. Foi com ela que sempre lutou e – mesmo nas derrotas – venceu.

Contou que já é professora de português há 75 anos e que, depois de tanto tempo, já viu passar pelas mãos dela pessoas de todos os credos – de todas as cores. Rindo, disse que já havia sido alfabetizada quatro vezes por quatro reformas ortográficas. Pelo entusiasmo demonstrado, certamente ainda passaria por mais quatro.

Seu brilho arrebatador no olhar e seu pulso vibrante acusam: ela nunca deixou de sonhar. Sim, ela tem um sonho. Faço idéia do sorriso que Luther King abriria ao saber qual. Ela sonha com um mundo em que as pessoas não nasçam para viver – mas para conviver. Seus 92 anos lhe ensinaram que essa é a maior das artes.

Tomando por base esse sonho tão grande, que é meu, dela e de tantos, fiquei pensando o que, mesmo os críticos mais ferrenhos, teriam a dizer quanto à figura de Lula no que diz respeito à habilidade para essa arte chamada convivência. Olhos castanhos, azuis, verdes ou negros, para ele todos foram sempre dignos do mesmo respeito.

Não há adegas neste país com vinhos que possam dizer que nunca se misturaram a azeite. Mais: misturas fazem parte do jogo político e, se não foram poucas as realizações do governo Lula em projetos sociais, há que se assumir que isso se deve em grande parcela ao talento do nosso presidente para agregar para suas trincheiras conhecidos adversários. O grande segredo está em não permitir que este jogo político que, queiram os “puristas” ou não, precisa ser jogado, contamine a chama da defesa da justiça social, da luta pelas liberdades democráticas e dos Direitos Humanos, de modo a apagá-la.

Foi mantendo acesa essa chama que, depois de realizar tantos sonhos, muitas vezes, tidos como quase irrealizáveis, ele se fez respeitar. Foi assim que seu olhar de retirante chegou a 2009 vendo o olhar negro do chefe da Casa Branca apontar para ele e dizer: “Esse é o cara!”.

Não me digam que é por mero acaso que “o cara”, mesmo bombardeado por uma grande imprensa de interesses pequenos, desfila sua credibilidade, de cabeça erguida e pulso sempre vibrante, desde os mais nobres salões internacionais aos mais pobres grotões deste país.

Ana Helena Tavares

Obs: Neste texto, que está também no blog que ajudo a editar, o “Quem tem medo do Lula?“, eu adapto e mesclo pedaços de dois artigos meus: “O progresso e o sacrifício do beijo no carcereiro” e “Sim, nós podemos!“, de modo a focar mais especificamente na figura política e humana de Lula.

criado por Ana Helena Tavares    19:35:39 — Arquivado em: Releituras — Tags:, ,

17.9.09

A ditadura de ontem e a de hoje

Dentre várias ditaduras que ainda rondam nossa sociedade, tal como a ditadura da beleza, imposta pela indústria da moda, pode-se verdadeiramente dizer que vivemos sob uma ditadura midiática, que já não permite que a sociedade enxergue com precisão onde estão seus algozes.

Por Ana Helena Tavares

Nosso país saiu de uma ditadura a qual se viam os capuzes para mergulhar em anos de uma hipocrisia perigosa. Uma hipocrisia compactuada pela parcela podre da mídia, saudosa dos anos de repressão em que se acreditavam mais felizes. Saber-se sob controle exerce estranho fascínio, mesmo em mentes das mais instruídas, vai entender. Isso sem falar naqueles fascinados por exercê-lo.

Um fascínio que se mantém na velha política dos coronéis. Capangas ciceroneiam o principal juiz de nossa mais alta Corte. Estão longe do charme de um 007, mas os desafie de verdade e tenho certeza que, assim como o agente secreto da rainha inglesa, eles também têm licença para matar. Assim como quem os paga se julga com “licença” para ludibriar constantemente o povo e sente-se livre de penalidades. Ou pior, acima delas.

Enquanto a parcela podre da mídia distrai a população com factóides, Lina Vieira que o diga, os anos de chumbo são devidamente barganhados e transfigurados. Para os donos da mídia, o MST, por exemplo, é terrorismo, mas, quando um trabalhador rural morre baleado com um tiro nas costas, saído das armas da polícia, o episódio é chamado de “incidente”.

E, nesse caso específico, quem escreve uma matéria chamando crime de incidente, o que está fazendo senão espelhar ali a ideologia de seus patrões? É o famoso analfabeto político por opção, aquele que pensa com a cabeça de quem o paga.

“Como era a reunião de pauta no Pasquim?”, perguntaram certa vez ao jornalista Luiz Carlos Maciel. Talvez porque aquele era um jornal totalmente avesso a esse jornalismo/mercado, tão em moda, a resposta imediata foi: “Reunião de Pauta?!?! No Pasquim?!?!”. Pois é, simplesmente não havia. E por quê?

Porque faltava àquele jornal algo que sobra à grande imprensa de hoje… O que seria? Objetividade! E foi essa falta que proporcionou o seu sucesso.

Não falo de objetividade na linguagem. Aquela que – de forma totalmente imparcial – se apega exclusivamente ao objeto de análise. Isso é mito do jornalismo. “Conversa fiada”, como definiu o próprio Maciel.

O jornalista, por mais neutro que tente ser, nunca consegue se desprender por completo do sujeito que é. Portanto, todo o relato já é – por natureza – subjetivo. E como seria bom se milhões de leitores e telespectadores entendessem isso…

Então, temos aí que a objetividade à qual o Pasquim se opunha com todas as suas forças e à qual vemos a grande imprensa de hoje totalmente rendida é uma objetividade de outro tipo. É uma objetividade que vem de escolhas, interesses e, como não poderia deixar de ser, objetivos.

Nada tem a ver com o objeto a ser apresentado, ou em outras palavras, sua excelência: o fato. Esse, aliás, muitas vezes fica mesmo é relegado a décimo plano. Quem sabe ele aparecerá numa notinha de pé de página. Se der sorte.

E essa objetividade tem dono, sua santidade: o mercado. A ele, sim, o jornalismo deveria fazer oposição sempre…

Mas, aquele pra quem os donos de jornais rezam todas as noites, é capaz de tolher qualquer idealista numa reunião de pauta.

A mídia nos impõe, portanto, um constante jogo de aparências. Dentre várias ditaduras que ainda rondam nossa sociedade, tal como a ditadura da beleza, imposta pela indústria da moda, pode-se verdadeiramente dizer que vivemos sob uma ditadura midiática, que já não permite que a sociedade enxergue com precisão onde estão seus algozes. Mas lá estão eles. Os de hoje, que usam outros métodos, e os de ontem, escondidos do grande público, caminhando impunes pelas ruas desse Brasil, depois de pagarem com a morte o idealismo de tantos brasileiros.

Alguém viu por aí o Tenente Coronel José Ney Fernandes Antunes? De 68 a 71 ostentava o cargo de “conselheiro” dentro da Polícia do Exército. Hoje é provável que esteja tranqüilamente dando conselhos aos seus netos.

Viram por aí o Tenente (torturador) Armando Avólio Filho? Ah, sim, consta que está reformado como general.

E o Tenente (torturador) Luiz Mário Correia Lima? Ah, minha gente, vejam vocês, esse foi até condecorado! Foi promovido a major e hoje deve desfilar impunemente naqueles melancólicos encontros de oficiais da caserna com honrarias no peito conferidas a ele por seu empenho na captura de “terroristas”. Só o que as medalhas não trazem escrito é o que significam terroristas para ele.

É possível que esteja também solto por aí aquele que era conhecido como o “Tenente Mata Rindo”. Dá para imaginar isso? O sujeito era tão sem piedade que tinha declarado prazer em matar, não escondia o riso. Isso para mim já é doença. E o pior é a sensação de que uma pessoa dessas possivelmente continua rindo por aí, sabe-se lá fazendo o que, sabe-se lá rindo de que. Mas solta – livre, leve e solta!

Dessa maneira, fica até fácil entender o medo que alguns ex-presos políticos mantém ao sair às ruas. Só eles sabem de fato o que passaram e o trauma que ficou. O Brasil precisa lhes dar alguma tranqüilidade, precisa dar uma indenização que vai muito além do vil metal. A Lei de Anistia precisa, sim, ser revista. Ela não pode ser irrestrita e deixar de punir quem praticou tortura. Eu não tenho dúvidas de que a punição a esses monstros que assombraram nosso país seria para os tantos que sofreram nas mãos deles a maior condecoração que poderiam receber. E eles, sim, merecem.

Na entrada das sessões de tortura, havia o corredor polonês, feito por vários militares. Essa também era uma prática da polícia civil, Dops, DOI-Codis e Polinter quando prendiam grupos de “terroristas”, conforme eram tratados todos os capturados, e o corredor polonês eram as “boas-vindas”.

Eu não vivi aquela época. Nasci bem no finalzinho do exato ano em que Tancredo Neves, Ulysses Guimarães, Leonel Brizola, Luís Inácio Lula da Silva e, até mesmo, um FHC bem diferente do que ocupou o Planalto, subiam juntos a palanques para gritar que as eleições tinham que ser diretas e tinham que ser já! Ou seja, cheguei a esse mundo doido e a esse Brasil de tantas contradições, ganhando de presente de boas-vindas a democracia. Pena que hoje eu veja essa democracia, conseguida a tão duras penas, ameaçada por todos os lados pela pior das ameaças que pode existir – aquela que vem sob o disfarce de benefício.

O grande jornalista Ricardo Kotscho defende que hoje em dia é mais fácil para o jornalista se manifestar do que na ditadura. Sem dúvida que é. O fato de ser mais fácil não quer dizer, porém, que seja assim tão fácil. Infelizmente, falsos paladinos da liberdade e da moralidade têm se proliferado mais que cupim. Nosso sistema judiciário está entregue a pessoas que se julgam os donos do mundo. Como posso me alegrar, encher o peito e dizer – “Nasci e até hoje vivo num país democrático” – quando vejo jornalistas serem censurados por fazer jornalismo? Inúmeros casos recentes poderiam ser citados. O juiz que anda com capangas e anuncia ao país que “jornalista não precisa de diploma porque isso é uma afronta à liberdade de expressão” é doutor honoris causa em baixar ordens para censurar a imprensa. E, ainda assim, ele consegue fazer com que boa parte da sociedade acredite que ele tem alguma vocação para timoneiro da democracia.

Ainda bem que Ulysses morreu no mar, então não dá nem para dizer que ele está se revirando no túmulo…

17 de Setembro de 2009,

Ana Helena Tavares

Obs: Neste texto, que está também no blog que eu ajudo a editar, o “Quem tem medo do Lula?“, eu adapto e mesclo dois artigos meus: “O Pasquim e a oposição à objetividade” e “Juntando os pedaços“.

criado por Ana Helena Tavares    18:12:25 — Arquivado em: Releituras — Tags:, , ,

11.9.09

Quando os fins contradizem os meios

Recentemente, FHC só faltou prestar reverência a Gilmar Mendes, o definindo como “um homem de coragem e competência”. No mesmo dia, conseguiu falar sobre o “brilhantismo” de Daniel Dantas, ainda que tenha alegado “conhecê-lo pouco”. É, a idade tem dessas coisas, causa crises seríssimas de amnésia.

Por Ana Helena Tavares

Desde que saiu da presidência, a que papel FHC tem se prestado senão a tentativas vãs de criar um descrédito sobre a figura de Lula para ver se alcança uma nesga de esperança de voltar a ter alguma importância na cena política brasileira? FHC é de tão triste figura que nem sequer percebe que há muito já perdeu a graça.

Ao que parece, há quem consiga fazer da política um jogo de tal maneira contraditório, que é de dar nó na cabeça do mais maquiavélico jogador de pôquer. Roberto Marinho entendia dos dois jogos. FHC lecionou sobre Maquiavel. Conhece bem os tortuosos túneis da política (ou seriam “passagens secretas”?), aqueles da “arte” do bem encobrir, dos “alguéns” a proteger.

Como será mesmo que conseguiu o apoio da maioria dos deputados para a aprovação da sua reeleição em 98, sem uma consultazinha popular sequer? Ah, já sei, distribuía balas no Congresso no dia de São Cosme e Damião, não é?

Há quem diga que os opostos se atraem, na vida afetiva pode ser. Mas, no jogo político, talvez o ditado mereça uma inversão. Por mais que haja misturas, uma hora fica claro quem está ao lado de quem. Recentemente, (em entrevista registrada em vídeo) FHC só faltou prestar reverência a Gilmar Mendes, o definindo como “um homem de coragem e competência”. No mesmo dia, conseguiu falar sobre o “brilhantismo” de Daniel Dantas, ainda que tenha alegado “conhecê-lo pouco”. E os encontros que eles tiveram? É, a idade tem dessas coisas, causa crises seríssimas de amnésia.

Faz a pessoa esquecer, por exemplo, qual é mesmo o significado daquela palavra bonita da língua portuguesa chamada coerência. Que o diga Maria Augusta Tibiriçá Miranda, autora do livro “O Petróleo é nosso – a luta contra o entreguismo” que recentemente, em entrevista ao jornalista Paulo Henrique Amorim (clique aqui para conferir a entrevista), revelou o passado de militante nacionalista do ex-presidente e de sua família, afirmando enfaticamente que ao adotar sua política de privatizações “FHC traiu o tio, o pai e a si próprio”.

Fico imaginando a pose que ele desfilava pelos púlpitos da Sorbonne e chego à conclusão de que, definitivamente, pose não é classe. Para os alunos de Monsieur FHCÊ, “o príncipe dos sociólogos”, deve ter sido o “suprassumo da coerência” aprender nas cadeiras da sacrossanta universidade parisiense os ensinamentos de Marx e, anos mais tarde, em 2002, ao final do governo neoliberal de FHC aqui no Brasil, ouvirem dele: “Nunca houve nenhuma chance de neoliberalismo aqui. Este é um país muito pobre e o Estado sempre terá um papel importante na atenuação de diferenças sociais.” (declaração dada ao “Financial Times”). Acho que ele queria que a gente risse, mas nem por isso.

Talvez ele tenha querido também ser, por assim dizer, “engraçadinho” ao soltar a seguinte “pérola” no início deste ano: “Ai, que saudade do governo militar, onde eu podia falar” .

Depois dessa, sinceramente acho que só merecia mesmo retornar à Sorbonne e perceber que, hoje em dia, os alunos de lá preferem ouvir o Lula.

11 de Setembro de 2009,

Ana Helena Tavares

Obs: Este texto está também no blog que ajudo a editar, o “Quem tem medo do Lula?“, e é uma adaptação que fiz do meu artigo “Sobre abusos e leviandades“, de modo a focar mais especificamente na figura política de FHC.

criado por Ana Helena Tavares    17:36:48 — Arquivado em: Releituras — Tags:, , ,

10.9.09

Lula: Um dicionário rico e coerente

Wilson Dias  Ag. Brasil 7 de Setembro 2009Sociólogo desde criancinha e anti-racista da gema, o jornalista Ali Kamel lançou recentemente um livro, muito divulgado pelo PIG, chamado “Dicionário Lula”. É claro que, sempre que encontra jeito, ele não perde a oportunidade de alfinetar o presidente, mas Kamel apresenta nesse livro duas conclusões surpreendentes para quem conhece sua histórica cruzada anti-lulista. Uma é: “Lula emprega mais de dez mil palavras (em seus pronunciamentos de improviso), o que equivale ao léxico de pessoas cultas (seu léxico é bem variado, e inclui palavras cultas e mesmo raras).” Outra é que, segundo Kamel, Lula é bastante coerente, visto que dificilmente seus discursos apresentam mudança de posição.
Quem diria…

10 de Setembro de 2009,

Ana Helena Tavares

Obs: Texto escrito originalmente para o blog “Quem tem medo do Lula?“.


criado por Ana Helena Tavares    17:36:45 — Arquivado em: Artigos, O dia-a-dia — Tags:, ,

3.9.09

Quando um gato vira leão - um tributo a Ted Kennedy

Voz tranqüila, porém firme, dedos apontados para os sonhos.

Por Ana Helena Tavares

Quando Collor se candidatou à Presidência da República, o exército de Roberto Marinho sabia que tinha uma arma na missão de elegê-lo: ele era um gato. Parece piada, mas é fato. Já vi muita mulher (instruída!) assumir que votou nele porque era “o mais bonito”. Agora em 2009, anos depois de o povo ter descoberto, com um paradoxal – e oportuno – empurrãozinho daquele mesmo exército, que gatos não põem mesa, vem ele querendo rugir no Senado. Só o que ele talvez não saiba é que para ser leão não basta rugir, é preciso que se consiga levar outros a rugirem junto ou a respeitarem o seu rugido.

Mas vocês talvez estejam pensando: “Que mau gosto fazer um tributo a Ted Kennedy e começar o texto falando do Collor!” Pois é, nem eu sei de onde me saiu essa idéia, mas é, sim, possível fazer uma relação de antagonismo entre as duas figuras.

Fernando Collor de Mello, assim como seu irmão já falecido, que era igualmente gato, teve desde sempre uma vida pessoal obscura. Poucos sabem, por exemplo, que seu pai, Arnon Afonso Farias de Mello, foi assassino de um senador. Os irmãos Kennedy, dois deles mortos precocemente, todos igualmente gatos, tiveram um pai mais exemplar. Todos os três, porém, tiveram uma juventude e, no caso de Ted, uma longa vida pessoal a que se pode tranqüilamente chamar de desvairada, incluindo conhecidos episódios de envolvimento com bebida.

Já na vida pessoal reside o antagonismo da relação que busco fazer aqui. Enquanto a de Collor se mostra um vale de sombras, a de Ted era um livro promíscuo, porém aberto.

No entanto, ao povo de nada importa a vida pessoal de um homem público. Importa sua combatividade, importa as causas pelas quais luta e as batalhas que consegue vencer nessa selva chamada política. E aí mora o grande antagonismo deste texto. Collor é um perdedor não por ter sido expelido da presidência pela mesma mão que o colocou, como num sórdido jogo de marionetes, mais do que isso, é um perdedor não por ter perdido alguma causa de interesse público – é um perdedor porque nunca às teve. Ted Kennedy, sem nunca ter chegado à presidência dos EUA, era um homem de causas públicas, um agregador nato, combativo até o fim naquilo em que realmente acreditava, o que lhe justificava o título de “o leão do Senado”.

Em tempos de omissão e, em alguns casos, até de contribuição direta de seu país, Ted Kennedy rugiu alto contra a ditadura no Chile, o Apartheid na África do Sul e a guerra do Vietnã. Embora certamente não tenha conseguido ver no mundo todas as mudanças com as quais sonhava, Ted levou muitos a rugirem junto. Ainda assim, como não poderia deixar de ser, foi, muitas vezes, voto vencido, mas nunca desistia e, com toda razão, gostava de vangloriar-se de ter lutado. Gostava, por exemplo, de anunciar que seu voto mais bem acertado no Senado foi aquele em que disse um sonoro não à invasão do Iraque. E ele estava mais do que certo por ter orgulho disso. Também eu teria – e muito. Sua atuação nesse e em outros casos de interesse mundial foi, claro, digna de toda admiração. Mas, em termos de política interna, sua grande causa talvez tenha sido a reforma na Saúde. Lutou sem trégua por um sistema público, no estilo europeu, ferozmente condenado pela direita, pelas seguradoras, pelos médicos, pelos hospitais – o leão foi bombardeado de todos os lados e jamais fraquejou.

Há poucas ligações de Ted Kennedy com a política brasileira. Não consta, por exemplo, que ele tenha tido o desprazer de conhecer pessoalmente Fernando Collor. Mas pelo menos um político brasileiro ele conheceu de perto, sobre o qual digam o que quiserem, pra mim foi um dos maiores – um leão de botina e bombacha, tchê – Leonel Brizola. Pois muito bem, o próprio. Quando Brizola foi expulso do Uruguai, em 1976, por ordem de Geisel, Ted Kennedy o recebeu como amigo nos EUA. Há quem diga que da amizade entre os dois nasceu a luta de Ted Kennedy contra a ditadura no Brasil.

Como é do conhecimento de muitos, Brizola não era homem de bajulações. Nesse sentido, é digno de nota o apreço especial que ele nutria pelo amigo Ted. Algo de fato incomum para Brizola, que definia Ted Kennedy como “um inconformado, um verdadeiro democrata na luta contra toda falta de liberdade.”

O fato é que com seu sorriso fácil, sua voz tranqüila, porém firme, dedos apontados para os sonhos, era mesmo muito difícil resistir aos discursos de Ted. Não eram vazios, menos ainda demagogos, como os de tantos. Aproximar-se dele era sinônimo de respeito, mesmo para quem estava em trincheiras opostas – lá estava Bush em seu enterro, por essa nem ele esperava. Era sinônimo de querer ouvir, mesmo para quem tanto gostava de falar, como era o caso de Brizola.

Leão é líder, e o olhar do líder não amedronta – agrega.

03 de Setembro de 2009,

Ana Helena Tavares

Quando um gato vira leão na Revista Médio Paraíba

Quando um gato vira leão no site youPode

Quando um gato vira leão no Recanto da Letras

criado por Ana Helena Tavares    19:42:14 — Arquivado em: Crônicas, Os dias lindos*, Perfis (ou ensaios biográficos) — Tags:, ,

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